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A bem da Nação

HERESIAS 07

 

In dubio, pro mercato - VII
 
Também a função de garante de último recurso, que muitos Governos têm vindo a assumir recentemente, põe à prova todas as anteriores considerações - e muitos consideram-na uma versão bem mais subtil do modelo do ditador iluminado[1]. Mas será assim?
Há-que distinguir entre dois tipos de risco. Num, todos os indivíduos encontram-se igualmente expostos ao risco (por exemplo, riscos catastróficos) que o Governo entende dever cobrir (isto é, as distribuições de probabilidade a priori individuais, para esse risco, são idênticas). No outro, só alguns indivíduos estão.
No primeiro caso, a mutualização do risco, intermediada pelo Governo, pode ser vista como uma característica mais da organização social subjacente ao modelo (de distribuição do produto social e de orientação do excedente) adoptado - e só o que se passar com a restrição nominal desse Governo e/ou com os preços relativos dessa economia poderá revelar qual o modelo que está a ser objectivamente seguido.
No segundo caso, porém, a vulnerabilidade a comportamentos de "moral hazard"[2] por parte daqueles que podem beneficiar da actuação governamental leva a suspeitar que serão necessários cuidados extremos para que o Governo se mantenha no modelo do mercado. O mais provável é que representem uma maneira subreptícia de modificar os preços relativos num dado sentido.
Em conclusão: nenhum argumento ideológico poderá validamente contrariar - ou, simetricamente, sustentar - a intervenção do Governo na vida económica (enquanto parte de trocas monetárias, redistribuidor de riscos e segurador de último recurso; não já no papel de regulador e supervisor) sempre que actue segundo as regras do mercado - as quais são, como referi: sujeição a uma restrição nominal que é reconstituída exclusivamente mediante trocas monetárias; e não manipulação dos preços relativos. Como qualquer outro agente económico num Estado de Direito, aliás. Se não o fizer, porém, não será a ideologia que o condena, mas a razão que o adverte.
Mas modelo do mercado, por mais voltas que se lhe dê, não é completo. Escapam-lhe as duas variáveis que caracterizam a liquidez: volume e preço.
Dito de outro modo. Um dado produto social, um dado padrão de distribuição do produto social e uma dada estratégia para o excedente são compatíveis com diferentes volumes de liquidez e com diferentes preços da liquidez. Mas o inverso não é verdadeiro: nem todo o volume de liquidez, nem todo o preço da liquidez, servem para atingir e sustentar um dado produto social, um dado padrão de distribuição do produto social e uma dada estratégia para o excedente.
Quando está em causa o volume e o preço do dinheiro, o modelo de mercado não dispensa um ditador iluminado.
Post scriptum: Talvez seja evidente, agora, o motivo que me levou a preferir o termo "Governo" a "Estado". Falar em Estado sugere, quase sempre, finalidades de tal modo importantes que tudo sobrelevam, às quais tudo deve ficar subordinado, contra as quais não é legítimo opôr argumentos - na realidade, é pretender subtraír certos temas à análise independente e ao debate. Ora, como se viu, as duas questões fundamentais do pensamento económico não envolvem finalidades - antes, circunstâncias e modos de agir.
Novembro de 2008
 A. PALHINHA MACHADO


[1] Ou para concluir que o modelo do ditador iluminado não pode ser dispensado por nenhuma sociedade moderna, o que dá um toque de inevitabilidade a uma convicção ideológica. Ou para condenar liminarmente uma tal actuação do Governo, com argumentos igualmente ideológicos.
[2] Moral hazard é a expressão inglesa para definir situações em que o agente económico só aparentemente está exposto ao risco. Pertencer-lhe-ão os ganhos, se ganhos houver; mas será outrém a assumir as perdas, caso ocorram, sem que receba uma qualquer compensação por esse seu sacrifício.

LEITURAS DE HOJE E DE ONTEM – 2

 

 
É daquelas coisas. Passei pelos escaparates e olhei para a capa do livro. O autor não me dizia nada e o título também não. Comprei e li. Não estou arrependido, nem deixo de estar. O que me chamou a atenção foi a capa, com a árvore solitária na paisagem e sobreposta na transparência de um rosto de olhos fechados e o olho esquerdo fechado parece uma nuvem negra ameaçadora sobre a árvore e lembrei-me do meu poema “Outonia” que era sobre uma árvore. O livro com o título “Mais Rápido que a Terapia” é da Editora Pergaminho (Colecção Desenvolvimento Pessoal), cujo autor, Richard Carlson (1961-2006), era psicoterapeuta, especializado em gestão de stress e doutorado em Psicologia pela Universidade de La Sierra, Riverside, Califórnia (*).  
 

OUTONIA

 

O Outono chegou.
Chegou em mudança.
Inconstante, como sempre.
Ora com roupas de Inverno,
Ora de Verão.
A Árvore estava lá.
Deixava cair folhas amarrotadas,
Amarelas e castanhas.
Preparava-se para mudar.
Todos mudamos.
E renascer...?
Renasceremos???
A Árvore
De que vos falei,
Estava lá, desnudando-se.
Lembram-se?...As folhas caindo...
O Olhar?
Esse seguia a trajectória rude
Das folhas secas,
Amarelas, castanhas,
Amarrotadas.
Um outro Tempo,
A mesma Árvore.
Um outro Tempo,
O mesmo Olhar.
Um outro Tempo
E,
Certamente,
Lágrimas diferentes.
Uma Primavera,
No Outono.
 
Luís Santiago

  
Pessoalmente, não comungo da tese do Livro que se baseia numa série de teorias sobre o confronto da nossa consciência espiritual sobre nós próprios, passado, presente e futuro. Não acredito na eficácia das virtudes da autoanálise e autoajuda. Seria fácil demais. Creio que uma ou outra mente superior possa fazê-lo, mas, o ser humano comum necessita de auxílio, é um animal carente de solidariedade. Defendo, pois, que para os nossos males da mente, precisamos de fazer psicanálise e de um profissional competente que nos ajude. De qualquer das formas o livro é uma das tentativas de aprofundar o conhecimento da psique humana que como tal não rejeito. Alguém algures alguma vez no tempo me confessou que vivia atormentado pelos segredos da sua consciência e eu lembro-me de lhe ter respondido que os segredos da nossa consciência são como os escolhos que flutuam no mar, existem e quando menos se espera dão à costa... 
 
(*) Informação recolhida na Wikipédia livre
 
 
 
 Luís Santiago

HERESIAS 06

 

In dubio, pro mercato - VI
 
O papel do Governo no modelo de mercado, com a moldura ideológica de um Estado de Direito, é, dir-se-ia, óbvio:
o          Criar (e manter) as condições (regulação e supervisão) para que a estrutura de preços relativos reflicta a insatisfação (informação) dos agentes económicos (enquanto produtores e enquanto consumidores), dadas as restrições nominais com que eles se confrontam;
o          Criar (e manter) as condições (regulação e supervisão) para que o ciclo de distribuição permaneça dentro de limites temporais toleráveis.
Para tanto, a acção do Governo terá de ir mais longe na esfera nominal, incidindo: já, no volume do dinheiro em circulação; já, na dinâmica que reconstitui as restrições nominais através das trocas monetárias; já, nos preços do próprio dinheiro (as taxas de juro, no caso, taxas directoras).
A ironia de tudo isto é que o modelo do mercado, para funcionar, carece de um volume de dinheiro suficientemente estabilizado, em linha com o execedente económico, o que sugere a presença de um novo tipo de ditador iluminado, entretido, agora, nas tarefas de fixar o volume e o preço do dinheiro. Mas, tal como o outro ditador iluminado, também este se debaterá permanentemente com os problemas que envolvem tempo e informação.
Por isso, o modelo do mercado é um modelo incompleto: não aponta para uma única solução optimal (contrariamente ao que pretende o ótimo paretiano).
Até agora, nada permite concluir, seja pela não-interferência, seja pela bondade da interferência do Governo na vida económica – e concluir num sentido ou noutro seria, isso sim, assumir uma posição eminentemente ideológica.
Aliás, os Governos estão permanentemente a agir no mercado e a agir sobre o mercado. Agem, desde logo, no mercado através de trocas monetárias, para disporem dos meios necessários à governação.
Agem, depois, sobre o mercado com o propósito de reconstituirem as suas próprias restrições nominais (a restrição orçamental) e, assim, obterem o dinheiro de que precisam para efectuarem essas trocas. E fazem-no de duas maneiras: ou através da tributação (outra manifestação de poder que torna mais apertadas as restrições nominais dos restantes agentes económicos e altera a distribuição do dinheiro/liquidez), ou através da emissão de moeda (ainda uma manifestação de poder mais, que dá alguma folga a uma ou outra restrição nominal, mas que altera, uma vez mais, a distribuição da liquidez).
São outras, porém, as interferências/intervenções a que as teses iniciais se referem. O que nelas está em causa é a substituição do mercado pela acção directa do Governo (não enquanto regulador e supervisor, mas enquanto agente económico, do lado da oferta ou do lado da procura, distribuindo o produto social e orientando o excedente) nos casos em que o mercado funcione mal, ou não funcione, tout court - é a investidura do Governo no papel de ditador iluminado.
Desde logo, afirmar que o mercado funciona mal é uma conclusão ideológica. O ponto de partida teórico é que qualquer dos dois modelos só funciona inequívocamente mal em condições extremas: quando a distribuição do produto social e/ou a orientação do excedente, segundo o modelo em causa, conduzam a sociedade ao colapso inevitável e condenem a sua população, ou ao desaparecimento, ou à dispersão. Até se chegar aí, qualquer dos modelos convive com um largo espectro de injustiças sociais, detectadas consoante os ângulos da observação ideológica.
Todavia, se o Governo adoptar o modelo de ditador iluminado para suprir as deficiências do mercado: ou se presume omnisciente e esclarecido, e terá que revelar, então, de onde lhe vêm essas luzes; ou tropeçará em todos os obstáculos que foram assinalados antes - e poderá aproximar a sociedade do colapso.
Se, porém, seguir o modelo do mercado, deverá assumir-se um agente económico mais, com tudo o que isso significa: sujeitar-se a uma restrição de natureza monetária; e não distorcer os preços relativos em seu próprio benefício.
É justamente aqui que as intervenções dos Governos na vida económica tendem a falhar. Agem como se fossem ditadores iluminados, mas não se apercebem de que dispõem, apenas, de informação parcial, quantas vezes, desactualizada e de má qualidade.
Respaldados no poder de tributar, furtam-se ao espartilho de uma restrição nominal e perdem completamente a noção de que, em divisão do trabalho, toda a escolha tem o limite que decorre do produto social e da dimensão do excedente.
Animados pelo poder de criar dinheiro (monetizando a dívida pública), esquecem que qualquer variação no volume dos meios de pagamento em circulação se reflecte de imediato na estrutura de preços relativos (veja-se a sensibilidade das taxas de câmbio) e altera de modo dificilmente previsível as escolhas admissíveis dos restantes agentes económicos.
Não se apercebem de que os impostos cobrados em dinheiro dependem, tanto dos ciclos de tesouraria individuais, como da capacidade que a sociedade tenha para gerar excedentes.(cont.)
Novembro de 2008
A. PALHINHA MACHADO

POSTAIS ILUSTRADOS – VIII

 IGAI

 
 
A Segurança do Cidadão Português
 
PARTE II
 
No seguimento do texto anterior, vou começar pelas investigações em processos de averiguações ou disciplinares e pela veemente contestação que sofrem estes procedimentos. Será que são necessários? A esta polémica juntam-se as proibições de perseguições em alta velocidade e as do uso das armas de fogo. Há aqui uma contradição aparente que se dilui facilmente se nos detivermos um pouco sobre o que no próprio livro é afirmado pelos interlocutores anónimos. Então se os agentes não têm formação competente para fazer uso das armas e sequer possuem experiência e pontaria, segundo os próprios afirmam, para acertar nos alvos, tratando-se a maior parte das vezes de alvos em movimento e as armas não servem ou estão em péssimo estado de conservação, é sensato que disparem à toa? E se as consequências desses disparos tiverem efeitos colaterais? E se, perseguindo um carro em alta velocidade, os criminosos levam uma criança raptada, que a polícia desconhece, por exemplo? Ou levam o proprietário que foi sequestrado no momento do roubo? Vou, mais tarde desenvolver estas secções, no âmbito das competências do IGAI, para que percebamos do que estamos aqui a tratar. A arma deve ser usada? Concerteza, mas em que condições? Claro que se não fosse necessário usá-la também não seria lógico e necessário distribui-la. Isto levanta uma questão de primeiro plano que é a existência de uma entidade fiscalizadora. Todas as polícias do Mundo têm os “Internal Affairs”, (traduzindo para a gíria: Polícia dos Polícias) cujas competências estão representadas no IGAI. Ora, a morte de um cidadão, seja ele criminoso ou não, merece ser esclarecida publicamente. E isto é para preservação da imagem da Polícia e tranquilidade dos cidadãos. Os próprios agentes deveriam ser os primeiros a querer que, se dúvidas existissem sobre o seu procedimento, envolvimento numa morte de um cidadão e cumprimento dos protocolos, fossem investigados, para cabal esclarecimento dos acontecimentos. É claro, partindo do princípio, que falo num patamar de consenso em que tudo teria de ser feito de um modo correcto e sério entre investigadores e investigados. E que os protocolos para cada caso fossem seguidos, rigorosamente, por ambas as partes envolvidas. Lembro o recente caso da agência de Ourique, com um sequestrador abatido por um “sniper”. Nem sequer pus em causa a legitimidade do atirador policial ao cumprir a ordem recebida, nem contestei a legitimação de quem deu a ordem. Os factos foram públicos e de suficiente notoriedade para que não restassem dúvidas. Era o final esperado. O tiro foi limpo e resolveu a situação com o mínimo de consequências. Exposto isto, não abandonarei as linhas gerais do livro aqui em análise e do que este traz timidamente à superfície, nomeadamente, condições de desempenho, formação, carreiras, etc..., excluindo, como é óbvio, as lutas entre classes de polícias de carreira e militares e de quem mais se põe em bicos de pés. Muito embora reconheça que esta situação interna dificulta o desempenho de Corporação, isso terá de ser resolvido no seu interior, com bom senso e por via da intervenção política. Neste momento estou mais interessado em debruçar-me sobre factores exógenos e técnicos, como a formação, a cooperação interpolicial e a interdisciplinaridade das matérias que a envolvem.
 
 Luís Santiago

PAREI

 

 
Mexendo apenas os olhos, talvez alguém me tenha tomado por homem-estátua mas na verdade nada fiz por isso. Estava eu muito mais interessado em ver do que em ser visto. E por isso parei de costas voltadas para a montra duma sapataria, ali bem no centro do bulício na praça central. Houve mesmo quem viesse olhar para os sapatos e botas a trás de mim e fizesse comentários quase ao meu ouvido como se eu tivesse alguma coisa a ver com o assunto. Mas não lhes dando troco, logo percebiam que eu não estava virado para a conversa.
 
E no meio da multidão vi grupos risonhos, sisudos, brancos, mistos e pretos mas também vi um ou outro parecendo isolado. Poucos, os que se exibiam; a maioria passava com naturalidade e até havia os que passeavam. Por mim passou gente que aparentava aquela erudição que se banqueteia na livraria à minha direita, os que iam comprar berloques na loja à minha frente, os que exibiam o cós das cuecas e as calças descaídas os 17 centímetros da praxe com o gancho a roçar os joelhos. Passou gente elegante mas também vi um entrevado em cadeira de rodas vestido a rigor com um fato de treino, caso que de imediato elegi como a melhor definição de paradoxo.
 
 universo0.jpg
 
Foi assim que voltei a pensar no conceito do universo antropocêntrico. Mais concretamente, no universo egocêntrico. Cada um daqueles que passava à minha frente correspondia a um universo autónomo. Eu próprio sou o centro do meu próprio universo e por muita afinidade que tenha – e tenho – por quem me rodeia, nomeadamente a família, eu sou eu e nada tenho intrinsecamente a ver com outra pessoa. Quando eu desaparecer toda a minha relatividade desaparece. E a minha relatividade é a definição do meu universo.
 
Parei e por nada esperei: observei os passantes lembrando-me daquela frase do Padre Manuel Antunes em que ele referia «o esplendor sem limites do mistério da nossa existência comum»[1]. E notei que os universos se cruzavam com milímetros de distância, que casais andavam de braço-dado, que pais davam a mão a filhos, que muitos – quase todos – se cruzavam ignorando-se mas cada um tinha, consciente ou inconscientemente, uma relatividade própria que ia desde a nano-dimensão do seu interior físico até à escala inter-galáctica porque tudo isso tem um centro: o espírito de cada um. E por muito insignificante que o personagem possa ser, por muito despercebido que passe, é contudo o centro de um universo que ele pode crer finito mas que na realidade é infinito.
 
Sim, sendo o Universo infinito, o universo individual de que cada um de nós é o respectivo centro, é igualmente infinito. E não pode ser finito porque se assim fosse, então isso significava que o limite só existiria para determinar que tudo acabaria ali. Mas se para além daquele limite nada existisse, então o limite não existiria também porque uma parte de si já estaria no âmbito da inexistência e como uma metade só pode existir em função da outra metade, então isso quer dizer que o lado inexistente, afinal, existiria. E se existia, então isso significava que, afinal, daquele lado alguma coisa existia. E se existia ali alguma coisa, então o limite não era real. Um limite irreal é a ausência de limite e o que não tem limite é porque é ilimitado. Ou seja, o universo individual é ilimitado porque não o conseguimos medir nem lhe concebemos o limite. E mais do que dispormos ou não da capacidade para nele nos movermos em tempo útil, colhem os conceitos de finito, de infinito e de tempo para podermos esperar pelo dia em que os nossos sucessores consigam ir mais além no domínio de tais conceitos.
 
A função espaço-tempo é um tema tão bom como qualquer outro para se pensar de costas voltadas para a montra duma sapataria em frente da qual passam universos infinitos que esplendorosamente convivem … ou pacatamente se ignoram. Mas chegado a casa decidi aprender alguma coisa mais concreta sobre o tema e fui à Wikipedia. Encontrei muita informação e decidi-me por uma que me pareceu mais acessível:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Espa%C3%A7o-tempo
 
Frustrado, concluí que ainda tenho muito que aprender para perceber a introdução ao tema…
 
 
Dezembro de 2008
 
 Henrique Salles da Fonseca


[1] - Faria Blanc, Mafalda – MEMÓRIA DE ESTUDANTE, in “Ao encontro da Palavra – homenagem a Manuel Antunes”, Edições Cosmos, 1985

NOTA DE CONJUNTURA DO INSTITUTO DA DEMOCRACIA PORTUGUESA

 

 
 

4 de Dezembro de 2008

1. O Presidente da República, Cavaco Silva, defendeu hoje que Portugal tem de mudar, «tão rapidamente quanto possível», a sua estrutura produtiva, para que possa competir no mercado global. Pediu assim algo que não conseguiu produzir enquanto foi chefe de Governo por mais de uma década.
Portugal sofre hoje de uma imensa falha estrutural no sistema produtivo, após 20 anos de desinvestimento no sector secundário em favor da terciarização da economia portuguesa a fim de obter maiores índices de crescimento do PIB, via procura interna.
O paradigma produtivo mundial alterou-se de mão-de-obra intensivo (linhas de produção onde a mão de obra é o factor mais relevante) para capital intensivo (o investimento e a mão de obra qualificada em pequena quantidade); de pouco ou nada serve a tão falada flexibilização das leis do trabalho e a revisão do Código do Trabalho em nome de uma competitividade que já não existe pois a mão de obra é cada vez mais barata.
Não é só o IDP que se apercebeu destas tendências, muito embora tenha sido das primeiras organizações a fazê-lo.
Hoje, quase todas as forças políticas perceberam que estamos numa fase de redefinição dos modelos produtivos e, por consequência, dos modelos sociais e do próprio sistema governativo. Não é por isso de estranhar que até os "maoístas" da nossa praça venham agora a público defender novos modelos e reflexões; só o PCP regrediu para os velhos modelos e mesmo o PR agora defende reformas urgentes no próprio modelo produtivo que ele ajudou a criar.

2. O IDP tem um desafio pela frente: o de atrair um público mais intelectual, pessoas que dificilmente se convencem dos benefícios de uma outra democracia, que não a vigente.
Em Portugal, as revoluções e regenerações resultaram sempre de grupos sociais mais esclarecidos (talvez o 25 de Abril seja uma excepção - pois foi um movimento de capitães e não de generais). Mas em todo o caso as regenerações nunca ocorreram de "baixo para cima", embora o apoio popular estivesse sempre lá...Aqui também conta a "psique" lusa de pensamento único (o povo chama-lhe "maria vai com as outras") que é essencialmente consequência de sermos um estado-nação há muito tempo, em que as decisões políticas aparecem unânimes porque foram sendo destiladas durante muito tempo
Quebrar os preconceitos – os sistemas ideólogicos estanques – das classes mais instruídas é o verdadeiro e principal desafio que se coloca em Portugal na aurora do sec XXI e para o qual o IDP se propõe contribuir, “rapidamente e em força”. Tal só se consegue com um discurso denso, acessível e sério e com propostas feitas em conjunto com aqueles que pensam 24/7 nos problemas da sua profissâo, região ou responsabilidade.
Desenganem-se aqueles que julgam ver grandes capacidades no Governo ao colocar a Caixa Geral a absorver tudo o que é banco falido. O prenúncio da falência (ser-se vendido aos bocados é a mesma coisa) e a recusa em absorver os activos já revela que o Governo está a preparar-se para outros casos mais graves e o simples facto da própria CGD pedir aval ao Estado já revela que a sua capacidade de absorção está no limite.
Em todo o caso, dificilmente evitaremos uma repetição do cenário financeiro dos anos 80 quando para conseguir empréstimos era necessária alguma filiação partidária.
Para grandes resultados, é preciso começar por uma boa ideia e esforço e não por rios de dinheiro. Portugal não se fez assim, E o PR, que teve os ditos "rios", não impediu o País de caminhar para uma incompetência galopante.
Diferentemente dos que dizem que “temos um sistema democrático a funcionar perfeitamente” ou dos que ironizam sobre “seis meses de suspensão da democracia”, nós achamos que "os males da democracia curam-se com mais democracia e não com menos”. É objectivo do IDP o debate na sociedade civil e o diálogo com todas as forças partidárias de como ter “mais e melhor democracia portuguesa”. Isso mesmo foi apontado na recente Mensagem de 1 de Dezembro do Chefe da Casa Real, sendo esta um activo que a República só ganharia em reconhecer oficialmente.
 
 Mendo Castro Henriques

HERESIAS 05

 

In dubio, pro mercato - V
 
Temos assim, de um lado, um modelo (o do ditador iluminado) que, à luz da evidência:
o          Não consegue resolver a incompatibilidade entre uma restrição real (a natureza limitada do produto social) e as preferências individuais não-limitadas;
o          Presume a informação completa sobre as preferências individuais, mas não descreve como obtê-la (salvo se se fixar a hipótese, esta, sim, sumamente ideológica, de que o ditador é omnisciente e iluminado);
o          Deixa na sombra o problema do tempo no ciclo real (daí as imagens de longas filas de espera frequentemente associadas a este modelo).
Do outro, o modelo do mercado, que pode (e sublinho "pode"):
o          Compatibilizar a restrição real com a agregação das escolhas admíssiveis;
o          Proporcionar a informação que molda a distribuição do produto social e a orientação do excedente segundo os padrões de preferência individuais;
o          Atribuir um valor ao tempo, logo, inscrever o tempo nas preferências individuais.
Tudo isto, não em quaisquer circunstâncias, mas em certas condições quanto ao volume e à distribuição do dinheiro que circula - e desde que exista excedente, sem o qual o problema do tempo também não terá aqui solução (talvez por isto, o modelo de mercado é visto como o das sociedades do desperdício).
Ainda hoje, são muitos os que vêem na restrição de natureza monetária uma nova forma de violência, tanto mais insidiosa e intolerável quanto, à primeira vista, parece ser imposta por um poder sem rosto. Cabe perguntar se estarão eles cientes da violência e da frustração que a alternativa pode arrastar - e se estarão preparados para renunciar à sua capacidade de escolher.
Entre um modelo que só admite uma saída ideológica (os indivíduos são comedidos e pacientes, tal como o ditador iluminado é omnisciente, parcimonioso e eficiente), e um outro que confia na interacção das escolhas admissíveis individuais, expressa em trocas monetárias, para distribuir o produto social e orientar o excedente - a decisão não parece difícil, embora nada tenha a ver com a realização de um qualquer critério de justiça distributiva (e nada há de mais ideológico que um critério de justiça distributiva). A razão é outra.
O modelo do mercado contém, nele, um processo de aprendizagem sistemática ao alcance de todos e baseado na estrutura dinâmica dos preços relativos, desde que estes veículem, com fidelidade, a insatisfação pelo modo como esteja a ser distribuído o produto social e/ou orientado o excedente - é certo que no quadro redutor das restrições nominais. Afinal, nada mais é que um processo ininterrupto de lance, erro e novo lance em correcção de trajectória.
No modelo do ditador iluminado, só ele é o verdadeiro agente económico - e sem fazer apelo à hipótese sumamente ideológica da informação completa, só conseguirá aperceber-se da insatisfação dos inúmeros indivíduos que dele dependem, e estes só poderão influenciar a distribuição do produto social e a orientação do excedente (sem alongarem desmedidamente o ciclo da distribuição), se existirem circuitos de feed-back - que o modelo, aliás, não diz quais sejam, nem como podem ser construídos.
Esquemas de auscultação permanente não resolveriam, uma vez que, neste modelo, nada limita ex ante as preferências individuais, tal como nada garante que estas permaneçam estáticas ao longo de cada ciclo da distribuição[1].
Optar pelo modelo do mercado não é dar nenhum passo no sentido da justiça distributiva, muito menos, fixar a priori a orientação óptima para o excedente[2]. É, sim, lançar mão daquele modelo, de entre os dois em confronto:
o          Que revela maior capacidade para conciliar conflitualidade (provocada pela insatisfação individual, a nível da distribuição do produto social e/ou da orientação do excedente) e organização social (baseada na divisão do trabalho);
o          Que contém processos de correcção sistemáticos ao alcance de qualquer pessoa porque todas as pessoas são agentes económicos (todos elas podem, em princípio, influenciar a distribuição do produto social e a orientação do excedente);
o          Que, afinal, permite que cada agente económico contrarie aquilo que ele entende ser um afastamento relativamente ao óptimo.
Deixa, no entanto, por resolver muitos e importantes problemas - designadamente: Que volume de dinheiro manter em circulação? Como atingir a estrutura de preços relativos que melhor informe sobre os padrões de preferência individuais? Como assegurar que a estrutura de preços relativos reflecte, em cada momento, as constantes modificações nas preferências individuais? Como evitar que o alargamento dos ciclos de tesouraria individuais leve à exclusão de agentes económicos do mercado e mine a organização social? Como conter os ciclos de distribuição em limites temporais tolerados pelos agentes económicos?
Problemas para os quais o modelo do ditador iluminado com "bónus de compra" (ou, numeraire), uma vez desligado das suas convicções ideológicas, também não tem resposta. (cont.)
Novembro de 2008
 A. PALHINHA MACHADO


[1] Apetece parafrasear Joan Robinson: numa sociedade que esteja organizada em torno da divisão do trabalho, pior que se submeter ao jugo de uma restrição de natureza monetária, é ter de conviver com quem não está sujeito a uma tal restrição.
[2] Mas é possível prosseguir medidas de justiça distributiva no contexto do modelo do mercado, perfeitamente plausíveis, sempre que o Governo redistribuidor se subordine a uma restrição nominal e não manipule os preços relativos.

Herança judaica

      

 
                            
Análise do DNA de espanhóis e portugueses mostra o impacto da conversão forçada dos judeus ibéricos.
 
“As linhagens paternas (transmitidas pelo DNA dos cromossomas Y) dos portugueses e espanhóis têm em média 20% de genes de ancestrais judeus sefarditas  ( judeus ibéricos) e 11% de norte-africanos (mouros). ” Relatam pesquisas de Universidades Europeias e Israelenses (“A FOLHA DE SÂO PAULO” (05/12/08) no sector de Ciências).
 
A presença judaica chegou à Europa após a conquista de Jerusalém pelos romanos (63 a C), e à Península Ibérica, principalmente, com a conquista dos mouros (700 d.C ). Com a reconquista Cristã (concluída em 1492) e a Inquisição, os judeus que não aceitaram a conversão forçada se refugiaram em partes mais distantes do império colonial como na India,  Madeira, Açores, Américas, e em outros paises europeus, mais tolerantes com o  estilo de vida  religioso do povo judeu.   
 
 
 
Essas pesquisas comprovam que, em Portugal, não foi só na história dos Pereira e Oliveira que o povo judeu deixou raízes, foi também na herança cultural-genética e na expansão geográfica que ela propiciou. 
  
 
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba 07/12/08
 
 

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