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A bem da Nação

A CIDADE E O “SENHOR SHOPPING”

 

 
 
 
    Li recentemente uma notícia sobre aquele que já é conhecido como o “Senhor Shopping”. Trata-se do cidadão de nome Jaime Lopes, citado como dono de 15 centros comerciais na Península Ibérica e em vias de abrir na Amadora o maior da Europa.
 
    O fenómeno “shopping” explodiu em Portugal apenas nos últimos dez anos, revolucionando consideravelmente os nossos hábitos de consumo. Espaços apetecíveis por arquitectonicamente atraentes e funcionais, os portugueses logo viram no “shopping” a vantagem que é ter tudo à mão de semear nas suas idas às compras. Antes era preciso calcorrear ruas comerciais e não poucas vezes demandar zonas diferentes da cidade para encontrar a indumentária ou o utensílio pretendidos, arrostando ainda com a maçada e a perda de tempo inerentes às deslocações, para não falar nos inevitáveis problemas com o trânsito e o parqueamento. O “shopping” veio resolver tudo de uma assentada, roupas, calçado, bijutarias, utilidades, géneros alimentícios e bebidas (estes quando há hipermercado integrado), serviço de restauração, livros, jornais, cinema e outros divertimentos, parqueamento do automóvel, segurança, etc, enfim, tudo e mais alguma coisa no mesmo universo concentracionário. E ainda com a vantagem de horários mais alargados e de manter o cidadão-cliente a salvo das contingências do tempo atmosférico, porque uma vez dentro do “shopping” cessa a relação com o mundo físico exterior. Quantas vezes estamos a sair do “shopping” e é quando reparamos que o tempo entretanto mudou e apresenta mau cariz, sem nenhuma cumplicidade com o ambiente quase asséptico no interior da moderna unidade comercial.
 
    Sem dúvida que o “shopping” é sinónimo de conforto e bem-estar mas também de fruição de condições de aquisição mais vantajosas graças a uma constante política de “dumping” de preços. E no que respeita ao serviço de restauração é indiscutível a obtenção de dois ganhos assinaláveis: à vista dos clientes, uma higiene bem cuidada no manuseamento e confecção dos alimentos; preços substancialmente mais baixos pela prática de refeições padronizadas e isentas dos custos do serviço à mesa.
 
    E é assim que na paisagem das nossas cidades e arredores se estampa hoje com a maior naturalidade o frontispício do “shopping”, enquanto se estreita cada vez mais a intimidade entre o consumidor e as novas unidades comerciais.
 
   Só que o “shopping” e o hipermercado vieram ditar a morte do comércio tradicional e, por consequência, acelerar a desertificação dos centros históricos de par com a degradação do seu parque habitacional. Um pouco por todo o país se comenta a desertificação dos centros históricos, assunto que até foi um dos pratos fortes nas últimas campanhas autárquicas em Lisboa. É fácil relacionar este novo fenómeno comercial com a desertificação dos centros históricos se nos lembrarmos que nestes se localizava outrora a quase totalidade da actividade comercial. Ora, o comércio é o maior catalisador da actividade humana, o verdadeiro oxigénio dos centros urbanos. Extinguindo-se, é uma questão de tempo a morte progressiva das comunidades humanas que desde os primórdios, pedra sobre pedra, construíram a urbe e escreveram as páginas da sua história.
 
    É um facto que este problema tem a ver igualmente, e em grande parte, com as políticas do arrendamento habitacional que vêm sendo adoptadas mas que se mostram insuficientes para revitalizar o sector. Isto associado a planos directores municipais que nem sempre se impregnam de uma correcta visão integral da problemática das cidades, visto que a perspectiva cultural tem sido obliterada por interesses do mercado imobiliário. Em consequência, os centros históricos da maior parte das nossas cidades enfermam de dois cancros que se revelam irremissíveis com simples paliativos. Um deles é a questão das rendas antigas usufruídas na maior parte por inquilinos idosos, rendas que de tão baixas nunca são ou poderão ser suficientemente actualizáveis de forma a permitir aos proprietários o investimento financeiro na recuperação dos imóveis. O outro cancro é o problema de prédios com muitos herdeiros. Nem habitam os prédios nem conciliam vontades no sentido de dar o melhor destino aos imóveis, que entretanto entram em acelerada deterioração. Assim, sem economia criativa e sem um património urbano reabilitado e revitalizado, os centros históricos definham tristemente.
 
 
 
    Por outro lado, as autarquias, embora querendo ou manifestando propósitos políticos assertivos, não têm encontrado suficiente energia e imaginação para fazer face ao problema, salvo algumas honrosas excepções (Évora, Guimarães e Angra de Heroísmo, centros históricos classificados pela Unesco). É mais rentável para os cofres camarários comprometer os planos directores com a urbanização de terrenos rústicos da periferia e os negócios imobiliários daí decorrentes, como aqui neste blogue já se denunciou, do que apostar na reabilitação dos centros históricos. Não ignoremos também que novos hábitos de consumo marcam toda uma evolução social que em boa verdade só é evolução na aparência porque claramente deficitária de uma componente nitidamente cultural. As pessoas sentem-se hoje mais atraídas para os bairros de prédios novos e modernos porque ninguém já dispensa o conforto do elevador, o videoporteiro, a banheira de hidromassagem, o estore eléctrico, a aspiração central, etc. Poucos querem, pois, saber dos miasmas que emanam dos centros históricos, dos ecos que vibram no silêncio das pedras antigas, dos vetustos sinais ali deixados pelos nossos avós. Abstraindo-se dos valores da sua identidade, as pessoas tendem a perder o sentido da sua relação com a história das suas comunidades, na medida em que passam a não resistir ao apelo das marcas e signos generalistas.
 
    Desta maneira, se nada se fizer para travar e inverter o processo, o esvaziamento progressivo dos centros históricos pode no futuro esbater na memória colectiva as referências físicas do património anímico das cidades. Estas têm de evoluir olhando para dentro de si próprias e não em função dos ícones sociais e culturais do mundo global.
 
 
Tomar, 1 de Dezembro de 2008
 
Adriano Miranda Lima
 

HERESIAS 03

 

In dubio, pro mercato - III
 
Com a progressiva introdução do dinheiro como instrumento de troca, chega o momento em que cada indivíduo, empresa ou organização (que designarei genéricamente por agente económico), ao expressar as suas preferências através de escolhas que a divisão do trabalho e a posse individual exclusiva tornaram inevitáveis, se confronta com uma restrição de natureza monetária (ou restrição nominal): ou tem dinheiro para tanto, ou não tem. Se tem, a escolha é admissível e poderá concretizá-la. Se não tem, a escolha é inadmissível e nada feito.
Com o dinheiro, e a restrição nominal que o acompanha, as escolhas individuais conhecem um limite ex ante, de base também individual, que não se confunde com aquele outro fixado ex post pelo produto social. Para cada agente económico (a pessoa, individual ou colectiva, sujeita a uma restrição nominal e, por isso, capaz de influenciar a distribuição do produto social e/ou a orientação do excedente), a restrição nominal que ele defronta traça uma fronteira no conjunto das suas escolhas: para cá, o domínio das escolhas admissíveis, aquelas que podem ser concretizadas pacificamente; para lá, as escolhas que, no imediato e em termos práticos, os restantes agentes económicos não tolerariam.
Os preços - essas razões de troca entre quantidades de bens (ou meios de produção) e quantidades de dinheiro - podem conter informação sobre o resultado da agregação das escolhas individuais, ou sobre o nível de insatisfação individual associado a cada escolha, mas essa informação só será convenientemente decifrada através da análise dos preços relativos.
Dito de outra maneira, só a estrutura dos preços relativos é relevante para o ciclo da distribuição e para a orientação do excedente. No entanto, se a estrutura de preços relativos se tornar de todo imprevisível[1], deixa de veícular a informação precisa sobre as preferências individuais, e nem mesmo um ditador iluminado saberia, então, como proceder.
Quando as restrições nominais e os preços relativos, em conjunto, verificam certas condições, será possível satisfazer todas as escolhas admissíveis simultaneamente (não confundir com o óptimo paretiano), para grande alegria do ditador iluminado.
E quando assim é, as restrições nominais afastam a conflitualidade, maxime a violência, como modo de orientar e distribuir o produto social - o ditador iluminado torna-se, então, funcionalmente inútil, na medida em que a estrutura de preços relativos assegura, de maneira instantânea e impessoal, aquilo que decorria da informação completa ao serviço de uma única vontade[2].
Aliás, o dinheiro (o seu volume em circulação e o modo como se distribuí por todos na sociedade) acrescenta[3] uma componente temporal nas preferências individuais, graças à qual, não só serão mais amplas as escolhas admissíveis num dado horizonte temporal, como maiores serão as oportunidades para concretizá-las, em simultâneo. O que é dizer que, em determinadas circunstâncias, o dinheiro, ao ampliar as possibilidades de realização simultânea de todas as escolhas admissíveis, também ele, torna o ditador iluminado dispensável, eliminando assim uma causa de poder e diferenciação no seio da sociedade.
Visto na sua simplicidade, o modelo do ditador iluminado poderá dispensar as trocas mercantis e o dinheiro, tal como poderá poupar os indivíduos (nele, só o ditador iluminado merece o qualificativo de agente económico) ao espartilho algo frustrante de uma restrição de natureza monetária.
Em contrapartida, articular-se-á mal com o princípio da apropriação individual exclusiva que não se circunscreva aos bens de consumo final - pois quem detiver os meios de produção terá sempre uma palavra a dizer sobre a orientação a dar ao excedente[4]. As escolhas individuais, essas, continuarão não-limitadas superiormente (quanto mais, melhor) até ao momento em que o produto social (que é limitado, recordo) seja distribuído, e o excedente efectivamente aplicado - o que irá suscitar, talvez, novos motivos de frustração.
Acresce que, para satisfazer a todos sem discriminação (o que não significa dar a todos o mesmo, mas distribuir de tal modo que ninguém se sinta especialmente prejudicado ou insatisfeito – e uma vez mais, não se trata do óptimo paretiano), é absolutamente necessário:
o          Que o ditador iluminado disponha de informação completa sobre as preferências individuais em constante mutação - o que não parece estar ao alcance de ninguém, hoje em dia;
o          Que disponha dessa informação em tempo útil, para que a espera não seja a causa de maior frustração;
o          Ou que ignore as preferências individuais e imponha o seu próprio tempo.
De novo, os condicionalismos do tempo e da informação subjacentes ao ciclo da distribuição. (cont.)
Novembro de 2008
 A. PALHINHA MACHADO


[1] É o que acontece com a inflação, por exemplo. Quanto mais intenso for um processo inflacionista, mais amplas, mais frequentes e menos previsíveis são as variações na estrutura de preços relativos.
[2] Os preços relativos podem, em determinadas circunstâncias, resolver a questão da informação. O tempo continuará a ser, porém, uma questão em aberto.
[3] Se estiverem reunidas outras condições mais, nomeadamente: (i) se for materialmente possivel transferir no espaço e no tempo o produto social; (ii) se o dinheiro se mantiver como meio de troca durante dois ou mais ciclos da distribuição - isto é, se for também reserva de valor.
[4] É fácil ver porquê as escolas de política económica que propendem para o modelo do ditador iluminado defendem que só este poderá possuir meios de produção e decidir o que fazer com eles - o que, longe de ser uma forma de apropriação colectiva, é uma manifestação extrema da propriedade individual (ou grupal).

CRÓNICA DO BRASIL

 

DECOLORES
 
Nos tempos cada vez mais incertos e inseguros em que vivemos, quando a tecnologia nos traz simultaneamente benefícios e desgraças, o homem, e a mulher, em vez de procurarem ir ao encontro de Deus, seja qual for o nome que lhe dêem, e a forma como O concebem, visam sobretudo o seu mundo externo, a sua aparência, a ganância, o poder.
 
As maiores potências do mundo, as maiores fabricantes de armamento, gastam fortunas em lutas contra terrorismo, a quem fornecem as armas que depois matam indiscriminadamente, sobretudo inocentes civis de ambos os lados, e não só.
 
Vive-se um mundo em que a mentira se sobrepõe à singeleza e à verdade, em que se ignora o que está na posição mais baixa, em que se estimula o consumo e o crédito fácil para continuarmos a assistir ao sufoco financeiro da maioria.
 
É bom lembrar alguns terríveis governantes que só deixaram má memória a quem falta coragem para lhes reconhecer o mérito que também tiveram. Um deles, o tão mal tratado, post mortem, Salazar e tão reabilitado por uma consulta popular feita há pouco tempo, dizia que quanto mais dinheiro se puser na mão do povo, mais sufocado ele vai ficar, porque vai querer comprar tudo, endividar-se e viver desgraçadamente.
 
Parece profecia. E é. Hoje a maioria da população vive de crédito. E não tem como pagar. Depois os bancos transferem esses créditos podres para a mão dos governos que lhes acodem com milhões que vão sair do bolso de quem? Dos mesmos. Dos trabalhadores, da classe média, sobretudo. E gira a roda do infortúnio.
 
Grande sorriso na cara, os funcionários das empresas prestamistas são como terroristas: sabem que estão a promover a desgraça de quem cai na sua cantiga.
 
Já não se sabe mais quem é amigo ou inimigo. Dificilmente se encontra um governo que mereça a aprovação do povo. Surgiu agora uma esperança com Barak Obama e o mundo torce para que ele faça milagres. Mas um milagre ele não fará: reduzir ou até acabar com a produção de armas! Nem ele nem ninguém. Pelo contrário; os países fabricantes continuam a destinar verbas astronómicas para o desenvolvimento de artefactos com maior poder destrutivo. Destrutivo de vidas humanas e de todo o meio ambiente.
 
No norte da Espanha, no tempo das lutas contra os sarracenos, as populações das zonas de conflito nunca sabiam quando e quem viria perturbar o seu sossego. E os peregrinos que, de quase toda a Europa se dirigiam ao túmulo do apóstolo Tiago, em Santiago de Compostela, enfrentavam muitas vezes, se não a fúria, a desconfiança dessas populações.
Catedral de Santiago de Compostela
 
Criaram então uma palavra de passe que lhes permitia serem reconhecidos, e acolhidos, ao longo de todo o imenso percurso, por vezes de milhares de quilómetros, que faziam cheios de fé e paz interior. Iam rezar junto ao Santo. Não consta que lhe fossem pedir armas ou mais guerras, ou fome ou peste. Procuravam paz. Paz interior e para o mundo. Alma alegre, aberta, viçosa, colorida. A palavra estabelecida para serem reconhecidos foi DECOLORES.
 
Cerca de mil anos mais tarde essa mesma palavra foi adoptada por um Movimento que levava os homens a melhor conhecerem e seguirem a Cristo. O Movimento dos Cursilhos de Cristandade. Com que alegria cristã eles se cumprimentavam com o Decolores.
 
O mundo está cada vez mais preto e branco; está cinza.
 
O que é que cada um de nós pode, e deve, fazer para o tornar, todo, Decolores?
 
Rio de Janeiro, 29 de Novembro de 2008
 
Francisco Gomes de Amorim

HERESIAS 02

 

In dubio, pro mercato - II
 
Em abstracto, a distribuição do produto social:
o          Ou é feita segundo uma vontade absoluta - a vontade daquele (pessoa física ou grupo social) a quem pertence, em primeira mão, a totalidade do produto social;
o          Ou resulta de um jogo de vontades entre grupos sociais mais coesos que, entretanto, se formaram - jogos tantas vezes ritualizados, demoradamente disputados e que dão lugar a esquemas de distribuição que tendem a perpetuar-se[1];
o          Ou acontece num contexto limite, que aceita a posse individual pacífica dos bens e dos meios para produzi-los - mediante esquemas de troca mercantil, onde as vontades de muitos continuamente interagem;
o          Ou, então recorre às soluções anteriores em combinações variáveis.
Mesmo nas sociedades que são aparentemente pouco complexas - aquelas cuja base material facilmente se reconstituí porque a natureza é generosa, o número de indivíduos, pequeno, e as necessidades individuais, elementares - a distribuição do sustento e dos meios de produção reflecte sempre uma dada ordem social, é uma manifestação de poder.
Poder de um indivíduo ou poder de um grupo. Poder pacifícamente aceite por todos ou poder que se mantém pela força. Enfim, poder quantas vezes adquirido através de rituais que nós, europeus, temos hoje dificuldade em compreender. Mas, sempre, poder.
Nas sociedades numerosas e complexas, a expressão da vontade individual tende a ser de tal modo intensa, e os padrões individuais de escolha tão díspares, que será difícil, para não dizer impossível, conhecer e conciliar as vontades de todos - tanto mais que as escolhas[2] individuais, pelo menos em hipótese construtiva, não conhecem limite[3] - ao passo que o produto social, esse, é, por natureza, limitado.
Presumir que os indíviduos dispõem de informação completa sobre o conjunto dos bens que formam o produto social, ainda que ignorem as quantidades (quantidades meramente nocionais quando se trata de serviços) que têm ao seu alcance, em cada momento, é uma hipótese teoricamente confortável, mas nada mais que isso. Não é essencial.
Essencial, sim, é que: as escolhas individuais sejam tendencialmente ilimitadas; que cada indíviduo, esteja onde estiver, não cesse de fazer escolhas, ciente daquilo que prefere mais, daquilo que prefere menos e do que lhe é comparativamente indiferente; e que os padrões de preferência individuais mudem ao longo do tempo, tal como variam de indivíduo para indivíduo.
Mesmo com o modelo que assenta numa vontade única (também conhecido pelo modelo do ditador benevolente ou iluminado), se a recolha da informação pertinente sobre as preferências individuais não for instantânea, se a disponibilidade dos quinhões individuais levar o seu tempo, e se este ciclo de produção e entrega (ciclo da distribuição, ou ciclo real) for mais longo do que o tempo máximo de espera (biológica ou psicológica) tolerado pela generalidade dos indivíduos - alguém vai ficar insatisfeito ou, mesmo, sofrer.
Tempo e informação são aqui as variáveis-chave. Dado que a distribuição do produto social, não importa segundo que critério, é sempre um processo temporal condicionado pela informação sobre as preferências individuais, complexidade e conflitualidade andam de par: uma sociedade, à medida que se torna mais complexa, não fica, por isso, menos conflitual. Muito pelo contrário. Aliás, decidir sobre a orientação do excedente e o que dele se fará acentua, ainda mais, a natureza conflitual das sociedades.
Quando cada indivíduo em sociedade pode apetecer sem limite, surgirá, mais cedo ou mais tarde, o limite traçado por todas as escolhas individuais que não seja possível satisfazer simultaneamente - uma vez que largas fatias do produto social (que é limitado, recorde-se) são compostas por bens que só podem ser efectivamente fruídos numa base individual exclusiva[4].
Ora, o método mais espontâneo para resolver situações de impasse entre indivíduos consiste no choque de vontades, no conflito e, ultimo ratio, na violência. Por isso, a violência acompanha invariávelmente o processo de aprofundamento da divisão do trabalho - o qual, por sua vez, é a resposta bem sucedida de uma sociedade que vê aumentar a pressão demográfica sobre os recursos que a sustentam.
Violência reprimida, para não destruir a organização social existente; violência latente, que aqui e ali aflora - mas, sempre, a violência como pano de fundo. Deste modo, as sociedades modernas revelam-se estruturalmente conflituais e ocasionalmente violentas - quanto à distribuição do produto social e quanto à orientação a dar ao excedente.
Tal como foram abertamente conflituais e violentas, por exemplo, as sociedades europeias no período pré-moderno, quando parte significativa do produto social aí era objecto de sucessivas exacções. Nesses tempos, a distribuição do produto social e a orientação dada ao excedente deixavam perceber, de imediato, quais as forças em presença, qual a vontade dominante e quais os meios a que essa vontade recorria para se impor.
Pelo contrário, os esquemas de distribuição de onde a conflitualidade parece estar ausente - esquemas estritamente hierarquizados, primeiro por grupos sociais principais, depois por grupos sucessivamente mais pequenos, e por aí adiante até se atingir o indivíduo - só têm resistido à prova do tempo em sociedades pouco numerosas e que geram diminutos excedentes. De alguma maneira, populações cuja dinâmica demográfica, ou atingiu já um estado estacionário, ou flutua, ainda e sempre, em torno desse estado estacionário. (cont.)
Novembro de 2008
 A. PALHINHA MACHADO



[1] O estudo comparado das religiões traz à luz muitos traços cristalizados destes "acordos", quase sempre situados em épocas míticas.
[2] Escolha como manifestação da vontade de um indíviduo, ou de um grupo, com o propósito de apropriar e possuir parte do produto social, ou de dar uma determinada orientação ao excedente.
[3] Estou a seguir o princípio da não-saciedade, não tanto como hipótese teórica, mas mais como critério prático, sempre que uma determinada distribuição do produto social (por exemplo, conforme os direitos sobre os frutos da propriedade) deixe alguns indivíduos insatisfeitos, maxime, não permita que eles subsistam.
[4] O mesmo não acontece com os bens susceptíveis de fruição colectiva, ou bens públicos por natureza. Neles, não se trata de um conflito de distribuição/apropriação, mas de orientação do excedente (porquê criá-los, ou produzi-los, desde logo?).

POSTAIS ILUSTRADOS - V

 

 
 
 
 
AO GOVERNO
Contribuição para uma política de Educação
 
 
 
Caros Amigos Jonh e Mary,
 
Sei que agora têm na vossa agenda as preocupações do próximo dia 20 de Janeiro de 2009. Também não vou perder pitada. Vou colar-me na frente do televisor sintonizado na CNN e de lá não saio. Mas posso concluir-vos estes postais sobre a Educação em Portugal e, outros postais, outras trocas de informações se seguirão entre nós, se Deus quiser. A Educação, em qualquer país, é um factor essencial do desenvolvimento e representa o futuro, neste caso, do meu País. A Educação é o “ex-libris” de uma Nação e de um Povo. Se não temos políticos que saibam o que fazer com ela, o melhor é substitui-los rapidamente por outros. Ministrar as matérias é função dos professores. Avaliar os resultados dessa função pertence, pelo exercício do poder que lhe é conferido pelos eleitores e por Lei, ao Governo e aos supervisores, por este, nomeados. Mas estas nomeações não deveriam ser sustentadas na cor do cartão partidário, nem nos “jobs for the friends” e sim na avaliação curricular e científica dos supervisores nomeados. Assim, concretizando, teríamos uma estrutura de topo que responderia directamente ao titular do ministério que se designaria (os nomes têm pouco significado nesta construção). O que interessa são as funções e os resultados, mas, chamar-lhe-íamos: Conselho Científico de Avaliação e Carreiras dos Professores do Ensino Básico... etc, etc. Às Escolas seria atribuída a competente autonomia na contratação dos profissionais docentes e na gestão recursos financeiros e humanos. Proporíamos, também, um Conselho Administrativo (CA) que seria o órgão gestor e deveria ser constituído por um Presidente, nomeado pelo Governo, que não fosse professor, mas gestor, e dois professores que não poderiam exercer o ensino. Este CA seria assessorado por um Conselho Consultivo (CS) constituído por um Presidente, membro do Ministério, nomeado pelo Governo, por um representante da Autarquia, designado por esta e membro de ligação da Escola a este Orgão; por um professor, por alunos, por membro não docente da Escola e por representantes dos pais. Com excepção dos lugares de nomeação, todos os outros seriam ocupados por eleição entre as classes intervenientes. Teria também lugar um Conselho Disciplinar, constituído por pais, alunos, professores e os dois Presidentes do CA e do CS e presidido pelo Presidente do Agrupamento de Escolas se esta figura se mantivesse. Aliás, a estrutura do modelo de que aqui falo poderia ser feita no âmbito dos Agrupamentos de Escolas, desde que a autonomia funcionasse com esta estrutura. E mais se poderia discorrer sobre modelos alternativos, desde que se mantivesse o padrão: Autonomia! Evitar-se-iam listas de colocações e funcionaria o recrutamento por mercado de trabalho e evitar-se-ia que o Ministério perdesse tempo com recursos, incoerências (professores de Lisboa colocados em Santarém e vice-versa). A rotatividade dos professores nestes casos nem é o melhor para os alunos, e tantos outros problemas que se evitariam... E é isto, meus caros Amigos. Fecho este ciclo de postais ilustrados SOBRE a Educação, com uma vista nocturna do Palacete de São Bento. O Governo anda às escuras, mas tem a sua sede iluminada. Oxalá tenha luz suficiente para fazer crer aos cidadãos que ainda merece estar mais uma legislatura, mas... sem maioria absoluta. É condição “sine qua non” para ter de negociar e partilhar o poder. Assim qualquer Primeiro-Ministro não se poderá arrogar como Luís XIV com um peremptório “L’État c’est moi” e cujo absolutismo, a que Luís XVI tentou dar continuidade e lhe custou a cabeça ao ser condenado à guilhotina. Vão longe nas memórias da História Universal as teorias absolutistas, e o terror da Revolução Francesa, mas a história recente da Democracia demonstra-nos que as eleições, de outro modo, também fazem rolar cabeças...
 
Até ao próximo postal.
 
 
 
Luís Santiago

DIA DA RESTAURAÇÃO DA SOBERANIA PORTUGUESA

Image:Restauradores - Lisboa (Portugal).jpg

 

Lisboa - Monumento aos Restauradores de 1640

 

Hino da Restauração: http://www.ship.pt/index.php

 

RESTAURADORES EM 1 DE DEZEMBRO DE 1640
 
Afonso de Menezes, D.
Álvaro Coutinho da Câmara, D.
Antão Vaz d’Almada, D.
António de Alcáçova Carneiro, D.Alcaide-mor de Campo Maior
António Álvares da Cunha,D. 17º Senhor de Tábua
António da Costa, D.
António Luís de Menezes, D.1º Marquês de Marialva
António de Mascarenhas, D.
António de Melo e Castro
António de Saldanha – Alcaide-mor de Vila Real
António Teles da Silva – Governador do Brasil
António Telo, D.
Carlos de Noronha, D.
Estêvão da Cunha
Fernando Teles de Faro, D.
Fernão Teles de Menezes – 1º Conde de Vilar Maior
Francisco Coutinho, D.
Francisco de Melo
Francisco de Melo e Torres – 1º Marquês de Sande
Francisco de Noronha, D.
Francisco de São Paio
F
rancisco de Sousa, D.1º Marquês das Minas
Gaspar de Brito Freire
Gastão Coutinho, D.
Gomes Freire de Andrade
Gonçalo Tavares de Távora
Jerónimo de Ataíde, D.6º Conde de Atouguia
João da Costa, D.1º Conde de Soure
João Pereira, D.
João Pinto Ribeiro, Dr.
João Rodrigues de Sá
João Rodrigues de Sá e Menezes, D.3º Conde de Penaguião
      João de Saldanha da Gama
      João de Saldanha e Sousa
      Jorge de Melo
      Luís Álvares da Cunha
      Luís da Cunha
      Luís da Cunha de Ataíde, D.Senhor de Povolide,
      Luís de Melo, Alcaide-mor de Serpa
     
Manuel Rolim, D. – Senhor de Azambuja
      Martim Afonso de Melo – Alcaide-mor de Elvas
      Miguel de Almeida, D.4º Conde de Abrantes
      Miguel Maldonado
      Nuno da Cunha de Ataíde, D.1º Conde de Pontével
     
Paulo da Gama, D.
      Pedro de Mendonça Furtado – Alcaide-mor de Mourão
      Rodrigo da Cunha, D.Arcebispo de Lisboa
     
Rodrigo de Menezes, D.

 

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