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A bem da Nação

LUSOFONIA AÇORIANA – 2

 Teatro Ribeiragrandense

2º Encontro Açoriano da Lusofonia

 

 

Na sessão de abertura tivemos o lançamento do livro, “A Fábula em Portugal” da autoria de Luciano Pereira que foi uma mais-valia de última hora só possível devido à “Livraria Solmar Artes e Letras” de Ponta Delgada que conseguiu trazer os livros de Lisboa a tempo. A seguir tivemos a oportunidade de escutar o lançamento musical (com o apoio da RDP Antena 2 e filmado pela RTP Açores), duma obra dum compositor micaelense, Horácio Medeiros e o seu “Hino ao Cosmos” que foi assim descrito como

 

Uma nova e intensa experiência, cujos limites são os da imaginação, da criatividade e do espírito da música que nos leva numa viagem. É uma viagem interior, dos sentidos, da imaginação e da criatividade guiada por um músico – Horácio Medeiros – que nos convida, não saindo do lugar, à descoberta da música sem palavras dentro de cada um. Na abertura do Hino ao Cosmos somos enleados pela sequência de acordes que, pela sua natureza harmónica, nos seguram interiormente a uma melodia que jamais nos abandonará durante a peça. Eis que surge então a descolagem: a partida, acompanhada pela nossa memória musical, daqueles primeiros acordes de lançamento. Percorremos universos musicais distintos e variados por cada nota que é percutida. Reconhecemos géneros, estilos e cadências musicais, numa viagem que começa na ponta dos dedos do autor. A partir daí somos levados a intuir que o Universo da música não se confina ao nosso próprio planeta musical e, de tom em tom, de nota em harpejo, de acorde em frase, cada momento é único e irrepetível. Percebemos o brilho dos clássicos, a intimidade da música de câmara, a vivacidade da música contemporânea, a energia da música moderna e, mesmo assim, não conseguimos consignar a obra a um espaço e tempo. Enquanto as notas e os sons nos envolvem, mergulhamos numa variedade tremenda de melopeias que nos transportam para longe do nosso pequeno microcosmos musical e, eis que nesse instante, o músico retoma os acordes de partida, para nos dizer de onde vimos enquanto continuamos sem saber para onde vamos. É o maestro que, investindo toda a sua intimidade na execução da obra, não se esquece do ouvinte. Esta é música que só existe quando executada e, por isso, este concerto é o seu aspecto exposto, o desvelamento da obra a partir do artista que exprime uma linguagem universal. Enquanto não executada a peça é apenas potencial. É na execução que ela se torna um existente e, vivendo, torna-se relacional: o Hino ao Cosmos é uma obra que transcendemos, permanecendo alheios e alternos ao mundo real, no nosso próprio heterocosmos.”

 

As pessoas aplaudiram de pé e interrogavam-se quem era este músico que - com elas vivendo paredes-meias - acabava por ser “descoberto” para o mundo pelos Encontros da Lusofonia. Seguiu-se depois um momento solene de homenagem da Academia de S. José das Letras, do Estado de Santa Catarina no Brasil a algumas personalidades locais. Deixamos o salão nobre do Teatro Ribeiragrandense e fomos mergulhar na apresentação dos trabalhos, num anfiteatro menos imponente mas mais acolhedor. Na sessão de abertura deste ano tivemos a presença da Dra. Alzira Serpa Silva, Directora Regional das Comunidades, do Magnifico Reitor da Universidade dos Açores, a presença da Assessora do Presidente do Governo Regional, os Presidentes das Câmaras de Vila Franca do Campo e da Ribeira Grande, entre várias outras individualidades da vida literária.

 

A primeira oradora foi Helena Anacleto-Matias, ISCAP Instituto Superior de Contabilidade e Administração, Instituto Politécnico do Porto que expôs “Os desafios do Português Europeu e Mundial na Tradução e Interpretação”, seguida da apresentação de Ana Aguilar Franco Universidade de Lisboa falando sobre José Rodrigues Miguéis “Letras Americanas em Língua Portuguesa”.

 

Após o almoço os oradores e cerca de vinte e cinco participantes presenciais deleitaram-se com um passeio de quase cinco horas, em que puderam observar e visitar as belezas naturais da ilha de S. Miguel: Caldeira Velha, Lagoa do Fogo, Fábricas de Chá de Porto Formoso e da Gorreana, a aldeia da Lomba da Maia onde o “cérebro” destes encontros pulsa e ainda Porto Formoso, antes de regressarem à Ribeira Grande. Nessa noite havia teatro, a peça “Eus e Nós” representada por uma companhia (GIRA-SEEDE) vinda do Estado de Santa Catarina no Brasil, numa delegação oficial daquele Estado com 24 pessoas. Apesar de os adereços e cenário terem ficado perdidos entre o Brasil e os Açores, com um excelente espírito de equipa, de improvisação e de camaradagem, foi possível ver uma representação interessante, desafiando o público a agir.

 

(continua)

 

Ribeira Grande, Maio de 2007

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Chrys Chrystello

A REVOLUÇÃO COMERCIAL - 4ª PARTE

 
                             A NOVA SOCIEDADE
 
Ao final da terceira parte expliquei que entre as principais organizações de comerciantes, havia algumas que eram também companhias privilegiadas, isto é, possuíam cartas de privilégio do Governo, que lhes concediam monopólio em certa localidade e lhes conferiam ampla autoridade sobre seus habitantes.
 
Nesta quarta parte vamos considerar um último aspecto da Revolução Comercial.
 
Este último aspecto foi o desenvolvimento de uma economia monetária mais eficiente. O dinheiro vinha sendo usado desde a revivescência do comércio no século XI. No entanto, eram raras as moedas cujo valor fosse reconhecido fora do seu local de origem. Por volta de 1300, o ducado veneziano e o florim veneziano, ambos de ouro, tinham ganho circulação na Itália e nos mercados internacionais do norte da Europa. De nenhum país se poderia dizer, no entanto, que possuísse um sistema monetário uniforme. Moedas emitidas pelos reis circulavam lado a lado com o dinheiro de países estrangeiros.
Dobrão, moeda imperial
Além disso, os padrões monetários sofriam frequentes modificações e as próprias moedas eram muitas vezes adulteradas. Um método comummente utilizado pelos reis para fazer crescer suas rendas era aumentar a proporção dos metais mais baratos nas moedas que emitiam. O desenvolvimento do comércio e da indústria, durante a Revolução Comercial, acentuou a necessidade de sistemas monetários mais estáveis e uniformes. O problema foi resolvido mediante a adopção, por todos os Estados mais importantes, de um sistema-padrão de dinheiro para ser usado em todas as transacções dentro de seus limites geográficos. Muito tempo transcorreu antes que a reforma fosse completa. A Inglaterra iniciou a elaboração de uma cunhagem uniforme no reinado de Elizabeth I, mas a tarefa não foi terminada antes do fim do século XVII. Só ao tempo de Napoleão foi que a França conseguiu reduzir seu dinheiro aos padrões modernos de simplicidade e conveniência. Parece seguro concluir que as moedas nacionais foram realmente uma conquista da Revolução Comercial.
 
Belo Horizonte, 5 de junho de 2007    
 
Therezinha B. de Figueiredo
 

LÁGRIMAS DO BRASIL

FRANÇA x BRASIL

 

 

Foi muito interessante, e ao mesmo tempo triste, assistir a toda a campanha eleitoral em França, ver o novo Presidente assumir e dois dias depois apresentar o novo governo. Jovem. Experiente.

Foi interessante ver como a democracia funciona quando levada a sério, quando se vê que todos os candidatos, do menos cotado aos mais prováveis eleitos, dispõem rigorosamente do mesmo tempo de antena em todos os rádios e TVs locais. A tristeza ficou por aqui, onde os caciques políticos abocanham 98% do tempo, deixando os outros 2% a dividir pelos restantes “n” candidatos. Tudo dentro da legalidade! Pudera não: ELES são a lei!

Finalmente elegeram o candidato que desde o início vinha na liderança da opinião pública. Em menos de um mês o novo Presidente já fez mais, só tendo assumido o comando do país há três dias, do que o nosso grande líder em quase cinco anos. Dois dias depois de assumir a Presidência o novo Governo era apresentado aos franceses e ao mundo.

Não foi necessário, como aqui, negociatas nem cambalachos com outros partidos para dividir o bolo, mas juntar uma equipa capaz de exactamente não o dividir, mas mantê-lo o mais coeso e intacto possível.

No Brasil passados quase oito meses desde a eleição que definiu o “repetente”, o que continua a tomar conta dos propósitos dos (des)governantes é saber - negociar - a quem entregar os ricos lugares de presidentes, directores, assessores e outros penduras de uma quase infinda série de empresas e organismos estatais. A qual apaniguado, a qual adversário para lhe calar a boca, enchendo-a de possibilidade de se afogar em ladroagem. Qualquer “cara” (des-carado) muda de partido se necessário várias vezes por ano para ver onde se consegue melhor encaixar para “desencaixar” no caixa público!

Em França, Sarkozy entregou alguns ministérios a competentes membros do partido socialista, sem pactuar com este, nem negociar o “pataca-a-mim, pataca-a-ti”.

A única nota suja neste espectáculo francês foi a atitude dos socialistas, ao expulsarem um dos seus mais activos e capazes dirigentes, só por que este aceitou fazer parte do governo da França! Os socialistas deram uma bela (triste) demonstração de que a sua intenção ao concorrerem à Presidência não era governar para a França, mas para eles!

Vive la France e que seu Presidente mostre ao mundo como se governa.

Talvez daqui a cem anos esse exemplo possa aqui chegar!

Rio de Janeiro, 19 de Maio de 2007

Francisco Gomes de Amorim

CRÓNICAS DO BRASIL

 

Falta de saúde e de ética

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O SUS (Sistema Único de Saúde) foi criado na década de 80 em substituição ao antigo INAMPS,  para oferecer e padronizar o atendimento médico a todos os brasileiros. Têm o direito assegurado os cidadãos que contribuem e os que não contribuem para a Previdência Social. Tudo certo, muito bonito e evoluído, mas num país onde tantos não têm emprego ou carteira assinada, onde as frequentes fraudes e a  má administração pública lesam o Sistema, é ter leis de primeiro mundo e vivenciar realidades dos subdesenvolvidos, ou como diria a sabedoria popular, é “comer sardinha e arrotar caviar”.

 

As intenções dos nossos legisladores foram boas (e o inferno está cheio delas), mas a dificuldade foi arcar com as novas responsabilidades sem sacrificar algum sector da comunidade, o que efectivamente ocorreu com a classe médica que viu achatarem seus honorários e sucatearem as condições de trabalho. E quem pagou a conta foi toda a população.

 

Fazer projectos e reformas no grito e no improviso, sem mostrar como viabilizá-los, no Brasil é comum. E assim foi que se implantou um sistema  sem que o Governo tivesse devidamente capacitado para responder às suas onerosas atribuições. Quando surgiram as dificuldades cortaram verbas, fecharam postos de atendimento, acabaram com os convénios, aviltaram os salários dos funcionários.

 

Hoje, passados mais de vinte anos da implantação do SUS,  apesar de algumas melhoras na área da medicina preventiva, com destaque para os programas de prevenção de doenças e do planejamento familiar, os resultados ainda são pífios. E os sectores que mais problemas apresentam são os Pronto-Socorros, permanentemente abarrotados, e o Hospitalar, com a crónica falta de vagas nas UTI (s) e enfermarias especializadas.

 

A explicação está na diminuição da oferta, com o fechamento de hospitais, incapacitados de manter-se com os anémicos recursos repassados pelo Governo, e principalmente pela má distribuição e administração das verbas pelos Estados e Municípios. Hoje o sistema público de saúde tem menos unidades de atendimento do que o antigo INAMPS tinha há 20 anos atrás, e nos últimos seis anos fecharam 101 hospitais, só em Minas Gerais.

  

A realidade é que até agora o SUS tem-se mostrado incompetente para resolver a contento as prementes necessidades da saúde dos brasileiros. E para piorar o quadro actual, este ano o Ministério do Planejamento (órgão federal), para conter os gastos da União, cortou 5,7 bilhões de reais no orçamento de 40, 6 bilhões de reais, previsto para a Saúde. Situação esta que fere a Emenda Constitucional- 29, que diz: o orçamento para a saúde pública não pode ser menor que o do ano anterior, que foi de 35,4 bilhões reais.

 

Se o Governo é o primeiro a desrespeitar as normas constitucionais e a espantar o médico, oferecendo-lhe dois reais e cinquenta centavos a consulta, que será daqueles brasileiros que precisarem de atendimento na área de saúde pública?

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 29/05/07

 

Dados :

Jornal do Conselho Regional de Medicina de MG ( Abril/2007)


A LUSOFONIA AÇORIANA - 1

   Ribeira Grande, S. Miguel, Açores - também aqui se faz Cultura independente dos subsídios públicos

De 4 a 6 de Maio, a Ribeira Grande recebeu o 2º Encontro Açoriano da Lusofonia, organizado pelos Colóquios da Lusofonia, este ano em parceria com a Direcção regional das Comunidades e o apoio logístico da Câmara Municipal da Ribeira Grande. Ao longo de três dias, quase uma centena de pessoas conviveu durante nove horas naquele que pode ser considerado um grande encontro de culturas em S. Miguel.

 

Mais uma vez, e à semelhança do que se passa em todo o país, dado não haver telenovela nem música pimba, a população ignorou o evento, mas o mais grave é que a população docente também se fez notar pela sua ausência. A cultura é, cada vez mais, elitista, não de privilegiados mas de preocupados pela sobrevivência da fala, e da cultura de todos nós. À excepção da cerimónia oficial de abertura, todos os presentes estavam lá porque queriam e não para aparecerem nos noticiários da televisão e rádio. Tratava-se de pessoas preocupadas e interessadas e é para elas que estes Encontros existem.

 

Ao fazermos o balanço – depois daquilo que os presentes consideraram um sucesso – resta-nos acertar agulhas em relação a apoios e parceiros e manter a aposta no desenvolvimento de actividades paralelas que este ano enriqueceram de forma inestimável o evento, para além de proporcionarem o lançamento de novos valores e talentos, esquecidos que estavam no seio duma comunidade onde a máxima “santos da casa não fazem milagres” parece ser a lei.

 

O salto quantitativo foi tão grande quanto o qualitativo pois este ano tivemos cerca de três dezenas de oradores/as representando politécnicos e universidades de Lisboa, Nova de Lisboa, Minho, Porto, Coimbra, Setúbal, Madeira, Açores, Presbiteriana Mackenzie e Federal de Santa Catarina (Brasil), Texas-Arlington e Massachusetts (EUA), British Colúmbia (Canadá), Salamanca (Espanha), para além da Direcção Regional das Comunidades e das escolas secundárias da Maia, da Ribeira Grande e Antero de Quental (Açores)

 

O ponto de partida destes Encontros foi trazer a debate a identidade açoriana, a sua escrita, as suas lendas e tradições, numa perspectiva de enriquecimento da LUSOFONIA, tal como a entendemos, com todas as suas diversidades culturais que com a nossa podem coabitar. Queremos manter anualmente este fluxo de autores e escritores para debater a permanência lusófona nos quatro cantos do mundo. Deste intercâmbio de experiências entre os açorianos residentes, expatriados e todos aqueles que dedicam a sua pesquisa e investigação à literatura, à linguística e à história dos Açores, podemos aspirar a tornar mais conhecida a identidade lusófona açoriana.  

 

O desconhecimento, a nível do Continente e do resto do mundo, da realidade insular combate-se levando a cabo iniciativas – como estes Encontros – que visam igualmente divulgar o nome dos Açores e a sua presença no seio de uma Lusofonia alargada com mais de duzentos e trinta milhões. Pretendemos aproximar povos e culturas no seio da grande nação dos lusofalantes, independentemente da sua nacionalidade, naturalidade ou ponto de residência, todos unidos pelo facto de falarmos uma mesma língua. Todos os anos mantemos uma sessão dedicada à tradução e na qual continuamos a apostar em tradutores de autores açorianos ou de escritores cuja tema seja os Açores. A tradução é uma forma de perpetuar e manter a criatividade da língua portuguesa nos quatros cantos do mundo. A língua vive através da tradução, pois esta permite a divulgação das obras escritas.

 

Saliente-se, uma vez mais, o carácter peculiarmente independente destes Encontros, interessados em alargar parcerias e protocolos mas sem serem subsídio-dependentes, de forma a descentralizar a realização destes eventos e assegurando essa sua “independência” através do simbólico pagamento das inscrições dos participantes.

 

 Ao contrário de outros eventos de formato tradicional que no final têm uma acta cheia de boas intenções com as conclusões, estes colóquios visam aproveitar a experiência profissional e pessoal de cada um dentro da sua especialidade e dos temas que estão a ser debatidos, para que os restantes oradores possam depois partir para o terreno, para os seus locais de trabalho e utilizarem instrumentos que já deram resultados noutras comunidades. Do passado constata-se a criação de uma rede informal que permite um livre intercâmbio de experiências e vivências, que se prolonga ao longo dos anos, muito para lá do colóquio em que intervieram.

 

A componente lúdica, como se viu nestas duas edições, permite induzir uma confraternização cordial, aberta, franca e informal entre oradores e participantes presenciais, em que do convívio saem reforçados os elos entre as pessoas, que se poderão manter a nível pessoal e profissional. Os participantes podem trocar impressões, falar de projectos, partilhar ideias e metodologias, fazer conhecer as suas vivências e pontos de vista, mesmo fora do ambiente mais formal dos Encontros.

 

Ribeira Grande, Maio de 2007

 

Chrys Chrystello

 

GALIZA E PORTUGAL

LÍNGUA E CULTURA COMUNS

UMA VISÃO DE AMBAS AS PARTES

 

José Paz Rodrigues

Professor Titular de Didáctica e Organização Escolar – Universidade de Vigo;

 Presidente da Associação Sócio-Pedagógica Galaico-Portuguesa

 

 

Nota prévia: Este artigo, dirigido aos portugueses, está no galego original, escrito pelo autor com a grafia do galego reintegrado, a mesma do português oficial que os reintegracionistas procuram tornar oficial na Galiza contra vontade dos governantes galegos, agentes de Madrid, que teimam em utilizar o chamado castrapo – termo depreciativo para designar o galego espanholizado.

 

 

 

I – O primeiro problema com que nos encontramos no tratamento do presente tema é a do AUTOCONCEITO que de si mesmo têm os portugueses e, por extensão, a valoração que fazem da sua própria língua e cultura.

 

II – O segundo problema, ao nosso ver, radica na força com que nos diferentes foros os portugueses apoiam a defesa e utilização da sua língua própria.

 

III – Um terceiro problema – não menos importante – radica na visão que têm os portugueses do mundo lusófono e da utilidade da sua língua dentro do concerto da política linguística mundial.

 

IV – O quarto problema, sem dúvida, relaciona-se com o desconhecimento sobre a realidade da Galiza, mãe e berço da língua portuguesa, que tem em geral o povo português. É preciso conhecer a apoiar a Galiza melhor desde Portugal e incluir esta comunidade dentro do mundo lusófono, ao que por língua, cultura, tradição e história pertence.

 

V – Por último, ao nosso modesto entender, o problema número cinco relaciona-se com a política linguística e cultural que se desenvolve desde as administrações públicas – e também privadas – de Portugal.

 

Explicitados tais problemas, faz-se necessário entrar a analisá-los um por um.

 

1º - Pensamos, pela experiência adquirida por nós nos últimos quinze anos, que os portugueses são “galegos aperfeiçoados”. O que é o mesmo que dizer que infravaloram exageradamente o seu, pensando – muito equivocadamente – que as coisas melhores são de fora.

 

É, portanto, urgente e necessário modificar o auto-conceito que de si mesmos têm os portugueses. Portugal pode ensinar em muitos campos aos demais países do mundo: no ensino, na cultura, na defesa do património, no artesanato, na sensibilidade com as artes, no respeito pelas ideias dos demais, na defesa da natureza e da vida, etc.

 

Portugal é, para nós, um dos povos mais cultos do mundo. Infelizmente, são os portugueses os que não acreditam neles mesmos. Mais, Portugal é desde logo, junto com a Itália, um dos países com maior imaginação e criatividade do planeta. O dia em que o povo português se faça um bocadinho “chauvinista”, à moda francesa, dará um passo à frente muito importante.

 

O primeiro que necessita um povo é acreditar nele mesmo e superar todo o tipo de complexos de inferioridade. A língua portuguesa, além de formosa, é extensa e útil. A cultura portuguesa é, por enlaçar com a tradição mais autêntica e com o povo, de alto nível, muito superior à de qualquer outro país. Tão só falta que os portugueses e portuguesas tomem consciência do que estamos a dizer. Quem tem que sentir inveja são os outros de Portugal, não ao contrário. O cuidado com que em Portugal se trata a música, o folclore, as artes tradicionais, as festas populares, os monumentos com valor artístico, os museus, o livro, etc., é realmente exemplar e modélico para qualquer outra cultura. Vocês mesmos têm arquitectos paisagistas. Vocês mesmos têm parques naturais extraordinários. E não estamos a falar de um Portugal ideal senão real. Ainda conservam as feiras que já estamos a perder nós. Por não falar da cultura do vinho que tão esplendidamente conservam desde tempos históricos. Cuidar do vinho também é cultura. Conservar o artesanato autêntico também é cultura. Apoiar os ranchos folclóricos e outros grupos musicais também é cultura.

 

2º - Também a experiência nos diz que não se distinguem precisamente os portugueses pela defesa que, especialmente nos foros internacionais, fazem da própria língua. Outra vez o negativo complexo de inferioridade e de infravalorização da sua língua que têm os portugueses, leva-os a utilizar nos diferentes foros o francês ou o inglês (ou mesmo um horrível castelhano). E não o que seria natural: a língua portuguesa. Fazem assim por considerá-la de menor rango. Sem dar-se conta que na CEE, pata pôr um exemplo, depois do inglês e do castelhano, o português é a língua mais importante. Meus queridos amigos, diante do francês, do alemão, do italiano, etc. Esta atitude dos portugueses – incompreensível, olhe-se4 por onde se olhe – dos intelectuais e mesmo dos políticos, infelizmente bem poderia perdurar. Atitude que leva por exemplo a que nas reuniões da CEE ou do Conselho da Europa, por despreocupação dos afectados, faltem os tradutores e intérpretes portugueses, ou pelo menos se existem sejam brasileiros. Por se não o sabem diremos-lhe que o governo espanhol – ou os seus representantes – não dão início a reuniões se não estão nas cabinas os tradutores para a língua castelhana. São políticos bem diferentes mas que sempre as leva de perder a língua portuguesa, por culpa dos próprios portugueses. Ainda nos lembramos daquele ministro português que podendo – e devendo! – falar em português o fez em inglês. É urgentíssima a mudança de atitudes neste tema. Porque a língua portuguesa, ademais de formosa e de ser a nossa (com o que já abondaria), é a segunda língua românica mais importante do mundo depois do castelhano, a terceira mais importante da CEE, a língua oficial de sete países soberanos e cooficial com o castelhano na Galiza, além de ser falada em comunidades doutros continentes, nomeadamente Ásia e Oceânia. A utilização da língua própria pelos portugueses em todos os foros nacionais e estrangeiros é irrenunciável. O que não é incompatível com a defesa do conhecimento de outras línguas e do plurilinguismo que desde sempre tem defendido o povo português. A diferença da Espanha, em Portugal é normal que os intelectuais dominem, além da sua, outras línguas. Achamos que isso é bom e positivo, revelando uma maior cultura.

 

3º - Portugal, que teve o valor e a audácia de levar a nossa língua comum (a língua galaico-portuguesa) pelo mundo, deveria nesta altura deixar por um tempo de mirar-se a si mesmo de maneira narcisista e abrir-se outra vez – como no século XV – ao mundo. Nomeadamente, ao seu mundo, que não é outro que o mundo lusófono. O que faz necessário adoptar uma atitude mais aberta e mais generosa que até agora. Sem deixar de ser o pai (a mãe foi a Galiza), Portugal tem de estabelecer desde já laços estreitíssimos – mesmo marchando de mãos dadas no concerto mundial – com Brasil, com Angola, com Moçambique, com Cabo Verde, com Guiné-Bissau, com São Tomé, com Príncipe e com aqueles enclaves da Ásia e Oceânia – nomeadamente com o povo de Timor que tanto está a sofrer – onde ainda se conserva a nossa língua. Sem esquecer tão pouco, meus amigos, a Galiza que deverá ser incluída como mãe e berço da língua, por direito próprio na comunidade lusófona.

 

4º - Tudo quanto se paga pela aproximação cultural e linguística entre Portugal (nomeadamente o Norte) e a Galiza será sempre pouco. O desconhecimento mútuo é quase proverbial, embora cada dia se organizem mais encontros entre ambos os povos. O desconhecimento mantém de pé os preconceitos e estereótipos que uma e outra parte tem sobre um e outro povo. Que são tão negativos como irreais. Portugal tem que ver a Galiza como prolongação de si próprio. Por língua e cultura a Galiza é um troço de Portugal. Inclusive haveria que dizer que a Galiza é uma grande Olivença, para que de uma vez por todas os portugueses vejam a Galiza como uma região mais próxima a Portugal que a Espanha., à qual por razões históricas de infeliz recordo pertence. A Galiza sofreu cinco séculos de castelhanização – muitas vezes brutal – e ainda assim o povo (camponês e marinheiro) manteve ouro em o pano, em palavras de Castelão, a sua própria língua. Contra vento e maré. Contra persecuções sem conta. Contra proibições indignas as mais das vezes. Por isso a Galiza necessita de Portugal compreensão pelos seus problemas e mesmo apoio se houvesse hipótese.

 

Galiza necessita dos livros, das revistas, dos jornais, dos programas de TV, do cinema, do vídeo, etc., portugueses ou brasileiros. Galiza necessita ser conhecida a fundo pelos portugueses. Galiza necessita que se conte com ela para qualquer planificação cultural, linguística e mesmo económica de carácter lusófono. Galiza necessita ter mais, maiores e melhores comunicações com Portugal. Por terra, por mar, por ar, por telefone e pelos meios de comunicação. Não podemos continuar de costas viradas. Portugal deve saber também quem são os galegos que de verdade amam Portugal, pois infelizmente não são todos. Há muitos que de boca para fora dizem que querem a Portugal mas infelizmente só de boca para fora. Há muitos que por não amar a Galiza não amam Portugal ou vice-versa. E é necessário desmascará-los. Os portugueses devem começar por ter a consciência de que a Espanha não é, embora o pareça, una. As únicas comunidades comuns no Estado espanhol com Portugal são a “Olivença pequena” e a “Olivença Grande”, a Galiza.

 

Por razões culturais, linguísticas, históricas e mesmo pela forma de ver a vida e de pensar ou pela idiossincrasia dos dois povos: o galego é o português. Todos os galegos bons e generosos que houve no nosso mundo cultural amaram Portugal: Murguia, Rosália de Castro, Pondal, Curros, Vilar Ponte, Viqueira, Castelão, Risco, Cuevilhas, Lousada Diegues, Carrá, Otero Pedraio, Cabanilhas, Carvalho Calero, Jenaro Marinhas (este felizmente ainda vivo), etc. Existe no pensamento galego mais autêntico e europeísta uma linha de continuidade que passa pela unidade cultural e linguística de Galiza e Portugal. Também Portugal tem muito que aprender da Galiza, pelo que esta sofreu ao longo dos séculos. Com os novos meios não seria utópico pensar que Portugal terminasse por ser no futuro uma “Olivença imensa”. Preocupa muito aos galegos ver a alegria com que em Portugal, desde as administrações públicas – apoiam o levantamento de postes repetidores para ver a TV espanhola. Infelizmente tal alternativa não se corresponde em paralelo com o levantamento de postes repetidores para ver na Galiza a TV portuguesa. O mesmo exemplo valeria para a rádio, o livro, o vídeo, as revistas ou os jornais.

 

Amigos portugueses, lembrem-se que não se deve esquecer desde Portugal a Galiza, esse belo troço atlântico português de coração, mas não de amo.

 

5º - Para terminar seria necessário ver se existe, se é correct5a e coerente e se é suficiente a política levada a cabo no momento actual pela administração portuguesa para divulgar a língua e a cultura portuguesa no mundo e, nomeadamente, nos âmbitos da lusofonia e nas colónias de emigrantes portugueses na Europa e na América, ou mesmo na Oceânia. Conhecemos as dificuldades económicas pelas que nos últimos anos está a passar o Estado português, que na maioria das vezes tem de suplantar com imaginação. Mais, dentro destas dificuldades, o Governo Português não deveria “escatimar” esforços para divulgar a língua e a cultura portuguesas, para apoiar a divulgação da literatura e do livro português – para nós de um grande valor tanto na forma como no conteúdo e na variedade – para a apoiar a realização de programas de vídeo, cinema, rádio e TV conjuntos entre todos os países lusófonos, incluída a Galiza. Para realizar publicações conjuntas de jornais e revistas dentro do mundo lusófono. Para abrir nas cidades mais importantes, nomeadamente nos países lusófonos, incluída a Galiza, Institutos de Língua e Cultura Portuguesa (com professores e dinamizadores). Para mandar aos PALOP’s livros, revistas, materiais de ensino. Para evitar o que está a acontecer em Guiné-Bissau que pode levar a que este país abandone a nossa língua, trocando-a pela francesa. Para divulgar as artes plásticas, o teatro, o cinema, o artesanato, etc., por todo o mundo e especialmente o lusófono, incluída a Galiza. Organizando ciclos e circuitos itinerantes em esquecer as comunidades portuguesas de emigrantes e os Centros Portugueses espalhados por todo o mundo: na Europa, no Brasil, nos EUA, no Canadá, na Austrália e na África.

 

Como exemplo convém citar a última decisão do Governo espanhol de dedicar um bom punhado de dinheiro para criar nas cidades do mundo os chamados “Institutos Cervantes” para divulgação da língua castelhana. Portugal deveria apoiar-se para oferecer serviços culturais nas diferentes Embaixadas de Portugal em todo o mundo, ao estilo do que faz por exemplo a França e a Alemanha. E não deveria esquecer da possibilidade que existe de realizar convénios entre Centros Galegos e Centros Portugueses de emigrantes, verdadeiros aliados naturais, no que se poderiam levar em frente programas culturais conjuntos de cooperação. Tenho dito.

 

 

 

In “GALIZA PORTUGAL – UMA SÓ NAÇÃO”, ed. Nova Arrancada, Lisboa, Outubro de 1997

CRÓNICAS DO BRASIL

SUMMUM JUS - SUMMUM INJURIA

  

Não é do tempo de Roma antiga que esta expressão veio mostrar o quanto de injusto é o excesso do direito: Quanto mais direito (justiça) mais injustiça! Já vinha de trás.

 

Os homens inventam leis que, se tiveram nos seus primórdios a intenção de regular e proteger as sociedades, as populações, logo se foram revelando uma prepotência e uma forma “legalizada” de, SEMPRE, prejudicar os mais fracos.

A história, por norma contada pelos vencedores, apodam os vencidos de bandidos e terroristas, e os vencedores de heróis, quase santos, e o direito, teoricamente estabelecido para reger igualitariamente o bem-estar comum, quando entregue a um juiz, se mostra desde logo injusto.

O que pensa a cabeça de um, não é o mesmo do que pensa um outro, muito menos quando os juízes, como homens (ou mulheres) são vulneráveis às chaves de ouro, que abrem TODAS as portas.

Uma mulher passa alguns meses em prisão por ter “roubado” de um supermercado um pacote de manteiga, enquanto um desembargador recebe milhões para alterar sentenças a favor de cúmplices bandidos e o “pior” que lhe pode acontecer, normalmente é... NADA. Ou vai para casa com um choruda pensão.

Ministros, deputados, senadores, governadores, assessores, delegados de polícia e outros canalhas, desviam à doidada dinheiros públicos, são acusados e detidos, e dois ou três dias depois uma ordem do SUPREMO tribunal manda soltá-los.

Fazem-se obras faraónicas por custos exorbitantes e muitas delas ou não saem do papel, saindo só o pagamento; são pontes, estradas e viadutos que vão de lugar nenhum a nenhum lugar.

 

Maranhão, Reino da família Sarney. Ponte? Viaduto? Arco-iris? Monumento à corrupção? Sim.

 

É um desvario diário, um tremendo descrédito de toda a estrutura administrativa e governamental, mas pior do que tudo isso é o descrer-se, cada vez mais, nas instituições jurídicas.

Compram-se funcionários do cartório distribuidor para que os processos acabem nas mãos de amigalhaços, compram-se a seguir juízes e promotores, vendilham-se (como diz Arnaldo Jabor) sentenças e liminares para obstruir as leis, e, assim mesmo o Brasil consegue andar para a frente.

Mas a bandalheira está cada vez ou pior ou em mais evidência sem que se ouça do primeiro magistrado da nação uma palavra de ordem, de orientação, de disciplina, de ética, de vergonha. Este já só se manifesta para informar que quer fazer o seu sucessor!!! Tudo corre ao invés de um convento franciscano, onde “a ordem podia ser rica mas os frades pobres”!

Não há comando, o absentismo é total, e quando algum alto membro do (des)governo vem a público é normalmente para “informar” que tudo está sob controle, que ninguém roubou nada, que os indiciados, condenados e cadastrados na roubalheira continuam a ter o seu espaço livre para actuar.

Nós, os outros, a quase totalidade da população, assistimos a este constante descalabro, a este desmoronar duma ética que parece jamais ter chegado a este continente, e... deixamos “tudo por isso mesmo”!

Não há dúvida que cada povo tem o governo que merece. E a justiça.

Rio de Janeiro, 22 de Maio de 2007

Francisco Gomes de Amorim

 

 

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