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A bem da Nação

EXPRESSÕES POPULARES – 3

 

 
Fazer tábua rasa
 Significado: Esquecer completamente um assunto para recomeçar em novas bases.
Origem: A tabula rasa , no latim, correspondia a uma tabuinha de cera onde nada estava escrito. A expressão foi tirada, pelos empiristas, de Aristóteles, para assim chamarem ao estado do espírito que, antes de qualquer experiência, estaria, em sua opinião, completamente vazio. Também John Locke (1632 1704 ), pensador inglês, em oposição a Leibniz e Descartes, partidários do inatísmo, afirmava que o homem não tem nem ideias nem princípios inatos, mas sim que os extrai da vida, da experiência. «Ao começo», dizia Locke, «a nossa alma é como uma tábua rasa, limpa de qualquer letra e sem ideia nenhuma. Tabula rasa in qua nihil scriptum. Como adquire, então, as ideias? Muito simplesmente pela experiência.»
 

UM NOVO MODELO ECONÓMICO-SOCIAL

 

 
 
Os sistemas de mercado têm leis. Os que vivificam sobre a égide sistema capitalista, têm umas. Os que sobreviviam no sistema dirigista, tinham outras. As deste já demonstraram a sua valia e ruíram como um baralho de cartas, deixando o comunismo à deriva. Lá se foram as grandes teorias económicas, os planos quinquenais, a sociedade de todos, a comunhão de bens, o Estado-Pai e Protector, que tudo vê, omnipresente, que castiga duramente os “desvios” de personalidade, que tudo decide, proprietário do bem intelectual e material, do destino colectivo da sociedade, entre outras... O sistema económico capitalista colapsou e mostrou a sua fragilidade como sistema baseado na confiança (que ingenuidade!!!), invadido por uma pandemia que não é proveniente do continente africano, mas do americano, e que foi portador de um vírus humano classificado de ganância, associado a todas as espécies de crimes económicos de colarinho branco, entre outros, burlas, falsificações de documentos, especulações e agiotagem, desvirtuamento das regras dos mercados bolsistas e da corretagem, abusos de confiança, fugas ao fisco, criação de paraísos fiscais, contas secretas para esconder dinheiro ensanguentado, corrupções, aliciamentos, tráfico de armas, de droga e de influências e todas as outras espécies de que não me lembro para acrescentar ao rol.
 
Não sou lírico. Não é possível fugir disto, de tal forma o seu enraizamento nas sociedades, mas é possível ajudar a parte mais fraca, evitando que os embates causados pelas sucessivas crises, afunde as classes mais desprotegidas numa miséria sem retorno. E o que é que faz falta às classes mais desfavorecidas? Em primeiro lugar, um trabalho que respeite a dignidade do ser humano, para que se possa aportar ao sustento da família sem medo do futuro, mas consciente de que a sua sobrevivência depende essencialmente do seu espírito de luta e com a assimilação desta dura realidade de que o que é certo hoje, pode não ser certo amanhã. Esta primeira regra está dependente da inteligência, boa vontade e humildade de quem tem de trabalhar, aceitando o que lhe oferecem e não se colocando à sombra da bananeira à espera que a banana lhe caia no colo.
 
O tempo dos calões e das sanguessugas acabou. Primeira regra, então. Fornecer as condições de trabalho e exigir para quem possa e quer trabalhar que tome a iniciativa e tenha a liberdade de procurar o trabalho que mais lhe convém. Numa expressão, ir à luta. A segunda regra está ligada à primeira. Tem de se cultivar o espírito de que já não vivemos no passado, onde a regra era a da estabilidade e, portanto, do emprego garantido para toda uma vida. A instabilidade das sociedades trouxe-nos uma dura realidade que é a da precaridade e não vale a pena virem os
sindicalistas falarem-nos das conquistas de Abril – cassete já gasta – dos postos de trabalho e promoverem greves para exigirem dos patrões aquilo que eles já não têm e não podem dar. Culpa deles? Muitas serão. Mas as conquistas de Abril põem-nos comida na mesa? Responda quem souber.
 
Não nos vale a pena chorar sobre leite derramado! As greves fragilizarão ainda mais as empresas e são pretexto para a sua deslocalização para povos mais trabalhadores, mais espartanos, mais tranquilos e menos exigentes. Fazer greves em altura de crise é colocar o ouro nas mãos dos “espertos”. Não devemos de desistir deste importante modelo de luta e de pressão que são as greves, mas, para exigir melhores condições sociais de vida e infraestruturas para o suporte dessas condições e não para ter mais dinheiro para gastar em bens supérfluos. À frente explicarei este conceito.
 
Em tempo de crise, medidas criativas e de participação da sociedade em geral requerem-se. Para sobreviver, se necessário for, tem de se “suspender” algumas das conquistas de Abril, com excepção da Liberdade – que terá de ser reaprendida e bem usada – e das regras base do funcionamento da Democracia representativa.
 
Mas, estas medidas de combate à crise, começarão, inexoravelmente, por se exigir dos patrões, responsabilidade, humanidade e espírito cívico e duras penalizações para falências fraudulentas e manobras contabilísticas de fuga aos impostos. Mais do que nunca os Governos têm de procurar métodos de cobrança e pagamento tempestivo e rápido dos impostos, evitando a todo o custo o aumento da carga fiscal, aliviando-a até, nalguns impostos, com assento no mercado comercial e industrial e para o dinamizar. O IVA por exemplo. A política de subsídios tem de ser repensada urgentemente. Há que pôr os Tribunais a funcionar com celeridade para que o Estado possa queixar-se e punir os prevaricadores em tempo útil. Não estamos em tempo de moleza, como diriam os nossos irmãos brasileiros. (continua)
 
 Luís Santiago

INDISCIPLINA E VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS

 

 Revista voces y susurros rumor y gritos : Octubre, 2008
Fernando Savater
 
Aumento da violência nas escolas reflecte crise de autoridade familiar.
 
O aumento da violência escolar deve-se, em parte, a uma crise de autoridade familiar, pelo facto de os pais renunciarem a impor disciplina aos filhos remetendo essa responsabilidade para os professores.
 
Os participantes no encontro 'Família e Escola: um espaço de convivência', dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas.
'As crianças não encontram em casa a figura de autoridade, que é um elemento fundamental para o seu crescimento', disse o filósofo Fernando Savater.
'As famílias não são o que eram antes e hoje o único meio com que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa', sublinhou.
Para Savater, os pais continuam 'a não querer assumir qualquer autoridade', preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos 'seja alegre' e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinador quase exclusivamente para os professores.
No entanto e quando os professores tentam exercer esse papel disciplinador, 'são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os', acusa.
'O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente, não tem razão para depois se ir queixar', sublinha.
Há professores que são 'vítimas nas mãos dos alunos'.
Savater acusa igualmente as famílias de pensarem que 'ao pagar uma escola' deixa de ser necessário impor responsabilidade, alertando para a situação de muitos professores que estão 'psicologicamente esgotados' e que se transformam 'em autênticas vítimas nas mãos dos alunos'.
A liberdade, afirma, 'exige uma componente de disciplina' que obriga a que os docentes não estejam desamparados e sem apoio, nomeadamente das famílias e da sociedade.
'A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara', afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, 'uma oportunidade e um privilégio'.
'Em algum momento das suas vidas, as crianças vão confrontar-se com a disciplina', frisa Fernando Savater.
Em conversa com jornalistas, o filósofo explicou que é essencial perceber que as crianças não são hoje mais violentas ou mais indisciplinadas do que antes; o problema é que 'têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos'.
'Deixaram de ver os adultos como fonte de experiência e de ensinamento para os passarem a ver como uma fonte de incómodo. Isso leva-os à rebeldia', afirmou.
Daí que, mais do que reformas dos códigos legislativos ou das normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade, admitindo Savater que 'mais vale dar uma palmada, no momento certo' do que permitir as situações que depois se criam.
Como alternativa à palmada, o filósofo recomenda a supressão de privilégios e o alargamento dos deveres.
 
 Adriano Miranda Lima

AS CRISES DOS OUTROS

 

 
Rever crises anteriores e alheias talvez nos ajude a compreender e enfrentar a actual crise financeira que se instalou no Ocidente. 
 
Em 1997, a região da Ásia-Pacífico foi abalada por uma crise que começou por ser cambial mas rapidamente se estendeu aos restantes ramos da economia. Então como agora, tudo começou por um short gigantesco.
 
Ao longo da década de 90, terminada a Guerra fria, os grandes decisores do sistema internacional trocaram, em relação á região Ásia-Pacífico, a lógica política pela lógica do mercado. Indiferentes a esta modificação conjuntural, os sectores financeiros das economias locais continuaram a ser geridos por critérios políticos. A contradição instalou-se e não tardaria a ser identificada. A lógica do mercado é imoral. Não recompensa de forma mais generosa os eficientes e os criativos. O prémio maior vai injustamente para quem detecta falhas no sistema e as explora. Vários factores ajudaram os propósitos de natureza especulativa, designadamente, a liquidez crescente do sistema financeiro internacional, a facilidade e rapidez das transferências e a acumulação desta liquidez nas mãos de operadores - poucos e frios. O sistema tornou-se altamente punitivo. Cedo,  os operadores detectaram a falácia do crawling peg. Os países asiáticos continuavam a absorver capital - e a pagar mais caro para o obter - apesar da queda da rendibilidade das aplicações produtivas internas. Os operadores cambiais concluíram que a cotação das respectivas moedas era artificial e entraram no mercado a vender. As moedas visadas caíram e não houve banco central capaz de o impedir.
 
O ano de 1997 terá sido o annus horribilis. A crise cambial infectou primeiro a Tailândia mas contagiou rapidamente aos restantes “tigres” asiáticos : – Malásia; Hong Kong, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan. O Japão não conheceu a crise cambial, mas a sua economia revelou imediatamente sintomas de recessão. O governo indonésio de Suharto apregoava que a economia interna era imune à crise. “A Indonésia não era a Tailândia”, afirmava-se, mas, na realidade, a economia indonésia não tinha maneira de fugir ao contágio da crise. O Japão era o seu principal mercado externo e principal fonte de financiamento. Os bancos japoneses encontravam-se em dificuldades e procediam ao repatriamento dos capitais. A vulnerabilidade indonésia resultava de que 1/5 da sua dívida externa, equivalente a 1,5 vezes o volume das reservas, estava titulada a curto prazo. A rupia indonésia resistiu mais tempo do que as outras moedas mas, na realidade, era a mais vulnerável de todas. Perante os primeiros sinais de fuga de capitais, em 14 de Agosto de 1997, o Banco Central alargou a margem de flutuação da rupia no sistema do crawling peg . Imediatamente a moeda local entrou em queda.
 
A cultura áulica prevalecente no país não permitia a quem quer que fosse dizer ao príncipe que a política estava errada. A Coreia, Hong Kong e o Taiwan neste aspecto estavam em melhor posição: contavam com governos novos, circunstância que facilitou a mudança de política com atribuição do ónus da crise ao regime anterior. No caso de Hong Kong, melhor ainda: - o regime era novo. O remédio foi drástico: - as autoridades nada fizeram para salvar as empresas e bancos que estavam em má situação; deixaram-nas falir. Os accionistas, empregados e credores destas empresas pagaram o preço da crise e esta passou. Na Indonésia, passou-se o contrário. O governo agarrava-se às paredes. O regime pretendia sobreviver a crise. Quando começou o ataque à rupia, o Banco Central queimou cerca de 500 milhões de dólares americanos na tentativa de salvar a moeda e o sistema bancário interno e não conseguiu. Esgotadas as reservas, não restou outra solução senão pedir ajuda ao FMI. Em Outubro de 1997, o governo deu carta branca ao FMI e ao Banco Mundial para intervirem na economia local, contra um empréstimo de $23 mil milhões. Pensava-se que uma gestão de cunho sistémico seria capaz de restabelecer rapidamente a confiança.
 
O sistema internacional contra-ataca.
 
O problema numero um que se põe a quem pretende sanar uma crise económica consiste em decidir quem a vai pagar. O ideal seria que a crise fosse paga por quem dela beneficiou. Na Indonésia, porém, os responsáveis continuavam no poder. A primeira medida tomada pelos interventores foi o encerramento de 16 bancos locais. A medida não distinguiu entre banqueiros e depositantes. Culpados ou não, foram todos incluídos no mesmo rol. O resultado imediato foi a criação de uma dívida interna no valor equivalente a $ 80 mil milhões, até aí praticamente inexistente. Os banqueiros teriam criado activos no exterior pelo que provavelmente terão podido amenizar, no que lhes tocava, o efeito da punição. O mesmo não acontecia com os aforradores. Estes mantinham o seu dinheiro na Indonésia, estavam activos na produção e, confiados ou desconfiados, continuavam a investir na economia local. Tratava-se pois da pequena e média burguesia, esteio vital do crescimento económico. Privada das suas poupanças, a capacidade dinamizadora do pequeno e médio empresário ficou reduzido a zero: Perto do zero   ficou também o poder aquisitivo da classe média. O mercado interno já de si exíguo encolheu correspondentemente.
 
A imposição seguinte do FMI foi a abolição do subsídio alimentar e o de combustíveis domésticos. A verba correspondente seria doravante usada para atender ao serviço da dívida externa. As segundas vítimas foram portanto os pobres e a classe trabalhadora: ficaram com menos dinheiro para comprar alimentos e combustível para os cozinhar. O FMI desfechou assim golpe fatal no mercado interno. Esta medida, desastrosas para a economia local, mostra que as o FMI se regula estritamente por critérios financeiros e de curto prazo.
 
Suharto não se opôs ao encerramento dos bancos e aceitou o cancelamento dos subsídios populares mas, quanto a estes, fê-lo com reservas mentais. Tencionava mantê-los sob outras formas. Ele sabia que a abolição dos subsídios seria o toque de finados do seu governo. De nada lhe valeram contudo os estratagemas de que lançou mão. Ao aperceber-se da manobra, o FMI suspendeu a ajuda e retirou-se da cena. Suharto teve que ceder. O serviço da dívida externa teria prioridade sobre os gastos sociais[1]. Tal era na interpretação do FMI a vontade do sistema internacional.
 
As novas regras da economia estabelecidas pelo FMI foram impiedosas para o proteccionismo: extinção do monopólio estatal da importação de cereais; redução gradual dos impostos sobre a importação; revisão da política industrial, com cancelamento das projectadas indústrias de automóveis e de aviões; definição de objectivos para as políticas macro-económicas, designadamente a obrigação de manter um saldo positivo orçamental equivalente a 1% do PIB. Como compensação, o FMI prometeu o pagamento a prazo dos débitos privados resultantes do encerramento dos 16 bancos.
A confiança não voltou. O aspecto meio-termo de algumas das medidas não ajudaram a inspirar o sentimento de que a crise estava superada. A economia continuou a afundar-se. Tornou-se necessário negociar segundo acordo, situação que o FMI aproveitou para impor condições ainda mais duras.
 
O critério financeiro
 
Em meados de 1998, o Banco Mundial reconheceu finalmente que “a Indonésia está mergulhada numa profunda crise económica”. Implícita estava a crítica ao procedimento do FMI. Mas era tarde. A economia já retrocedera 13,8%, a inflação ia na casa dos 80%; 30%  da massa laboral estava no desemprego e metade da população voltara a encontrar-se abaixo do nível de pobreza. O remoque do BM não resultou: o FMI manteve a sua política. Cerca de 60% da receita do estado continuou a ser destinada ao pagamento dos juros da dívida externa.
Nenhum país com a dimensão da Indonésia tinha sofrido até então efeito socio-económico tão dramático. O desastre atingiu todas as classes, excepto talvez o núcleo dirigente A descapitalização da pequena burguesia e a redução do poder de compra das massas populares não ajudou a recuperação. A dimensão do mercado interno, que já era diminuta antes da crise [3,5 mil milhões de dólares, sensivelmente igual à dimensão do mercado português], ficou consideravelmente reduzida, tornando-se insuficiente para apoiar o relançamento da economia. A Indonésia teve que absorver a totalidade do impacto pois não tinha como transferir para o exterior os custos da crise. A exportação de manufacturas estava sob o controlo de empresas sediadas fora do território, obedientes à sua própria lógica, e como tal indiferentes às vicissitudes da economia local. Ao contrário do que acontecia na Coreia, no Taiwan e, em menor escala, na Malásia, o tecido empresarial autóctone indonésio ainda não incluía grupos empresariais com capacidade e experiência para operar no mercado mundial. As empresas coreanas e taiwanesas dispunham de ampla rede internacional de distribuição e puderam dilatar imediatamente o volume de vendas graças à desvalorização das moedas nacionais. Quem sofreu no caso foi a concorrência externa. A Indonésia não dispunha de tais facilidades. Ali, quem pagou e continuará a pagar a crise foi e é o povo.
 
As cousas não melhoraram desde então. Em 2001, a dívida externa ascendeu a $152 mil milhões [60% do PIB][1]. O serviço da dívida continuou a absorver 70% do rendimento fiscal. Segundo testemunho posterior da Professora Anne Booth[2], da Escola de Estudos Orientais da Universidade de Londres, (“Crisis and Poverty”, Março de 2002), os efeitos sociais da crise eram então difíceis de medir. Continuam a fazer-se sentir em milhões de lares em todo o país. Os salários reais estavam longe de recuperar os níveis anteriores. O que se podia constatar é que milhões de operários regressaram à agricultura, fenómeno que torna improvável a subida do nível dos salários nos anos mais próximos. A grande maioria dos Indonésios está condenada a ter a pobreza por companheira, até onde se pode ver. Os frutos da globalização para eles pouco mais serão do que miragem.
 
General Domingos de Oliveira - A bem da Nação Luís Soares de Oliveira
1. [Números publicados pelo IHT em 26.01.03]
 
 


 
[2] Anne Both, “Crisis and Poverty”, Londres, Março de 2002

DOMÍNIO INGLÊS NO BRASIL - Parte 13

                                  OS TRATADOS DE 1810
 
Final parte 12: Sousa Coutinho informou ao ministro inglês a decisão do governo de permitir a baldeação e reexportação das mercadorias inglesas nos portos brasileiros mediante taxa de trânsito insignificante assegurando-lhe que tal concessão constaria no texto de acordo definitivo que ambos negociavam. A concessão estava ligada à conquista do mercado platino e à exigência ainda não abandonada de um porto na ilha de Santa Catarina.
 
Parte 13: O desenvolvimento do comécio mostraria como o acto de abertura dos portos e o decreto que o regulamentava prejudicava os negócios pelas limitações que beneficiavam a Inglaterra.
 
Crescia, a esse tempo, no Rio de Janeiro, a aversão a Strangford e aos seus métodos: "Enquanto Strangford discutia com Sousa Coutinho os itens essenciais que deveriam constituir a base de toda a estrutura do tratado, uma surda e generalizada agitação teve início nos círculos da Corte provocada tanto pela reacção nacionalista dos que odiavam a Inglaterra, como pela atitude insultuosa de alguns comerciantes ingleses estabelecidos no Brasil. Ao invés de um convénio de comércio tinham em vista, nas conversações entre os dois Ministros, uma partilha dos bens da Coroa depois de se organizarem em comitê de consulta sem delegação de poderes da parte dos elementos mais expressivos da colónia britânica residente no Rio de Janeiro convulsionando os meios políticos com reivindicações descabidas e grosseiras, que irritava o Gabinete e dificultava a tarefa que vinha sendo realizada por Strangford".
Apesar de tudo, as negociações foram concluídas e o tratado foi firmado a 28 de fevereiro de 1809. (...) Era na essência a manutenção dos tratados de 1654 e 1703, com aplicação ao Brasil, adicionados de novas vantagens: direito a um porto franco na ilha de Santa Catarina de conveniência para o contrabando de Buenos Aires e redução de 15% dos direitos das mercadorias inglesas. As de procedência nacional pagavam mais 1%; 24% as de outras nações em todos os domínios portugueses. Em compensação, concedia-se a Portugal, nas alfândegas inglesas, igualdade à nação mais favorecida.
                         (João Lúcio de Azevedo: op.cit., p.455)
 
Continua
 Therezinha B. de Figueiredo
João Pessoa, 30 de janeiro de 2009

CRÓNICA DO BRASIL

 

A crise e as cavernas dos Ali Babás
 
Ora vejam lá se eu não tenho por aqui uma bolinha de cristal, de segunda qualidade (talvez made in China), mas que vai dando uns palpites!
Há quase três anos, escrevi o texto abaixo, desconfiando que as inflações provocadas (e todas são provocadas) levariam a economia a um colapso. O Japão, não há muito, tinha mostrado isso claramente, só que os EUA seguraram a peteca até que...
Leiam primeiro o que escrevi em Junho de 2006:
 
O VELHO E O NOVO MUNDO - II
 
Voltemos à Europa, dando uma passadinha pelo Japão. Não fica no caminho geográfico, mas serve para ajudar a compreender o que, sem que se adivinhe o futuro, possa vir a acontecer.
Nas principais cidades do Brasil, a valorização imobiliária nos últimos anos - não se cogita em especulação - quase não tem acompanhado a inflação. Daí o negócio não parecer muito atrativo.
O Japão, depois do restabelecimento da indústria e da economia, a seguir à II Guerra, começou a «sentir» que havia pouca moeda circulante no mercado o que impedia um mais rápido crescimento. Pequeno território, pouca possibilidade de expansão, muito dependente de matérias prima importadas, julgou ter encontrado uma solução tipo «vapt-vupt»: onde é que o povo gasta a maior fatia do seu salário, sobretudo o povo das cidades? Na compra de casa própria. Então a solução é inflacionar o valor dos imóveis, estender o crédito para 20, 30 ou mais anos e esse dinheiro «extra» vai inflamar a circulação monetária, esta a economia, etc. Pensado, feito. Pouco tempo demorou para se verem centenas, milhares de turistas japoneses viajando e gastando mundo afora, em sucessivas levas de «charters» e excursões tipo viaje now, paylater, aparecerem mais Toyotas e Suzukis, computadores e um monte de outras coisas, a maioria das quais se faz hoje na China. E os turistas? Entretanto desapareceram. E a economia do Japão? Tremeu. Tremeu porque o povo ficou endividado!
Estamos a chegar à Europa, onde o custo de um imóvel é algo quase inalcançável para a grande maioria dos jovens mortais que entram no mercado de trabalho. Ainda me lembro de há 50 anos ser avisado de que não devia pagar de aluguel mais do que 1/6 do meu salário! Hoje, em grande número de casos, são necessários dois a trabalhar para que um pague o aluguel e o outro a alimentação, vestuário, etc. Resultado: não casam, «juntam-se», descasam mesmo não casados, trocaram afinal de parceiro económico e desbaratam as suas vidas.
Mas porque não compram casa, em vez de alugar? Primeiro porque o preço dos imóveis é altíssimo, e mesmo que tenham que dar só uma «entradinha», essa «entradinha» equivale muitas vezes ao salário de um a dois anos de trabalho! Dirão: mas o banco financia até 50 anos a juros muito baixos (estamos a falar da Europa, hein?) Que maravilha! O comprador fica a vida inteira a pagar um imóvel, raro chega ao fim do compromisso, jamais sendo dono do que quer que seja, e o banco... o banco está sempre garantido com a garantia real e com os juros, que é disso que ele vive. E como vivem os bancos!
Quem paga e se arruína: o povo, a classe média, o sustentáculo da nação.
Para quem vai de países terceiro ou segundo mundistas, pode até deslumbrar-se pelo aparente vidaço daqueles que vivem, por exemplo, em Londres.
Mas quando se começa a falar com eles sobre o que resta no bolso e quanto devem de mortgage (prestação do imóvel), cartão de crédito, etc., sente-se que o balanço está um tanto desbalanceado. Sempre a favor dos bancos, of course, que se arriscam à inadimplência dos clientes.
Não sabemos se foi assim que acabaram os grandes impérios, mas o exemplo do Japão dá-nos para pensar um pouco. Trasladando o assunto para o Brasil então...
Solução: acabar com os bancos? Com a inflação imobiliária? Imitar a Revolução Soviética de 1917 e dividir o número de quartos de todas as casas pelo número de famílias da região?
Nada disto parece resolver.
 
E então? Vamos cruzar os braços e deixar que tudo continue a acontecer talequalmente?
Não vamos. Soluções, em se querendo, aparecem.
A ver.
 
Rio de Janeiro, 29 de Junho de 2006
 
 Francisco Gomes de Amorim 

RUDES SUBSTILEZAS

 

DAVOS 2009
 
Nos assuntos de economia e de política internacional, o encontro de Davos 2009 pertenceu aos políticos, enquanto os dirigentes dos mercados financeiros estão domesticados pela crise global.
Após Davos 2009, passaram à história as celebrações opulentas em que empresários e agentes dos mercados financeiros, com alguns estadistas de permeio, celebravam com elogios mútuos o optimismo económico;  em que os multimilionários juntos a alguns Chefes de Estado elogiavam o triunfo dos mercados sobre os governos; passou o entusiasmo e a confiança dos advogados da globalização a todo o custo, da desregulação e da ideologia do neo-liberal da "Nova Ordem Mundial" que agora se revela como não sendo nova nem ordenada. Davos 2009 entra na história como o fórum económico mundial onde o Estado veio à festa dos Mercados doutrinar como estes devem consertar o problema que criaram. E que o FMI tenha anunciado um crescimento global de 0,5%, o mais baixo desde 1945, nem sequer é tão alarmante como a incerteza de quanto tempo durará a crise e de quais serão as suas consequências sociais e políticas.
Mesmo Georges Soros, um dos capitalistas mais sofisticados, admitiu que a economia global está mais danificada do que parece a muitas instituições públicas e privadas que tentam avaliar a duração e a profundidade da crise. Davos 2009 foi dominada por políticos. Estavam presentes 40 Chefes de Estado, o maior número em 39 anos e um indicador de como os Estados estão a querer demonstrar a sua hegemonia face ao sector privado. Os dirigentes chineses, japoneses e russos – e em menor grau os europeus – teceram críticas à derrocada económica americana e defenderam um multilateralismo económico. A Chanceler alemã, a Sr.ª Merckel, foi ao ponto de recomendar a criação de "Conselho de Segurança" para a economia mundial, tendo o Presidente brasileiro Lula afirmado que as nações pobres não devem pagar a crise causada pelos países ricos.
O principal evento de Davos acabou por ser o choque entre o Presidente israelita e o Presidente turco, no debate com o jornalista do Washington Post. São personalidades carismáticas e astuciosas, sobreviventes de muitos desafios internos e internacionais. E parece certo e não só porque as fontes israelitas assim o dizem, que Erdogan cumpria uma agenda para reforçar a sua posição muito debilitada  por problemas económicos profundos e negociações difíceis com o FMI,  ao atacar Simon Peres quando este defendeu a "Guerra dos Feriados". O presidente turco Erdogan, acusado pela oposição laica turca de favorecer os palestinos e Hamas, tem sido o intermediário da Sr.ª Clinton, a nova Secretária de Estado, para a diplomacia americana no Médio Oriente. Como voz muçulmana moderada que fala com o Hamas, como dirigente de um país que os EUA precisam para se oporem à expansão da Rússia na região, e como um líder de um país da NATO em que os EUA podem confiar em troca de empréstimos, o Presidente Erdogan tornou-se tão essencial no Médio Oriente que foi Simon Peres quem depois lhe pediu desculpa, embora fosse Erdogan quem acusasse Peres de crimes de guerra. Os pormenores da diplomacia secreta da Sr.ª Clinton, iniciada logo após a tomada de posse do Presidente dos EUA em 20 de Janeiro, não são conhecidos. Mas parece estar já em curso a tentativa de alterar a dinâmica política do Médio Oriente utilizando a Turquia, um aliado tradicional dos EUA e de Israel.
Não se fez ouvir qualquer voz portuguesa em Davos 2009, nem de dirigentes políticos nem económicos.

Instituto da Democracia Portuguesa
www.democraciaportuguesa.org
 
  Mendo Castro Henriques

O VALOR ÉTICO DO CAPITALISMO

 

 
A recente crise tem revelado muitos e graves vícios morais por parte de altos responsáveis económicos. Mas o aspecto realmente interessante é avaliar o sentido ético do próprio sistema. Na sua natureza profunda, o capitalismo é bom ou mau?

A visão comum é negativa. Toda a gente, não apenas mas sobretudo nestes períodos de turbulência, repudia e acusa um regime centrado no dinheiro, risco e lucro. Podemos simbolizar essa atitude num texto que agora celebra 35 anos.

Foi em Janeiro de 1974, meses antes da revolução, que Álvaro Cunhal publicou na revista Problemas da Paz e do Socialismo o artigo "A superioridade moral dos comunistas". O texto soa hoje estranho, com a sua ética de classe, partido e revolução. Mas muita gente concorda ainda com a descrição dos "sentimentos e comportamento moral da burguesia: individualismo e egoísmo ferozes, indiferença pela sorte dos seres humanos, rapacidade, venalidade, completa falta de escrúpulos, redução a simples mercadorias dos valores culturais e espirituais" (n.º1).
 
 Álvaro Cunhal (1913 - 2005)
 
As coisas porém mudaram em 35 anos. Se Cunhal insulta uma entidade estranha ao seu mundo comunista, os actuais críticos pertencem de alma e coração ao sistema. Burgueses dos quatro costados, participam com empenho no regime, mercado e emprego. Os lamentos actuais incluem pois, uma transposição curiosa. Neles, os "egoístas ferozes, rapaces e venais" não são todos os burgueses, mas um grupo indefinido de maus, que supostamente define o capitalismo e nada tem a ver com os agentes económicos comuns que fazem (e criticam) a realidade do processo.

A maior parte das censuras ao actual mecanismo económico nasce de um equívoco: a ignorância da dureza pré-capitalista. As críticas partem da comparação, necessariamente mítica e injusta, daquilo que é com o que devia ser. Assim se perdem de vista os incríveis ganhos que a livre troca e iniciativa trouxeram à humanidade. Os notáveis avanços na saúde e comunicação, conforto e arte, cultura e liberdade, que tantos vêem como direitos, são inseparáveis do capitalismo. Acima de tudo são incríveis os ganhos na redução da pobreza. A população mundial na situação de carência (menos de 1,25 dólares por dia) caiu de 35% do total para menos de 26% nos últimos dez anos. Isso significou arrancar à miséria 50 milhões de pessoas por ano. Quem fez isto não foi a ajuda ao Terceiro Mundo, a caridade cristã ou a sociedade socialista, mas a entrada na economia de mercado pela globalização.

Estes ganhos, que uma cegueira ideológica de jornais, discursos e programas escolares teima em esconder ou relativizar, pesam muito a favor na avaliação ética do sistema. Claro também que ele está longe de ser o paraíso na Terra e vem cheio de defeitos, injustiças, turbulências, crises e degradações. Não há almoços grátis. Mas poucos estariam dispostos a voltar atrás, rejeitando aspirinas, papel higiénico, automóvel, frigorífico e telefone. Estas coisas não são possíveis sem dinheiro, risco e lucro. Muitos tentaram alternativas, de Lenine a Cunhal, Fourier a Perón, mas falharam redondamente. O capitalismo, como a democracia anexa, permanece o pior dos sistemas, exceptuando todos os outros.

Apesar disso é inegável que ele suscita profundas críticas e fúrias. Essa cólera é justa mas errónea, pois parte de certezas confusas e exageradas. Porque a desigualdade de riqueza interna desceu, não subiu com o progresso; não há "capitalismo selvagem" num Estado de direito; o suposto "neo-liberalismo" é o regime em que lei e governo mais poder e interferência têm; o mercado financeiro constitui a entidade mais regulada e vigiada da humanidade (nem sempre da forma adequada, como se vê).

Não é aí que está a verdadeira crítica ao sistema capitalista. O mal não é externo e estrutural, mas interior: "Onde estiver o teu tesouro aí estará o teu coração" (Mt 6, 21). O problema é que o sucesso do capitalismo pôs-nos a todos debaixo da terrível maldição do camelo e da agulha: “Ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação!” (Lc 6,24).
 
 João César das Neves
Professor universitário
 – naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

 

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