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A bem da Nação

BARBAS E CORNETAS

Nascido em Londres em 1724, Friedrich Wilhelm Ernst zu Schaumburg-Lippe foi um notável político e militar alemão que esteve ao serviço de Portugal durante o consulado pombalino. Remodelou totalmente o Exército Português que comandou durante a Guerra Fantástica (1762-69) e a ele se deve o nosso primeiro Regulamento de Disciplina Militar, o célebre RDM. Ficou na nossa História conhecido por Conde de Lippe.

 

Conta-se que nessa primeira versão do RDM o Conde mandou escrever que “o Sargento deve saber ler, escrever e contar pois o Oficial, sendo nobre, pode não saber”. Mais consta que deviam “ir para corneteiros os ciganos, raianos, algarvios e outra gente de mau porte”. Altri tempi, outros pensares…

 

Nunca li essa primeira versão do Regulamento mas lembrei-me dele quando soube que o barbeiro que hoje me afeitava a guedelha tinha sido corneteiro durante o serviço militar. À cautela, não lhe medi o temperamento para não ter que experimentar algum mau porte de tesoura em riste não longe da minha jugular. Pelo contrário, deixei-me ficar em silêncio escutando a conversa que ele manteve com um visitante trôpego que por ali passou.

 

Tinham feito a tropa juntos. O trôpego era o faxina do refeitório dos praças, o barbeiro cortava cabelos, fazia barbas e tocava corneta. E eu pergunto-me: o que ganhou Portugal em ter tido estes dois abencerragens ao serviço? Talvez tanto ou mais do que ganhou comigo uma quinzena de anos mais tarde. Mas do que não tenho dúvidas é de que nós, os milicianos que de lá saímos ilesos, ganhámos muito, no mínimo em experiência de vida e histórias para contar aos netos.

 

Os cumprimentos foram efusivos e temi que o barbeiro vazasse um olho ao trôpego pois abraçou-o sem largar a tesoura e o outro agarrou-se com as muletas a roçar as costas do Fígaro. Foram mais cautelosos no desenlaçar de abraço tão complicado e o barbeiro teve o cuidado de poisar o trôpego numa cadeira ali bem perto enquanto as muletas eram agarradas por outro fulano ali presente que não chegou a fazer parte da minha história.

 

E a partir dali fiquei a saber que o trôpego tem mulher entrevada, que faz a lida da casa, que toma uma pílula verde por dia para a ‘prósta’, um pó branco para não sei quê e que da cintura para baixo está morto desde os 65, já lá vão quase dez. Ao que o barbeiro lhe disse que se deixasse de pós brancos e pílulas verdes e que tomasse a outra de cor azul para «aconchego da alma» … mas que tomasse só uma por semana pois um vizinho ali da barbearia, rapaz novo dos seus 40, tomou demais e caiu para o lado com um ‘enfarto’ fulminante que nem lhe deu tempo de gozar o ânimo da pílula azul.

- Mas oh homem – ripostava o trôpego – eu tenho mulher entrevada. Para que é que eu quero isso?

- Então vai ter com uma morena que as há por aí a vadiar – respondia o barbeiro.

E assim seguia a conversa nestes termos edificantes ante alguém que ambos nunca tinham visto na vida nem sabendo se porventura eu era de reverência especial.

 

E daqui passaram ao relato dos males de próstata de grande parte da população residente em Campo de Ourique, dos «rapazes» da idade deles que «já lá estão», uns por isto e outros por aquilo, dos filhos criados, dos netos esperados, do abandono a que os entrevados se vêem votados, dos bons tempos que já lá vão, do mal que fizeram por não terem descontado mais para a ‘providência’ … do único prazer de que hoje desfrutam e que é a TV Cabo.

- Mas aqueles gajos dos telejornais fazem a nossa vida num inferno. Só falam de desgraças, de misérias, de mortes, roubos e assaltos. Mas será que só há disso? Oh filhos da p… que nos atazanam a toda a hora. Só me apetece cortar-lhes o pio – dizia o trôpego – mas a mulher, coitada, se não vê isso que faz ela?

- Põe-na a ver os ‘Morangos com açúcar’ – dizia o barbeiro

- Ah! Ela vê isso tudo mais os programas da manhã para os reformados que faz aquele p… (maricas) que fala de cozinhados e outras coisas de que as mulheres gostam. Mas eu já falei muito. Agora diz-me tu alguma coisa. Tens um filho, não tens? Pois eu tenho quatro e não posso contar com eles porque cada um tem a sua vida e o que mora em Moscavide teve uma tromboflebite (fantástico, a palavra saiu correcta, pensei eu, o cliente calado do corte de cabelo) que não o deixa trabalhar no negócio que ele tem com um sócio na montagem de cozinhas e uma filha que tenho em Loures e é diabética tem que ser operada a um pé que vamos a ver se não lho tiram. Os outros dois estão na terra, lá em Viseu e não podem cá vir tomar conta de nós.

- Então não queres saber do meu filho? Só falas, falas e falas …

- Quero, quero. O teu filho que faz?

- O meu filho está no penúltimo ano da Universidade.

- E está a fazer o quê?

- Um curso universitário.

- Ah … pois, um curso universitário. E isso que é?

- É lá das filosofias. Ele já era filósofo… ahahah … mas agora vai ficar encartado nisso.

- E esse curso serve para o quê?

- Diz ele que é para pensar…

- Então para pensar ele precisa dum curso? Não o ensinaste a pensar sem curso?

- Ele diz que se pensar com filosofia que não tem que andar à espera do que os outros pensam para poder pensar por si mesmo.

- E quando acabar o curso, o que vai ele fazer?

- Olha, perguntas bem. Vem pensar aqui para a barbearia que eu já estou cheio disto e quero ir lá para baixo, para o Tejo, pescar.

 

Eis como Portugal vai ter um barbeiro encartado em filosofia.

 

- E tu lembras-te daquele a quem chamavam o Timóteo – dizia novamente o trôpego a quem a filosofia pouco dizia.

- Não, não me recordo.

- Era aquele que engraxava as botas do Capitão. Já lá está, coitado. E aquele a quem chamavam Jeremias, lembras-te?

- Não, também não estou a ver quem é.

- Era o cozinheiro …

 

Assim foram nomeados muitos a quem se chamava isto e aquilo. Pelos vistos, nenhum deles tinha nome. Apenas eram chamados de qualquer coisa.

 

Até que o cabelo foi chamado de cortado e o serviço de acabado. Assim, paguei com notas a que chamam Euros e saí de um mundo tão irreal para mim como outras galáxias a que nunca fui.

 

E tenho eu a veleidade de julgar que conheço o povo a que pertenço …

 

Lisboa, Março de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca

(em Samode, no palácio do Marajá de Jaipur, com bênção indiana na testa)

A PROVÍNCIA PLATINA – Parte 7

                                   O TROPEIRISMO NO BRASIL
 
 
 
Conclusão da parte 6: O regime pastoril, ao sul do Brasil, torna-se pouco a pouco absoluto, mas com característica bem diversas das anteriores de simples aventura, pois articula-se em torno da estância, que introduz na campanha a fixação, a hierarquia, a discriminação social, a mudança no processo de aproveitamento do gado a partir da introdução da charqueada.
A charqueada adquire importância e peso no conjunto da economia a partir do momento em que se liga e depende da concessão de sesmarias, da transformação que acontece quando os campos começam a ser apropriados. Até então eles eram livres, mas a concessão de sesmarias na região de melhores pastagens confere o sentido de propriedade, que fundamenta o estabelecimento e o desenvolvimento da estância, característica económica fundamental da região sul. A estância confere status, estabelece a sociedade de classe apenas esboçada e indefinida na fase anterior. A concessão da sesmaria representava positivo acesso na escala social. Equivalia a um título nobiliário, o ponto de partida para o predomínio económico e político.
 
***
 
Parte 7: Ao lado da apropriação da terra, consequência da distribuição de sesmarias concedidas aos mais altamente colocados na escala económica e social aconteceu  transformação no processo de tratar a carne. Na fase dos tropeiros, a carne não tinha valor económico. O que importava era a rês, que levavam de pé ao mercado consumidor da mineração. Depois o couro ocupou lugar de importância como bem económico, objecto de troca e aproveitamento. Quando os povos platinos atravessavam o período de independência, o movimento comercial do couro em São Pedro foi intenso. A possibilidade de vencer as condições que tornavam a carne género perecível, só destinado ao consumo imediato, fez aparecer e mudar seu processo de produção. As charqueadas transformaram a carne em produto comerciável capaz de resistir ao tempo, de ser consumida longe do local de produção. Assim o gado adquiriu valor económico. Com a salga, a carne passa a produto principal, mercadoria valiosa de exportação crescente e o couro fica reduzido a produto complementar, enquanto as actividades militares ampliavam o mercado próximo pelas necessidades das forças em luta.
 
Na fase anterior apenas o couro interessava porque inexistia o processo de produção e o mercado consumidor; a alimentação do homem da campanha era fácil e só nisso a sua vida era fácil. O gado disperso estava ao seu alcance na campanha. Pertencia a todos. Quando a carne passou a produto de comércio, a representar mercadoria de valor, o gaúcho teve de pagar a sua alimentação. Transitou com a charqueada e a estância para um regime de trabalho diferente, o que causou o seu empobrecimento. Desde então começou a perder as características de autonomia para se resumir em trabalhador de campo. Essa transformação coincide com a apropriação da terra, com a estância. O que era comum, a campanha, passa a propriedade de alguns e o gaúcho permanecia sem posses.
 
A estância e a charqueada impõem mudanças económicas que abalam a sociedade sulina e introduz os mais profundos e novos traços no quadro social e político do Rio Grande.
Na campanha surge a hierarquia inevitável – o proprietário, o estancieiro, elemento dominante, aquele que recebeu a posse da terra com as sesmarias e que estabelecia ou não a charqueada. Em torno do estancieiro girava a peonagem vivendo as mais diversas formas de remuneração de trabalho. Os peões dependiam do estancieiro e a ele deviam obediência motivada pela subordinação económica já consolidada.
A estância era o latifúndio que exigia mando, o exercício da autoridade sobre os que dele dependiam ou a ele se ligavam dentro ou à margem da lei, por cobiça ou por instinto de conservação. A indisciplina da fase alimentar impunha aos recentes proprietários a aplicação de métodos enérgicos. Cada fazenda representava um Estado dentro do Estado. O estancieiro significou um condensador das queixas e aspirações dos grupos locais; o líder deles junto ao governo, armando-os muitas vezes ora contra, ora a favor do governo para defesa sua, deles ou da pátria. A sua influência resultava da soma das dedicações pessoais com que contava por simpatia, temor, relações de parentesco, gratidão ou por dependência de interesse.
 
Continua na parte 8
Therezinha B. de Figueiredo
Belo Horizonte, 6 de março de 2008

A SAGA DE UM CORVINO – Cap. IV

 

 

   José Cândido de Avellar 

 

Após o trabalho era com visível ansiedade que nosso corvino chegava a casa de Maria José para ouvi-la nas suas leituras e para aprender a escrita das primeiras palavras. Foi um tempo de convívio que fortaleceu entre eles o sentimento que começou na estalagem da senhora Adelaide e que agora amadurecia e ganhava expressão mais duradoura, apesar das desconfianças e má vontade da senhora Bárbara. Ela percebia que a verdadeira intenção de José era deixar a América, e levar-lhe a filha e os netos.   Voltar às ilhas, depois de se acostumar ao conforto material americano,  não fazia parte do sonho dela. Mas,  malandro, José dizia para convencê-la que na sua terra tinha propriedades e que precisava cuidar delas, pois seus pais estavam velhos.

 

Foi assim que numa manhã de Domingo, com poucos convidados, a maioria imigrantes açorianos, eles se casaram na Igreja dos Irlandeses, em  New Bedford. A viagem de regresso para o Corvo não tardou. Para José o sonho americano se desfez, mas trouxe-lhe o conhecimento daquilo que ele verdadeiramente esperava da vida. Aprendeu que mesmo no desconforto,  nas faltas e trabalhos,  há coisas que não têm preço, e que é preciso perdê-las para saber o quanto são importantes para nós. Para Maria José não seria fácil a readaptação. Ela que vivia na América há mais tempo e que tinha filhos americanos.   Mesmo assim,  por amor,  voltou à terra de origem e construiu com José uma família corvina da qual descendo.

 

A maioria dos imigrados não retornou,  se adaptou ou tentou se adaptar ao novo estilo de vida americano. Lutou dia e noite pelo  conforto, segurança económica e abastança.  Por humildade e ignorância, muitos sentindo-se inferiores, conformaram-se com a segregação num pais construído por imigrantes, como eles.  

Procuraram esconder a língua, esqueceram o passado de coragem, força e capacidade de sobrevivência de seu povo. Alguns até cortaram raízes com sua cultura e se sentiram felizes quando os filhos e netos, nascidos na nova terra,  diziam não saber falar o português. Seus descendentes eram americanos, sem direito ao reconhecimento de suas raízes e ao orgulho de terem séculos e séculos de História e de uma genética que vingou apesar das mutações  da mãe natureza.

 

Mas houve também aqueles,  como o madeirense João Pereira, conhecido como John Pereira,  que de humilde e desconhecido imigrante passou a respeitado cidadão local. Espírito ambicioso, desbravador e aventureiro, na época da corrida do ouro na Califórnia fez fortuna, ajudou a fundar a cidade de Jamestown, em Serra Nevada,  e fez parte activa e importante na  colonização do Far West americano.  Superou doenças e venceu contendas.  Comprou terras, fez hotel e um rancho famoso pela produtividade de frutos e hortaliças, onde dava festas concorridas e conhecidas nas redondezas e que cem anos mais tarde seria palco de filmes como Bonanza e seriados da TV americana. João Pereira não foi um anónimo construtor de uma comunidade,  foi como poucos,  um sucesso reconhecido,  não importando para a sociedade, nestes casos,  a nacionalidade, cor ou credo do indivíduo.

 

José Cândido de Avellar, meu bisavô  (pai de minha avó paterna), retornou às origens, coisa nem sempre fácil de fazer, e se readaptou. Talvez porque voltou a tempo de não perder as mudanças que ocorrem aqui e alhures, na  corrida da vida. Escolheu a solidão compartilhada da sua ilha, as histórias antigas e pachorrentas da sua vila, as missas dos Domingos,  o marulhar das ondas batendo na rocha vulcânica, os sustos das intempéries, a espera do navio no horizonte, o labutar silencioso da terra, quebrado pelo balido das cabras e ovelhas. No Corvo fez a sua vida, constituiu e criou família que apesar das idas e vindas continuou a vocação pela emigração,  sem no entanto perder o amor à terra natal e o orgulho de suas raízes, mesmo às mais humildes.  

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 05/03/08

 

 

O GOVERNADOR PORTUGUÊS E O ALMIRANTE INGLÊS

 

 

 

Dom Augusto Paes da Graça de Almeida e Silva, formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, muito novo, com ótima classificação. Vivo, inteligente, porte digno como convinha a um aristocrata, atrevido. Louro, desempenado, bonitaço, grande desportista.

A história da Associação Académica de Coimbra, fundada em 28 de Outubro de 1922, cuja equipa de futebol ficou conhecida como a Briosa, calção e camisa pretos, cor da capa dos estudantes, começa com o primeiro jogo de futebol contra uma seleção de Braga, em 23 de Março de 1923, onde os estudantes venceram por 2 a 1.

O primeiro golo de toda a história desta Briosa equipa deve-se ao nosso futuro Governador da Horta. Foi ainda capitão da mesma Académica no ano em que foi à final de um importante torneio nacional, contra o Sporting, sendo capitão deste o grande internacional Jorge Vieira, talvez em 1923.

Além disto, no I Torneio de Atletismo organizado pelo jornal “A Voz Desportiva”, também em 1923, o nosso finalista de Direito ganhou o primeiro lugar na corrida dos 100m com 11s e 7/10, venceu a estafeta 3 x 100m em que participou o seu irmão caçula, Fernando, que foi mais tarde bibliotecário da Biblioteca da Universidade, e o colega Luís Rodrigues, e ainda conquistou o 2º lugar no arremesso do disco com a marca de 26,74m. Há oitenta anos! Era, como se vê um atleta. Bom estudante, boa figura, boa linhagem.

Enveredou pela magistratura, e um dia, tinha só vinte e nove anos, foi convidado para Governador Civil do Distrito da Horta, nos Açores, onde não aqueceu o lugar porque não dizia que sim só para manter o importante e político cargo. Incomodou os superiores burocratas com a sua dinâmica e inteligência, e não tardou a ser exonerado, a seu pedido, menos de um ano após ser empossado, voltando para a promotoria pública prosseguir a carreira escolhida.

Torna aos Açores, em 1936, como Comissário do Governo junto da Caixa Económica Monte Pio Terceirense que sofrera uns arreveses administrativo-financeiros!

Enquanto Governador da Horta, correndo o ano de 1932, num daqueles dias de Mau Tempo no Canal, em que o vento sopra com violência e o mar lhe responde alteroso, como briga de titãs, recebe Sua Excelência um telegrama enviado de bordo do couraçado HMS Hood, o famoso navio de guerra inglês, glória da arrogante marinha de sua majestade britânica, que foi afundado durante a II Guerra Mundial com um único tiro disparado de bordo do navio alemão Bismarck. Mas não cabe aqui contar a história desta outra guerra.

 

 HMS Hood

O telegrama, recebido já o sol encostara no poente, dizia mais ou menos

ALMIRANTE “X” COMANDANTE NAVIO ALMIRANTE HMS HOOD STOP APRESENTA CUMPRIMENTOS AUTORIDADE PORTUGUESA STOP PEDE AUTORIZAÇÃO FUNDEAR SUAS AGUAS TERRITORIAIS STOP (já estava fundeado, stop) PARA ABRIGAR TEMPORAL STOP LAMENTA NAO PODER IR TERRA APRESENTAR PESSOALMENTE CUMPRIMENTOS STOP ESTADO MAR  MUITO PERIGOSO.

Não seriam estas as palavras exatas, tanto mais que o big almirante telegrafou em inglês, mas a verdade é que, se sempre os ingleses se estiveram bem lixando para Portugal, não era um importanterrimo almirante que se ia incomodar para cumprimentar um simplerrimo governador de quatro miserrimas ilhas!

- Vá chamar o capitão João Costa.

O capitão João Costa era o comandante da polícia da terra, e foi padrinho da filha do Governador que nasceu entrementes lá na Horta. História contada por este.

Chega o capitão debaixo de chuva e mau tempo ao gabinete do Governador que lhe lê o telegrama.

- Oh! Capitão! E se a gente fizesse uma partida a estes sujeitos?

O capitão estremeceu, porque já sabia que da cabeça do jovem governador alguma aventura extravagante ia sair.

- Já que estes ingleses são tão importantes que não podem vir a terra, vamos mostrar-lhes o que valem os portugueses. Veja se arranja algum pescador que se queira arriscar a entrar no mar com este tempo, e envie um telegrama para bordo a dizer a esse almirante que se ele não pode vir a terra o governador pode ir a bordo!

- Mas, senhor Governador, o mar está imenso. Isso é loucura.

ALMIRANTE “X” STOP FACE SUA IMPOSSIBILIDADE DESEMBARCAR STOP SUA EXCELENCIA GOVERNADOR  NAO VE DIFICULDADE IR BORDO STOP

- Veja se há algum pescador que queira ir.

Havia, como seria de esperar, porque os açoreanos são experientes e destemidos homens do mar que os cerca, e assim não foi difícil arranjar mais do que um voluntário que logo correu a preparar a sua fragilissima embarcação, um baleeiro, à vela!

- Capitão! Vista a sua farda de gala. Eu vou também vestir-me a preceito, e já nos encontramos no cais para embarcar.

Ainda não haviam embarcado já outro telegrama de bordo estava em terra:

NÃO VENHAM STOP MAR  MUITO PERIGOSO STOP

- Responda: para os portugueses não há mar perigoso!

Governador e comandante da polícia debaixo de grossa capa de oleado para se molharem um pouco menos, lá vai a embarcação baleeira, conduzida por experientes e calejadas mãos, voando por cima daquele mar imenso.

O almirante ficou aterrado porque se acontecesse algo ao governador ele teria que dar alguma explicação oficial o que lhe seria, no mínimo, desagradável.

O grande couraçado logo se avistou, todo iluminado, botes salva vidas prontos a serem lançados à água, para um quase certo resgate, oficiais no convés à espera daquele novo Gil Eanes, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, reencarnado.

A casquinha de noz num instante emparelhava ao longo do longo costado do imenso vaso de guerra, ora no topo da ondulação chegando ao convés deste, como desaparecendo lá em baixo na cava da onda. Na havia como estabilizá-la para subir a escada de portaló, mas para um atleta isso foi resolvido com simplicidade. Ao passar junto à escada, um salto, e lá vai Sua Excelência o Governador, de fraque, altivo, imponente, a subi-la.

Apitos, continências, guarda de honra, recepção no salão dos oficiais, discurso do embasbacado almirante, em inglês, perante a coragem dos navegadores portugueses ali consubstanciada naquele gesto, resposta do Governador, em português.

A seguir, confraternização em inglês, para novo espanto do mono linguista almirante, e rápida visita ao navio.

Segundo contava o já então coronel aposentado João Costa, o ar de espanto da marinhagem a olhar para aquele homem louro, vestido a rigor, que se atrevera a sair de terra com forte temporal, teria sido digno de um quadro de Goya!

Hora da despedida. O mesmo cerimonial.

- Capitão! O senhor desce primeiro, senta-se no fundo da embarcação para me segurar as pernas enquanto eu fico de pé para corresponder às saudações.

Mar enorme, saltar da escada de portaló do navio para dentro daquele baleeiro, qual ínfima tábua perdida, era necessário ser artista de circo! Mais artistas ainda os marinheiros açoreanos para governarem a pequena embarcação sem a deixarem espatifar-se contra o monstro encouraçado.

Finalmente, outro salto atlético, entra o Governador. De bordo, continências, música e outros cerimoniais da praxe.

No fundo do baleeiro o capitão João Costa, agora todo molhado segura com força as pernas do Governador para que este, cartola na mão, possa permanecer de pé, firme naquele balançar imenso da minúscula embarcação.

De manhã o governador recebeu outro telegrama, desta vez com protestos de admiração e respeito de toda a tripulação do majestoso Hood.

Ainda dizem que os ingleses são desportistas. Neste caso a única nota do seu desportivismo terá sido o telegrama final de cumprimentos. O mínimo que poderiam ter feito. Mas, e o nosso governador? Esse é que era um grande desportista.

Se alguém procurar nos arquivos do Governo da Horta, lá pelo ano 1932, deve encontrar, não a história, mas algum dos citados telegramas. STOP

 

 

01-dez-03

in "Se as minhas imbambas falassem" de Francisco Gomes de Amorim

CRÓNICAS DO BRASIL

Os  caudilhos  bolivarianos - actos  de  guerra

 

Já há muito se esperava esta atitude por parte da Venezuela e do Equador: avançar tropas e dispositivo pesado de guerra para junto das fronteiras da Colômbia, com a finalidade, imediata, de ameaçar e atemorizar o presidente Uribe, e, se a oportunidade surgir, de o derrubar e entregar o governo ao sectário bolchevique-maoísta das FARC.

Álvaro Uribe Álvaro Uribe - Colômbia

O Equador queixa-se que a Colômbia invadiu o seu território para atacar guerrilheiros, colombianos, mas ninguém refere que o primeiro ato de guerra parte exatamente do Equador, dando abrigo a terroristas, seqüestradores, que dali, mais à vontade, avançam pela Colômbia onde praticam as suas barbaridades.

Rafael Correa Rafael Correa - Equador

O ataque da Colômbia aos terroristas teve portanto toda a justificação, uma vez que as FARC estão em permanente estado de guerra, seqüestrando e matando cidadãos colombianos e não só.

Manuel Marulanda Manuel Marulanda - FARC

O tal Chavez quer, porque quer, sustentado por petrodólares que usa a seu bel prazer e não a favor do desenvolvimento do seu país, estabelecer-se como o big chefe das “repúblicas bolivarianas unidas” que uniriam a Venezuela, Colômbia, Equador e Bolívia. Para isso vai ajudando a financiar as FARC! E a seguir...

Juan Evo Morales Ayma Evo Morales - Bolívia

A tensão neste momento é grave, e há pouca possibilidade de, por exemplo, o Brasil, entrar em socorro da Colômbia dadas as ligações da grande eminência parda, bolchevique também até ao tutano, que rege, às escuras, e às escusas, os destinos deste grande e simpático país. Além disso o Brasil é um país de paz e nunca de guerra.

Hugo Chávez Hugo Chavez - Venezuela

Cuba neste momento dificilmente apoiará Chavez, quando acaba de proclamar que vai começar uma abertura comercial e política, o que a deixaria em estado de total descrédito.

Ao mesmo tempo os EUA não deverão estar muito interessados em ver o minino Chavez adentrar, impunemente, países amigos.

O que parece por fim se configurar é mais um arremedo de machismo do senhor fala barato, e grosso, que, todos esperamos, não passe dum ronco de leão em zoológico para impressionar os visitantes. Acompanhado da “jaguatirica” do Equador!

 

Rio de Janeiro, 3 de Março de 2008

Francisco Gomes de Amorim

CRUZEIRO DO SUL

Ditaduras  castrenses

 

Tal como aconteceu na Albânia, quando o grande malandro Hoxha morreu, depois de estar mais de 40 anos a esmagar o povo, e deixar como herança 700.000 bunkers de concreto para “defesa da costa”, que jamais serviram para coisa alguma, 27 MIGs, que estão à venda por menos de € 50.000, assim como alguns submarinos, canhões, munições e outras loucuras, vamos assistir agora ao retalhar de Cuba.

[img]  Bunkers albaneses

Diz o Castro II que vai “flexibilizar” o socialismo, a economia! O mundo já sabe que só há uma maneira de fazer esse “milagre”: deixar entrar o capitalismo, sempre selvagem, mesmo que mantenha a falsa aparência que o parlamento chinês quer dar à sua estrondosa evolução, pagando um dólar por dia aos trabalhadores!

As relíquias automobilísticas dos anos 50 vão desaparecer dos atuais proprietários para os colecionadores, ricos, a maioria das propriedades vai voltar para os antigos donos, os macacos espertos vão-se aproveitar e enriquecer no meio da confusão que se irá estabelecer, e... os anos do “fidelismo” vão desmoronar como castelo de cartas!

Sem dúvida que Fidel deixa uma herança: 100% do povo alfabetizado e com uma base cultural rica, e um serviço de saúde que atende a todos por igual, e que exporta para os “amigos”, mas uma imensa fome de liberdade, e de comida.

Como sempre aconteceu, e não vai ser exceção, os amigos castrenses serão beneficiados. Daqui do Brasil os fidelíssimos do peito, “socialistas revolucionários” (?!) já estão de malas aviadas para ir explorar algumas das mais ricas áreas imobiliárias de Havana e de toda a ilha! Planos prontos para a especulação, capital reunido, tudo em ordem de marcha, só aguardando que o Raulito dê luz verde.

 "Hasta quando, compañeros?"

Não vai ser preciso esperar muito para ver. Já tarda que se apague a luz vermelha!

Os abutres vão cair em cima, e os “velhos comunistas” aproveitarão para se assegurarem uma aposentadoria dourada.

Onde não foi assim? Quantos milionários e biliardários tem hoje a Rússia e os países da antiga cortina de ferro? E em Angola? E no Congo? E...

Comunismo, socialismo, capitalismo? Os espertos e sem vergonha serão sempre os que se safam, mesmo usando o sofisma da legalidade, como descreveu o nosso senador Cristóvam Buarque, quando se gastam milhões em monumentos e palácios de “justiça” ao lado de barracos onde vive o povo em pardieiros, sem água corrente e saneamento.

È uma pena, mas não se vislumbra esperança alguma na humanidade! Há milhares de anos que os espertos pisam na cabeça dos humildes, e assim vai continuar qualquer que seja o regime “político” em vigor.

O único regime que conta é o que se define por armas, a tal defesa contra um inimigo qualquer, o estabelecimento dum castro, ou por $$$$$$$, e se começar por aquelas, SEMPRE acabará nestes.

Sim, bem sabemos que "nem só de pão vive o homem" mas ... o pão dá muito jeito porque "primum vivere daeinde philosophare".

Hinduismo, budismo, cristianismo, paz e amor, zen, parecem destinados a meia dúzia que sempre ficarão na mó de baixo!

No entanto estes vivem felizes, dormem tranqüilos e logo que passem desta vida material e física para a do espírito, eterno, receberão o prémio ao confirmarem que este mísero lapso de tempo passado na terra, dentro dum corpo que apodrece no momento em que morre, no fundo, nada significa.

A ganância, o capital, não se compadecem com o futuro do espírito, eterno. Para eles só vale o presente, sempre à custa de outrém

 

Rio de Janeiro, 26 de Fevereiro de 2008

Francisco Gomes de Amorim

Burricadas nº 23

PUBLICIDADE ENGANOSA

v      Nem de propósito. Quando retirava a anterior Burricada do congelador onde a mantinha e me preparava para a servir ao respeitável público, eis que tropeço no anúncio de um Banco a promover, de forma particularmente agressiva, uma nova modalidade de depósitos bancários.

v      Taxas assim e assado, vantagens para aqui e para acolá, o habitual em tais circunstâncias - e, por fim, argumento arrasador, capital garantido!

v      Capital garantido? Como assim? Que garantia, se não palpável, pelo menos visível ou, apenas, perceptível, se oferecia ao depositante? Tilim!! A “palavra de honra” do próprio Banco depositário, nem mais.

v      Mas – o Banco depositário não é, ele, o verdadeiro e único do devedor dos depósitos bancários que recebe? É.

v      E a palavra do devedor acrescenta algo ao crédito que ele, devedor, en su momento, será chamado a pagar? Não, nada.

v      Quer o Banco em causa vincar, singelamente, que é um devedor de boa fé - como se a boa fé não fosse o pressuposto inspirador de qualquer contrato, ou o depósito bancário não fosse um contrato? Se sim, não se vê que tal aproveite ao depositante/credor.

v      Talvez o Banco queira insinuar que os demais depósitos efectuados, quer junto dele próprio, quer junto de Bancos concorrentes, não gozam de igual garantia? Se assim for, está a concorrer de maneira desleal - e, coisa bem mais grave, a abalar a credibilidade no sistema bancário.

v      Na verdade, entre nós - e dentro de limites relativamente amplos por depositante residente, todos os depósitos bancários estão assegurados, em primeira linha, por um Fundo de Garantia e, em desespero de causa, pelo contribuinte, através do Banco Central. Esta modalidade agora publicitada não deverá ser, portanto, excepção.

v      Estou em crer que este Banco, com enorme inconsciência, tem a íntima convicção de que tudo o que faz é administrar o dinheiro dos depositantes – e que os depósitos que recebe são, por certo, passivo contabilístico (porque em algum lado teriam de estar contabilizados), mas não dívida substancial. Em linha, aliás, com o que a Demonstração de Resultados dos Bancos dá a entender.

v      Contudo, ao acenar com uma garantia que não existe, ele está objectivamente a enganar o mercado e a criar nos que se deixem convencer pelo anúncio uma falsa sensação de segurança reforçada. Além de, por antinomia, minar a confiança no sistema bancário.

v      Não é justamente para pôr cobro, logo à nascença, a estes “exageros de publicitário” que andam por aí umas Autoridades de Supervisão e da Concorrência?

Lisboa, Fevereiro de 2008

 A. PALHINHA MACHADO

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