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A bem da Nação

PASSE DE MAGIA

 

 

 

 
 
Deriva é a sensação que todos temos quanto ao rumo colectivo que seguimos. Temos a ideia de que não há um objectivo a alcançar, de que o país vive apenas o dia-a-dia como se isso fosse ‘coisa’ normal e suficiente. Mas também todos sentimos que há muito por fazer para que nos possamos assemelhar aos países mais desenvolvidos.
 
O quê? Eis a questão que coloco aos portugueses que me lêem.
 
Mais objectivamente: - Na sua opinião, o que é necessário fazer para que Portugal dê um salto significativo na escala mundial do desenvolvimento?
 
Sim, imagine que o Presidente da República o/a chamava a Belém e lhe dizia:
- Dou-lhe uma legislatura (4 anos) para que coloque Portugal no topo da lista dos países desenvolvidos.
 
Peço-lhe que seja sintético referindo apenas tópicos, que as medidas enunciadas sejam compatíveis com o modelo democrático ocidental e que considere o ‘passe de magia’ como um acontecimento apenas relativo à aprovação parlamentar das medidas por si propostas. Reserve para textos posteriores a explicação sobre as medidas que enuncia. Peço-lhe que não ultrapasse as 12 medidas de política.
 
Utilize construtivamente as ‘páginas’ do “A bem da Nação”.
 
Cá ficamos à espera.
 
Agosto de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca

A VERGONHA DA AUTÊNTICA CRISE SOCIAL


 
Portugal vive grave crise social. Toda a gente sabe isto. Os jornais repetem diariamente os contornos do drama, sucedem-se manifestações e protestos, a oposição orienta nesse sentido as críticas crescentes. Ninguém tem dúvidas de que, em vez das prometidas recuperação e prosperidade, caímos em séria perturbação económica. Mas o que está mesmo a acontecer de novo? Quais os factos concretos que sustentam este clima depressivo? Onde está a tão propalada crise social?

Quem pretender responder séria e serenamente a estas questões encontra obstáculos inesperados. A economia não está em recessão, nem sequer próxima; o crescimento económico abrandou ligeiramente do nível baixo que tem há anos. O desemprego não subiu, nem se prevê que venha a subir muito para lá do nível alto em que permanece há bastante tempo. Mesmo nos preços, em que os rumores dos mercados do petróleo e alimentos prometem terríveis desenvolvimentos, as mudanças são mínimas: a inflação acelerou, mas para níveis aceitáveis e, apesar dos esforços jornalísticos, nunca mais se dá um efeito sério que justifique tanto barulho. De facto, o cenário económico que as instituições respeitáveis traçam para o futuro próximo do nosso país não é catastrófico. Pelo contrário, parece copiado da situação que vivemos há algum tempo.

Nos indicadores sociais, pobreza e desigualdade, o quadro disponível ainda se refere apenas a 2006. Devido à superior complexidade do fenómeno, os números andam atrasados e ninguém arrisca previsões seguras. Mas também aí a situação parece ser de continuidade. A taxa de pobreza em Portugal, calculada segundo as regras da UE, há dez anos que flutua à volta de 20% da população. O último valor publicado, de 2006, até registou uma descida para 18%. Os desenvolvimentos posteriores assinalam uma redução, não um aumento da indigência. Os pobres não têm automóvel e não são muito afectados pelo preço do petróleo. Além disso os empregos não especializados têm grande procura e falta de candidatos. Como entretanto a imigração abrandou e a emigração aumentou, é provável que a referida tendência de redução dos pobres continue após 2006.

Na desigualdade de rendimentos passa-se um fenómeno paralelo, com a situação estável há mais de uma década. Os jornais dão grande impacto à notícia de que somos um dos países da Europa com maior disparidade. Isso é verdade, e é há muito tempo. E nem sequer diz grande coisa, dado que estamos a comparar-nos com os países de menor desigualdade do mundo. É verdade que o fosso entre ricos e pobres subiu entre nós face ao que tínhamos antes da democracia. Isso seria sempre inevitável, devido ao desenvolvimento, agora agravado pela globalização. O problema merece atenção cuidada, mas está longe de ser a prioridade aflitiva que os propósitos mediáticos afirmam.

Quer tudo isto dizer que não temos uma crise social? Não. Quer dizer que a crise que sofremos é bastante mais subtil e complexa do que as abordagens comuns asseguram. Existem muitos sinais, não de um agravamento do fundo da escala social, mas de sérias dificuldades nos extractos imediatamente acima. A nossa crise social está na classe média.

Uma parte importante da população portuguesa, que tinha algumas posses e muitas ambições, acreditou nos discursos que os governantes andam a produzir há dez anos. Apostou na educação, comprou casa e carro, endividou-se ao banco. Depois veio o desemprego, doença, trabalho precário, prestações crescentes. Em vez de subir, caiu em grandes dificuldades. Normalmente ainda tem património, a casa hipotecada, carro velho, mas não sabe o que porá no prato esta noite. É uma pobreza envergonhada, desiludida, revoltada. Este é o verdadeiro rosto da nossa crise social.

As políticas contra a pobreza não vão aliviar as dificuldades. Como os responsáveis que criaram a situação ainda não a perceberam, conceberão medidas complexas, mas ao lado dos sofrimentos. Alvoroçados, não pelo problema, mas pelo ataque político, proporão programas que calem os críticos, sem resolver o drama.
 
 
 
João César das Neves
professor universitário

 

A FILOSOFIA DO PODER

 

 
 
 
No plano da relação individual com o materialismo cada pessoa é o centro do seu próprio Universo e o que a cada um respeita nada tem intrinsecamente a ver com aquele cujo ombro roça em ajuntamento momentâneo. Por muita proximidade que haja na geografia ou nas opiniões, isso não obsta a que os Universos sejam diferentes. A vida é de cada um e cada um é efectivamente o centro do seu próprio Universo. Haverá tantos Universos humanos quantas as pessoas que existam; haverá tantos Universos quantos os seres vivos existentes. Esses Universos poderão ser mutuamente estranhos, coincidentes em partes marginais ou significativas mas, na essência, são totalmente independentes. Se o centro desaparece, todo esse Universo deixa pura e simplesmente de existir.
 
Foi para tentar harmonizar essa multiplicidade de Universos que surgiram as normas de convivência. Chamemos-lhe civilidade. E à resistência humana a essas normas trouxeram as religiões a ameaça da ira divina para castigo dos relapsos. É que todas as religiões, para além das matérias de Fé, sempre implantaram códigos de conduta.
 
Quando dizemos que alguém é um selvagem significamos que se trata de pessoa que não cumpre as nossas regras de conduta, que assume comportamentos diferentes daqueles por que esperamos. Mesmo assim, admitimos que esse alguém se reja por um certo código – nosso desconhecido – que lhe define os comportamentos. No verdadeiro sentido etimológico, selvagem é aquele que se rege pela lei da selva. E essa selva tanto pode ser a verde, das árvores, com muitos bichos e poucas pessoas como pode ser a do cimento, a urbana, com poucos bichos e muitas pessoas.
 
Mas sempre deve haver um código de conduta. Nas prisões há regras que devem ser cumpridas, sem o que a vida corre perigo. Podemos não concordar com esses códigos, podemos considerá-los errados, eles podem ofender a nossa ética e a nossa moral. A esses comportamentos que deturpam o nosso sentido do bem e do mal chamamos imorais.
 
Mas, mesmo assim, ainda esse limite pode ser ultrapassado: o desconhecimento do bem e do mal, a ausência de moral, a amoralidade.
 
Eis como podemos possuir uma moral a toda a prova e, contudo, roçarmos o ombro por alguém que seja amoral.
 
E se a moral é a questão dos princípios e a ética a questão dos factos, fácil será admitir que quem não tenha princípios também não tenha um comportamento ético.
 
A globalização conduziu-nos à filosofia do poder e a lógica predominante é a da obtenção do poder, de preferência o absoluto. Não interessa como. A questão não se coloca no campo da imoralidade. Tudo funciona na amoralidade.
 
Agosto de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca

CRÓNICAS DO BRASIL

Galinhas votantes !
 
No país da «idade do bronze» na educação e cultura - veja-se o quadro das medalhas em Pequim - que só deve safar outro metal em alguns jogos colectivos, a luta por uma eleição, qualquer que seja, mostra-se acirrada, e vale tudo.
 
O STF entendeu que "a presunção de inocência" tem que prevalecer na democracia, o que permite a gangsters com processos de homicídios, formação de quadrilha, desvios de dinheiros públicos, improbidade administrativa, corrupção, tráfego de drogas, e outras qualidades morais e físicas similares, a correr na justiça (justiça ???), mas parados, concorram a cargos que deveriam ser de alta responsabilidade. Dizem os supremos juízes que o povo, ignorante e sem fontes populares de consulta, se informe sobre o perfil do candidato a escolher. Onde? Com quem?
 
Em Pequim... estes candidatos... seriam abatidos e o assunto «democracia» ficava resolvido!
 
 
Aqui onde a educação e cultura não avançam, onde de ano para ano o governa-se reduz o orçamento dos ministérios (ir)responsáveis, a figura do Brasil nas Olimpíadas é de um país que não saiu, nem parece querer sair da «idade do bronze»!
 
Mas no processo eleitoral devemos ser os campeões. Pelo menos em criatividade para captar o voto dos eleitores... ignorantes.
Um ex prefeito, ex deputado, ex assessor de governador, de nome Cabelouro - como as princesas mouras de olhos azuis do velho cancioneiro medieval - que se candidata a outra prefeitura, e que tem o número 15 na lista, decidiu, lá no interior do Piauí, fazer uma inusitada propaganda: distribuir a cada votante uma caixinha com 15 pintainhos e mais um saco de ração!!!
 
O tribunal eleitoral decidiu mandar apreender os sacos de rações, mas os pintos... já galos e galinhas, desconfiguram a dádiva inicial e não devem ser aprisionados. Ou o tribunal acordou tarde, ou o pinto brasileiro cresce muito depressa, sem qualquer segundo sentido.
 
E o povo que, ou faz-se ou é estúpido como as galinhas, talvez vote mesmo no tal Cabelouro.
 
Viva a democracia.
 
N.- Entretanto o Brasil já ganhou uma medalha de ouro na natação. Viva!
 
 
Rio de Janeiro, 15 de Agosto de 2008
 
Francisco Gomes de Amorim

Pérolas chinesas

 

 
 
 
Depois da abertura dos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, a China mostra um pouco mais do seu país e da sua rica cultura. Na sua filosofia de vida que inclui exercícios físicos de alongamento ao ar livre, para todas as pessoas, jovens ou idosas, onde a mente e o corpo interagem, o emprego de ervas medicinais na tradicional Medicina Chinesa e de comidas exóticas, como carne de cachorro e espetinho de escorpiões à mesa, vê-se a aplicação de provérbios populares no cotidiano, um costume milenar.
 
Segundo o professor de comunicação social Francisco Gonçalves Duque (Faculdade Helio Afonso): “Os ditados populares traduzem a sabedoria de um povo”.
 
Vivendo o seu habitat o homem ganhou experiência e sabedoria, conhecimentos que se transformaram em máximas quando passaram de boca em boca através dos tempos.
Com a descoberta da escrita os ditados populares seguiram um caminho. Foram da pedra ao papel, passaram à História, registados nos livros sagrados, nas sentenças de sábios e juizes, nas palavras dos reis. Surgiram na voz do povo, nas expressões lúdicas das crianças, no conselho dos velhos.
Nos para- choques  de caminhões, nos outdoors das ruas, nas propagandas das TV(s), nos sites de computadores, nas páginas dos jornais, os ditados populares são com frequencia utilizados. É aquela sabedoria que chega a todas as esferas da intelectualidade, desde a linguagem popular à erudição dos letrados. É a via que se emprega quando se quer dizer alguma coisa em poucas palavras e com rapidez, atingindo de chofre o âmago da questão.
Os provérbios reflectem a maneira de se pensar, as crendices, ideias, conceitos e pré-conceitos da sociedade a que pertencemos.
 
Em homenagem à China de todos os tempos, algumas “pérolas” da mentalidade chinesa para ilustrar:
 
- A medicina só pode curar as doenças curáveis
-O homem violento é derrotado na batalha da vida.
-Quando o dinheiro fala, a verdade cala.
-A língua é mole e fica, os dentes são duros e caem.
-O sábio não diz tudo o que sabe, o tolo não sabe o que diz.
-Mais forte é aquele que não precisa mostrar a sua força.
-O homem que não domina as suas emoções é por elas dominado.
-Nada falta no funeral dos ricos, excepto alguém que sinta a sua morte.
-Antes de começar o trabalho de mudar o mundo, dê três voltas dentro de casa.
-O único animal verdadeiramente racional é o caranguejo, porque nunca avança rumo ao desconhecido.
(Ditados retirados da revista Diálogo Medico, ano 13 n.o7).
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 16/08/08
 
 

PÁGINAS SIMPLES DE DOMINGO – 8

 

 
SALSAS ONDAS
 
Sacha Guitry (1885-1957)
 
[...] une femme ne quitte en général un homme que pour un autre homme - tandis qu'un homme peut très bien quitter une femme à cause d'elle.
 
Qu'est-ce que ça peut ficher qu'il ait une jolie femme! Entre hommes, on ne se complimente que sur ses maîtresses.
 
Ah! Que c'est difficile de se décoller... c'est affreux !... j'aurais dû l'épouser... nous serions séparés depuis longtemps !
 
Je crois que les femmes ne penseraient jamais à nous, les hommes, si elles étaient exactes.
 
 
Entre duas serenas voltas na sua antiquada prancha de wind-surf, o meu amigo Manuel recita frases completas de Sacha Guitry que na juventude os pais o faziam ouvir em disco para afeiçoar o ouvido à língua. Mas quando a sarrazina aperta e a vela pesa, o Manuel deixa-se ficar na areia e explica-nos com enorme evidência os meandros da física quântica, até aí puro chinês do norte para nós, chineses do sul. Engenheiro licenciado em Lisboa e Doutorado em Inglaterra, os banheiros da praia tratam-no por Sôr Manuel, sorriem da pacatez daquele Senhor que a todos trata por igual, que não corre sobre as ondas e que, pelo contrário, tudo faz com ritmo pachorrento. Mas aos banheiros o meu amigo Manuel não cita Sacha Guitry nem explica os mistérios da física. Seria «dar-se ares» e isso ele não faz. Connosco, os chineses do sul, ele não hesita em nos contar essas chinesices do norte. E nós deliciamo-nos por finalmente conseguirmos enxergar coisas de que já ouvíramos falar mas que ignorávamos quase por completo. E no final nós ficamos espantados como tenha sido possível que nunca tivéssemos pensado naquilo, o evidente. Ao que ele nos acode com algum consolo lembrando que a ignorância só os sábios conhecem.
 
Por tudo isto e outras que tais, gosto desta praia e das salsas ondas.
 
 
Tavira, Agosto de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca

O português e o Governo Português

 

 
 Ericeira - vista parcial da zona de pesca
 
Ainda era presidente de Portugal o sr. Soares; em face a muito idiotas declarações, aqui no Brasil, de um indivíduo daquela nacionalidade, escrevi ao dito presidente pedindo-lhe que fizesse uma lei não permitindo que gente burra emigrasse. O português no Novo Mundo já era, injustamente, considerado falho de meninges e raciocínio, e um só cretino punha em risco a seriedade e o bom nome da quase totalidade dos trabalhadores imigrantes que, desde sempre, estiveram na base da construção deste grande país. Sexa Soares não respondeu mas... bons anos passaram. Eis senão quando uma notícia, mesmo atrasada, chega a esta terra e, não só brasileiros, como todos aqueles que no mundo estão preocupados com o meio ambiente, aquecimento global, energias alternativas, iniciativas válidas, etc., consegue deixar boquiabertos os que a leram:
«O presidente da Junta de Freguesia da Ericeira resolveu vários problemas com uma solução simplerrima: colocou em diversos locais na povoação (linda, a Ericeira!) uma quantidade de latões para que os restaurantes e particulares ali depositassem o óleo usado na cozinha, que ele transformou em combustível e passou a utilizar nos carros de serviço da mesma junta»!
O mundo inteiro aplaude, e o eficiente presidente da Junta comenta: «Cheguei a pensar que ia ganhar uma medalha, mas em vez disso recebi do ministério das finanças uma multa de 
€ 7.000 por não ter pago o imposto sobre combustíveis»!!!
Não fosse a seriedade da revista em que vinha exposto este assunto, não seria credível! Uma autarquia, modesta, toma uma iniciativa brilhante que devia ser seguida por TODAS, recebe como recompensa uma ameaça de multa?!
Recicla uns milhares de litros de óleo que são altamente poluentes, economiza para o erário público, que assim é o custo de uma Junta de Freguesia, e é multada!
Tudo leva a crer que o sr. Soares, que parece nenhuma atitude tomou in illo tempore, terá recomendado que os mais burros do país assumissem lugares de (ir)responsabilidade nos ministérios das finanças e dos transportes? Só pode!
Pobre Portugal! Tu que foste grande até ao final do séc. XV, que depois sonhaste através de Bandarra, Camões, Pe. António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, com um futuro lindo e puro como as crianças, tens agora uns irracionais a quererem destruir o pouco que ainda sobra!
É isso: enquanto tiveste grandes governantes... O mal é do povo que não sabe escolher, dirão. É. Mas com governos assim... escolher o quê ?
 
Rio de Janeiro, 7 de Agosto de 2008
 
Francisco Gomes de Amrim

Um povo, uma maneira especial de ser

 

 
 
 Manuel José de Arriaga Brum da Silveira
Primeiro Presidente da Republica portuguesa 
 
 
Frente à globalização e suas exigências, as nações e suas culturas lutam pela sobrevivência. O difícil é encontrar o equilíbrio entre a força da evolução e o respeito às tradições. Talvez a palavra chave seja: adaptação.
 
Numa conversa entre amigos, num destes dias, alguém disse que o açoriano era um povo individualista, pouco afeito à política.
Como açoriana de nascimento, com mais de três séculos de ascendência insular, não deixei de pensar que havia um fundo de verdade naquela assertiva.
 
Em todo o povo há um perfil especial, que o caracteriza. Seja na aparência, no espírito aventureiro ou belicista, na tendência artística ou comercial, na pesquisa ou na capacidade produtiva. Não importa qual a vocação, ele sofrerá a ação incontrolável da evolução. Só a capacidade de adaptação e resistência é que vai determinar se irá ou não desaparecer.
 
Dizem os psicólogos que a personalidade é a qualidade que identifica um individuo, segundo seus padrões de acções, embasados nos seus sentimentos, pensamentos e emoções. Se é verdade que as informações genéticas trazidas no DNA das células ditam comportamentos, também é verdade que eles se alteram com a poderosa força das situações que ocorrem no meio ambiente. E a  cultura adquirida através dos tempos, como fonte de aprendizado e adaptação, é factor de sobrevivência.
 
Com o açoriano não foi diferente. Isolado no meio do Atlântico Norte, apesar da importância como ligação entre continentes, emigrante e colonizador por necessidade, era praticamente desconhecido pelos próprios portugueses, que só ouviam falar deles em épocas de crises frumentícias ou naturais.
 
Resultado de uma miscigenação europeia ( flamenga, galega,francesa, inglesa), maioritariamente portuguesa, com alguns sefarditas e escravos negros africanos, foi moldado pela força da lava vulcânica e mergulhado no mar-oceano, seu destino e sua esperança. Sozinho, frente aos caprichos da natureza, encontrou na fé ao Divino Espírito Santo e no misticismo,  força para superar sua fragilidade humana e impotência.
 
Como parte insular de Portugal desde o século XV, submetido à política portuguesa do Continente que não oferecia condições suficientes de protecção, instrução e desenvolvimento que o capacitasse para atingir uma autonomia administrativa (coisa só conseguida no século XX), o açoriano, sem perspectiva, caiu numa paralisia e imaturidade política e cívica. Salvou-o do ostracismo e da patologia psico-social a direcção dada aos seus objectivos. Passou a investir naquilo que tinha domínio e poder: na sua capacidade de resistir e superar obstáculos. Picou a pedra vulcânica e fez terra para plantar, lançou-se ao mar e tornou-se um caçador de baleias. Trabalhou a madeira e o marfim do cachalote, plantou o pastel, a uva e a laranja, fez no tear colchas e tapetes, criou cabras e bois, brincou com as escamas de peixe e com o miolo da figueira, sua mulher fez rendas. Com os piratas e corsários aprendeu que quando se é mais fraco, a barganha é a moeda mais eficaz.
 
Quando precisou, emigrou e, em outras plagas, ajudou a construir comunidades com a pujança de seus braços e sua cultura. 
A principio,  achou na Igreja a pouca instrução que teve. Desenvolveu suas potencialidades pessoais. Quando tinha condição financeira, foi estudar no Continente e no estrangeiro. Apesar de todas as dificuldades, deu a Portugal o primeiro Presidente da República, oradores, poetas e escritores, como Antero de Quental e Natalia Correia, reconhecidos na literatura portuguesa. 
Entre os seus sentiu-se igual, por falta de estratificação sócio-económica. O nível educacional  é que fazia a diferença.
A distância do governo central deu-lhe um sentido de maior independência. Passou a julgar e a valorizava mais o lado individual  que o colectivo.
 
O estilo do açoriano que conheci, dentro da minha família, era aberto com o estrangeiro, hospitaleiro, compassivo com o diferente, mas não se contagiava com  outras ideias facilmente. Tinha uma personalidade forte, embasada, autodidata, individualista, mas carregada de humanismo. Desconfiada de governos, rejeitava a sociedade robotizada e desumanizada pelas suas próprias características. Curiosa com as novidades, instruía-se. Aceitava a globalização, desde que, isolado, fosse dono da  sua própria opinião e respeitado na sua decisão.
 
Quanto ao futuro..., só o tempo e Deus poderão mostrar o que vai acontecer a este povo, que chega ao século XXI com essas características, agora, porém, com o apoio da educação e tecnologia.
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 12/08/08
 

COISAS LIDAS

 

 George Marshall
George Marshall (1880-1959),
o Senhor da Vitória
 
David Brooks disse no Inernational Herald Tribune, de 2 de Agosto que Truman, Acheson, Marshall e outros puderam fazer o que fizeram – NATO, Plano Marshall, etc.  – porque dispunham então de poder global concentrado. Com o lançamento do sputnik, os americanos ficaram a saber que tinham perdido o monopólio do poder e, desde a dissolução da União Soviética, o poder dispersou-se e o mundo apareceu multipolarizado . Num regime multipolar, todos se sentem no direito de dizer «não» (direito de veto) e muitos têm capacidade para o fazer. Nenhuma acção é possível. A isto chama-se «globoesclerose». No universo dos estados, não há nenhum mecanismo para controlar a autoridade, tal como acontece na política interna. Ou há a força ou nada há. Num regime multipolar, os pequenos podem derrotar os grandes desde que formem grupos em torno de interesses imediatos e bem definidos. O resultado desastroso da guerra do Iraque indica que, por muitos anos, os EUA não voltarão a assumir responsabilidades hegemónicas. A anarquia está instalada;  o mundo segue à deriva  e ninguém pode prever para onde vamos.
 
 Luís Soares de Oliveira

LIDO COM INTERESSE – 32

 

F. Kafka statue 
Monumento a Franz Kafka frente à Sinagoga espanhola em Praga
 
 
 
Título: CARTA AO PAI
 
Autor: Franz Kafka
Tradutora: Maria Lin de Sousa Moniz
Editor: Relógio D’Água
Edição: Março de 2004
 
 
Hermann Kafka, o pai, o nome da culpa. Eis um título alternativo para este livro.
 
Talvez tenha sido nos meus tempos de liceu que adquiri a ideia de que a escrita kafkiana era muito confusa porque traduzia ideias confusas. Assim foi que associei o imbróglio a Kafka e por isso me mantive afastado dessas leituras. No meio de tanta coisa a necessitar de esclarecimento, não tive tempo a perder à procura de mais confusões. Nesse afastamento me mantive durante mais de 40 anos. Até que passei a ser dono do meu tempo. Mais: até que me convenci de que educação se pode assemelhar a instrução adjectivada. E talvez tenham sido alguns adjectivos que me fizeram chegar junto de uns e a afastar-me de outros autores.
 
Mas é claro que os meus pais me puseram num liceu caro, o francês, para que eu tivesse um certo tipo de educação e não aquele que, gratuito, era ministrado no ensino público. A adjectivação fazia sentido; nem todos os adjectivos terão sido justos.
 
Essa injusta adjectivação descobri-a há tempos aplicada ao compositor português Ruy Coelho e acabo de a descobrir agora em relação a Kafka, pelo menos no que se refere a esta minha primeira leitura que dele faço.
 
Logo de início fiquei espantado com a clareza da escrita: nada confusa, ao contrário do que eu imaginava. E foi por causa dessa clareza que, do simples folhear e da leitura desprendida da contracapa na livraria, passei a vias de facto.
 
Com as dimensões de um livro-de-bolso e apenas 70 páginas de texto, não impressiona pelo tamanho; reserva-nos para a qualidade da escrita. Não podendo qualificar a tradução por desconhecimento do original, apenas afirmo que o resultado é bom.
 
Ao longo da leitura fui imaginando outros títulos para o livro e por várias vezes me ocorreu a palavra «besta». Por uma ou outra vez me lembrei de «boçal» mas tive que arrepiar caminho porque logo de seguida era levado a pensar que só com alguma cultura se pode assumir um determinado tipo de atitudes que tem a ver com a rejeição de posições eruditas. E a rejeição da erudição pode não ser boçalidade mas traduzir apenas um conflito de personalidades. E é precisamente a isso que somos conduzidos: a um inultrapassável conflito de personalidades entre pai e filho, sendo aquele o alfa e este o ómega.
 
Todas as frustrações do filho imputadas à dominação, irritação e desprezo do pai que era homem de negócios e não aceitava as preocupações filosóficas como algo que pudesse alimentar uma família. Pai pragmático na angariação de meios de subsistência para o seu agregado familiar, não condescendia com opiniões alheias, as que considerava sempre erradas, supérfluas ou apenas diletantes; filho desejoso de mostrar ao pai que não era assim tão inútil quanto ele o pintava.
 
E este desejo de sublimação de todos os complexos de inferioridade que o filho assume mas de cuja existência culpa a tirania paterna, é o cerne da carta que deveria ter estabelecido o elo tardio de ligação entre ambos e que... a mãe sonegou ao pai.
 
E para proteger ambos, a mãe não lhes permitiu que se conhecessem.
 
«Claro que não quero dizer que aquilo que sou se deve apenas à tua influência. (...) É bem possível que, mesmo que tivesse crescido completamente fora da tua influência, não conseguisse vir a ser um indivíduo a teu contento. (...) como pai foste forte de mais para mim (...)»
 
E quase no final, o filho dá ao pai a contra argumentação de todas as acusações oferecendo-lhe a racionalidade que sempre ignorara: «(...) tornas pelo menos as coisas, não mais difíceis, mas muito mais vantajosas para ti. Primeiro, declinas qualquer culpa e responsabilidade da tua parte e nesse caso procedemos da mesma forma. Mas enquanto eu depois, com a mesma franqueza de pensamento, atribuo todas as culpas a ti, tu pretendes ser, ao mesmo tempo, muitíssimo “sensato” e muitíssimo “afectuoso” e absolver-me de qualquer culpa. (...)»
 
Arrogante, o pai nunca se humilharia a dialogar com quem desprezava – a mãe deveria saber muito bem o que fazia quando sonegou a carta à leitura do marido – mas o filho não perde a esperança e conclui a carta com um apelo que obviamente ficou sem resposta: «É claro que as coisas podem não se ajustar na realidade como as provas que apresento na minha carta, a vida é mais do que um jogo de paciências; mas com a rectificação resultante desta resposta, uma rectificação que não posso nem quero prosseguir em detalhe, aproximou-se, em minha opinião, tanto da realidade que poderá proporcionar algum sossego e facilitar, a ambos, a vida e a morte.»
 
Um livro que deveria ser lido por muitos pais e por muitos filhos, antes que seja tarde.
 
Tavira, Agosto de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca

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