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A bem da Nação

ÍNDIA - 2

NACIONALISMO INDIANO 

 

You must become the change

you want to see”.

 

 

 

Quem chegue de avião a Bombaim logo depara com esta frase de Gandhi por cima da porta de desembarque.

 

Fez-me lembrar aquela outra de Theodore Roosevelt (habitual e erradamente atribuida a Kennedy) que diz Ask not what can your country do for you but what can you do for your country”.

 

Como seria bom que qualquer delas ou ambas fossem tema de primeira página dos jornais portugueses …

 

Permanece na mente indiana a preferência pelo que é nacional em desfavor do que é importado e se isso teve origem na luta pela independência contra os ingleses liderada por Gandhi, a política económica post-independência liderada por Nehru foi sobretudo mercantilista e protegida da concorrência externa. Socialismo, sim, porque houve um estreitamento de relações com a União Soviética como forma de mostrarem algum distanciamento dos EUA, mas nacionalista. E a propósito dessa dose maciça de nacionalismo, foi o quase-herói Netaji Subhas Chandra Bose que se aprontou para confundir este conceito de social-nacionalismo com o outro, o nacional-socialismo, mas a morte (ou o mero desaparecimento) no Japão em 1945 fê-lo sair do circuito. Contudo, ainda hoje incomoda alguma classe política indiana e incendeia uns quantos patriotas mais assanhados. Nehru pode assim prosseguir na sua política e instaurar uma dinastia que perdura.

 

Diz-se que a liberalização económica se fez em 1991 mas não é totalmente verdade. No plano interno, o sector público foi parcialmente privatizado mas em relação ao exterior ainda agora se dão passos relativamente tímidos na abertura e há sectores completamente vedados ao investimento estrangeiro como por exemplo o do transporte aéreo de passageiros.

 

Mas não poderá ser assim por muito tempo pois os empresários indianos já andam cá por fora a comprar tudo quanto se lhes depara como interessante e os Governos – europeus, nomeadamente – vão começar a querer contrapartidas. Aliás, se a Índia se ufana com o título de grande potência em perspectiva, bem pode ir pondo as barbas de molho com a concorrência externa fronteiras adentro pois, caso contrário, poderá ver cerceadas as suas exportações. E relativamente a problemas com as exportações já lhes basta a actual cotação da Rupia.

 

E aqui estão três temas por lá muito discutidos nos dias que correm: que nível de crescimento (8 ou 10%?); que nível de inflação (acima ou a baixo dos 6%?); que política cambial (nos 15 dias que lá estive testemunhei uma constante valorização da Rupia).

 

Mas se a Índia tem problemas – e quem os não tem? – reconheçamos que eles são livremente discutidos e essa é uma virtude fundamental: os indianos podem concordar ou não com as políticas em vigor, discutem essas políticas dentro e fora dos Parlamentos, nos meios de comunicação, nas ruas mas as políticas são conhecidas, têm uma lógica própria e os poderes constituídos têm toda a legitimidade democrática para acertarem e para errarem. O sistema é globalmente transparente. Do mesmo não se podem vangloriar os chineses que são nomeados voluntários para o trabalho e não podem discutir os objectivos que o Partido único define no seio de uma gerontocracia de legitimidade revolucionária e, portanto, opaca. Por isso acredito na Índia como potência do futuro a curto prazo e da China espero um estoiro a qualquer momento.

 

Relativamente ao regime de trabalho, confirmei que os serviços públicos indianos folgam ao Domingo mas achei estranho que houvesse tanta gente a trabalhar no primeiro Domingo que lá passei, nomeadamente nas obras públicas. Como certamente não estavam a trabalhar para me mostrarem, a mim, que são muito trabalhadores, perguntei e foi-me dito que as empresas têm que dar um dia de folga por semana aos seus trabalhadores mas cada uma escolhe o dia. Ou muito me engano ou, a ser verdade, o sistema não é controlável e na prática deve significar que a folga semanal fica na teoria e quem a fizer corre o risco de no regresso ao trabalho encontrar o posto preenchido por outra pessoa. Concluo que na Índia os privados não folgam mas, paralelamente, também soube que certo dia os bancários fizeram greve. Portanto, o sindicalismo indiano não é tão estéril e falho de sentido como o chinês.

 

Em Delhi, Bombaim e Goa vê-se a classe média a funcionar mas em Jaipur e Agra não se vê a mais remota sombra de alguém que ostente um nível de vida menos apertado. Aquele nível padrão definido pelos taxistas aplica-se na Índia com grande evidência: as sociedades em que os taxistas têm uma relativamente alta condição, são sociedades pobres; as sociedades em que os taxistas têm uma relativamente baixa condição, são sociedades ricas. Mal da sociedade em que o taxista é um Senhor. No Rajastan e no Uttar Pradesh os taxistas têm um relativamente alto padrão. E quando em Jaipur pedi que me mostrassem um bairro onde pudesse ver como vivem os remediados, levaram-me a ver o palácio do Marajá. Sim, realmente tudo evidencia que é remediado ou mais do que isso mas à sua volta nada vi que pudesse induzir algum equilíbrio social. Disseram-me que a classe média vive misturada com o resto da população e que, por isso, não há um bairro onde ela se concentre. Não acredito. Não há ninguém que esteja habituado a tomar banho uma vez por mês que se sujeite a viver no meio do que vi. Pura e simplesmente não deve haver classe média naqueles Estados e isso é um barril de pólvora com rastilho cujo comprimento não imagino.

 

As Universidades indianas já habituaram o mundo à qualidade dos seus licenciados e são um passaporte para o mundo globalizado que funciona fora da Índia. A título de mera curiosidade, registei que em Jaipur a Universidade se localiza longe da cidade num campus cercado e com portão fechado que só se deve abrir pontualmente; nas outras cidades que visitei (com excepção de Agra onde não tratei de esclarecer a situação) as Universidades estão à mão de semear, ou seja, em estreito contacto com a sociedade envolvente. Creio que nada disto acontece por acaso e só fico sem saber se aquela Universidade se isola por motu proprio ou se é a sociedade que a rejeita. Quando a Universidade vive na cidade é porque dela faz parte com naturalidade mas, mesmo assim, todos sabemos que há Universidades que esmagam a sociedade envolvente (tradicionalmente, o caso de Coimbra) e outras que são verdadeiros motores do desenvolvimento (Évora e Aveiro). A Universidade de Goa não terá ainda o mais elevado prestígio dentro do ranking universitário indiano mas tem duas qualidades fundamentais: existe e não esmaga.

 

Tendo o quadro jurídico goês raízes portuguesas, é notável o trabalho que a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa vem desenvolvendo em parceria com a Universidade de Goa mas talvez fosse interessante lançar mais algumas pontes noutras áreas do conhecimento de modo a que o estreitamento das relações bilaterais permitisse maior arejamento de ideias em ambos os lados da cooperação. A Escola Médica de Goa tem tradições que fazem parte da História de Portugal mas estou certo de que novas áreas como as da Engenharia e da Economia poderiam ser motivo para a definição de um modelo de desenvolvimento que Goa tem que redefinir para confirmar a autonomia que tanto lhe custou obter depois de 1961. Se o não fizer corre o risco sempre presente de ser absorvida por um dos Estados vizinhos. Um Estado só existe se tiver particularidades que o distingam das zonas envolventes. Goa tem particularidades que não deveria enjeitar e que, pelo contrário, devia realçar e promover.

 

É claro que me refiro à língua e à religião mas assim como a língua dá sinais de não morrer, a religião nunca quis saber da língua para nada. Contudo, foi à custa da língua que a religião lá entrou …

 

Lisboa, Fevereiro de 2008

  Henrique Salles da Fonseca

(na Grande Mesquita de Delhi)

 

Burricadas nº 15

Uma borla

v      O Senhor Governador, com ar pesaroso, afirmou aos Senhores Deputados, estes com ar basbaque, que vá-se lá saber da existência de umas quantas (uns poucos milhões, apenas) acções do BCP parqueadas numas tantas sociedades offshore, se ninguém comunica nem ninguém denuncia (subtil diferença...)

v      Escapou ao Senhor Governador mandar consultar as listas de presenças das Assembleias Gerais do dito Banco e ver o que de lá saía.

v      Ah! E quem nos garante que esses tais accionistas se deram ao incómodo de estar presente, ou de se fazer representar, em tão magnos conclaves – onde, parece, se passava o tempo em cumprimentos, Laus Deos e frioleiras? Bem pensado...

v      Talvez não lhe tenha ocorrido que as acções do maior Banco privado português, com uma presença algo desproporcionada no sistema bancário que compete ao BdP supervisionar (o Sistema Europeu de Bancos Centrais pouco mais lhe pede), estão desmaterializadas e têm entidades de custódia com tabuleta e número de polícia. Que tal seguir essa pista de resultados, estou em crer, mais que seguros?

v      Por estas dicas, Senhor Governador, não cobro nada. Mas não me venha dizer daqui a dias, com ar tão ou mais pesaroso, que o dinheiro dos contribuintes teve de ser chamado para safar o celebrado Banco, para dar um happy end ao case study – e para liquidar na raiz uma crise bancária que se avolumava.

Lisboa, Janeiro de 2008

A. PALHINHA MACHADO

NOTA - Peço ao Autor e aos Leitores que me desculpem o lapso pelo esquecimento de publicação deste texto, o que só se pode dever ao jet-lag de que padeci no regresso do Oriente. Mais vale fora de ordem do que não publicado.

Henrique Salles da Fonseca

Burricadas nº 18

Mas,...Quantas peúguinhas? (III)

v      Afirmei, no texto anterior, que as estatísticas sobre o tráfego aéreo na Portela não permitem responder, por simples extrapolação, à pergunta que verdadeiramente interessa: Que tipo de aeroporto?

v      O que sabemos hoje, não é que a Portela está saturada - que não está. Muito menos que rebentará pelas costuras a breve prazo – pois não existem ainda estudos razoavelmente fundamentados que o demonstrem.

v      É, sim, que, com uma única pista operacional e com apertadas restrições em matéria de ruído, a Portela não tem condições técnicas para continuar a ser o aeroporto que serve a bacia de atracção de Lisboa e as ligações aéreas às Regiões Autónomas (daqui não se conclua que a Portela deve ser desactivada).

v      Graças ao relatório do LNEC ficámos a saber, porém, que no Campo de Tiro de Alcochete é que é. Ou seja, temos já o local – mas continuamos com uma ideia vaga do que lá iremos construir. Felizmente, a falta de dinheiro impediu, até agora, que se lançassem “à balda” os caboucos de um aeroaborto (para memória futura: a nossa pelintrice atávica tem também as suas vantagens).

v      O que há a construir é: (1) ou uma duplicata da Portela, mas com duas pistas que possam operar simultaneamente e sem limitações de maior quanto a ruído – um aeroporto regional moderno, pivot entre voos domésticos e voos internacionais (estes, na grande maioria, de médio curso); (2) ou um hub para as rotas aéreas intercontinentais que ligam a Europa à metade Sul das Caraíbas, à América do Sul e à África Ocidental - e que servirá também, como é lógico, quer o tráfego aéreo comercial gerado pela bacia de atracção de Lisboa, quer uma fatia variável das ligações aéreas às Regiões Autónomas.

v      De comum, apenas as duas pistas (mais longas, no caso do hub intercontinental) e os equipamentos que garantem a segurança das operações aéreas. Mas em tudo o mais (nomeadamente, quanto a infra-estruturas de apoio a passageiros e carga) diferem de maneira muito substancial.

v      Aquela primeira opção em pouco ou nada se distingue de um serviço público destinado a beneficiar as populações locais e, por isso, custeado por verbas do OGE. Esta última é um negócio que, se não vingar no mundo extremamente competitivo da aviação comercial, redundará num sorvedouro de dinheiro.

v      Talvez seja por isto que a burocracia governamental actua como se não houvesse alternativa, olha de soslaio para a opção hub e gagueja quando é confrontada com a pergunta fatal: “Vamos lá a saber. De que tipo de aeroporto estão a falar?”

v      Aliás, os cenários que aparecem descritos no relatório dir-se-ia terem sido concebidos de propósito para que uma tal pergunta nunca venha a ser colocada. Talvez por efeito dos estudos da Parsons FCG, cada um tem a sua pitada de voos intercontinentais - presume-se que nas rotas que a TAP hoje assegura. Como se a situação híbrida destes últimos anos nas rotas Portugal/Brasil fosse a regra e, não, a excepção. Como se o NAL tivesse de se ajustar, por imposição do destino, ao formato actual da TAP.

v      Além de que falar, em abstracto, de “ligações Norte/Sul”, “ligações Este/Oeste” e “globalização” pode dar sinais de grande erudição - mas, no fundo, são apenas frases vazias de conteúdo.

v      O estado actual do transporte aéreo comercial no mundo é simples de descrever:

v      Nos céus, o que havia a fazer está feito – agrupamentos de companhias aéreas (ACA) que competem por captar os tráfegos mais rentáveis, desde a origem até ao destino.

v      Em terra, infra-estruturas aeronáuticas heterogéneas e algo antiquadas que dificultam, quando não bloqueiam, essas estratégias ditas de “internalização” (a saber: de todo o lado para todo o lado, sempre em aviões de um mesmo ACA).

v      Por cá, uma companhia de bandeira (TAP) integrada no que é, talvez, o ACA (Star Alliance) melhor sucedido e de maior potencial - ao qual só faltam as rotas intercontinentais que a TAP tradicionalmente percorre para compor a primeira rede verdadeiramente “internalizada” (por fim, será possível ir de qualquer aeroporto regional para qualquer aeroporto regional voando exclusivamente em companhias Star Alliance).

v      Em terra, a notória falta de um hub eficiente e competitivo (sobretudo, em termos da rotação de aeronaves de longo curso) que conecte a rede Star Alliance no hemisfério Norte e que se estende para Este e Sudeste (costa oriental de África, Índia, Sul da China e Austrália) com as rotas aéreas que cruzam o Atlântico Central e Sul.

v      Quanto aos restantes ACA: (1) Um (One World), com dois hubs europeus (Londres/Heathrow e Madrid/Barajas) à compita em voos que se sobrepõem (América Central e Atlântico Sul); (2) O outro (Sky Team), com alguma expressão nas rotas da América do Sul, forte para a África sub-sahariana e para as Caraíbas, mas com um hub (Paris/CDG) que obriga a prolongar os voos intercontinentais, reduzindo (em cerca de 20%) a rotação dos aviões de longo curso.

v      Fala-se, aliás, na possibilidade de Sky Team promover a construção de um hub intercontinental em Casablanca completamente desligado do tráfego aéreo que aí se gerar (uma espécie de porta-aviões em terra firme, com segurança reforçada).

v      Dantes, as companhias aéreas voavam de onde havia aeroportos para onde havia aeroportos. Nos seus planos comerciais, as infra-estruturas aeroportuárias eram os dados que a realidade impunha.

v      Futuramente, os ACA, para concretizarem as suas estratégias de “internalização”, vão ter de promover a construção de infra-estruturas aeroportuárias nos locais que mais lhes convenham. E um hub, por mais embelezado, por mais ecológico, por mais barato até, ficará irremediavelmente deserto se não interessar a nenhum dos ACA que disputam o mercado mundial do transporte aéreo comercial.

v      Em resumo: (1) existe uma janela de oportunidade na arquitectura da rede mundial de aeroportos – Star Alliance não dispõe de um hub capaz para um feixe de rotas intercontinentais que estão a conhecer grande expansão; (2) Sky Team poderá ver com bons olhos um hub complementar a Paris/CDG nessas mesmas rotas; (3) o sítio ideal para esse hub é, precisamente, aquele que o relatório indica.

v      Especialistas como somos em falhar oportunidades, vamos dar continuidade à tradição e perder mais esta?

v      Qualquer país bem governado, se uma oportunidade destas lhe surgisse (e esta é praticamente oferecida), correria a agarrá-la com as duas mãos – até porque um hub intercontinental bem sucedido é um polo de desenvolvimento que pode não custar nem um cêntimo ao erário público.                                                                           (cont.)

Lisboa, Janeiro de 2008

A. PALHINHA MACHADO

DESMENTIDO

DESMENTIDO

Desmentido do "Holocaust National Trust", no Reino Unido, que me parece insuspeito, já que se trata de um trust que conta, nos seus "honorary patrons" pessoas como Elie Wiesel.

(http://www.het.org.uk/content.php?page_id=6).
 
 
Na sua página,( http://www.het.org.uk/content.php?page_id=263&page=72), o trust publica o comunicado de imprensa onde esclarece o seguinte:
 
"After recent rumours regarding Holocaust Education in UK schools. We feel we have no option but to release the following statement:
Over the past weeks there have been a number of rumours circulating via email regarding Holocaust education here in the UK. The emails suggest that the UK Government are removing Holocaust education from the National Curriculum and that in general British schools steer away from teaching what they might consider a 'controversial' subject.

We want to make it clear that our understanding is the Holocaust is and will continue to be on the National Curriculum and therefore continue to be taught in all UK schools.

Background

These rumours stemmed from a piece that featured in a number of newspapers including the Daily Mail, the Guardian and Telegraph at the beginning of April. The news stories came about as a result of a report commissioned by the Department for Education and Skills (DfES) and undertaken by the Historical Association. The report, 'Challenges and Opportunities for Teaching Emotive and Controversial History 13-19 (TEACH)', addresses both the challenges teachers face, as well as the good practise that is occurring when teaching all emotive and controversial historical issues such as slavery, the Crusades and the Holocaust.

The full TEACH report is available on the Historical Association website:

http://www.haevents.org.uk/PastEvents/Others/Teach%20report.pdf

In light of this story the Holocaust Educational Trust would like to clarify what to our knowledge is the situation in the UK.

Holocaust Education in the UK

• The Holocaust became part of the National Curriculum for History in 1991. It is statutory for all students in England and Wales to learn about the Holocaust at Key Stage 3 usually in Year 9 History (aged 13-14).

• Many students will study the Holocaust in Religious Studies, English and Citizenship lessons.

• The UK holds a national Holocaust Memorial Day on January 27th (marking the liberation of Auschwitz-Birkenau), and this is marked widely in primary and secondary schools across the country.

• The UK has a permanent Holocaust exhibition at the Imperial War Museum in London, visited by thousands of people each year.

• The British Government sponsors two students (16-18 year olds) per secondary school/further education college to visit Auschwitz-Birkenau through the Holocaust Educational Trusts Lessons from Auschwitz Project (This is due to a £1.5 million grant from the Government every year from 2006-2008)

• School groups and private individuals visit the permanent Holocaust exhibition at the Imperial War Museum, the Jewish Museum, London, and The Holocaust Centre, Beth Shalom in Newark, and educational establishments work with resources and educational programmes provided by other important organisations such as the Anne Frank Trust (UK), London Jewish Cultural Centre, and the Wiener Library.

• Teacher training ensures that hundreds of newly qualified teachers are provided with skills and materials to ensure effective Holocaust education for their students.

• Existing teachers participate in training around the UK, and specialist programmes run by Holocaust education organisations including the Holocaust Educational Trust, Imperial War Museum and Beth Shalom.

Within the TEACH report from the Historical Association, there is one particular line relating to
Holocaust education which has been the focus of the press and various alarmed emails. It features in the section addressing why teachers avoid teaching certain subjects and states: '… a history department in a northern city recently avoided selecting the Holocaust as a topic for GCSE coursework for fear of confronting anti-Semitic (sic) sentiment and Holocaust denial among some Muslim pupils'. (p15)

The key points regarding this statement are:

• This does not refer to Holocaust education on the National Curriculum-it is a post-14 History GCSE course (publicly examined course)

• History at GCSE is not compulsory (only one third of pupils opt for history post-14)

• This is an anecdotal response from one teacher in one school out of four thousand five hundred secondary schools in the UK. While we cannot say what happens in every single school, our understanding is that this is highly unusual and not general practise of teachers around the country.

• All schools can choose which history topics they wish to study for coursework at GCSE level.

• There is no suggestion that this or any other school is failing to cover the National Curriculum in teaching about the Holocaust at Key Stage 3, Year 9 (age 13–14).

At no point does the report from the Historical Association suggest that the Holocaust be removed from the National Curriculum for England and Wales. Obviously we and all Holocaust related organisations in the UK take this very seriously, however on this occasion we want to allay all fears and impress upon everyone that the Holocaust is not being removed from the National Curriculum. This particular incident does of course merit further investigation but in no way represents all the good work in our schools across the country.

Should you require further information please do contact us at the Holocaust Educational Trust" (http://www.het.org.uk/content.php).
 

PREVISTO HÁ 63 ANOS

É uma questão de História lembrar que, quando o Supremo Comandante das Forças aliadas, General Dwight Eisenhower encontrou as vítimas dos campos de concentração, ordenou que fosse feito o maior número possível de fotos e fez com que os alemães das cidades vizinhas fossem guiados até àqueles campos e que enterrassem os mortos.

 

E o motivo, ele assim explicou:

 

  • Que se tenha o máximo de documentação - façam filmes, gravem testemunhos - porque, em algum ponto ao longo da História, algum bastardo se erguerá e dirá que isto nunca aconteceu.

Romani children in Auschwitz, victims of medical experiments. Crianças romenas alvo de «experiências médicas» no campo de Auschwitz (Wikipédia)

 

* * *

 

Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam. (Edmund Burke)

Execution of Poles by Einsatzkommando - Leszno, October 1939 Fusilamento de polacos em Outubro de 1939(Wikipédia)

 

 

    * * *

 

Há dias, o Reino Unido removeu o Holocausto dos seus curricula escolares porque 'ofendia' a população muçulmana que afirma que o Holocausto nunca aconteceu...

 April 12, 1945: Lager Nordhausen, where 20,000 inmates are believed to have died. Campo de concentração de Nordhausen en Abril de 1945 (Wikipédia)

Este é um presságio assustador sobre o medo que está atingindo o mundo e o quão facilmente cada país está se deixando levar.

 

Estamos a mais de 60 anos do final da Segunda Guerra Mundial e é por tudo isto que esta mensagem está a ser divulgada, em memória dos 6 milhões de judeus, 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, e 1900 padres católicos que foram assassinados, massacrados, violentados, queimados, mortos de fome e humilhados, enquanto a Alemanha e a Rússia olhavam noutras direcções fingindo que nada era com elas …

 A member of Einsatzgruppe D is about to shoot a man sitting by a mass grave in Vinnitsa, Ukrainian SSR, in 1942. Present in the background are members of the German Army, the German Labor Service, and the Hitler Youth. The back of the photograph is inscribed "The last Jew in Vinnitsa". Soldado alemão a balear um prisioneiro em Vinnitsa, Ucrânia

Agora, mais do que nunca, com o Irão, entre outros, sustentando que o 'Holocausto é um mito', torna-se imperativo fazer com que o mundo jamais esqueça.

 

* * *

Mahmoud Ahmadinejad

Então, Senhor Ahmadinejad? Serei eu que estou a fazer fotomontagens ou é Você que está a mentir?

ÍNDIA - 1

NAMASTÉ

 

 

 

Foi com um simpático namasté que a hospedeira da companhia aérea que fomos tomar a Londres nos recebeu à entrada do avião. Nunca tínhamos ouvido falar daquela empresa e ficámos agradavelmente surpreendidos. Felizmente, em toda a deambulação voámos sempre na “Jet Airways”. Ficámos clientes. Trata-se de uma empresa de capitais privados concorrente da de capitais públicos, a “Air India”.

 

Namasté quer dizer olá mas como na Índia tudo tem um significado profundo, então o sentido da expressão ronda qualquer coisa como ‘o deus que há em mim saúda o deus que há em ti’. No nosso pragmático hemisfério ocidental não queremos estar com tanta delonga mas erramos a pontaria se criticarmos os indianos por excesso de formalismo. Sim, eles foram pragmáticos ao inventarem uma só palavra para expressarem tão longo conceito; nós é que somos superficiais e nos quedamos pelo totalmente estéril olá! Este sentido de profundidade na mais simples saudação revela bem a dimensão que as ideias assumem no subcontinente que tanta civilização exportou.

 

Pertenço ao grupo dos que entendem que a Fé não se discute e cumpro fielmente este conceito mas não deixo de reparar que num país em que persistem situações chocantes de miséria, as vacas sejam sagradas.

 

De ti saíram as primeiras águas…

Oh Vaca!, tu és o alimento e o leite…

A vaca é a mãe do chefe do nosso clã

Oh ablução!, a vaca é a tua mãe…

 (Atharva-veda, hino à Vaca Sagrada)

 

As vacas da raça a que no nosso hemisfério chamamos ‘brâmane’ são sagradas na Índia mas os bois da mesma raça não passam de simples animais de trabalho. O mesmo se diga de cavalos, burros, camelos e búfalos. Já as búfalas, essas, são profanas produtoras de leite.

 

Notei com agrado que todos os animais daquelas espécies estavam relativamente bem tratados mas já na espécie humana a generalização não foi tão exaustiva. Por isso me questiono sobre a verdade absoluta da afirmação de que a Índia é a maior democracia do mundo. Não, enquanto as vacas tiverem um estatuto superior ao de certas pessoas; não, enquanto sendo proibido buzinar, todos os camiões têm inscrito na traseira em letras garrafais o pedido de “Blow horn” ou de “Horn please”. E por mais que se apite, não há quem os arrede do meio da estrada pelo que é vulgar ultrapassar pelo lado proibido. É impressionante vê-los a acelerar em direcção aos engarrafamentos que se formam nos cruzamentos, é incrível a convicção de que onde cabe um hão-de caber dois … ou mais. Poderão ser uns grandes democratas mas não deixam de lançar a confusão na via pública e de fazerem uma derrogação permanente do Código da Estrada e, portanto, do Estado de Direito. A uma derrogação permanente chama-se revogação, o que leva os ocidentais a acreditar que naquele país a lei só é para cumprir quando apetece. Ou seja, é uma democracia formal de cúpulas porque na base ela não funciona, tal a desconsideração por certas camadas da população – as castas formalmente abolidas mas persistentes na vida real – e por sistemáticos incumprimentos da lei.

 

E quando estabelecemos paralelos entre os pragmatismos indiano e europeu, logo me ocorre o sistema de sacralização das vacas. Ganhará anos no Paraíso todo aquele que alimentar as vacas. Então, para que o próximo alcance a eternidade ideal, os donos das vacas soltam-nas logo pela manhã a fim de que elas se dirijam à cidade onde os crentes compram molhos de erva verde e tenra que lançam na via pública para que as vacas se alimentem. Saciadas, ao fim do dia as pachorrentas cornúpetas regressam a casa onde os donos diligentemente as ordenham dirigindo-se logo de seguida à cooperativa leiteira local onde vendem o leite cuja produção lhes ficou bem barata. Passei frente a uma dessas cooperativas em Jaipur em hora de ponta e decidi não beber leite a não ser super fervido ou mesmo refervido. Ah, já me esquecia: nada impede que a tal erva verde e tenra vendida nas cidades não tenha sido produzida pelos donos das vacas que dela se alimentam. A sacralização da vaca conduziu assim a uma situação perfeitamente leonina em que os donos das vacas só têm receitas e os custos são disseminados pelo resto da população.

 

Paralelamente, no ocidente os pecuaristas alimentam o seu gado herbívoro e ruminante com farinhas de carne e eufemisticamente chamamos loucas às vacas em vez de o fazermos aos respectivos donos.

 

O pragmatismo indiano mais uma vez a ganhar pontos face ao nosso.

 

Delhi é uma cidade relativamente limpa mas Jaipur mede medo e Agra é sua vizinha. Nunca imaginei que fosse possível viver no meio de tanto lixo acumulado na via pública. Nunca imaginei que um dia haveria de ver gente adulta a aliviar-se em plena selva urbana. Se o Estado de Rajastan se puser a queimar lixo vai por certo produzir energia durante um bom par de anos e, no entanto, poderia recorrer à solução encontrada em Mumbai (a que nós chamamos Bombaim) que permitiu a um determinado grupo social (as castas foram banidas pelo que há que contornar a palavra) estabelecer-se no centro da cidade com o negócio da recolha e separação de lixos para selecção dos recicláveis. A higiene pública em Mumbai não chega aos níveis europeus nem sequer aos de Goa mas parece uma sala de cirurgia quando comparada com Jaipur, capital do Rajastan, ou com Agra, capital do Uttar Pradesh.

 

 Ao lado deste espectáculo corria uma passadeira vermelha que nos conduzia a um restaurante que se pretendia luxuoso ... ou quase

 

A Índia não será uma verdadeira potência mundial enquanto não tiver mais cuidado com a qualidade de vida dos seus cidadãos. Impõe-se um nível mínimo de cuidados na higiene pública, o lançamento de redes de saneamento básico, a criação de hábitos de higiene pessoal na classe política. Enquanto os políticos não tiverem hábitos de higiene pessoal não será possível convencê-los a seguirem políticas de higiene pública.

 

Não há democracia quando tantos milhões de indianos resvalam no esterco e chafurdam em busca de sobrevivência.

 

Se os empresários portugueses que se dedicam à protecção do Ambiente quiserem fazer negócio na Índia, daqui sugiro que lancem uma campanha de higiene pessoal a nível do Parlamento em Delhi e nas Assembleias Legislativas dos vários Estados. Nada melhor do que lidar com gente asseada do que com mal cheirosos. Aconselham as más-línguas que convém induzi-los a lavarem as mãos pois parece que as têm bem sujas …

 

Lisboa, Fevereiro de 2008

 

 Henrique Salles da Fonseca

João Gaspar Simões

 

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João Gaspar Simões

(pintura de Mário Eloy Pereira - 1900/51)

 

“ (…) Vivemos num país onde predomina, na interpretação de qualquer atitude humana – assim pensava Fernando Pessoa – o «sentido degradante da Brasileira do Chiado» e em que tudo que é íntimo, por mais belo que seja, se desenha aos olhos da maioria segundo uma perspectiva vulgar.

 

Ai de nós, porém, se não ousarmos afrontar tão degradante deformação intransigentes com a mediocridade e firmes no propósito de arrancar à mesquinhez dos costumes nacionais tudo que ainda respira grandeza, quer na alegria quer na dor, quer na virtude quer no vício. O que antes de mais nada nobilita o homem é a sua coragem de viver e morrer sem arriscar um dia que seja da sua vida na mesa em que se jogam quotidianamente os acomodatismos, as hipocrisias, o farisaísmo, a pusilanimidade de carácter, tudo que na falsa escala de valores que nos rege é considerado triunfos e cartadas da respeitabilidade social. Não diminui ninguém ter vivido humano e ter morrido humano. Só é aviltante para a condição humana o tornar-se o homem instrumento de interesses, de paixões, de aspirações, em essência negação do que nele generosamente responde ao apelo da vida.

 

O homem meio, o homem instrumento, quer para o bem quer para o mal, o homem ponte de passagem seja para o que for que não ele próprio e o seu nobre destino espiritual – eis o que degrada e avilta a condição humana. (…)”

João Gaspar Simões INTRODUÇÃO (págs. 27 e 28) a «Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões», Ed. Publicações Europa-América, Março de 1957

burricadas nº 17

Mas,...quantas peúguinhas? (II)

v      Num primeiro impulso, pensei dar a estes escritos, que o Relatório do LNEC sobre o NAL motiva, o sarcástico título de “Fragilidades de um relatório perfeitinho”.

v      Se o fizesse, porém, estaria a ser injusto com dois capítulos (em sentido figurado) que não deixam dúvidas sobre pontos essenciais da decisão a tomar. Refiro-me, como é bem de ver, a: “FCD1/Segurança e Operacionalidade da Infra-estrutura Aeronáutica”; “FCD2/Condições Técnicas da Construção da Infra-estrutura Aeronáutica” (FCD – Factores Críticos da Decisão).

v      Sobre “FCD3/Impacte Ambiental” não me pronunciarei. Mas tenho a sensação de que quem discorreu sobre o assunto só ficaria em paz com a sua consciência se o NAL pudesse ser construído, algures, numa charneca absolutamente estéril e de subsolo ingrato.

v      Ora, um aeroporto, seja de que tipo for, é sempre uma obra demasiado grande para passar despercebida pela natureza. Construi-lo só para aproveitar um pedaço de terra deserto e inútil é uma rematada tolice. O que é sensato é: (1) não causar danos ecológicos desnecessários; (2) compensar cabalmente os danos ecológicos que não seja possível evitar. Sob este ponto de vista, o relatório não vai longe. E deveria.

v      O restante, adianto já, é, quanto a mim, uma extensa colecção de vacuidades delirantes, sem qualquer valor para o que está em causa decidir.

v      Começa logo porque a pergunta verdadeiramente fulcral nem sequer chega a ser colocada, muito menos respondida: De que tipo de aeroporto se está a falar?

v      De um aeroporto para servir o tráfego aéreo (passageiros e carga) originado na região (melhor se diria, na bacia de atracção) de Lisboa – que o relatório designa por “tráfego aéreo endógeno”? De um hub intercontinental que também servirá, como é óbvio, o tal tráfego aéreo endógeno?

v      É que se se está a pensar num aeroporto do primeiro tipo (um aeroporto, quanto muito, regional): (1) a infra-estrutura a construir será utilizada, predominantemente, por voos de médio curso (de e para a Europa e, talvez, o Maghreb); (2) o tráfego será fatalmente condicionado pela evolução económica e demográfica que a bacia de atracção de Lisboa registar.

v      Não é preciso consultar as estrelas para predizer que a bacia de atracção de Lisboa já não anda longe do ponto de saturação quanto a (e recorro às variáveis que o relatório acolhe) capacidade hoteleira, actividade empresarial e densidade demográfica. Vai ser bonito ver o tráfego aéreo endógeno (isto é, excluindo os “trânsitos”) quase duplicar em 10 anos (e mais que triplicar lá para os alvores de 2050)!

v      O que poderá causar tamanha explosão deve ser segredo de Estado. A duplicação da população residente, com a Grande Lisboa a aproximar-se perigosamente do status de megalopolis? A multiplicação dos locais de interesse e do número de hotéis? A mudança radical no comportamento dos turistas, que passam a visitar-nos por umas curtas horas, vão dormir a casa e voltam no dia seguinte para mais um passeio – tudo de avião? Um surto de iniciativa empresarial a rivalizar com indianos e chineses? Bangalore e Shangai a transferirem-se para a beira-Tejo?

v      Tanto mais que dois factores que poderiam aumentar sensivelmente os voos de médio curso (comerciais e privados) que demandam Lisboa nem sequer foram equacionados neste relatório. Tenho em mente: (1) o aproveitamento do estuário do Tejo para marinas de recreio de projecção internacional (umas 10-12,000 amarrações); (2) o aproveitamento do porto de Lisboa para a rotação de passageiros nos cruzeiros turísticos. (Não. Sines não tem aptidão para nenhuma destas actividades; e a APL tem-se empenhado, com denodo, em mandar à urtigas quem queira desenvolvê-las).

v      Agora, se a ideia é construir um hub intercontinental, as projecções avançadas por Parsons FGC para a NAER, e que o relatório adoptou sem pestanejar, são de todo em todo inúteis.

v      Nem será preciso dissecar o modelo econométrico usado por Parsons FGC (modelo que não conheço, mas cujas projecções me parecem absolutamente extravagantes). Basta constatar três realidades que aí estão à vista de todos:

v      Que o que justifica um hub intercontinental são, justamente, os “trânsitos” – ora a Portela nunca foi um hub e os “trânsitos”, por lá, apesar de terem conhecido um crescimento acelerado nos últimos dois, três anos, nem por isso deixaram de ter uma importância apenas marginal.

v      Que a indústria do transporte aéreo, hoje e por uns quantos anos mais, nada tem a ver com o que era há cinco anos atrás – estruturada como está, nos céus, em torno de grandes agrupamentos de companhias aéreas que procuram operar em circuito fechado.

v      Que a TAP (companhia que representa o grosso do tráfego aéreo na Portela e a quase totalidade dos voos intercontinentais que partem de Lisboa) só há pouco aderiu a um desses agrupamentos (Star Alliance).

v      Em resumo: (1) As séries de dados sobre o tráfego aéreo em Lisboa são ainda muito curtas e totalmente condicionadas pelas vicissitudes que a TAP vai conhecendo; (2) As projecções sobre volumes de tráfego aéreo que existem, se fossem convenientemente fundamentadas, poderiam talvez servir para dimensionar um aeroporto regional (o tal para o tráfego aéreo endógeno e os voos de médio curso) - mas, nunca, um hub intercontinental; (3) Aponta-se, com estardalhaço, para a localização - mas ainda não se sabe bem o que vai ser construído nesse local; (4) Enfim, as opções possíveis estão à partida viciadas.

v      Em conclusão: Discorre-se com base em suposições, tomando-as por sólida evidência.

(cont)

Lisboa, Janeiro 2008

A. PALHINHA MACHADO

REGICÍDIO - CENTENÁRIO

 

 

DISCURSO DO DEPUTADO

 PEDRO QUARTIN GRAÇA NO PLENÁRIO DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

EM 31 DE JANEIRO DE 2008

 

 

Senhor Presidente,

Senhores Deputados,

 

Quis o regimento desta Assembleia que eu me pronunciasse a 31 de Janeiro, data de uma longínqua revolução republicana no Porto. Neste lugar, já outros evocaram a data, com o respeito pelos homens que fizeram o 31 de Janeiro, ou que o prepararam no campo das ideias.

 

Também eu quero homenagear o patriotismo e a isenção desses revoltados porque eles faziam da acção política alguma coisa mais do que servir interesses. Esse exemplo de arranque nacional para uma obra concreta em favor das comunidades, o apelo às raízes, a entrega ao bem comum, foi o que ficou.

 

A dar-lhe o ardor das grandes horas colectivas, havia o sentimento da honra nacional ferida pelo Ultimatum. Para o homem comum, o 31 de Janeiro foi o gesto heróico de um povo que acabava de sofrer o insulto e o esbulho por parte da superpotência da época. E também D. Carlos logo devolveu à rainha Vitória de Inglaterra as condecorações com que o agraciara. Humano e generoso se mostrava também quando, após a revolução frustrada de 31 de Janeiro, referindo-se às prisões dos revolucionários, o Rei recomendava que fossem bem tratados, pois «eram criminosos de pensamento e de ocasião»...

 

No calendário, o 31 de Janeiro é seguido pelo 1 de Fevereiro e é sobre ele que me quero pronunciar, destacando as figuras europeias de D. Carlos e de D. Manuel II como Chefes de Estado.

 

O que mais impressionou sempre os que conviveram com D. Carlos era o seu à vontade, o seu natural desembaraço. Pela sua vasta cultura geral, e conhecimento das línguas, a sua informação sobre as grandes questões internacionais, D. Carlos foi por certo um dos monarcas mais europeus do seu tempo.

 

Com efeito, para se compreenderem as atitudes do Rei a cujas intenções a História começa a fazer justiça, em livros, filmes e inquéritos à opinião, é preciso ter presente que D. Carlos era um Europeu. A sua visão dos problemas, o seu julgamento dos homens, a sua consciência dos tempos, tinham aí o seu ponto de partida. E, foi esse seu modo de ser, que o ajudou na difícil missão, de nos tirar da si­tuação desesperada em que nos deixara o «Ultimatum». É ele que vai ajudar a reconquistar o prestígio perdido.

 

Compreendendo o valor de um Chefe do Estado isento e prestigiado, e sabendo manejar os interesses e ambições alheias, D. Carlos salvou a posição internacional de Portugal.

 

Foi no discurso no Guild Hall que conquistou a amizade do futuro Eduar­do VII, e a estima dos meios políticos de Londres, de que então dependiam os destinos internacionais.

 

Em Paris contribui para a formação da Entente Cordiale de uma maneira que os ingleses tanto reconheceram. E os resultados da acção de D. Carlos manifestaram-se com as visitas a Lisboa, dos Reis da Grã - Bretanha, o imperador da Alemanha, o Presidente da Republica Francesa e os Reis de Espanha.

 

D. Carlos não foi um génio que a si próprio se julgasse superior. Nenhuma atitude de soberba ou de vaidade pessoal, a História nele regista. Nem mesmo quando foi o centro político da governação de João Franco, pretendeu partilhar as exterioridades do Poder e do Mando.

 

D. Carlos quer incitar Franco a prosseguir a acção. Escreve-lhe cartas ardentes, entusiásticas. Mas não surge nelas uma palavra de vã glória pessoal ou reveladora do seu apetite de mando.

 

Antes, bem se nota que só deseja insuflar o seu ardor ao seu Primeiro-ministro para que ele tenha confiança em si próprio e na sua obra.

 

Assassinados a 1 de Fevereiro, D. Carlos e o Príncipe Real D. Luiz Filipe, o trono passou àquele que Infante nascera, e para simples In­fante fora educado. O Infante D. Manoel assumiu as responsabilidades de ser rei.

 

Conta-se que um dia, ao ser distribuído o bolo-rei num jantar do Paço, cada um dos convivas procurava na sua talhada, a prenda habitual (antes da ASAE...). Saíra ela ao Príncipe Real que, num gesto de gentileza, a passou disfarçadamente ao Infante. E como alguém lhe perguntasse porque procedera assim, o Príncipe Real respondeu: - Deixe! Ele será Rei sempre que eu possa! E nesse jantar, bebeu-se à saúde do Rei D. Manoel.

 

Anos volvidos, o Infante subia ao trono, em circunstâncias trágicas.

 

Nasceu em 15 de Novembro de 1889, dia da proclamação militar republicana no Brasil, e viveu até aos 18 anos em época sombria para a dinastia de Bragança, dada a revolta dos ambiciosos, e a cólera dos medíocres.

 

Esse ambiente de tempestade, estimulada pela falta de qualidade dos velhos partidos políticos, levou ao crime de 1908, privando o país de D. Carlos, cuja obra inconfundível se está hoje impondo, e de um Príncipe que era então uma esperança.

 

A 1 de Fevereiro de 1908, o Infante D. Manoel tomou nas mãos a Realeza de Portugal.

 

Todos os que o conheceram desde a infância até esse dia trágico, confirmaram a sua bondade, a sua simplicidade, a sua modéstia, a sua sinceridade, a sua inteligência, o seu amor ao saber, o seu culto pela arte, e o seu desejo de bem servir.

 

A 3 de Outubro, no dia em que mataram Miguel Bombarda, estava D. Manoel II a despacho, assinando os diplomas do Estado. Quando lhe dão a notícia com expressão depreciativa sobre o assassinado, o rei pousou a pena, e observou: «Porque chama isso ao Bombarda? Porque é republicano? Não é razão. Todos têm o direito de ser o que quiserem ... »

 

Para D. Manoel II, só existia uma expressão – Portugal, e dentro de Portugal, só conhece portugueses.

 

Durante o exílio, ninguém lhe ouviu uma palavra desdenhosa ou ofensiva para o país que não o compreendeu; nem contra a desorientação dos partidos monárquicos. Não se queixou aos Soberanos nem aos Governos estrangeiros.

 

Chefe de Estado por vontade da história, e aclamado rei pelo Parlamento, nada devia a Realeza aos caprichos de qualquer partido, a qualquer grupo de interesses, ou a um sufrágio artificial.

 

Ainda em Portugal, o problema da classe operária preocupara-o tanto, que no meio da agitação politica tempestuosa, é para ela que a sua atenção se dirige.

 

Exilado, defende intransigentemente as posições de Portugal durante a 1ª guerra mundial. E morto em circunstâncias ainda por apurar, não se lhe conhece qualquer apoio à 2ª república, o Estado Novo de Salazar, que sobre as suas cinzas ainda quentes, criou uma imagem da inevitabilidade republicana, esbulhando os descendentes do duque de Bragança de um património em que nem a 1ª República se atrevera a tocar.

 

Senhor Presidente, Senhores Deputados,

 

Passaram cem anos desde o 1 de Fevereiro.

As transformações político-sociais em curso e os processos inerentes à globalização, cada vez mais exigem pensar globalmente e agir localmente. Cada vez mais carecemos de uma valorização dos factores locais, comunitários e ecológicos que ao longo dos séculos, consolidaram Portugal e conformaram o nosso território.

 

O recente Tratado de Lisboa veio uma vez mais comprovar que a Europa normal é a que resulta das negociações intergovernamentais entre Estados soberanos, deixando para segundo plano a miragem de uma federação europeia.

 

O prestígio próprio e institucional do Chefe de Estado e a identificação espontânea e afectiva entre a comunidade portuguesa e o seu representante máximo são cada vez mais indispensáveis para o reconhecimento externo e para vitalidade interna do país europeu, atlântico e lusófono que somos.

 

Nestas circunstâncias, é necessário e legítimo que os portugueses se interroguem sobre se a Chefia do Estado deve apenas depender, como a actual Constituição estabelece, de um acto eleitoral cada vez mais objecto de absentismo; ou se, pelo contrário, deverá processar-se mediante uma escolha simultaneamente ética, cultural e histórica, uma escolha legitimada por consenso democrático e assente na sua ligação às raízes de Portugal.

 

Parece claro que, na sua maioria, os portugueses não são maioritariamente nem monárquicos nem republicanos; são democráticos. Mas, chamados a debate, querem "o bem da república" no sentido clássico do bem comum. E, convidados à reflexão, reconhecem que a Instituição Régia que observam nas modernas monarquias europeias – e com os exemplos muito recentes do prestígio do rei dos Belgas, da rainha de Inglaterra e do rei de Espanha – é a melhor garantia de equidistância perante as demais instituições nacionais e perante os Estados nossos parceiros na União Europeia.

 

Cem anos depois do duplo crime do 1 de Fevereiro, não é sensato que o país continue a desperdiçar esse tesouro que outros povos souberam preservar: a independência e a dignidade institucional do Chefe do Estado por meio das instituições monárquicas.

 

Um monarca tem, de facto, condições para promover com eficácia e isenção a solidariedade nacional e a independência do poder judicial e das Forças Armadas, bem como para projectar a nossa representação externa com prestígio e continuidade.

 

É esta a reflexão que aqui deixamos, convictamente seguros de que os Reis hão-de regressar, mas que só o farão com o apoio e correspondendo ao apelo do Povo português.

 

Como reprovamos o comportamento daqueles que, por despacho, impedem agora a participação de bandas militares na evocação de um antigo Chefe de Estado de Portugal.

 

   Assembleia da República, Lisboa, 31 de Janeiro de 2008

 

O DEPUTADO

PEDRO QUARTIN GRAÇA

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