Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

CRÓNICA DO BRASIL

 

Alguns números do Brasil
 
Neste imenso país-continente, sem terremotos nem tsunamis, nem tufões, apesar da terra já ter dado a sua tremedêra de quando em vez, mas só para dizer que não faz nada, e alguns ventos esporádicos terem atingido, no Sul, as velocidades exorbitantes de pouco mais de 70 km/hora, os seus 8 milhões e meio de km2 podem dar de comer a mais de meio mundo. À vontade.
O big líder anda a dar a sua enésima volta ao mundo, pavoneando-se e vangloriando-se sobre o que o Brasil produz e pode produzir, sem que para isso ele e seu desgoverno tenham tido a mínima das interferências. De passagem no Vietnam, com a sua querida ministra, beijaram a mão do general Vo Nguyen Giap, que com Fidel, é dos seus ídolos.
Tudo isso não influi na capacidade de trabalho e criadora dos brasileiros, que, com governo ou sem ele – de preferência sem – nos apresentam números que impressionam, e que podem crescer bem mais de 50%. Vejamos
 - a previsão da safra de grãos para este ano, 2008, é 144 milhões de toneladas! Cerca de 50% mais do que em 2000! Isto plantado numa área que equivale a mais de cinco vezes todo o território de Portugal, e quase igual a toda a Espanha!
 - segundo dados do IBGE, a área plantada em 2006, somente na lavoura - grãos, hortas, frutas, vinha (muita e com coisa boa), etc. - era de 77.000.000 de hectares; tem vindo a aumentar todos os anos, mais agora com os preços em alta, aliás altíssima. Portugal inteiro tem 9,2 milhões!
 - pastagens plantadas e naturais: 172 milhões, quase vinte vezes o tamanho de Portugal, qualquer coisa como Portugal, Espanha, França, Alemanha e muitos arredores juntos, para conter os cerca de 180 milhões de cabeças de gado, 9 milhões de cabras, 15 milhões de ovinos e 14 milhões de suínos e 32 bilhões de aves. Burros, os de quatro patas mesmo, fora os que... (dêxa p’ra lá!) são cerca de 1,3 milhões além de outros tantos muares, aqueles teimosos que nem mulas... fora... etc.!
 - além da carne que tudo isto deu, e que, além de alimentar os 200 milhões de brasileiros – os que mais carne comem em todo o planeta – ainda exporta para cerca de 130 países. tiraram-se 22 bilhões de litros de leite de vaca, 22 milhões de cabra, 11 toneladas de lã e quase 3 bilhões de dúzias de ovos!
 - estas atividades empregam cerca de 17 milhões de pessoas, não contando com o pequeno arimo familiar.
Voltando a área de lavoura mais as pastagens, e somando 100 milhões de hectares de matas e florestas, temos um total de 355 milhões de hectares ou 3,55 milhões de km2! Como a área total do país é de 8,5 é fácil concluir que há ainda 5 milhões de quilômetros quadrados de área não cultivada. Mesmo subtraindo a este número as montanhas, áreas inundadas ou inundáveis, rios e a mais pobre caatinga, sobra ainda MUITA terra para produzir, e assim poder contribuir, largamente, para a diminuição da fome no mundo.
Além disso o Brasil tem muita experiência e altíssima tecnologia que pode, graciosamente, oferecer sobretudo aos países africanos, quando estes se dispuserem, efetivamente, a investir a sério na produção de alimentos, coisa que a quase totalidade não quer, porque o retorno não é tão fácil e escabroso quanto a produção de petróleo ou diamantes.
Há fome no mundo? Sim, e vergonhosamente, muita. Em África não há uns largos milhões de hectares à espera que alguém os torne produtivos? Há. Então, o que falta?
 
Rio de Janeiro, 12 de Julho de 2008
 
Francisco Gomes de Amorim

A Menopausa

 

 
 
 
O crepúsculo da vida é uma fase da existência humana de difícil aceitação para todos, especialmente para a mulher.
A finalização da função biológica feminina, que é a procriação, a perda gradativa da juventude, da beleza e da forma, leva a mulher a uma auto-depreciação e insegurança, em relação a ela mesma e aos outros, na época chamada menopausa.
Os sinais e sintomas físicos e psíquicos advindos das alterações hormonais, as doenças próprias do envelhecimento, o afastamento natural dos filhos, que partem para viverem as suas próprias vidas, fragilizam a mente e o corpo feminino. Nessa fase é preciso que haja por parte do companheiro e da família uma boa dose de compreensão e muita ajuda.
Para a mulher, é hora de reaprender a viver com outros valores e objetivos. É hora de colher os investimentos feitos ao longo da vida, nela mesma e nos seus relacionamentos. Aplicar no intelecto, tirar proveito dos ensinamentos e das experiências, valorizar o convívio e o companheirismo, são atitudes que fazem amenizar e superar as dificuldades dessa fase da vida feminina. É época de aprender novas formas de exercer a sensibilidade e a sexualidade, compartilhar sentimentos, lembrar que é tempo de interiorização, de procurar em si mesma os valores, a independência e a felicidade, que só a sabedoria da maturidade pode dar. Enfim envelhecer sem abdicar do direito de sonhar e ser feliz.
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 09/07/08

CRÓNICAS DO BRASIL

 

A farra das eleições
 
Estamos a entrar no maior carnaval do Brasil: eleições. Desta vez, mesmo que para prefeitos, vices e vereadores, há já 243.600 candidatos inscritos, e como o prazo para apresentar candidatura ainda não se esgotou o TSE - Tribunal Superior Eleitoral  calcula que o número final atinja os 400.000! Festa é festa.
Mas os números hoje divulgados, que deveriam dar para rir, são uma amostra da continuação da onda tsunamiesca de escândalos, roubalheiras, homicídios e outras delicadezas a que esta corja nos habituou e que estará para vir.
 
Isto é o Inferno!
 
 
 
 
Para ser admitido em qualquer emprego público, mesmo gari, o pretendente tem que ter a sua ficha criminal mais limpa que arcanjo. Para a política, não. Pode ter processos por homicídio, formação de quadrilha, estelionato, roubo descarado de dinheiros públicos, compra de votos, enfim, qualquer crime está BOM para ser candidato! Pode até já ter sido julgado e condenado, em 1ª instância, mas a lei (imaginem: a lei que eles mesmos SE fazem!) considerando a possibilidade de apelo a instância superior, permite que a «dúvida seja aplicada a favor do réu»... mesmo sendo réu de «n» processos.
Entre os já inscritos há 271 que se declaram analfabetos! Podem ser umas bestas mas devemos-lhes o respeito pela verdade afirmada! Começa bem. 73.672 não concluíram sequer o ensino primário, 63.404 apenas têm só o primário e 362 vovôs, coitadinhos, com mais de 79 anos! Vá lê, sempre aparecem 57.366 com ensino superior, que aqui nada vale, basta pôr os olhos no big líder que também não completou o primário, atentar na colecção de besteirol que ele vomita sempre que abre a boca, e entender que ele cortou um dedo para se aposentar com o máximo que podia na ocasião (trabalhou dois anos e recebe só por isso, o quádruplo do que eu recebo, que trabalhei mais de vinte! Se eu soubesse tinha cortado qualquer coisa...).
O TSE só não divulgou, esperemos que «ainda», quantos são e seus nomes, os que respondem a processos por tudo quanto é «cólidade» de crime. E são muitos. Muitos.
Mas nada disto parece perturbar os tranqüilos ares tropicais e seus dolentes habitantes/votantes, mesmo sabendo dos «desvios» de verbas públicas que segundo entidades que estudam esses assuntos, deve ultrapassar um trilhão de reais  R$1.000.000.000. Quantia modesta... que daria para, em menos de 12 meses, acabar com a pobreza, a fome e ainda criar uma eficiente rede de ensino! Mas quem se preocupa com o pobre? Só na hora da colheita de votos, ninguém mais pensando nos tais 50.000 homicídios por ano!
Talvez pior do que os homicídios, coisa que pela vulgaridade já nem "graça" tem, é o caso da SANTA Casa de Belém do Pará onde só em Junho último morreram 56% dos bebês aí nascidos! Diz a Sociedade Brasileira de Pediatria que a taxa máxima admissível é de 10%. Desde Janeiro o total é de 113 bebês mortos! O presidente do hospital reclamou da suposta falta de médicos especializados, falta de estrutura, falta de equipamentos, péssima remuneração do Estado, além de não haver em Belém do Pará, cidade com 1,5 milhões de habitantes, nem um posto médico pediátrico nem uma maternidade!
Mas terá, de certeza uns milhares de candidatos a "garantirem" ao povo que se forem eleitos... tudo ficará ainda pior!
Haja Deus, porque o Demónio por aqui continua à solta!
 
Rio de Janeiro, 11 de Julho de 2008
 
 Francisco Gomes de Amorim

Fumadores!!!

 

 
 – Dona Fernanda, então por aqui? Agora me lembro, ainda não lhe dei os parabéns pelo seu homem. Vi-o no concurso da televisão. Que honra! Muitos parabéns! Fiquei orgulhosa como se fosse meu!

 – É verdade, dona Cátia. Estamos muito contentes. Foi muito bom, até para compensar a desgraça da minha irmã. Não sabe? Imagine que o marido dela é administrador de um banco.
- Não me diga! Que vergonha! Mas qual? Daquele criminoso, o BC...?

 – Olhe nem sei bem. Mas aquilo é tudo a mesma gente. Coitada da minha irmã, anda muito ralada! Felizmente que o amante está muito bem. Era segurança num bar, mas agora conseguiu ficar dado como deficiente por causa de uma sova que levou e o subsídio é excelente.

- Ainda bem! Que sorte! Olhe, essa sorte não tenho eu. Ando muito preocupada com o meu sobrinho. Não, não é com o homossexual. Não, esse está óptimo. Foi ao estrangeiro casar com o amigo e agora até estão a pensar adoptar uma criança por lá. O que me preocupa é o outro, o Zé. Tem um restaurante, imagine. Um restaurante de luxo.

- Ai, coitado! Em que se havia de meter! E tem tido muitas queixas?

 – Pois. Calcule que nem sequer usava sabão líquido nas casas de banho e os exaustores são de baixa extracção. Estou com medo que mais cedo ou mais tarde acabe na cadeia, pobrezinho!

 – Compreendo, compreendo. As ralações que temos! E então o que é que a traz por cá? Eu vou agora ali à direcção da escola queixar-me. Veja lá que a minha filha me disse que lá na escola não há máquinas de distribuição de preservativos na casa de banho das raparigas. Só na dos rapazes. Não é uma vergonha?

 – Um escândalo. Depois se há problemas a culpa é dos pequenos! Eu também tenho de lá ir mas, infelizmente, é derivado ao comportamento do meu Ronaldinho.

- Não me diga que ainda é por causa da gravidez?

 – Não, que ideia. Isso está tudo resolvido. Eles os dois trataram a questão com muito bom senso. Nem pareciam ter 13 anos! O aborto correu muito bem e o meu rapaz até já arranjou outra namorada bastante mais velha. Não, o que me preocupa é aquele grupo com que ele anda.

- Qual? A banda de rock satânico? Oh, minha amiga não se apoquente com isso. Nós lá em casa até dissemos ao nosso rapaz para criar uma. Antes isso que andar pelos ATL da paróquia com aqueles beatos a meter patranhas nas cabeças dos miúdos. Na banda é muito mais seguro e saudável. Não só é artístico, como abre horizontes e um dia, quem sabe... Olhe, não me preocuparia nada com isso.

 – Não, não é isso. Nós também estamos muito satisfeitos por ele andar com a banda. É um excelente meio de educação. Ao princípio ainda me chocavam um bocado as letras das canções, a falar de suicídio e sangue, mas agora até acho graça. Rapazes são rapazes, não é? Não, é muito pior. Ele também anda metido em coisas mesmo graves com aquele outro grupo clandestino. Já ouviu falar, não? Aquele grupo de fumadores que no outro dia até apareceu no jornal por um deles fumar dentro do metro.

- Que horror! O seu filho fuma? Mas isso faz imenso mal à saúde e polui o ambiente. Então ele pensa no aquecimento global? Esta juventude está perdida!

 – Eu sei, eu sei! Tentámos tudo para o afastar do vício, mas nada. O meu marido até quis ver se o interessava em blogs pornográficos, chats neonazis e outras coisas que fossem também um bocadinho subversivas e clandestinas mas não fizessem tanto mal. Mas nada! Ele não larga o cigarro! A culpa é do meu homem e eu já lhe disse. Imagine que quando o miúdo era pequeno lhe dava pistolas e outros brinquedos de violência. Claro que tinha de ter esta consequência, não era?


 – Que horror! Imagino como anda apoquentada. E nos estudos, que tal anda ele? Os meus, antigamente, era um castigo. Davam muitos erros de ortografia mas isso agora, com este novo programa para o insucesso escolar, deixou de criar problemas porque já não conta. E, mesmo na Matemática, o que interessa é a criatividade dos miúdos. Se os professores explicam mal que culpa têm os pequenos?

 – Eu digo o mesmo. Se eles depois acabam todos no desemprego, ao menos gozem a juventude...
 
 
João César das Neves
Economista e Professor Universitário
 

LIDO COM INTERESSE – 30

 

 
 
Título: As fogueiras da Inquisição
Autores: Ana Cristina Silva
Editor: EDITORIAL PRESENÇA
Edição: 1ª, Maio de 2008
 
Ao bom estilo das leituras estivais, também este livro nos deixa na dúvida sobre onde acaba a realidade e começa a fantasia. De tão plausível, dá para nos vermos envolvidos nas cenas que vai descrevendo e sendo historicamente tão verídico, ficamos com uma visão bem realista do que foi a vida – e a morte – de tantos que julgavam poder confiar nos nossos brandos costumes.
 
Lido de um trago, conduz-nos pela vida de três gerações de cristãos novos, pelos meandros do culto antigo, pela perseguição dominicana a quem seguia um lobby diferente do teo-business oficial.
 
Passeando-nos entre Lisboa, Alenquer e Évora, faz-nos passar perto dessa figura ímpar que foi Damião de Góis levando-nos à recordação que diz que – dadas as semelhanças físicas – era filho bastardo de D. Manuel I em cuja Corte viveu até completar 10 anos de idade a pretexto de ter ficado «órfão de pai».
 
 
Mas se D. Manuel I teve a sabedoria suficiente para aproveitar os judeus no que eles podiam dar a Portugal levando-os ao baptismo colectivo de pé, já D. João III se mostrou muito temeroso do Deus castigador e vingativo. Quanto ao Cardeal Rei, diz-nos o livro e a História que não teve a sabedoria do pai, D Manuel I, que não conseguiu ultrapassar os temores do irmão, D. João III, nem resolver os problemas criados pelo sobrinho, D. Sebastião.
 
Cardeal D. Henrique
Eis uma perspectiva bem realista da vida quando Portugal se encaminhava dos píncaros para o abismo.
 
Lisboa, Julho de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca

Burricadas nº 38

 

Agora é que vão ser elas - I
v    Dificilmente o Leitor se recordará do que eu escrevi nos idos de Abril (Burricadas nº 28).
v    Perdoe-me a imodéstia, mas cito-me: “Se isto (a propagação da crise do crédito hipotecário às Agências Financiadoras norte-americanas: FANNY MAE, FREDDIE MAC e GINNIE MAE) acontecer, será o colapso do sistema financeiro internacional, tal como tem vindo a ser laboriosamente construído nos últimos vinte e cinco anos”.
v    Aconteceu! Duas destas Agências, FREDDIE MAC e GINNIE MAE (que não são as maiores GSE/Government Sponsored Entities, como melifluamente as Autoridades lá do sítio se lhes referem), encontram-se em sérias e públicas dificuldades - havendo mesmo rumores de que estão em completa ruptura financeira.
v    Estranhamente, os comentadores de serviço só parecem ter olhos para o trambolhão que as acções das GSE (e não só daquelas duas em aflição) deram nestes últimos dias. Situação certamente desagradável para quem é accionista, mas sem nenhuma expressão ao nível das maiores Bolsas, muito menos dos mercados financeiros internacionais.
v    Passou despercebido a esses “fazedores de opinião”, até agora pelo menos: (a) que as GSE são, depois do Tesouro dos EUA, os maiores emitentes mundiais de Obrigações de Taxa Fixa (OTF); e (b) que todos os instrumentos financeiros, dos mais rudimentares aos mais sofisticados, giram em torno das OTF de risco (de crédito) desprezável (como eram consideradas, até ao ano passado, as Obrigações emitidas pelas GSE, uma vez que as Obrigações do Tesouro norte-americano não chegavam para as encomendas).
v    Antes de tentar adivinhar o que isto significa, há que averiguar porquê Instituições com critérios de aprovação reconhecidamente rígidos (por exemplo: só aceitavam devedores “prime”; a quantia emprestada não podia representar mais que 80% do valor atribuído à casa dada em garantia; a taxa de juro permanecia constante até ao fim do empréstimo; o prazo global dos empréstimos não ia além de 30 anos) acabaram por ser tão duramente atingidas pela crise dos créditos hipotecários “subprime” (justamente aqueles que não respeitavam nenhum desses critérios).
v    Dizia Sherlock Holmes que, uma vez afastado o impossível, o que resta é a verdade. Ora o impossível, neste caso, tem muitas caras:
v    Um amplo lote de devedores “prime” caiu, de um dia para o outro, na insolvência. Devido a quê, se a economia norte-americana vinha de um longo período de prosperidade?
v    De um ano para o outro, o valor de mercado das casas hipotecadas caiu abaixo do capital ainda em dívida. Como assim, se o grosso dos créditos hipotecários em carteira fora constituído pelas GSE anos atrás, quando os preços no imobiliário não tinham atingido ainda os píncaros de 2005/2006?
v    O serviço de todas essas dívidas tornou-se insuportável. Por que bulas, se as taxas de juro eram as mesmas de antanho e o capital em dívida, muito provavelmente, menor?
v    O que se passou, então?
v    Como sempre em episódios destes: Autoridades (no caso, Autoridades Monetárias, Autoridades de Regulação e Autoridades de Supervisão) distraídas, Autoridades míopes (que tomavam as suas ficções pela realidade, e assim eram fintadas pelo vulgar cidadão), Autoridades negligentes (que viam, mas fingiam não ver) e Autoridades cúmplices (que não hesitavam em violar as suas próprias regras, na esperança de abafarem más notícias).
v    Pegando na tese dos devedores “prime” que, num ápice, se teriam transfigurado em devedores de alto risco.
v    A política de dinheiro barato que vinha a ser seguida pelo FED (Reserva Federal Americana) desde praticamente a crise de Outubro de 1987, deu riqueza, deu bem estar, mais recentemente escaldou os dedos nas Bolsas (a crise dot.com) – e acabou por desencadear uma escalada de preços no mercado imobiliário dos EUA (e de tantos outros países).
v    Com os preços a subir (e a subir muito), nas casas hipotecadas, uma vez deduzido o capital ainda em dívida, sobrava cada vez mais valor residual (aquilo que se designa por “home equity”). E havia sempre um Banco interessado em fazer um 2º empréstimo sobre esse valor residual que se cria perpétuo.
v    Com taxas de juro muito baixas (e com teóricos, práticos e sábios a jurarem pelas alminhas que taxas de juro baixas assim tinham vindo para ficar), aí estava um dinheiro fácil e baratinho para gastar e alegrar a vida. Muitos, veio-se a saber tarde demais, não resistiram à tentação (acenada, ainda por cima, como sendo a decisão verdadeiramente racional).
v    E se as taxas eram baixas para uma 2ª hipoteca, também não seriam altas para uma 2ª habitação. Deste modo, devedores inicialmente solventes, aqui, reuniam sobre uma mesma casa um crédito hipotecário “prime” e um crédito hipotecário “subprime”; ali, ficavam a servir dois empréstimos que, isoladamente considerados, até poderiam ser “prime”, mas que o sobreendividamento do devedor comum tornava de alto risco.
v    Teria bastado esta conjugação de 2ªs hipotecas / 2ªs habitações para contaminar rapidamente as carteiras de créditos hipotecários “prime” – designadamente as das GSE.
v    Os Supervisores, esses, insistiam em ver os créditos sobre pessoas singulares como operações independentes. Mas, tivesse havido o cuidado de apurar quanto cada devedor devia ao nível do sistema financeiro, e o sobreendividamento de tantos deles ressaltaria de imediato.
v    Vê-se agora que muitos Bancos não possuíam Capitais Próprios suficientes para acomodar o cúmulo de risco a que se iam expondo. Mas dava-se o caso de esse cúmulo de risco se formar e ser visível, não tanto no Balanço deste ou daquele Banco mais imprudente, mas no conjunto do sistema financeiro.
v    Não só. Como no caso dos grandes Bancos norte-americanos, Supervisor e Autoridade Monetária eram uma e a mesma entidade (FED), as preocupações sobre a estabilidade do sistema bancário sobrepuseram-se, logo nos primeiros dias da crise, a tudo o mais.
v    Diz-se (mas não consegui confirmar) que as GSE foram convidadas, bem cedo, a dar uma mãozinha aos Bancos mais aflitos, cedendo-lhes Balanço (o que é dizer, adquirindo-lhes créditos hipotecários “subprime”, em clara violação dos estatutos que deviam observar). Isto, sabendo-se já das dificuldades do Banco Bear Sterns - cujo Balanço era constituído, na sua grande maioria, não por créditos hipotecários “subprime” (como se julgaria à primeira vista), mas por créditos hipotecários “prime” e “Alt A” adquiridos junto das GSE, tempos antes.
v    A contaminação, já então, se fazia sentir. Só que ninguém estava preparado para vê-la. (cont.)
 
Lisboa, Julho de 2008
 
A. PALHINHA MACHADO

Curtinhas nº 57

 

Dr. Jeckill v. Mr. Hyde
v    Erro se supuser que o Leitor aplaudiu, talvez sem grande entusiasmo, a ideia de se avançar para modelos de capitalização em matéria de pensões de reforma?
v    Afinal, os sabedores não se cansavam de lhe dizer que o modelo de redistribuição com benefício definido estava em falência e, dada a dinâmica demográfica, assim continuaria por muitas e boas décadas.
v    Erro se supuser que o Leitor arrepela os cabelos ao ver a miséria com que Bancos, Seguradoras, Certificados de Aforro até, estão a remunerar as suas poupanças?
v    Erro se supuser que o Leitor não pára de perguntar a este e aquele se conhecem um Fundo que distribua rendimentos que se vejam e anuncie valorizações como deve ser?
v    Erro se supuser que o Leitor só dormirá satisfeito quando vir as suas poupanças remuneradas acima da inflação (isto é, se obtiver ganhos de rendimento real)?
v    Erro se supuser que o Leitor verá a vida a andar para trás se souber que, nos meses mais próximos, a sua pensão baixará um tanto - sem que ninguém lhe garanta quando é que vão regressar os bons tempos?
v    Erro se supuser que o Leitor ficará de rastos se descobrir que o capital acumulado, por onde será paga a sua reforma, de um dia para o outro encolheu?
v    Ora saiba, Leitor:
v    Que por obra e graça da política Greenspan (próceres e seguidores), os investimentos financeiros com risco insignificante, ou mesmo sem risco, estão, há muito, a proporcionar rendimentos reais negativos (isto é, registam taxas de retorno nominal continuamente inferiores à taxa de inflação);
v    Que são cada vez mais os países que assentam os seus regimes de pensões em modelos de capitalização – e o afluxo das contribuições periódicas para financiar as responsabilidades pensionáveis é, ano após ano, superior ao total das novas emissões de instrumentos financeiros não contingentes (acções, obrigações, papel comercial) investment grade (se se excluir as novas emissões de Dívidas Públicas nacionais);
v    Que a pressão destas contribuições nos mercados financeiros, não só vai comprimindo as taxas de retorno esperadas no futuro, como prenuncia um súbito reajustamento em baixa das cotações, a qualquer momento (eufemismo para o crash de algumas Bolsas);
v    Que esses maraus de olho perspicaz, garra adunca e pêlos no coração que especulam com os preços do crude, das commodities alimentares e de um sem número de outras commodities (desde que a elasticidade-preço das respectivas procuras seja pequena), não todos, mas certamente muitos deles, estão apenas a tentar encontrar remunerações mais decentes para as suas poupanças, caro Leitor, e maior segurança para a sua reforma – enfim, estão a trabalhar para Si.
v    Acredite, Leitor: o jogo que faz tremer os mercados financeiros internacionais é entre nós, aforradores, reformados ou a caminho da reforma, e nós, consumidores habituados às coisas boas da vida – curiosamente, com regras cujo único propósito é proteger os Bancos mais periclitantes (e alguns são).
v    O que faz espécie é o facto de serem justamente aqueles que ontem advogavam, clarividentes, as virtudes dos modelos de capitalização, a bramarem hoje contra as tropelias dos especuladores - sem as quais (tropelias) e sem os quais (especuladores) os modelos de capitalização, afinal, não sobreviveriam.
v    Ontem como hoje saberão esses tais daquilo que falam? Ou dizem só o que lhes vem à cabeça, ao sabor dos seus interesses de momento?
Lisboa, Junho de 2008
A. PALHINHA MACHADO
NOTA: Nas minhas deambulações intra e extra-territoriais, perdi a mensagem na qual o Dr. Palhinha Machado me enviava esta Curtinha e só dei pela anomalia quando publiquei a nº 58.  Apressei-me a pedir o reenvio do texto em falta que publico agora fora da conveniente cronologia. Mas mais vale publicar fora da ordem correcta do que não a publicar. Isso é que seria lastimável. De qualquer modo, um pedido de desculpas ao Autor e aos Leitores. Continuemos... Henrique Salles da Fonseca
 

 

As plásticas e o envelhecimento

 

 
 
 
 
Numa sociedade que supervaloriza a juventude e a beleza tornou-se obsessão cuidar do físico. Para isso, usa-se todos os recursos tecnológicos e procedimentos estéticos possíveis, a ponto de se esquecer o equilíbrio e o bom censo, colocando muitas vezes a saúde em perigo.
 
As correcções cirúrgicas para tratar problemas de ordem estética, genéticos ou adquiridos, para recuperar a função ou a auto-estima, são aceitáveis e até aconselháveis. Mas os exageros como dietas rigorosas, plásticas e exercícios excessivos, aplicações de substâncias ou drogas, que deformam o corpo na busca do físico perfeito, quando se tornam o objectivo de vida são uma doença que leva à dismorfia (hipertrofia ou distensão anómala dos músculos, dando alterações corporais ou aparência facial repuxada, inexpressiva).
 
Na ditadura da estética do século XXI, engordar uns quilinhos a mais e ter cabelos grisalhos são sinais de desleixo e não de um natural caminho para a velhice. É a distorção de valores de uma sociedade fútil que acha que a aparência é tudo, que esquece que o ideal é saber envelhecer, com ou sem lifting, mas sempre com qualidade de vida. Afinal o tempo deixa marcas que falam dos anos vividos, da nossa história individual.
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba. 02/07/08

 

Qual é o dia de Portugal ?

 

Comemoram-se em Portugal diversas datas que, em teoria, deveriam ter como objetivo a reunião, alegre e vitoriosa, de todo o povo português.
Mas não é bem assim, com exceção do 10 de Junho, dia de Camões, da língua portuguesa, da «minha pátria como língua», da união, sim, com todos os povos que usam a mesma língua, os que pertencem à CPLP. É uma data que deve ser saudada com um espírito de grande fraternidade e agradecimento também, pelo que, cada um dos povos contribuiu para o enriquecimento desta nossa língua comum, como o caqui que veio das índias, à canga de Angola (mesmo que haja opiniões controversas) e milhares de outros vocábulos que de entrada as naus traziam no retorno e mais tarde chegaram até por avião, pelo éter, pelas novelas brasileiras!
E foi-se enriquecendo a língua!
 
Mas festejar o 5 de Outubro só porque se passou de monarquia a anarquia, ainda por cima tendo permitido aos carbonários que renegassem a bandeira tradicional... é coisa difícil de aceitar. Não que eu seja monárquico, mas jamais renego o passado.
 
Da mesma forma o 25 de Abril. Festejar o quê? Que mataram o Salazar, já morto? Que se entregou o país ao saque dos ineptos? Que só alguns anos depois é que começou a surgir um embrião de democracia, hoje conspurcada pelo contínuo saque dos governantes à parca res publica? Para manter viva a ilusão do partido comunista com uma grande festa de churrasco com alucinados e penduras? Festejar o 25 de Abril é coisa de covardes, dos que não se atrevem a dizer não ao status quo duma hipotética democracia que rói as entranhas e a cultura dum povo que devia orgulhar-se dos seus princípios!
Para aqueles para quem o acaso não existe e de acordo com algumas opiniões, Dom Afonso Henriques terá nascido em Coimbra ou Viseu, em 1109 e há quem afirme que foi no dia 25 de Julho. Aceitemos, este dia para continuar.
 
 D. Afonso Henriques (1109-1185)

 

 
O que parece não haver dúvidas é que foi a 25 de Julho de 1139 que o príncipe Afonso derrotou cinco reis mouros na Batalha de Ourique, mesmo que ninguém se atreva a afirmar, com certeza, onde fica localizado o local do encontro.
Mas a data ficou-nos. E foi a partir daí que o príncipe Afonso entendeu declarar-se Rei.
 
 
 
Quem vence cinco reis tem o direito de se intitular rei. Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal! O fundador da portugalidade.
Mandou que colocassem na nova bandeira os cinco escudos dos inimigos vencidos e dentro de cada um cinco besantes de prata para mostrar que, como rei, alcançara o direito a cunhar moeda.
Assim nasceu Portugal. Em 25 de Julho de 1109.
Data que se esquece ou ignora, quando seria a principal a ser festejada no país, em vez de fingirmos que somos republicanos, quando o povo gasta fortunas para comprar revistas de terceira categoria com fofocas de príncipes e princesas (!), ou que gostamos muito da revolução dos cravos, quando há cada vez mais gente a lamentar que não apareça outro Salazar para endireitar e moralizar o país (e que não fume dentro dos aviões!).
 
Ainda me lembro bem, teria eu talvez uns nove anos. À hora do almoço o meu pai entrou em casa e aos três filhos mais velhos - eu era o terceiro - deu, ao mais velho três moedas de 2$50, lindas, novinhas, resplandecendo, à minha irmã duas e a mim uma só! Acabadas de cunhar, em 1940. Foi no dia 25 de Julho.
 
Isso era consciência de Portugal.
 
Rio de Janeiro, 1 de Julho de 2008
 
Francisco Gomes de Amorim

Um caso mineiro

 

 
 
Fazenda antiga de Minas Gerais
 
O mineiro é sabidamente, em qualquer nível sócio-cultural, um bom proseador e contador de casos, haja vista o grande número de escritores e poetas que Minas tem dado ao país. Do advogado e pecuarista da nossa região, Lauro Wilson Henriques, li este causo que passo a relatar.
 
Há quase 40 anos atrás era comum os fazendeiros venderem alguma rês ou capado para o “dinheirinho do dia a dia”. Numa dessas ocasiões de rotineira necessidade, Arquibaldo foi ao curral cercou dois capados e os colocou na camionete. Chapéu Panamá na cabeça, canivete de boa lâmina na cinta, camisa de manga comprida, pra proteger do sol inclemente, botina brogó, sofrida, partiu para a cidade. Ia à casa de carnes do seu amigo Carrijo, comprador de animais, que não exigia na transação muitas “formalidades”. Quando estava quase chegando ao seu destino cruzou na estrada com o carro dos fiscais. Surpreendido, consciência pesada, dá meia volta, pisa fundo no acelerador e retorna à fazenda, sempre com os velhos conhecidos na sua trilha. Lá chegando, quando ia recolocar os porcos no chiqueiro, a fiscalização aparece. Irritado, antes que eles falassem qualquer coisa, despejou ligeiro:
“Olhem cá vocês, os porcos são meus e eu resolvi levar eles pra dar um passeio na cidade. Tem algum problema?!”
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 28/03/08

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D