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A bem da Nação

Aquecimento global

POLÉMICA

Momentos de divergência

Mariana Moura 

 

Apesar de fortes evidências que associam o aquecimento global ao actual padrão de civilização, ambientalmente insustentável, o polémico Climatologista português Rui Moura engrossa a lista dos cientistas que divergem das conclusões do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima

 

 

                 Rui G. Moura, português

A temporada 2007 de furacões começou esquentando o debate sobre as mudanças climáticas. O furacão Dean que atingiu o Golfo do México está sendo ligado, por sua força incomum, ao fenómeno do aquecimento das águas oceânicas.

A ONU já pediu maior empenho da comunidade internacional nas negociações pela redução da emissão de gases do efeito estufa. E uma recente sessão especial da Assembleia Geral, com a participação de mil delegados de 150 países, foi promovida para debater especificamente a questão. Em Setembro, líderes do mundo todo também se encontrarão na 61ª Reunião da Assembleia Geral da ONU tendo em pauta a protecção das “presente e futura gerações” por meio do controle do clima global. Os

chamados aos “cidadãos do mundo” estão, a cada dia, mais constantes e alarmantes. A civilização do consumo irresponsável está em xeque.

Mas, afinal, o que levou os “cidadãos do mundo” a discutir climatologia, uma ciência que até pouco tempo atrás era absolutamente desconhecida?

O pesquisador Rui Moura, climatologista português que se especializou na discussão do aquecimento global, explica:

“Na década de 1930, os Great Plains [Grandes Planícies] dos EUA sofreram uma seca prolongada, com tempestades de areia designadas Dust Bowl [Prato de Poeira]. Esse fenómeno provocou uma crise socio-económica bem retratada por John Steinbeck no livro ‘As vinhas da ira’. A Grande Depressão viu meio milhão de norte-americanos, a maior parte agricultores, abandonar as suas terras e ir para longe dos Estados afectados. Os políticos norte-americanos ficaram com o complexo dos dog days, principalmente em decorrência dos problemas sociais do Dust Bowl.”

“Em 1988, os EUA passaram por uma fase de seca, depois da variação brusca do clima de 1975 e 76. Vários cientistas foram chamados ao Congresso para explicar o que se estava a passar. Um deles, James Earl Hansen, Director da NASA, mostrou uns gráficos e disse: “a seca é causada pelo aquecimento global que, por sua vez, decorre das mudanças climáticas provocadas pela emissão de gases do efeito estufa, nomeadamente o CO2”. O The New York Times do dia seguinte publicou na primeira página, em parangonas, que a ‘seca se deve ao aquecimento global’, desenvolvendo um artigo contra as alterações climáticas, a poluição e as emissões de gases do efeito de estufa. Como é norma, a imprensa internacional repetiu cegamente as palavras do NYT”, completa o climatologista.

A partir daí, alguns climatologistas ligados a organismos internacionais, principalmente à ONU, formaram o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, na sigla em inglês).

“Eles pressionaram o poder político incapaz de questionar a veracidade da hipótese lançada por Hansen”, lembra.

 

Engenheiro e mestre em Climatologia e Economia, especialista da Comissão Europeia e ex-membro da Comissão Executiva do Plano Energético Nacional de seu país, o pesquisador lusitano defende, junto com milhares de outros pelo mundo inteiro, que as conclusões do IPCC não reflectem a realidade.

Em linhas gerais, os cientistas integrantes do Grupo de Trabalho I do IPCC, o da base científica do aquecimento, concluíram que o nível de conhecimento científico sobre o planeta Terra já permite afirmar ser “muito provável” (mais de 90% de chance) que as mudanças verificadas nos padrões climáticos nos últimos 50 anos sejam ocasionadas pela acção humana.

Segundo a tese dos 2,5 mil cientistas que subscrevem o quarto relatório, isso se daria por meio da emissão de gases que produzem o chamado efeito estufa, cuja função é manter o calor emitido pelo Sol dentro da atmosfera, sustentando, assim, a vida no planeta.

Segundo o IPCC, os principais gases de efeito estufa são o CO2 (dióxido de carbono), o CH4 (metano), o N2O (óxido nitroso), entre outros. E os principais emissores desses gases são a queima de combustíveis fósseis, de biomassa e o manejo da terra.

O raciocínio é simples: quanto mais gases de efeito estufa são emitidos, mais calor a atmosfera vai reter.

Com base nessa conclusão, as nações do mundo estão sendo convocadas a mudar sua matriz energética para salvar o planeta.

Entretanto, de acordo com outros milhares de cientistas, não é bem assim que o clima terrestre funciona.

Ele depende de diversos outros factores.

Existem forças que tendem a reter calor – ou emitir, como é o caso do Sol – e outras que tendem a dissipá-lo.

 

Longe de ser um consenso, como tem sido apresentado, o tema aquecimento global é, ou pode ser, uma controvérsia.

Em Fevereiro deste ano, quando o IPCC começou a divulgar mais um relatório, 2,5 mil cientistas ainda permaneciam em seu quadro. Já em Maio, quando a terceira parte do quarto relatório veio a público, apenas dois mil assinavam suas conclusões.

O Painel foi criado para calcular, de forma “compreensível, objectiva, aberta e transparente, as informações científicas, técnicas e socioeconómicas relevantes para entender as bases científicas dos riscos da mudança climática induzida pelo homem, seus possíveis impactos e as opções de adaptação ou mitigação. O IPCC não conduz pesquisas nem monitora dados climáticos ou qualquer outro parâmetro relevante”. Seu trabalho não é avaliar a mudança climática em si, se ela existe ou não, ou o que a produz, mas apenas a participação humana nela.

Os cientistas que discordaram do resultado final retiraram suas assinaturas. E cada vez mais pesquisadores questionam as conclusões do organismo. A Declaração de Leipzig, assinada por 80 cientistas e especialistas em climatologia, os 17 mil cientistas e líderes envolvidos em estudos climáticos, que assinaram a Petição do Oregon Institute, e os quatro mil cientistas e outros líderes ao redor do mundo, incluindo 70 ganhadores do

Prémio Nobel, que assinaram a Petição de Heidelberg, provam que o consenso sobre o aquecimento do planeta não existe.

 

Uma parte duvida da lisura na condução do processo de elaboração dos relatórios, outros se aprofundam nos dados em que se apoiam as previsões catastróficas e há ainda os que questionam os pressupostos que levaram a tais conclusões. “O aquecimento global é uma hipótese fornecida por modelos teóricos. Baseia-se em relações simplistas que anunciam um aumento da temperatura proclamado, mas não demonstrado”, afirma o climatologista francês Marcel Leroux, membro da Organização Mundial de Meteorologia (OMM). No artigo Aquecimento Global, uma impostura científica, Leroux explica que “nos anos 70, verificou-se um desvio climático que se traduziu num aumento progressivo da violência e da irregularidade do tempo” e que isso causou uma certa confusão entre os meteorologistas. Mas defende que, ao contrário de ser em função de qualquer aumento nas temperaturas do planeta, “foi provocado pela modificação do modo de circulação geral da atmosfera”. Ou seja, uma mudança na forma de comportamentos das massas de ar.

Marcel Leroux defende a tese dos anticiclones móveis polares (AMP) que, partindo dos pólos, levam ar frio até aos trópicos. Segundo ele, um aumento na violência do clima na região dos trópicos – maiores tormentas e mais e mais fortes furacões, por exemplo – ocorreria, fundamentalmente, pelo resfriamento dos pólos, e não o contrário. Isso porque as tormentas se formam nos trópicos com o choque das massas de ar quente e frio que, por sua vez, viajam pelo planeta na medida da diferença de temperatura entre os pólos e os trópicos.

Uma das bases do relatório do IPCC são os modelos computorizados de previsão climática. Simulações de como o clima do planeta seria daqui a 90 anos. No livro O Ambientalista Céptico, o estatístico Bjorn Lomborg, professor associado do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, desafia o senso comum e aprofunda-se nos dados e números publicados nos últimos anos. Num capítulo específico sobre o aquecimento global, Lomborg fala sobre o avanço dos modelos do IPCC, mas alerta: “É importante compreender, entretanto, que o resultado das simulações depende inteiramente dos parâmetros e algoritmos com os quais o computador é alimentado. Computadores são trituradores de números e não bolas de cristal”. Todas as previsões do IPCC são baseadas nesses modelos computorizados de simulação climática.

Esses modelos previram, por exemplo, a savanização da floresta amazónica. Essa afirmação, de acordo com o professor Aziz Ab´Saber, um dos maiores especialistas do mundo em Amazónia, abre um precedente altamente perigoso.

Convidado a falar aos parlamentares da Comissão Mista Especial sobre Mudanças Climáticas do Congresso brasileiro, o geógrafo afirmou que a causa da “derruirão da floresta” é a derrubada indiscriminada. “A savanização ocorrida na Amazónia, nos últimos 25 anos, foi causada pela acção de madeireiros, agro-pecuaristas e, mais recentemente, de sojicultores, e, sobretudo, de loteadores que fizeram grandes

quarteirões do meio da floresta de vários quilómetros e foram vendendo pedacinhos”, relatou.

 Aziz Ab'Sáber, brasileiro

Afirmar que um processo global estaria acabando com a Amazónia só levaria a uma corrida planetária à floresta.

“Entre 22 mil e 12 mil anos atrás, aproximadamente, houve o último período glacial na história do planeta Terra fazendo com que certas áreas perdessem calor e outras ficassem muito frias. A Amazónia ficou sub-quente, o Brasil central entre sub-quente e pró-tropical e assim por diante. Mas esse período frio teve uma consequência sobre um outro assunto que não é tratado pelos que estão tentando falar sobre aquecimento global, que são as correntes marítimas. Quando houve esse período muito frio, a corrente que está lá perto das Malvinas foi subindo. O mar descia e a corrente subia, chegando até o norte da Bahia. E corrente fria, em zona entre tópicos, não deixa passar humidade para dentro do continente. O resultado: as caatingas se estenderam e lá, na Amazónia, o cerrado também se estendeu. Então, é exactamente o contrário do que estão pensando as pessoas que falam na derruirão da floresta por causa de um aquecimento global”, explicou o professor.

Ab´Saber declarou-se bastante irritado quando “alguns disseram que a Amazónia iria perder a sua floresta”, dando lugar a um cerrado. “Entre seis mil e cinco mil anos atrás, o nível do mar subiu bastante devido a um excesso de calor regional. E nesse período reconhece-se que o mar deixou suas marcas na frente de qualquer pontão rochoso de uma costa bem recortada, como o litoral norte de São Paulo ou certos trechos do litoral de Santa Catarina”, explicou.

O geógrafo alertou aos Deputados e Senadores que “a periodicidade climática tem de ser melhor conhecida para não se cometer o erro de, num ano mais seco ou mais quente, se dizer que está havendo processo de aquecimento global” e caracterizou como “desconhecimento das sérias questões relacionadas com os climas” a hipótese da savanização da Amazónia.

“A climatologia do Equador brasileiro, representado pela Amazónia, com uma área de 4,2 milhões de quilómetros quadrados, transiciona a partir do Maranhão para o Nordeste seco, a partir do norte de Mato Grosso para o cerrado, a partir do centro do Amazonas para o lavrado na Roraima e se estende bem mais para os países vizinhos.

Então, fico pensando o seguinte: como é que alguém, em sã consciência, pode dizer que vai haver a derruirão da floresta amazónica, como se a floresta fosse um pedacinho? E vai haver a penetração do cerrado. Certamente, durante o clima mais frio de 22 mil a 10 mil anos, houve diminuição, fragmentação das florestas anteriores e muita extensão do cerrado, mas, durante o calor, eu posso quase que adiantar aos Senhores que não vai haver isso”.

 

Revista Com Ciência Ambiental – São Paulo

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