Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

ABAIXO A BURGUESIA!

 

 
 
Sim, «ABAIXO A BURGUESIA!» é o voto que, pela calada, subjaz a inúmeras actuações políticas. E são precisamente esses políticos que pedem o voto aos burgueses pois sabem que os proletários já não são suficientes para elegerem seja quem for.
 
Quando o discurso político promove a abastança de objectivo a direito, não faz sentido penalizar os que por ele pagam uma esmagadora carga fiscal.
 
E não me referindo a outro tipo de penalizações da burguesia, cito apenas as que são lançadas a pretexto do automóvel: os corredores BUS, os parquímetros, a caça à multa, a organização de maratonas pedestres nas vias construídas para a circulação automóvel e outras demagogias ecológicas de mensagem duvidosa para não apurar se intelectualmente fraudulenta. E, no entanto, o automobilista é certamente um contribuinte de enorme relevância na receita pública corrente enquanto maratonistas e passageiros do BUS são seguramente beneficiários líquidos do erário público.
 
 
 
Fui ao site da Direcção Geral do Orçamento consultar os Quadros do Orçamento do Estado para tentar extrair a informação sobre quanto pagam os automobilistas ao Fisco. Não me entendi com o que lá encontrei, aconselhei-me com colegas (economistas como eu) que também não conseguiram extrair a informação desejada e decidi pedir ajuda a uma Associação empresarial do sector automóvel que de imediato me deu toda a informação que eu procurava. Isto passou-se antes de a bolha especulativa inchar e, claro está, muito antes de rebentar.
 
Assim, se em 2007 o sector automóvel contribuiu com cerca de 23% da receita pública corrente, é legítimo admitir que em 2008 essa percentagem tenha subido devido ao processo inflacionista entretanto ocorrido. E se em 2008 o crescimento da «contribuição automóvel» para o Orçamento do Estado possa não se ter verificado pela via dos Impostos Indirectos, certamente que o inchadíssimo IRC das empresas de combustíveis para isso contribuiu decisivamente.
 
Ou seja, muito provavelmente em 2008 o automobilista português contribui directa e indirectamente – e só na qualidade de proprietário de automóvel – com 25 a 30% das receitas correntes do Estado.
 
Mas os contribuintes – nomeadamente os automobilistas – financiam o Estado para que as empresas de transportes públicos recebam os subsídios que as compensem da prática de preços sociais. E são essas empresas que utilizam os corredores BUS em claro prejuízo dos transportes privados. Isto é o mesmo que dizer que os passageiros dos transportes subsidiados têm direito a percorrer vias de privilégio financiadas por quem tem que percorrer caminhos não privilegiados e frequentemente mais longos. Escandalosa injustiça fiscal. E não me venham com argumentos de distribuição da riqueza porque o que está em causa é a instauração de um esquema leonino em que aos burgueses compete tudo pagar e às classes proletárias tudo beneficiar.
 
Porque é exactamente isto que evidenciam os propósitos de muitos políticos, o quererem deitar-nos a baixo, a nós, os burgueses. Só que não enxergaram ainda que tudo quanto fizerem contra nós se voltará contra eles não só na prática política – não lhes damos mais o nosso voto e vamos à procura de quem nos defenda – como no âmbito da fiscalidade pois quanto mais nos empurrarem para fora do sistema menos receitas terão e mais transportes públicos deficitários terão que suportar.
 
 
 
Se a isto acrescermos os parquímetros e as provas pedestres nas ruas para automóveis obrigando-nos à utilização de percursos mais sinuosos e de menor qualidade, então fica patente a má vontade dos políticos contra a burguesia automobilizada.
 
 
 
Contudo, devo afirmar a minha concordância com os radares de controlo de velocidade anunciados em grandes parangonas para, em contraste, considerar ignóbil a caça à multa com os polícias ou militares acoitados a trás dum pilar ou a coberto duma esquina a fotografarem pelas costas o automobilista passante. Sempre considerei que pelas costas só os cobardes actuam e por isso entendo que esse género de actuação deva ser proibido e agente que nele seja apanhado seja punido.
 
Como se não estivesse mais do que provado que a classe média burguesa é o elemento estabilizador de qualquer sociedade, ainda temos que aturar quem não percebe o que anda a fazer em termos de mau negócio fiscal.
 
Em 2009 teremos eleições legislativas em Portugal e nós, os automobilistas burgueses, vamos obviamente fazer opções numa época em que novos partidos políticos entram em cena.
 
Lisboa, Dezembro de 2008
 
 Henrique Salles da Fonseca

POSTAIS ILUSTRADOS – VII

 

 
 
 
Brasão da Polícia de Segurança Pública 

Logotipo da Polícia Judiciária

 
Distintivos Policiais
(PSP;GNR E PJ)
 
A Segurança do Cidadão Português
 
PARTE I
 
Aos Autores do livro “Polícia á portuguesa – um retrato dramático”.
Sob a responsabilidade da IGAI, (Inspecção-Geral da Administração Interna), no ano de 2005, nos dias 10 e 11 de Novembro, teve lugar a Conferência Internacional dos Direitos Humanos e Comportamento Policial, no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, a que assisti como observador particular a convite de um Inspector amigo. A respeito desta conferência, escrevi 3 artigos no blog da Quadratura do Círculo, onde deixei de colaborar por motivos de doença. Longe vão para mim, felizmente, esses dias de pouca saúde. Nesse primeiro artigo dissertei sobre o “poder das polícias”; no segundo, “compreender o controlo das polícias”; e,o terceiro e último, sobre ”fazer o controlo das polícias”. Nestes comentários estiveram sempre presentes: a) O Artigo 3° da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal” (que também se aplica aos polícias enquanto indivíduos); b) A proclamação da Organização das Nações Unidas sobre a infância e de a criança ter direito a uma ajuda e assistência especiais, proclamação essa enriquecida pelas declarações (que aqui repito) de Carol Bellamy, então Directora Executiva da UNICEF, que produzidas algures em 2002, a propósito,recordam que “As crianças não são apenas o nosso futuro, elas são o nosso presente e precisamos de começar a levar muito a sério as suas vozes. Devemos escutar atentamente o que os jovens têm para dizer e dar-lhes todas as oportunidades de palavra. Devemos chegar até eles e encorajá-los a participar no processo de tomada de decisão no que afecta as suas vidas.”.
 
 
Estes aspectos da cidadania, consagrados mundialmente,tinham a meu ver enquadramento, num plano privilegiado, na temática abordada pela acima referida Conferência e que, nas várias comunicações dos oradores convidados, envolvia assuntos, tais como: 1) O exercício do Poder Policial e a sua legitimidade e legitimação; 2) O uso de armas letais; 3) A privação da vida no decorrer de acções policiais; 4) O treino das Forças de Segurança, através de programas de formação específica; 5) Os requisitos da investigação e da elaboração da prova; e, ainda, outros itens correlacionados. O vosso livro deu-me oportunidade de voltar a este assunto, porque, no ano de 2005, algumas das afirmações que então produzi não foram compreendidas, nem eu me dei ao trabalho de as esclarecer. Faço-o agora, convicto de que aproveitando este tema particular da vossa denúncia da situação das condições de trabalho dos polícias de segurança pública, introduzirei, no debate, outras questões que também considero essenciais. Talvez, daí, resulte um vosso novo trabalho de investigação...
 
 
Luís Santiago

HERESIAS 04

 

In dubio, pro mercato - IV
 
No extremo oposto, o modelo que se baseia em trocas mercantis generalizadas (por isso designado por modelo do mercado):
o          Assenta no dinheiro como instrumento geral das trocas (as trocas mercantis passam a ser trocas monetárias);
o          Reconhece o primado das escolhas dos agentes económicos (indíviduos, empresas e outros grupos sociais, quer enquanto produtores, quer enquanto consumidores), na condição de serem admissíveis (isto é, conformes a uma restrição de natureza monetária, a tal linha ténue que separa a possibilidade de obter, do simples desejo sonhado de ter);
o          Considera legítima a apropriação individual pacífica dos bens e dos meios para produzi-los, através da produção e/ou da troca monetária;
o          Faz depender das decisões dos agentes económicos a orientação a dar ao excedente.
Quando postula que os preços relativos, em determinadas circunstâncias, reflectem adequadamente o resultado da agregação de todas as escolhas individuais admissíveis (tanto do lado da oferta, como do lado da procura), o modelo de mercado torna irrelevante o conhecimento explícito e completo de cada padrão de preferências individual.
O tempo, esse, esbate-se ou não, consoante os esquemas de troca mercantil sejam mais, ou menos, eficientes na distribuição do produto social (o tempo é, certamente, a variável chave com que ambos os modelos têm mais dificuldade em lidar; por isso é que a exposição teórica de qualquer destes dois modelos, ou é estática, ou recorre a uma estática comparada bastante rudimentar).
Em contrapartida:
o          Traz o dinheiro para o âmago da organização social;
o          Sujeita cada um dos agentes económicos a uma restrição nominal que constrange as suas preferências;
o          Sobrepõe um ciclo de tesouraria (ou ciclo nominal) ao pré-existente ciclo da distribuição (ou ciclo real).
Além disto, o dinheiro como reserva de valor coloca a sociedade perante novas questões: Que volume de dinheiro em circulação? Que dinâmica para a distribuição do dinheiro (o que é dizer, como é que preços, trocas monetárias e sistema de pagamentos reconstituem continuamente as restrições nominais individuais, tornando possível manter a divisão do trabalho e a distribuição do produto social numa sociedade coesa)? O que motivará as preferências individuais pela liquidez, enquanto reserva de valor?
No modelo do mercado, o rendimento nominal (a expressão monetária, ou valorização, do produto social, segundo uma dada estrutura de preços) é distribuido (basicamente, mas não unicamente; recordo as transferências de rendimento) conforme o critério da participação no processo produtivo.
À luz deste critério, as restrições de natureza monetária confrontam cada agente económico, não já com decisões sobre o excedente real, mas com a obtenção de excedentes de outra natureza - os excedentes nominais (ou de tesouraria). Isto é, o acréscimo no saldo de dinheiro no transcurso de um ciclo de tesouraria.
Enquanto o excedente real só está ao alcance dos detentores de meios de produção, ou da sociedade como um todo, os excedentes nominais são eminentemente individuais. Está aqui a origem da interpretação "capitalista" do modelo do mercado.
A presença do dinheiro e das restrições de natureza monetária individuais não resolve definitivamente as duas questões primordiais - apenas as desloca da esfera real (bens e serviços) para a esfera nominal (ou financeira: stocks de dinheiro e fluxos de dinheiro), reformulando-as.
De novo: Que volume de dinheiro em circulação? Como garantir que a capacidade para gerar excedentes não virá a ser estiolada pela dinâmica que as trocas monetárias induzem nas restrições nominais? Como fazer para que os ciclos de tesouraria não sejam de tal modo longos que excluam do mercado alguns agentes económicos, pondo assim em causa a própria organização social? Como estar seguro de que os preços relativos reflectem, em cada momento, com fidelidade, a agregação das escolhas individuais admissíveis?
Eis várias outras maneiras de colocar as mesmas duas questões fundamentais do pensamento económico. Não será, pois, pela presença do dinheiro e das restrições nominais que o modelo do mercado ganha uma vantagem absoluta sobre o modelo alternativo - e é óbvio que fica comparativamente mais complexo.
Mas algum avanço, consegue. Na medida em que restringe as preferências dos agentes económicos às escolhas admissíveis, afasta de vez o desencontro entre preferências individuais não-limitadas e a restrição real associada a um produto social limitado - desencontro que, recordo, teve origem na divisão do trabalho e que o modelo do ditador iluminado, em ambientes de informação limitada e com tempos explicitados, é incapaz de superar.
O mercado é, pois, um esquema perene de trocas monetárias em que os agentes económicos, todos eles, estão sujeitos a restrições de natureza monetária. É a presença destas restrições nominais que o caracteriza - é certo que sob o fundo, esse sim, eminentemente ideológico, de um Estado de Direito.
Mas, quanto a este último ponto, o modelo alternativo também não escapa à contaminação ideológica: como provar que a vontade entronizada de um ditador iluminado tudo conhece sobre as preferências individuais dos agentes económicos, quando estes formam uma multidão, em permanente interacção e constante mudança? (cont.)
Novembro de 2008
A. PALHINHA MACHADO

PORTUGAL É O QUE NÓS SOMOS (II)

No meu texto anterior, procurei caracterizar o quadro de desolação e pessimismo que alguns tecem sobre o nosso país. Talvez por farto de tanto negativismo a assolar os espíritos, alguém se encarregou de fazer circular pela net um documento intitulado “Novo Portugal”. Nesse documento, aponta o nosso país como situado entre os que mais mudaram nos últimos 30 anos e, para o comprovar, enumera as muitas realizações que o engenho e a criatividade dos portugueses tornaram ou vêm tornando possíveis. São citadas várias criações inovadoras no âmbito da software que conquistaram o mercado internacional. É enaltecida a competência da nossa engenharia civil, granjeando prestígio internacional, em especial na construção de pontes. São enumeradas inovações tecnológicas na produção têxtil, na concepção de equipamentos desportivos, na produção de energia fotovoltaica, na indústria farmacêutica, no fabrico de componentes automóveis e equipamentos electrónicos, na produção de derivados de madeira, na indústria corticeira etc. Em suma, o documento lembra-nos que não é uma quimera a afirmação das capacidades nacionais, com prestígio e projecção além-fronteira.

 
Mas a demonstração mais visível da evolução social e material do nosso país ocorrida nos últimos 30 anos, mau grado o pessimismo nacional, é-nos fornecida até mesmo por esse Portugal profundo, por essas muitas aldeias do interior do país. Tomo como exemplo a aldeia de origem dos avós da minha mulher, uma aldeia da Beira Baixa. Há mais de 30 anos, nela não havia energia eléctrica e muito poucas eram as casas que tinham instalações sanitárias. Hoje, todas ou quase todas têm energia eléctrica, frigorífico, televisão, fogão a gás, instalações sanitárias, e rara é a habitação que não tem um automóvel estacionado à porta, às vezes até dois. Há 30 anos atrás nem os carros podiam aceder à povoação porque não havia estradas transitáveis. Isto para não lembrar que todos os idosos têm hoje uma pensão de segurança social, coisa outrora inexistente. Significa isto que o país real mudou e mudou muito, pese a imagem tristonha que alguns profetas sem bordão não se cansam de apregoar. Os que às vezes clamam “volta Salazar” só podem ser autênticos esquizofrénicos.
 
No entanto, apesar do indesmentível progresso do nosso país, existe efectivamente um problema com os portugueses, mas que não tem travado a sua caminhada para o futuro, porque o progresso é um comboio que somos capazes de apanhar, em andamento ou em qualquer estação ou apeadeiro, graças a uma aptidão e engenho que não podem ser contestados. O problema dos portugueses não se prende propriamente com as suas qualidades de trabalho e com a sua imaginação criativa.  O problema radica na mentalidade e, pela sua natureza específica, tem um reflexo danoso na esfera política, se entendermos esta, numa definição simplificada, como a capacidade de a nação se organizar e unir para realizar os fins comuns, os do Estado. O problema dos portugueses, se problema é efectivamente e não uma fatalidade antropológica, como alguém afirmou, reside naquela área obscura do inconsciente sobre a qual já escreveram, entre outros,   o Eduardo Lourenço e o José Gil. É precisamente onde estão as raízes da nossa dificuldade em unir energias e vontades  face ao interesse colectivo, minimizando as querelas secundárias e mortificantes. É nessa área do inconsciente que  uma  radiografia  psicossomática não deixará, por certo, de colher imagens  das tais  moléstias  que os investigadores  mais lúcidos e descomprometidos não têm pejo nenhum em inventariar: inveja e despeito pelo sucesso alheio, dúvida congénita sobre as capacidades nacionais; discordância constante com o pensamento do nosso interlocutor (podemos estar de acordo mas há sempre um "mas", sem o qual parece que nos sentimos inferiorizados); tendência para a transgressão das regras sociais; hostilização sistemática de todos os que assumem o exercício do Estado.
 
Vamos ver e quedamo-nos numa constatação curiosa. Se é na genética que encontramos a razão de ser de alguns comportamentos típicos, mais expressivamente em estratos menos escolarizados, é também aí que teremos explicação para o perfil e o estilo de algumas elites intelectuais e, necessariamente, da classe política. Por exemplo, aos nossos olhos pode parecer descabido que o presidente Bush esteja descredibilizado a nível internacional e, no entanto, ser sempre solenemente bem recebido, mesmo pelos seus adversários políticos, quando comparece no Congresso ou em outras sedes de decisão política interna. É respeitado pelo cargo que exerce, que não pode ser beliscado no seu simbolismo, sob pena de abalar a auto-estima nacional. Caso diferente se passa no nosso Parlamento, em que o debate de qualquer proposta política dá sempre azo a linguagens e atitudes rasteiras, insultuosas e provocadoras, reveladoras de menos consideração por aqueles que foram mandatados para exercer o poder, esquecendo-se que este é transitório e não tarda os papéis se invertem. É lamentável esta nossa insana dificuldade em apoiar uma proposta de grupo parlamentar diferente, só porque o é, independentemente do seu conteúdo e do interesse nacional que reveste. Não se compreende que a falta de honestidade e coerência intelectual seja tanta que se defenda uma coisa enquanto poder e a mesma é rejeitada quando na oposição, ou vice-versa.
 
Penso que os males que eventualmente podem retardar a nossa passada colectiva provêm menos da mentalidade do povo do que do comportamento das elites intelectuais. As classes sociais mais desfavorecidas tendem a evoluir com a aposta sempre continuada na educação, pois se elas no estrangeiro são obreiras quando bem enquadradas empresarialmente, no nosso país igual resultado pode ser conseguido, como em muitos casos está a ser uma realidade. O problema, a meu ver, reside mais nas elites porque elas é que lideram e influenciam a sociedade, mas o preocupante é elas não se darem conta da responsabilidade que lhes incumbe para elevar o nosso sentimento de auto-estima e para extirpar esta nossa tendência para o individualismo, para a desresponsabilização, para auto-comiseração e para a descrença.
 
Será necessário encenar o psicodrama nacional para podermos, olhos nos olhos, desmontar cada peça para definitivamente encontrarmos o tempo e o modo da terapia necessária? Em 1907, o médico e escritor Manuel Laranjeira questionava se “o nosso mal tem raízes mais fundas inextirpáveis, e se a falta de coesão da sociedade portuguesa assenta em factores antropológicos, indestrutíveis, isto é, se sobre a raça portuguesa pesava uma fatalidade mórbida originária, de natureza degenerativa, uma tendência irreprimível, progressivamente crescente para a dissolução”.
 
Manuel Laranjeira
(1877-1912)
 
Contudo, é o próprio que logo a seguir afirma que “tal afirmativa não resiste ao mais singelo exame”. Para Manuel Laranjeira, que emitia o seu juízo numa época em que o analfabetismo era um autêntico entrave nacional, a educação e a escolaridade eram a solução para o problema e acreditava que com o tempo haveríamos de poder saltar a fasquia do progresso a par de outros povos.
 
Pegando nesta observação de Manuel Laranjeira e considerando que a escolaridade nacional já não é a mesma de há um século, embora tenha ainda de atingir níveis superiores, então temos de concluir que é na mentalidade das elites, no que ela tem de mais subterrâneo, que subsistem os principais nódulos que emperram o país e não o deixam avançar mais depressa. Há que extirpar esses nódulos. Para isso, as ditas elites intelectuais têm de ir à raiz do problema e ousar meter o bisturi onde necessário. Entre outras providências, haja coragem e clarividência para reconhecer que o sistema político tem de ser regenerado para que o serviço público seja o nível máximo da aspiração cívica do cidadão em vez de trampolim para cargos posteriores escandalosamente remunerados. Resolvida consensualmente esta questão, talvez acabe o regabofe de inveja e despeito por quem está no poder, tão patente nos debates parlamentares como nas conversas de café. Será uma medida a articular com outras reformas importantes que o sistema político exige, mas se é a única que menciono é pelo seu simbolismo e exemplaridade.
 
 
                     
                             
Tomar, 26 de Novembro de 2008
 
 Adriano Miranda Lima

A QUESTÂO PLATINA - Parte 9

 
 
 Final da parte 8: A Inglaterra desejava obter um porto livre na ilha de Santa Catarina, onde as mercadorias inglesas pudessem ser transferidas para os navios portugueses e espanhóis a fim de serem transportadas para consumo nas colónias espanholas com a conivência dos respectivos governadores. As instruções inglesas ao seu representante no Brasil referiam ainda, que qualquer tratado deveria incluir artigo regulando a extinção do tráfico de escravos.
 
 
 Parte 9: O governo de D. João mantinha o propósito de interferir no Prata motivado por apreensões quanto as intenções da França em relação àquela região. O Príncipe Regente resolveu frustrar os objectivos daquele país com a ocupação imediata dos territórios situados em ambas as margens do rio. Mediante a recusa de Buenos Aires em concordar com tal iniciativa, a solução estava em agir pela força. Para os representantes ingleses, se a expedição se realizasse e alcançasse êxito, seria desejável que Buenos Aires ou Montevidéu fosse conservada para Sua Majestade Britânica. Mas o plano sofreu alteração em decorrência da vacância do trono espanhol. A solução estava em introduzir no Prata, como governante, D. Carlota Joaquina por ser irmã de Fernando VII da Espanha.
 
  
D. Carlota Joaquina quis ser rainha em Buenos Aires...
 
 Embora a política britânica de expansionismo mercantil concentrasse os esforços na conquista de mercados e não na conquista de territórios, as pretenções de D. Carlota Joaquina de erigir seu trono no Prata despertou interesse por parte da Inglaterra. O Times noticiou como acontecimento da maior importância: - que Buenos Aires constituia, naquele momento, parte do Império Britânico.
 
Considerando-se as consequências deste facto diante da situação daquele território, das suas possibilidades comerciais, assim como da sua importância política, viam-se, os ingleses, alimentados da ideia sobre as vantagens que poderiam ser tiradas decorrentes da conquista.
 
Continua
 
Therezinha B. de Figueiredo
 Belo Horizonte, 6 de dezembro de 2008
 

LEITURAS DE HOJE E DE ONTEM – 1

 

 
 
O livro é recente, a primeira edição é de Novembro deste ano, trata-se de “Polícia à portuguesa – um retrato dramático”, da colecção LIVROS D’HOJE da editora Publicações Dom Quixote. Os autores são Mário Contumélias e Fernando Contumélias (pai e filho). Li e reli o livro e concluo que contém insinuações muito graves, assim como trata de matérias banais por estas não fugirem à regra geral do que se passa no dia-a-dia das organizações, sob o ponto de vista humano. Refiro-me a compadrios, apadrinhamentos, lutas pelo poder, influências políticas, (qual a organização que as não tem), injustiças, egoísmos pessoais e toda a panóplia de sujidades inerentes às malformações do carácter humano. Crise de valores que abundam por toda a parte e não só na Corporação. Até aqui nada de novo...
 
Depois vêm as questões da formação profissional (inexistente, como se conclui), do material e do equipamento (uma desgraça), mas que não é culpa da Corporação, porque dotar a polícia com armas, carros, fardas, coletes à prova de bala e o mais que é necessário para sua protecção e dos cidadãos, é da responsabilidade dos Governos. Os gratificados que os agentes são forçados a fazer para sobreviverem, assim como terem de comprar, do seu bolso, fardas e outros acessórios necessários ao cumprimento do seu dever, os baixos vencimentos, sendo uma profissão de alto risco, é, no mínimo, degradante, deprimente e escandaloso. Não lembra ao Diabo! A gravidade a que me refiro é as insinuações à existência de situações de corrupção (na Polícia?!!!) e ligação ao crime; mas, se estas situações existem, só uma investigação competente as pode detectar e denunciar... O retrato é, de facto, dramático! Diria mesmo, surrealista. Em próximo postal ilustrado, dirigido aos autores, abordarei a temática da Segurança, para complementar o que penso de alguns dos temas abordados no livro e que deixou transparecer algumas ideias com que não concordo, nomeadamente, quanto a processos de averiguações, disciplinares, perseguições a tiro e outros procedimentos menos recomendáveis sob o ponto de vista da segurança dos cidadãos e da preservação da imagem dos polícias.
 
 
Luís Santiago    

Carta aberta ao Presidente do Brasil

 

 lula_da_silva.jpg
Sr. Presidente
 
Como o Senhor explica que quaisquer empréstimos feitos pela União aos Municípios e Estados do nosso país tenham que ser aprovados pelo Congresso Nacional e os financiamentos a países estrangeiros sejam feitos por simples vontade do Governo?
 
O seu Governo, Presidente, já perdoou dívidas de Angola, Guiné e outros, sem que o Congresso representante do povo fosse ouvido.
Agora os vizinhos, Equador, Venezuela, Bolívia e Paraguai se preparam para nos dar um imenso calote, avaliado em R$ 5.000.000,00 (cinco bilhões de Reais) que lhes foram emprestados em negócios que aparentam, com exceção do Paraguai, não serem muito limpos.
Todo este dinheiro que está em jogo, é dinheiro do povo brasileiro. Não é dinheiro seu, Presidente. Como o Senhor pretende dar explicações do calote que, por sua exclusiva responsabilidade, estamos prestes a tomar?
 
O malbaratar, para não usar outra expressão, dos dinheiros públicos, além do trivial assistir indiferente aos permanentes e milionários desvios de fundos públicos por políticos e seus diretos colaboradores, é caso de polícia.
 
Não se constrói uma estrada nova, não se fazem obras de infra estrutura, não se melhora a instrução pública, quase se ignora a pesquisa científica, em sete anos de governo só se investiram 8% da verba destinada à prevenção de desastres - e acabamos de perder mais de 100 cem vidas humanas só em Santa Catarina - e permite-se que se ponham nas mãos de governos populistas cinco milhões de reais que poderiam transformar para muito melhor um país de semi analfabetos e desempregados? 
 
Não se pode colocar na cadeia o Presidente da República, mas por sua total irresponsabilidade, pode impugnar-se o seu mandato através dum «impeachment».
 
É isso que a sociedade brasileira, consciente e defraudada, deverá fazer.
 
Já.

 

 

                                                   
Francisco G. de Amorim

 

Rio de Janeiro, 01 dez. 08                   

 

POSTAIS ILUSTRADOS - VI

 

Às vezes recebemos postais ao Domingo
 
“Um par de vezes por ano recebo uma carta sobre um certo assunto, um assunto sempre idêntico na sua forma e substância, mas não posso acostumar-me a tal carta que me assombra sempre. Causa-me o mesmo efeito que uma locomotiva. Digo para comigo>:”Vi-te mil vezes, tens sempre o mesmo aspecto, mas és sempre assombrosa e sempre impossível. Urdir-te, excede todas as luzes do génio humano. Tu não podes existir, portanto não existes... e, apesar de tudo, aqui estás!”
 
Mark Twain*
“Uma situação irremediável”, Melhores contos, pág. 131, Edição do Círculo de Leitores – Clássicos da literatura universal.
 
*Pseudónimo de Samuel Langhorne Clemens (1835-1910)
 Foto de Mathew Brady,
 Wikipédia livre
 
 
À minha Mãe
 
Tu sempre exististes,
Mãe, e sempre existirás,
Antes e depois de mim.
Sem teres ido, já partiste,
És saudade, mas ficarás,
Como Flor no meu jardim,
Perfumada e distante,
Companheira és e serás
Da minha Alma errante.
 
 
 
Luís Santiago
Domingo, 30-11-2008

No Brasil, um rei negro

 

 
 ZUMBI
 
 
 
                                                                                                                                                                          
Para despertar sentimentos ou interesses que valorizem a história e seus personagens existe a humana tendência para fantasiar pessoas e factos.
 
No ultimo 20 de Novembro comemorou-se no Brasil o Dia da Consciência Negra, data em que morreu Zumbi o lendário líder de armas e rei negro do Quilombo dos Palmares.
 
Relatam as fontes que em 1693, dois anos antes da morte de Zumbi, o quilombo mais famoso do país caiu fatalmente atingido pelo temido bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, após muitos anos de resistência a ataques de 17 expedições de forças coloniais, primeiramente holandesas e depois luso-brasileiras.
                                                                                                                                                                                        
                     
                    Domingos Jorge Velho        
 
                                         Negros dos Palmares
 
Segundo o artigo de Leandro Narboch - O Enigma Zumbi (revista Veja de 15 Nov/2008), apesar das muitas estórias e lendas o nome Zumbi só aparece em oito documentos da época, inclusive naquele em que se relata a morte dele ao Governador de Pernambuco. Conta ainda que pareceres actuais de professores e estudiosos de História desmistificam o que dizem os livros didácticos escolares brasileiros. O quilombo (agrupamento de escravos negros fugidos, ex-escravos, mestiços e brancos pobres e refugiados) longe de formar uma sociedade igualitária como foi idealizado, onde todos tinham os mesmos direitos a terra e ao poder, se espelhava nos modelos culturais africanos de origem, onde a escravidão estava fortemente enraizada desde o século VII, quando o norte da África foi dominado pelos árabes.
 
 
Representação de Zumbi
 
Dizem os pesquisadores que o conceito de liberdade e igualdade na época do Brasil colonial, não fazia sentido político na Europa, muito menos na África. Mesmo em Angola e Congo, de onde provinha a maioria dos escravos negros brasileiros, os reis tribais eram considerados divindades com plenos poderes, servidos por um grande séquito de escravos. Aliados dos portugueses, alguns desses reis enriqueciam com o comércio esclavagista.  
 
Descendente de família de reis africanos, nascido livre e em Palmares, Zumbi era considerado um líder guerreiro. E quando ascendeu como rei do quilombo, substituindo o seu tio, Ganga Zumba,  muito provavelmente teve escravos para seu uso. Acredita-se que a Republica dos Palmares, como era chamado o quilombo pelos luso-brasileiros,  tinha relacionamentos comerciais com aldeias próximas,  e “acordos de interesse” com as autoridades coloniais que foram quebrados pelo  então governante Ganga Zumba. Levantada a contenda, derrotado pela expedição armada do sertanista pernambucano (ou sergipano) Fernão Carrilho, Zumba aceitou a paz. Porém Zumbi e outros chefes não concordaram com as condições do Acordo de Recife (1678), e resolveram continuar as lutas. Até que em 1693 Macaco, o mocambo principal (aldeia do rei), foi destruído. Mais uma vez Zumbi escapou e reorganizou a resistência por mais dois anos. Mas, traído, morreu lutando pela sua liberdade e dos seus companheiros a 20 de Novembro de 1695. Esquartejado, sua cabeça foi exposta em lugar público, como exemplo, seguindo o modelo de pena capital instituído nos paises ibéricos do século XVII para castigar os traidores da pátria, e para desmistificar a lenda de que era imortal.
 
 
Dados: Revista Veja (15 Nov./2008)
Enciclopédia Universal
Tratado do Viventes (Luiz Felipe de Alencastre)
 Wikipédia
 
 Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 30 de Novembro de 2008.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D