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A bem da Nação

PENSAMENTOS MATINAIS - 1

15 de Fevereiro

No zap,  ontem, passei por uma  das SICs e estava Pacheco Pereira e mais uns quantos inteligentes cá do sítio a falar (dizer mal) do português, ou seja, deles e de nós. Depois de os ouvir perguntava-me: -  como é que esta raça produziu Camões?

16 de Fevereiro

Isso de que o general Garcia Leandro se queixa – desigualdade na distribuição de riqueza e conluio do político e do económico - não é um mal português, é um mal universal e persistente, diria mesmo, crónico. Os médicos quando não  sabem curar as doeças, chamam-lhes  sistémicas. É o caso. O mal apontado é sistémico. O pior é que também é degenerativo. Conclusão: o sistema está doente, mas a gente portuguesa não tem culpa disso e, na sua grande maioria, continua saudável. 

 

Luís Soares de Oliveira 

 

A SAGA DE UM CORVINO

Capitulo  II



No  pequeno cais da Casa alguns corvinos acorriam. Aguardavam os botes que  vinham do baleeiro, para as negociações que sempre se seguiam. Não era incomum desembarcar o comandante com alguns negros.  Faziam um comércio informal. Trocavam moedas americanas, azeite, vinho e utensílios de toda a natureza pelas carnes, frutos, mantas de lã e água fresca. Com freqüência embarcavam homens, clandestinamente, para completar as faltas da tripulação, longe das vistas das autoridades, ali praticamente ausentes. A fama dos açorianos como bons e resistentes marinheiros às longas estadas no mar já eram conhecidas nos portos baleeiros, principalmente depois do livro MOBY DICK, do escritor americano Herman Melville, publicado em 1851.

Aproveitando o burburinho, José se apresentou ao comandante como se estivesse negociando. Descobriu que ele era um luso-americano de New Bedford e que conhecia seu tio, também marinheiro. Falou do seu intento. Tramaram a fuga. No final da tarde, no lusco-fusco do dia, fez-se o embarque dos barris de água e dos mantimentos. Quando a tripulação entrou nos botes para regressar ao navio, pareceu que havia mais negros...  Só quando estavam  se afastando é  que o guarda da costa percebeu que havia menos gente em terra... Ainda tentou ir atrás do fugitivo, mas uma bombarda vinda do barco, demoveu-o do seu intento.

A rotina sobre as águas era árdua. Vigia, limpeza, manutenção. Na lida, os dias passavam iguais, mudando só a natureza. O navio seguia a rota dos cetáceos.  Mas, quando se avistava o cachalote ou a baleia tudo mudava. O frenesi tomava conta de todos. Preparavam-se com alarde, arrumavam-se as cordas, arpões e lanças, formavam-se as equipes, em geral de seis a sete homens por embarcação. Posicionado o cetáceo, arriavam os botes no mar. Começava a perigosa aproximação.  Na proa, o trancador procurava o flanco mais vulnerável e atirava o pesado arpão, certeiro, à ordem do oficial. Sentindo-se ferido o animal precipitava-se numa abalada corrida mergulhando para o fundo, na tentativa de se livrar do apetrecho.  Na selha, a corda se desenrolava no ritmo da escapada da caça,  até que exausta, depois de tanta luta, flutuava e oferecia seu corpanzil às lanças afoitas e mortais dos baleeiros.  Ali mesmo no mar era transformada em grandes pedaços de toucinho e processada pela tripulação. Para o tubarão deixavam a carcaça e o fato. Mais tarde, tudo se aproveitava. As barbatanas para os espartilhos das damas, a carne, o sangue e os ossos para farinha de ração,  e o marfim dos dentes dos cachalotes para confecção de peças artísticas e decorativas (scrimshaw), utensílios e jóias. Naqueles tempos o âmbar e o azeite de baleia eram muito bem cotados e davam bons lucros aos armadores, donos dos barcos,  e fabricas. Para os marinheiros, nem tanto. A baleação enriquecia os americanos, mas era uma profissão arriscada que também matava, principalmente aqueles que faziam a caça à baleia. Nas lutas pelos cetáceos muitos foram esmagados ou arrastados para o fundo do mar.  New Bedford era a cidade do óleo e da prosperidade até que a falta dos gigantes marinhos, a descoberta do ouro da Califórnia e petróleo americano mudaram a rota da riqueza e da migração.

Quando José desembarcou, o porto americano fervilhava de gente. A agitação era motivada pela chegada do baleeiro. Parentes ansiosos procuravam parentes. Armadores buscavam o retorno dos seus investimentos. Na taberna, ponto de encontro dos marinheiros, achou quem lhe mostrasse onde morava seu tio, que vivia na América há vários anos, em New Bedford, na Sixth Street. Casado com uma americana, era capitão de navio. Recebeu o sobrinho com alegria. Conversaram sobre a terrinha e a família. Mataram as saudades e
puseram seus planos em dia.

José foi morar por uns tempos com o tio. Passaram a trabalhar juntos. Foram alguns anos de duras labutas, até que o comercio dos produtos de baleia começaram a declinar, nas ultimas décadas dos oitocentos. O desemprego desviou os homens do mar para as minas de ouro e lavouras do sul, ou então para o  trabalho rotineiro e maçante nas fábricas têxteis. A dificuldade com a língua e a falta de qualificação profissional levavam os imigrantes às
piores colocações nos serviços. Em terra eram segregados.

Apesar de ter juntado algum capital,  o nosso corvino não se sentia em casa. Trocou a baleação por um emprego numa fábrica.  Mas não era feliz. Ali no cais do porto, junto ao mar, divagava. Lembrava da sua terra onde , apesar de pobre, tinha um nome e era reconhecido. Percebeu que foi preciso partir para entender que só regressando se encontraria. Queria mais que dinheiro, buscava um sentido para a vida, liberdade plena, dignidade na sua humildade, respeito na cidadania. Queria fazer parte de alguma coisa, mesmo que fosse
de uma pequena comunidade, como a da sua ilha. Nele crescia o germe da insatisfação. Sentia o peito vazio.

A noite se aproximava. O céu carregado de nuvens escuras e pesadas denunciava uma tempestade. Um vento forte e gelado acordou-o da nostalgia. Sentiu fome. Caminhou a passos rápidos para a pensão da senhora Adelaide, onde agora vivia. Em vão,  a chuva atingiu-o.

Maria Eduarda Fagundes


Uberaba, 14/02/08

DECLARAÇÃO DE VACLAV KLAUS

Congresso dos EUA, Março de 2007

 

Tendo vivido a maior parte da minha vida sob um regime comunista, sinto-me na obrigação de dizer que, no início do séc. XXI, a maior ameaça à liberdade, à democracia, à economia de mercado e à prosperidade não é o comunismo ou as suas variantes mais atenuadas. O comunismo foi substituído pela ameaça do ambientalismo militante... Os ambientalistas apresentam as suas ideias e argumentos como verdades indiscutíveis, usam métodos sofisticados de manipulação da comunicação social e recorrem a campanhas de relações públicas para exercer pressão sobre os decisores políticos a fim de alcançarem os seus objectivos. Para reforçarem a sua argumentação procuram incutir o medo e o pânico, afirmando que o futuro do mundo está seriamente ameaçado. É sob uma tal atmosfera que pressionam os decisores políticos no sentido de os levarem a adoptar medidas restritivas, a impor limites arbitrários, regulamentações, proibições e restrições nas mais vulgares actividades humanas, sujeitando as populações a omnipotentes decisões burocráticas... As invocadas alterações climáticas de origem antropogénica tornaram-se num dos mais perigosos argumentos destinados a subverter o esforço humano e as políticas públicas em todo o mundo.

 

Vaclav Klaus, photo: CTK

CRÓNICA DO BRASIL

Sem  título  (por  vergonha!)

 

No último texto, sobre a desgraça que é a Palingenesia  Política,  indicavam-se, para se ter uma pequena noção do descaso político dos que (não) reinam nesta terra, alguns números sobre doenças.

Mesmo a propósito, o jornal “"O Globo"” de ontem, dia 10, trazia uma página inteira sobre a saúde -  falta dela - no país. Os números, são tristes, vergonhosos:

- 80.000 mil novos casos de tuberculose por ano, 40.000 de hanseníase, diarréia e infecções intestinais matam mais de 10.000, morrem de pneumonia quase 36.000, 7.000 de desnutrição, 33.500 por doenças da pobreza, o que significa uma média de 226 mortes diárias e 49.000 por falta de assistência médica.

Isto num país que tem em muitos hospitais médicos e medicina de primeiro mundo, investigação e destacáveis avanços na ciência médica, mas que prefere dar esmola ao povo, comprando votos com o famigerado programa Bolsa Família, do que interessar-se  MESMO pelo bem estar geral, resolver os problemas de raiz, como instrução, saneamento, prevenção de saúde, e...

Ao mesmo tempo o tal grande líder afirma que se ele comparecer a qualquer hospital para ser atendido, receberá a mesma atenção do que qualquer cidadão brasileiro! É preciso ser-se muito cínico e muito mentiroso para se fazerem afirmações como esta. É ofender a pobreza, a ética (que foi varrida do país) e a dignidade de qualquer ser minimamente pensante.

Há dias um filho meu, depois de passar quatro horas aguardando para ser atendido num hospital, na cidade do Rio de Janeiro - para lhe tirarem o gesso dum braço - ouviu como "solução" que naquele hospital não faziam esse serviço!!!

Faltam medicamentos, equipamentos, instalações hospitalares e de postos de saúde condignos, super faturam-se os medicamentos ou até se chegam a comprar comprimidos falsificados, contendo somente amido ou farinha, deixam-se apodrecer ou enferrujar equipamentos e ambulâncias por "falta de verba", de manutenção e mais uma porção de infamantes etceteras. Rouba-se muito. A corrupção é imensa.

Entretanto o grande líder que, em 2007, fez 94 voos no seu super luxuoso Airbus, o "Aerolula", paga aos três tripulantes algo como R$ 1.350.000  - um milhão trezentos e cinquenta mil reais por ano! - por ano, mais de meio milhão de Euros. Não se pode dizer que isto seja escandaloso porque não existe palavra no nosso quase inesgotável idioma, que caracterize desequilíbrio tão monstruoso.

E agora vem aí outro escândalo: o dos cartões de crédito corporativos! Até uma das filhinhas de sexa grande líder usa o cartão do governo federal para comprar porcarias nos camelôs.

Meu Deus, meu Deus, porque nos abandonaste?

 

Rio de Janeiro, 11-fev-08

Francisco Gomes de Amorim

Burricadas nº 21

Ai! que ainda me vão aos trocos...

v      Como se fosse uma grande novidade, a nossa imprensa económica começou a espalhar aos quatro ventos que o BCP vai ter de proceder a um aumento de capital – e quanto mais depressa, melhor.

v      Os números que podem estar em causa, esses, não suscitaram até agora a curiosidade dos nossos jornalistas. Ficámos todos en suspense! O que irá sair dali?

v      Certamente, o Leitor já se esqueceu do que eu escrevi vai para dois meses (Burricadas 13, aziago número). Isso! A necessidade de o BCP aumentar o seu capital (necessidade que, mea culpa, também não quantifiquei).

v      Aquela Burricada provocava – e os comentários não se fizeram esperar. Em resposta resumi qual seria o meu programa de 3 pontos para virar do avesso o infeliz Banco:

v      Contenção imediata, e redução a muito breve trecho, dos Encargos com a Estrutura (qualquer coisa menor que 20% do nível actual seria insuficiente);

v      Melhorias muito, mas mesmo muito significativas na avaliação e gestão do risco (abandonando, definitivamente, a estratégia suicida de aumentar, aumentar sempre a quota de mercado, alavancada por endividamento de muito curto prazo nos mercados interbancários europeus);

v      Retenção dos accionistas estrangeiros (os actuais, ou outros com iguais potencialidades, tanto faz) detentores de posições qualificadas, mas suficientemente diversificadas (para que nenhum dos accionistas estrangeiros possa assumir a posição dominante; para que nenhum pequeno grupo de accionistas estrangeiros possa conluiar-se para controlar a gestão do Banco);

v      Subsidiariamente: melhorias imediatamente perceptíveis na qualidade da informação financeira divulgada (e ao dispor da Gestão Superior do Banco) – para recompor credibilidade e reputação, que andam agora pelas ruas da amargura.

v      O que não disse então – nem digo agora – foi que a primeira medida tivesse de ser fatalmente um aumento de capital. E explico porquê.

v      Fossem outros os tempos e o BCP poderia vender facilmente e a razoável preço (isto é, com mais valias) uma grossa fatia da sua carteira de valores mobiliários e até, talvez, uma ou outra participação – o que seria sempre uma ajuda para a recapitalização do Banco, aligeirando o esforço pedido aos accionistas.

v      Fossem outros os tempos e o BCP poderia titularizar uma parte significativa da sua carteira de crédito hipotecário residencial, entregando, para compor o ramalhete, mais uns pedaços da sua carteira de crédito ao consumo (incluindo saldos por utilização de cartões de crédito) – e, com isso, realizava umas mais valias que viriam diminuir o seu activo e reforçar o seu capital, aliviando a pressão sobre os accionistas.

v      Fossem outros os tempos e, se calhar, o BCP até poderia contabilizar mais valias à custa do seu Fundo de Pensões (um outro cânone da engenharia financeira em que nos superamos) – e o aumento de capital seria, feitas as contas, pouco mais que simbólico.

v      Mas não. As Bolsas não estão suficientemente líquidas e, acima de tudo, não estão suficientemente profundas para acolher os volumes que o BCP tem em carteira sem um trambolhão nos preços – e as menos valias que o Banco assim registasse só agravariam o seu actual padecimento.

v      Titularização de créditos hipotecários residenciais, quando a turbulência originada nos subprime ainda varre os mercados financeiros por esse mundo fora? Quando todos desconfiam de todos? Quando se tornou evidente o que sempre esteve à frente dos nossos olhos: que o mercado residencial é uma ficção e que os valores realizáveis neste mercado sobem e descem como o de qualquer outra posição exposta a riscos de mercado? (O BES, para se proteger de uma eventual escassez nos mercados interbancários teve de aumentar o passivo, através da emissão de obrigações hipotecárias - em vez de reduzir o activo por meio de operações de titularização).

v      Habilidades com o Fundo de Pensões, agora que corre por aí que faltam fundos ao Fundo?

v      Pelas minhas contas, baseado nas Demonstrações Financeiras de 2006, o BCP recuperaria um equilíbrio minimamente confortável com uma entrada de capital de € 2,000 milhões, para mais e não para menos.

v      Custa-me a acreditar que os accionistas estrangeiros com posições qualificadas acorram, sem mais, a um possível aumento de capital desta ordem de grandeza, mesmo que seja só para manter as suas actuais posições (exceptuo os accionistas idiossincráticos como parece ser o caso da SONANGOL).

v      Ora, se estes accionistas estrangeiros não acompanharem o aumento de capital (ficando, por enquanto, em aberto saber quem o fará), verão as suas posições diminuírem – e alguns perderão mesmo a qualidade.

v      Para esses, o passo seguinte será, quase de certeza, vender as acções do BCP que tenham em carteira e partir para outra (na Burricada 13 traçava este cenário).

v      Se for assim como eu estou a imaginar, quem subscrever esse hipotético aumento de capital deverá estar preparado para sofrer menos valias nos meses seguintes – até quando, eis o que falta apurar.

v      Creio que só com um programa bem meditado, credível, divulgado com voz clara e muito bem explicado seria possível reconquistar a confiança dos accionistas (e de outros investidores) estrangeiros – e só depois se deveria falar em aumentos de capital.

v      Infelizmente, vá-se lá saber porquê, a nova Administração preferiu o secretismo – lançando sobranceiramente às urtigas a finalidade subsidiária que referi mais acima: transparência.

v      Pergunta: Se o BCP necessitar com urgência de um aumento de capital (que necessita, não tanto por razões de liquidez mas por razões prudenciais, de capital mínimo adequado) e se os investidores estrangeiros (excepção feita aos idiossincráticos) não derem uma boa ajuda, de onde virá o dinheiro que faltar?

v      Bingo! Da CGD (e de outras empresas onde o Governo manda) – talvez com o recurso a engenharias financeiras do quilate daquela que fez tremer o BCP.

v      E, tarde ou cedo, lá voarão do meu bolso uns trocos mais, agora destinados a este peditório.

A. PALHINHA MACHADO

Fevereiro 2008

A saga de um corvino

Capitulo I

                                                                              Ilha do Corvo

Do alto da rocha José observava o horizonte, àquela hora da tarde de um vermelho sanguíneo. Respirava lenta e profundamente, como se quisesse se embriagar com o ar fresco do mar. O vai e vem das águas parecia chamá-lo, convidando-o para aventuras e conquistas nunca antes imaginadas.  Era jovem e sentia-se oprimido pela pequenez da ilha. Cabelos e olhos castanhos, um bigode claro e ralo sobre uma boca vermelha e fina. Tez queimada da lida na lavoura e na pesca, de estatura médio-alta, figura um tanto quanto encorpada. Introvertido, na “caixola ”as idéias ferviam. Sonhava com as maravilhas que existiam para além daquela montanha-vulcão onde nasceu e vivia.

 Planejava partir.  E ainda mais agora que a Coroa o chamava para servir, Ela que nunca se lembrava deles, os corvinos, a não ser na hora da cobrança dos pesados impostos, tirando-lhes os minguados réis e o trigo, obrigando-os a comer muitas vezes pão de junça, por falta de cereal na ilha. Pensava: Talvez até fosse enviado para as terras das“ Áfricas, “para batalhar, sem saber porquê, ou para morrer de alguma doença palustre, sozinho, longe da família e dos amigos. Essa visão do futuro próximo o assombrava. Pediu ao pai, proprietário de uma pequena parcela de terra, que fizesse um sacrifício e o ajudasse a pagar a remissão do serviço militar, a dinheiro. Seu tio, que emigrara e trabalhava num baleeiro americano, também o ajudaria com algumas “águias” (moedas americanas com valor de 20 dólares). Era assim que o governo fazia vista grossa ao debandar dos ilhéus, enquanto as receitas adicionais açorianas engrossavam os cofres do rei, na segunda metade do século XIX.

 

Tomou o rumo de casa. Passou na Igrejinha da Nossa Senhora dos Milagres, orou, pediu proteção e a passos largos, decidido, subiu a Rua das Pedras até a sua morada, umas das casas que se dispunham lado a lado, quase geminadas, margeando o caminho. No Corvo, as portas não tinham fechaduras, só tramelas, o metal era raro, só aparecia de vez enquanto com alguém que chegava à ilha. Avisaria aos pais da sua decisão, na próxima oportunidade, se evadiria.

 

 Naquele espaço de pouco mais de 6 km de extensão por 4 km de largura, o mais longínquo Concelho do reino, sobreviviam umas 800 almas. Todos eram conhecidos e, em algum momento no tempo, aparentados.  A maioria das famílias e de escravos que ali se instalou no século XVI chegou por iniciativa ou aval dos donatários das ilhas das Flores e do Corvo para colonizar a região. Outros ali também aportaram homiziados por crimes cometidos no reino, ou fugidos das perseguições religiosas e políticas. Os antepassados desse povo (os Rodovalho,  Pimentel,  Fraga,  Avelar,  Valadão, Coelho, Vieira, Favela, Cunha, Lourenço, Rocha, Armas, Inocêncio, Bicho,...) chegaram a essas ilhas vindos da Terceira, Portugal Continental e de Flandres. Algumas dessas famílias, inicialmente aportadas em Portugal, tiveram origem nos antigos reinos cristãos (Aragão, Navarra, Leão, Castela) que formaram parte da Espanha. Mais tarde, a partir dos séculos XVIII e XIX, com a baleação, os corvinos passaram a emigrar para América, e lá se misturaram e deram origem a muitos luso-americanos.

 

Apesar da pobreza da ilha, exígua e com pouca terra, todos tinham um teto para se abrigar e um pedacinho de chão para plantar. O gado, as cabras e as ovelhas davam a carne, o leite e a lã.  E o mar o peixe. Sempre havia o que comer. O trigo e a moeda eram escassos e quase sempre iam para os donos da Ilha ou para a Coroa. Não se conseguia juntar dinheiro. Isso perdurou até que, no inicio do século XIX,  começaram a aparecer ao largo da ilha grandes barcos da América que faziam nas águas dos Açores a caça à baleia. Esses baleeiros-fabrica ficavam meses no mar, seguindo a rota dos cetáceos e só voltavam quando os barris estavam cheios de óleo. A tripulação heterogênea, composta de americanos e ilhéus de várias origens, era formada em portos como o de New Bedford, e completada nas ilhas açorianas, onde se encontrava  alimentos, água e destemidos marinheiros. Através do embarque clandestino, facilitado pela distancia e isolamento, passou-se a ter um canal de esvaziamento da força de trabalho da ilha.

 

Era agosto, pleno verão. No campo, José e os irmãos faziam a tosquia das ovelhas, quando viram um barco se aproximar da costa e baixar alguns botes em direção ao Porto das Casas. Reconheceram era um baleeiro americano. Afinal surgia a oportunidade que José tanto queria!

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 08/02/08

Burricadas nº 20

Mas,...Quantas peúguinhas? (V)

Apeadeiro dos Olivais

v      Optimista, estou a jogar tudo na hipótese de existir uma janela de oportunidade para um hub intercontinental na região de Lisboa – como o Leitor, certamente, já percebeu. Uma janela de oportunidade que se abriu com a reorganização da aviação comercial em torno de agrupamentos de companhias aéreas (ACA) e se afirmou com a entrada da TAP no Star Alliance – mas que é flor de pouca dura.

v      Este meu optimismo radica nuns quantos pressupostos:

v      Que, em terra, a arquitectura da aviação comercial assentará cada vez mais numa rede primária de hubs intercontinentais que captam e distribuem tráfego por hubs regionais (malha intermédia) e por aeroportos nacionais (pontos de acesso) – os quais, por sua vez, se ligam a aeroportos locais e asseguram os interfaces com outros meios de transporte;

v      Que, no ar, o crescimento do tráfego entre os principais hubs, separados estes por milhares de milhas, vai induzir uma inversão das prioridades na ocupação do espaço aéreo – com os voos de longo curso a saírem beneficiados;

v      Que o Star Alliance pretende mesmo ter acesso privilegiado a um hub apontado para o Atlântico Sul e as Caraíbas (sendo evidente que a Portela não reúne as condições técnicas mínimas para dar resposta às solicitações de nenhum ACA nestas rotas).

v      Tanto quanto sei, a visão da Airbus não andará muito longe disto, preocupada como está com dois indicadores: (1) a quantidade de combustível por passageiro; (2) a gestão de um espaço (o espaço aéreo) que é, por natureza, limitado – e que se encontra à beira da saturação.

v      A Boeing, porém, parece ter outro entendimento – e aposta fortemente na comodidade dos voos ponto a ponto, mesmo no longo curso, servidos por aviões relativamente mais pequenos. Obviamente, se a visão da Boeing prevalecer, o meu optimismo não tem fundamento – e o NAL não poderá ser coisa diferente de um aeroporto regional.

v      Posto isto, duas questões permanecem por responder: O que acontecerá à TAP em cada um dos cenários (NAL/hub intercontinental; NAL/aeroporto regional)? E que destino para a Portela?

v      Não sendo de prever que o tráfego aéreo entre a Europa e a América do Sul, a América Central e a África Ocidental diminua, muito pelo contrário, a sorte da TAP depende, decisivamente, da infra-estrutura aeroportuária em que Star Alliance se apoie para competir nestas rotas de longo curso.

v      Se a TAP dispuser de condições de acesso privilegiadas a esse aeroporto (designadamente, se ele se localizar em território nacional e partir da iniciativa portuguesa), o modelo de gestão que tem seguido nestes últimos anos sairá reforçado – o que é dizer, a sua posição como router (transportadora aérea de referência em rotas de longo curso) do Star Alliance consolidar-se-á. Com a apreciável vantagem de os seus proveitos operacionais se tornarem cada vez menos dependentes da demografia local e dos azares da economia portuguesa.

v      Caso contrário, a TAP: (1) perderá capacidade competitiva nas rotas que têm sido o esteio da sua rentabilidade – muito porque lhe será mais difícil obter slots nos aeroportos de destino; (2) os seus resultados ficarão, na prática, determinados por factores estritamente locais (demografia, conjuntura económica, etc.) – o que não é bom prenúncio; (3) remetida para as rotas de médio curso, onde terá de disputar a companhias low cost margens cada vez mais reduzidas, ela não sobreviverá tal como hoje a conhecemos - se é que conseguirá sobreviver tout court.

v      Neste ponto, as opções, creio, não poderiam ser mais claras – apesar de terem escapado ao relatório do LNEC.

v      E a Portela? A Portela é um excelente aeroporto de cidade (ou seja, um aeroporto de proximidade). Desactivá-lo seria esbanjar um activo com muito ainda para render.

v      Ah! Mas como coordenar dois aeroportos que entre eles distam menos de 50 km.? São tantos os casos de canibalização em que ambos – e, com eles, os passageiros – saem a perder.

v      Só que na solução 1+Portela não é fatal que se coloquem duas infra-estruturas de desigual porte a competirem pelos mesmos voos comerciais. Seria, na verdade, uma insensatez manter dois aeroportos regionais a servirem a mesma bacia de atracção.

v      A Portela está talhada para quatro segmentos do mercado de transporte aéreo: (1) os voos domésticos, sobretudo os voos com origem nas Regiões Autónomas e que tenham Lisboa como destino final; (2) os voos privados (de negócios, mas também de lazer, quando o estuário do Tejo for finalmente uma quadrícula de marinas internacionais); (3) os voos low cost em que os passageiros aceitem pagar taxas aeroportuárias mais elevadas por razões de comodidade; (4) os voos charter que exijam, pela sua natureza, proximidade (e estou a pensar, agora, em Lisboa como porto de rotação de passageiros nos cruzeiros marítimos).

v      Com excepção do primeiro, todos os restantes partilham iguais características: (1) são voos ponto a ponto; (2) são voos em que os passageiros (e, em escala muito menor, a carga) estão dispostos a pagar mais pelo conforto da proximidade; (3) são voos que dispensam hubs; (4) são voos em que a existência de uma só pista não é problema; (5) enfim, são voos cuja frequência deverá manter o ruído em níveis aceitáveis.

v      Mas, dado este modelo de exploração, as infra-estruturas de apoio a passageiros, na Portela, não serão excessivas? São.

v      E então? Então, está ali, à mão de semear, a chave do problema que, desde os anos ’50, tem afligido os que buscam como conectar, de modo eficiente, a Grande Lisboa à rede nacional de transportes terrestres.

v      O espaço e as instalações existem para, sem grandes investimentos mais, se fazer da Portela a plataforma intermodal de passageiros que Lisboa nunca teve (central de autocarros; estação ferroviária – com a apreciável vantagem de deslocar as linhas de alta velocidade para a periferia urbana; estação do Metro; ligações rodoviárias, ou por Metro de superfície, à costa ocidental pela faixa norte, felizmente ainda pouco urbanizada; até o AB1 reconvertido é aproveitável para a segurança). Quem atente no mapa reparará que a Portela dista pouco da A1, da Linha do Norte e do rio.

v      E a Gare do Oriente? A Gare do Oriente é um apeadeiro desenhado por Calatrava. Só por brincadeira se pode defender que a Gare do Oriente, na configuração actual e com tudo o que presentemente a envolve, preenche os requisitos de uma estação terminal para comboios de alta velocidade.

v      Um último comentário a propósito da avaliação financeira que o relatório divulga. Com base em volumes de tráfego sem qualquer correspondência com a realidade; utilizando taxas de serviço aeroportuário não aferidas junto dos potenciais clientes (as companhias aéreas); sem explicitar e incorporar o risco que o NAL inevitavelmente tem – só poderia ser o que, na realidade, é: um exercício extemporâneo sem qualquer utilidade. (Fim)

Lisboa, Janeiro de 2008

 A. PALHINHA MACHADO

LIDO COM INTERESSE – 23

 

FERNANDO PESSOA-GASPAR SIMÕES.jpg

 

 

Título: Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões

Autor: João Gaspar Simões

Editores: Publicações Europa-América

Edição: Março de 1957

 

 

 

Sim, leu bem, o livro foi mesmo publicado em 1957 e descobri-o há meia dúzia de anos no processo de encerramento da casa dos meus pais. Deve ter sido o meu tio, o escritor Branquinho da Fonseca, que o ofereceu ao irmão, o meu pai, que era engenheiro aeronáutico e pouco dado a poesias. Só quando se reformou é que se dedicou à História. Ao fim destes anos todos tive que abrir o livro com uma faca pois nunca tinha sido folheado, por certo passando despercebido à minha mãe que tanto lia como método de estimulação dos neurónios – ela própria o dizia – naturalmente enferrujados pela estupidificante ocupação de dona de casa.

 

O meu tio era amigo do João Gaspar Simões e no relacionamento pessoal não ficaram sequelas da polémica que tiveram no âmbito da Presença. Continuaram a relacionar-se até que um deles morreu e como ambos viviam em Cascais, o relacionamento estendia-se às duas famílias com a naturalidade de quem se aprecia mutuamente.

 

Infelizmente, eu era muito novo (como cronologicamente me competia) e não tinha maturidade para entender as conversas deles. Mas tenho-a hoje e tento remediar o irremediável lendo as obras de cada um. Uma das conversas que maior pena me faz hoje não ter então entendido foi a que se passou à minha frente num jantar que os meus tios ofereceram ao Jorge Amado e Zélia Gattai, ao João Gaspar Simões e mulher, a D. Mécia que era muito amiga da minha tia. O meu avô, Tomás da Fonseca, também estava presente pois tanto ele como eu passávamos algumas temporadas na casa dos meus tios na Malveira (a de Cascais, não a dos bois), ele para este tipo de relações literárias e eu para deambular por Cascais enquanto a minha família directa não abria a casa de Verão perto da Cidadela, frente à baía.

 

O meu avô e eu acompanhávamo-nos muito e ele teve uma enorme influência no processo de formação do meu pensamento. Os meus primos não estavam presentes por qualquer razão que não recordo e eu deixei-me ficar calado num canto da mesa a tentar entender tudo o que de facto me escapou. E do que naquele jantar foi dito só me lembro duma risota geral por causa do conceito de que «o mundo é a casa dos homens e a casa é o mundo das mulheres». Dos presentes no jantar só a escritora brasileira e eu somos hoje vivos mas, tendo ela mais de 90 anos, não deve ter paciência para recordar o que foi conversado durante aquele encontro. Assim se perde uma conversa que deve ter sido interessantíssima. Paciência, o que não tem remédio remediado está.

 

Eu diria que aqueles cuja conversa não entendi eram pessoas que não andavam por cá para se limitarem a consumir oxigénio. Fernando Pessoa tinha uma expressão bastante melhor para referir os outros, os estéreis de ideias: «cadáveres adiados que procriam» (pág. 28 op. cit.).

 

Explicado o contexto familiar em que o livro me chegou às mãos, colhe referir por absurdo um conselho que Fernando Pessoa dá a João Gaspar Simões na carta que lhe escreveu em 3 de Dezembro de 1931 citando um diplomata francês que não identifica: “Nunca explicar, nunca se desculpar, nunca se arrepender” (pág. 89). Parece que João Gaspar Simões tentara justificar uma crítica que fizera na Presença a uns poemas de Pessoa[1] e que este aceitara lindamente apesar de logo de seguida dizer que não concordava com ela.

 

Mas não estando nós habituados a ler prosa de Fernando Pessoa, estas cartas foram para mim uma revelação completa e admito que também o pudessem ser para os eruditos se esses lhes tivessem acesso: mais do que o conteúdo que nalgumas é meramente comercial mas sobretudo pelo estilo da escrita corrente de um homem a quem as ideias se formavam mais rapidamente do que a máquina conseguia escrever. Lembrou-me Kant que numa só frase inclui tantos conceitos que é necessário recorrermos a vírgulas, travessões e parênteses – que nem sempre lá estão e que por vezes estão em lugares por que não esperávamos – para decompormos temas e ideias.

 

A propósito do livro O Mistério da Poesia que João Gaspar Simões pedira a Fernando Pessoa para criticar, diz este a certa altura, a propósito da preocupação explicativa do autor: (…) O Gaspar Simões cresceu mentalmente – cresce-se mentalmente até aos 45 anos – e está atravessando uma fase de uma doença de crescimento. Sente a necessidade de se explicar mais, e mais profundamente, do que fez em “Temas”, mas, em parte, não atingiu ainda o comando dos meios de aprofundamento, e, em parte, busca aprofundar pontos da alma humana que não haverá nunca meios para aprofundar. De aí – sempre, a meu ver – o que de febril, de precipitado, de ofegante estorva a lucidez substancial de certas observações, e priva outras, centralmente, de lucidez.

À parte o que vejo nisto de uma simples manifestação de evolução íntima, creio que se entrega um pouco mais do que deveria às influências e sugestões do meio intelectual europeu, com todas as suas teorias proclamando-se ciência, com todos os seus talentos e hábeis proclamando-se e proclamados génios. Não o acuso de não ver isto; na sua idade nunca isto se vê. Pasmo hoje – pasmo com horror – do que admirei – sincera e inteligentemente – até aos 30 anos, no passado e no (então) presente da literatura internacional. Comigo isto deu-se tanto com a literatura como com a política. Pasmo hoje, com vergonha inútil (e por isso injusta) de quanto admirei a democracia e nela cri, de quanto julguei que valia a pena fazer um esforço para bem da entidade inexistente chamado «o povo», de quão sinceramente, e sem estupidez, supus que à palavra «humanidade» correspondia uma significação sociológica, e não a simples acepção biológica de «espécie humana. (…)» (pág. 92 e seg.)

 

E para meu espanto, daqui passa a uma análise social de inspiração freudiana que acusa de ser causa de grandes desvirtuamentos do comportamento das gentes: (…) Isto dá azo a que se possam escrever, a título de obras de ciência (que por vezes, de facto, são), livros absolutamente obscenos, e que se possam «interpretar» (em geral sem razão nenhuma crítica) artistas e escritores passados e presentes num sentido degradante e Brasileira do Chiado assim ministrando masturbações psíquicas à vasta rede de onanismos de que parece formar-se a mentalidade civilizacional contemporânea. (…)»

 

Para além desta, há no livro várias referências ao espírito degradante e mesquinho dos frequentadores habituais da Brasileira do Chiado, instituição que por isso mesmo o poeta abominava. Não deixa de ser uma verdadeira fatalidade que a Câmara Municipal de Lisboa tenha escolhido essa esplanada para colocar a estátua de Fernando Pessoa. Mas, apesar disso, mais vale que esteja ali do que em lado nenhum. E se abstrairmos desta confissão que ele faz sem adivinhar que as cartas viriam a ser publicadas, então podemos achar que a estátua está ali muito bem. E também julgo da mais elementar justiça dizer que gosto da estátua.

 

pessoa1.jpg

 

A propósito de Mário de Sá Carneiro, diz: (…) A obra de Sá Carneiro é toda ela atravessada por uma íntima desumanidade, ou, melhor, inumanidade: não tem calor humano nem ternura humana, excepto a introvertida. Sabe porquê? Porque ele perdeu a mãe quando tinha dois anos e não conheceu nunca o carinho materno. Verifiquei sempre que os amadrastados da vida são falhos de ternura, sejam artistas, sejam simples homens; seja porque a mãe lhes falhasse por morte, seja porque lhes falhasse por frieza ou afastamento. Há uma diferença: os a quem a mãe faltou por morte (a não ser que sejam secos de índole, como o não era Sá Carneiro) viram sobre si mesmos a ternura própria, numa substituição de si mesmos à mãe incógnita; os a quem a mãe faltou por frieza perdem a ternura que tivessem e (salvo se são génios da ternura) resultam cínicos implacáveis, filhos monstruosos do amor natal que se lhes negou.» (pág. 99)

 

E mais não digo para ver se provoco algum sentido de falta em quem me lê. Pode ser que daí resulte algum movimento para a reedição deste livro que há décadas se deve encontrar esgotado. Até pode mesmo suceder que ocorra a feliz decisão de reeditar a obra desse grande homem de letras que foi João Gaspar Simões.

 

Lisboa, Fevereiro de 2008

071.JPG

Henrique Salles da Fonseca



[1] - Presença, nº 48 e posteriormente incluído no livro Novos Temas de João Gaspar Simões

Burricadas nº 19

Mas,...Quantas peúguinhas? (IV)

v      Para ser justo, devo reconhecer que o LNEC, com este relatório, veio dar cabal (e definitiva) resposta àquilo que o Governo lhe perguntou: Onde?

v      O que surpreende é o facto de, nem o Governo, nem ninguém, até à data, ter feito a pergunta mais óbvia, aquela que marca o ponto de partida para o que importa decidir: O quê (em face da alternativa: aeroporto regional v. hub intercontinental)?

v      Fossem outras as circunstâncias, e a pergunta seria um mero exercício de retórica (ou por os céus não estarem ainda estruturados em torno de agrupamentos de companhias aéreas (ACA); ou por nenhuma localização possível, ao redor de Lisboa, preencher os requisitos de um hub intercontinental).

v      Mas não. No ar, as coisas estão, por fim, bem arrumadas (ainda que a composição deste ou daquele ACA possa vir a conhecer alterações). Por cá, a TAP é já membro de um ACA (Star Alliance). E na zona de Lisboa, pelos vistos, não faltam locais aptos a acolherem uma infra-estrutura aeroportuária com duas pistas, boas condições de operacionalidade, sem grandes restrições em matéria de ruído, nem congestionamento do espaço aéreo.

v      Assim sendo, se há que construir um novo aeroporto que supra as deficiências técnicas da Portela (quanto ao número de pistas e quanto a níveis de ruído), o mais elementar bom senso recomendaria que se investigasse, primeiro, que papel pode essa nova infra-estrutura desempenhar na economia da aviação comercial - que valia terá, de facto, no contexto internacional.

v      Ora é aqui que entra o ACA de que a TAP faz parte. Tudo indica que o Star Alliance precisa de um hub intercontinental algures no sudoeste europeu (Lisboa? Ou Casablanca, em parceria com Sky Team?), em condições privilegiadas, para se tornar verdadeiramente global e dar por concluída a sua estratégia de “internalização”.

v      Se o conseguir antes de 2013, a liderança mundial das redes de transporte aéreo comercial pertencer-lhe-á por muitos e bons anos. E só uma geração de aviões completamente nova, que imponha às rotas aéreas uma configuração totalmente diferente da que hoje conhecemos, ou uma enorme ineficiência, poderão destroná-lo.

v      É isto que, neste momento, está em jogo entre os ACA: tão-somente, a fatia maior do negócio do transporte aéreo comercial à escala do mundo (um número com muitos, muitos zeros). Numa competição onde, coisa raríssima, a região de Lisboa pode ter uma palavra a dizer.

v      O Governo, para não fugir à tradição, assume a pose do burocrata de vistas curtas: refugia-se na certeza do serviço público para amigos e conhecidos – contando com o dinheiro dos contribuintes; e só para não descer do pedestal onde poisou, nem se expor, por uma vez, às vicissitudes da concorrência, finge desconhecer um negócio que poderá dar novo alento à nossa anémica economia.

v      E tanto assim é que (escreve-se no relatório com o tráfego aéreo endógeno na mira) o arranque operacional do NAL terá de aguardar pela conclusão da teia de ligações terrestres à bacia de atracção de Lisboa, lá para os idos de 2019. Como se a dinâmica da aviação comercial pudesse esperar!

v      Exagero, por certo, quando afirmo que as virtudes da integração em redes internacionais de transporte passaram despercebidas a decisores e consultores. Pois não é que o relatório discorre (não sobre feeders e routers, como seria de esperar), mas sobre as vantagens da articulação entre o NAL e o porto de Sines?

v      Como se mercadorias que suportam perfeitamente vários dias no mar tivessem de voar até ao destino mal pusessem pé em terra firme (e, em sentido contrário, tivessem de apanhar o avião para não perderem o barco). Ou como se as pessoas, num impulso retro, voltassem aos bons tempos dos paquetes para cruzarem o Atlântico (exceptuo desta crítica, claro está, a rotação de tripulações e a logística de peças necessárias para a reparação urgente de navios - movimentos que, só eles, não justificam nenhum aeroporto de proximidade).

v      O que haveria a fazer, agora que já existem localizações demonstráveis, era pegar na malinha e ala! falar com o Star Alliance (e, seguidamente, com o Sky Team): Não vos preocupa o excesso de combustível por passageiro transportado? Não vos preocupa atravancar o espaço aéreo centro-europeu, já dele muito congestionado, com o vai e vem dos aviões de longo curso? Estão interessados num hub intercontinental algures próximo de Lisboa? Em que termos? Que volumes de tráfego planeiam fazer passar por lá?

v      Que não restem dúvidas: as projecções de tráfego aéreo gizadas por Star Alliance têm infinitamente mais credibilidade junto dos mercados financeiros mundiais do que os pobres números que a Parsons FCG alinhavou. E, por essas bandas, credibilidade rima na perfeição com financiamento mais fácil e a melhor preço.

v      Ou, de maneira mais chã: promover - mas não financiar, nem pôr em risco o dinheiro dos contribuintes. Eis a metodologia a seguir.

v      Em vez de explorarem as possibilidades de uma cooperação estreita (falar de parceria, nesta fase, seria talvez presumir demais) com o Star Alliance, os nossos estudiosos preferiram sonhar com uma cidade aeroportuária - esse delírio da “engenharia social”.

v      E, ao lê-los, fica a ideia de que o NAL nada mais é que um pretexto para que possam ter, enfim, entre mãos o climax da modernidade - uma cidade aeroportuária levantada das ervas.

v      Esquecem eles duas verdades elementares: (1) o tráfego aéreo endógeno de que falam utiliza, em larguíssima medida, voos de médio curso - e voos de médio curso não geram cidades aeroportuárias (se, para distâncias terrestres até 2,500 km, a estrada e o combóio são meios de transporte bem mais competitivos do que o avião - salvo para primores, flores e coisas assim - porquê escolher uma localização junto a um aeroporto, que nunca sai barata?); (2) as cidades aeroportuárias só surgem nas vizinhanças de hubs (alguns, poucos, hubs regionais; no geral, hubs intercontinentais) que registam tráfego muito intenso e que se encontram ligados a destinos economicamente desenvolvidos. Fala-se então de quê, no relatório?

v      Por isso, querer inverter os dados do problema e esperar que a cidade aeroportuária seja a alavanca do sucesso de uma infra-estrutura concebida de raiz como aeroporto regional é duplicar o investimento e triplicar as perdas possíveis: (1) investimentos sem proporção com o tipo de tráfego aéreo que vai utilizá-los; (2) investimentos de ordenamento urbano e imobiliários brutais, cuja sorte depende exclusivamente do sucesso do NAL (o chamado, e temido, cúmulo de risco); (3) mais um subúrbio a fermentar delinquência e frustrações, se as coisas derem para o torto.                      (cont.)

Lisboa, Janeiro de 2008

A. PALHINHA MACHADO

CRÓNICAS DO BRASIL

Palingenesia  Política

 

Há doenças que são endêmicas em países tropicais, sobretudo naqueles onde o descaso dos governantes as não combate com o rigor, a disciplina e a vontade necessárias. No Brasil é o caso da dengue (280.000 casos por ano com 100 mortes), da malária (540.000 sem estatística de mortes), da tuberculose (120.000 doentes e 6.000 mortes), e outras mais, tendo agora ressurgido a febre amarela que em pouco tempo já fez uma dúzia de vitimas fatais.

Mas a “doença” que mais mortes causa no Brasil é chamada de “homicídios” que registra uma média anual de 50.000 casos confirmados – fora os que ficam desconhecidos – com a característica de esta “doença”, por não ser combatida como merecia, ter vindo a fazer cada vez mais vítimas. A maioria dos assassinados não são identificados (não levavam nenhum documento com eles, nem são reclamados os corpos), a maioria dos assassinos continua à solta, ou porque foge da cadeia ou porque simplesmente conseguiram sentenças “suspensas”, e para este mal não há vacina. Há medo.

Por fim a mais grave calamidade que afeta o país, e neste caso, a maioria dos 180 milhões de habitantes, até porque não consta das estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nem da polícia, nem do Ministério da Saúde, age na contramão do desenvolvimento social, desvia por ano uns cem bilhões de reais para os bolsos da canalha, tem por nome Palingenesia  Política.

Segundo o meu “amigo” Aurélio, que cita Schopenhauer (aquele que dizia que quanto mais conhecia os homens, mais gostava dos cães), esta “praga” manifesta-se pelo renascimento sucessivo dos mesmos indivíduos!

É este um mal antigo, antiguinho mesmo, para o qual não se conhece nenhum tratamento específico, nem aquele conhecido como “revolução”. Sai a direita entra a esquerda. Se roubavam os da direita agora roubam os da esquerda, que de imediato passa a ser ultra direta... no descarado e impune assalto à res publica.

Os indivíduos infetados por este mal têm uma especial imunidade aos assaltos de delinqüência que cometem contra a sociedade, e gostam de publicamente se manifestar por atos conhecidos por Palinódia - Retratação do que foi dito. / Mudança de opinião. / Fraseado, palavreado, discurso sem importância – permanecendo no entanto com a mesma cara de pau, manifestação também que lhes é característica.

A liberdade de imprensa que poderia ajudar a erradicar esta e outras desgraças, é “censurada” através de verbas que os palingenésicos vão “transferindo” a seu bel prazer e interesse, para os divulgadores da informação, sempre à custa, como é óbvio, dos doadores de sangue, o sangue que eles chupam ferozmente com impostos obtusos, perspicazes corrupções e faraônicas obras que não saem do projeto ou são superfaturadas.

Enfim. Esta endemia é milenar, e com raras e honrosas exceções, grassa em praticamente todo o mundo.

Será que o homem só melhora se forem clonadas as exceções?

Tempos houve em que os demônios falavam e o mundo os ouvia; mas depois que ouviu os políticos ainda é pior o mundo. – Pe. António Vieira.

 

N. O dicionário é um livro muito “inspirador”!

 

Rio de Janeiro, 1 de Fevereiro de 2008

Francisco Gomes de Amorim

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