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A bem da Nação

AS MEDALHAS QUE NÃO TIVE

 

 

O peito do herói soviético é um autêntico mar de medalhas. Deve-as tanto ao número de nazis ou chechenos que abateu nas guerras como ao modo eficaz que praticou ao varrer a parada do quartel ou à poupança registada no consumo do desinfectante dos urinóis do Metro de Moscovo. Recitar um poema de louvor ao camarada Secretário-geral do Soviete Supremo também era motivo para a condecoração do jovem Pioneiro da revolução socialista e a prática louvaminheira da hierarquia também ia sendo motivo para o soviético julgar que era herói só pela acumulação de medalhas que ia pendurando do pescoço à cintura passando por tudo quanto era peito.

 

Só o acto eminente merece destaque; o desempenho cuidadoso da vulgar missão é obrigação funcional e o desleixo é punível. A banalização da condecoração destrói a essência do realce e só se justificava num regime político e económico, o soviético, que nada mais tinha para dar a não ser a flatulência condecorativa.

 

Também nós, portugueses, estivemos quase a cair na “condecoratite” pois bastava ao militar em comissão no Ultramar não ser punido para ter automaticamente direito a uma medalha. E tanto fazia que se tratasse de operacional no mato em zona de combate como de administrativo em zona urbana sossegada e com turistas à volta. Saindo à Ordem da Região Militar que fulano ou beltrano cumprira a comissão de serviço sem punições, era-lhe automaticamente conferida a condecoração. Contudo, a medalha teria que ser comprada pelo condecorado.

 

Chegado aos 18 anos lá fui “dar o nome à tropa” e de então em diante lá fui todos os anos informando o Distrito de Recrutamento de que cumprira os estudos com aproveitamento, assim me sendo conferido o adiamento legal de incorporação nas fileiras. Até que cheguei ao fim do curso e me considerei em condições para “ir pr’à tropa”. Que não, que tinham economistas a mais.

 

- Então você não tem mais nada que fazer? - perguntou-me o Sargento lá de trás do guichet - Venha cá pr’ó ano!

- Muito bem, venho cá pr’ó ano mas, já agora, diga-me cá em que época é que é melhor eu cá vir.

- Olhe: vamos já tratar disso. Você nem cá volta ao Distrito de Recrutamento e vai directamente apresentar-se em Mafra na incorporação de Abril do ano que vem.

 

E assim foi que fiquei um ano em pseudo-férias ou em pseudo-trabalho (passados quase 40 anos continuo sem saber classificar aquele meu ano de espera) pois passei por uma empresa a que a família estava ligada mas montei a cavalo todos os dias e voltei à ginástica até que... lá fui “assentar praça” em Mafra.

 

Assim, contei até aqui sete actos voluntários de ingresso no Serviço Militar: dar o nome; confirmar o fim dos cinco adiamentos; apresentar-me no quartel para a recruta.

 

Não fora o caso de ter engordado cinco quilos durante o primeiro ciclo da recruta e nada de especial haveria para contar, a não ser o facto de ter estado na iminência de ser encaminhado para Infantaria a fim de frequentar o Curso de Comandantes de Companhia e passar a desempenhar as funções de Capitão daquela Arma. Mas à última hora, os Comandos decidiram que os economistas poderíamos optar entre o desempenho das funções de subalternos em Administração Militar (Contabilidade e Pagadoría) ou de Capitães de Infantaria.

 

Eis como todos os estudiosos de Adam Smith e Milton Friedman seguimos direitinhos para o segundo ciclo da recruta na Escola Prática de Administração Militar.

 

Se considerarmos cada regresso de fim-de-semana ao quartel (11, no primeiro ciclo da recruta) como um acto voluntário de construção do Mundo Lusófono, somo 18 até aqui, mais outros 11 durante o segundo ciclo da recruta e ainda mais 11 durante o estágio. Tudo, somando 40 vezes que concordei cumprir o Serviço Militar Obrigatório. E depois desta enorme quantidade de actos voluntários, eis-me mobilizado em rendição individual para Moçambique, terra que há muito ambicionava visitar.

 

Já ia no avião quando um companheiro de viagem me disse que nós, os de Contabilidade e Pagadoría, só tínhamos em Moçambique como colocações possíveis Nampula, Beira ou Lourenço Marques pois os Conselhos Administrativos das Unidades militares espalhadas pela quadrícula tinham sido extintos e a gestão fazia-se conjuntamente nos respectivos Comandos Territoriais. Assim foi que fiquei a saber que iria para uma cidade e não para o mato.

 

Como todos os que iam em rendição individual, fui ao Quartel-general em Nampula – capital militar de Moçambique – receber colocação e . . . fui colocado em Lourenço Marques. Bem sei que “a sorte protege os audazes” (1) mas a minha audácia ainda estava totalmente por provar.

 

Chegado a Lourenço Marques, fui colocado na Comissão de Apoio à Liquidação e Extinção dos Conselhos Administrativos a qual ocupava uma “flat” no bairro militar, mesmo junto ao Clube Militar que, por sua vez, se situava perto da Polana, zona chique da cidade.

 

Faço desde já notar que a documentação a classificar tinha certamente sido colocada na referida casa em conformidade com um processo muito expedito sob o ponto de vista logístico mas algo problemático na perspectiva administrativa: transportada a granel e despejada à pasada.

 

Não será necessário explicar por que é que nesta posição geográfica não utilizei arma de fogo mas o armamento químico a que recorri na primeira missão militar de que fui incumbido em Moçambique destinava-se a exterminar pretos rastejantes e saltitantes, dava pelo nome de “Dum-Dum” e com ele nos íamos libertando de baratas e pulgas.

 

Mas ao fim de três esforçados meses de relativamente pouca classificação documental, muito extermínio químico de elementos indesejáveis e com inesquecível convívio social militar e civil, eis que sou recambiado para o Quartel-general em Nampula no âmbito duma determinação de ali juntar todos os economistas em serviço militar.

 

Colocado na Chefia de Administração e Orçamento, integrei-me de imediato num grupo bem divertido de militares e raparigas (filhas de militares mais velhos que nós), comprávamos três filas do cinema e esgotávamos a capacidade hoteleira quando íamos à Ilha de Moçambique. O serviço era cumprido com a maior normalidade, sem esforço nem sequelas mas com um grande sentido de responsabilidade perante os que, no mato, garantiam o nosso conforto. E se nas horas vagas contribuíamos para que Nampula tivesse um pequeno ensaio de cosmopolitismo, isso era muito positivo para os operacionais que vinham à cidade descansar. Dentre nós, havia os que à noite davam aulas no liceu, os que colaboravam nas missões da Igreja e os que participávamos nas múltiplas actividades da sociedade civil, todos vivendo e deixando viver num espírito de missão histórica a que não conhecíamos o ponto de chegada mas que muito nos fez pensar quando acabou a guerra no Vietname: «Agora foram os americanos; os próximos somos nós» – e fomos mesmo!

 

Muitas foram as histórias que por lá tivemos mas a que mais carinhosamente recordo é a da minha dactilógrafa Claudina, nada e criada em Nampula, miscelânea de sangues macua e goês, a quem nunca fui capaz de convencer de que em Lisboa havia um comboio que circulava debaixo do chão: - Ah! O Senhor Alferes está a brincar comigo.

 

No seu percurso de casa para o escritório (oficialmente era um quartel mas de facto tratava-se de um prédio de escritórios), a Claudina encurtava caminho pela floresta de cajueiros mas depois de almoço não resistia a estender o braço e colher um ou dois frutos. Só que aquele fruto fermenta mesmo a sério quando comido assim em fresco e vai daí que a nossa amiga chegava ao serviço sempre com “um grãozinho na asa”. Era por essa hora que lhe apetecia dançar e vai daí tínhamos que lhe fazer a vontade mas púnhamos o Ázito, o soldado que fazia de contínuo da Chefia, de plantão à escada para nos prevenir da chegada do Coronel. Nunca fomos apanhados a dançar, nunca ninguém faltou ao respeito a ninguém e sempre fomos convidados para os casamentos e baptizados que iam ocorrendo entre o pessoal civil autóctone da cidade e suas redondezas. Quando era hora de trabalhar, trabalhava-se; quando havia menos pressão, podíamos descontrair. Fui fiador de um escriturário que precisava de um pequeno empréstimo bancário para fazer um telhado de zinco na sua casa nova. É claro que fui ao festim de inauguração da casa e ele pagou o empréstimo na íntegra antes da minha saída de Nampula. Gente séria nota-se à distância. Chamava-se Boaventura e tinha acabado de casar quando o conheci.

 

Foi ele que me indicou o Faria Dois Mil, famoso ourives que derretia as moedas de dez Escudos para fazer pulseiras e brincos. Deixava-nos assistir ao trabalho quase todo mas a dada altura voltava-nos as costas com um pedido de desculpas dizendo – Agora tem esperteza, meu Alferes não podes ver. E é claro que o Alferes, eu, nada fazia para ver, estava lá para comprar pulseiras e brincos para a namorada de circunstância e ainda hoje estou convencido de que se visse o que ele escondia não havia de perceber onde podia estar o segredo a que ele chamava “esperteza”.

 

  Sentadas, da direita para a esquerda, a D. Glória cujo apelido esqueci e assessorava o Carlos Traguelho, a minha assessora Claudina Pinto, a  «dançarina» Claudina e uma Senhora que já não identifico; nos militares, também a partir da direita, o 1º é o António Seruca Salgado, o 2º sou eu (não, não estou metido num buraco, sou mesmo mais baixo que os outros), o 3º é o Carlos Prieto Traguelho, todos Alferes Milicianos, a que se segue o nosso Comandante José Giro que então era Major, a seguir está o Capitão Melo, o Alf. Mil. Delmiro Carreira e o Sargento Ajudante de que também esqueci o nome; na varanda e sempre a contar da direita, começamos pelo famoso João Lacerda mas depois só identifico o 3º que é o Boaventura.

 

Um dia houve um forasteiro que, entre outras originalidades, terá limpado os sapatos à toalha das mãos e o funcionário da limpeza, que pomposamente se chamava João Lacerda, colou no autoclismo um escrito que rezava assim:

 

“É favor que não dêtas pabel zenigo nosão nem limpas zabato gom tualha”

 

No 14 de Julho de 1972 saí de Nampula no meu carro com destino a Lourenço Marques – para onde fora novamente transferido – fazendo-me acompanhar de dois amigos, o António Sousa Pires e o Miguel Lory. Tive despedida especialmente organizada por esses “nampulitanos” por quem criei amizade, organizou-se cortejo de carros até ao limite da cidade para nos desejarem boa viagem e houve alguma emoção na despedida final.

 

O meu revólver fez a viagem dentro duma mala e as balas noutra mala, ambas no porta-bagagens. Guerra? Mentira! (2)

 

Ao fim destes anos todos, que será feito da Claudina, do Boaventura e do João Lacerda? Terão sobrevivido ao comunismo? Temo que o cilindro revolucionário tenha feito das suas . . .

 

Passados trinta anos, voltei a Moçambique mas fiquei-me pelo sul e não fui a Nampula. Da próxima vez que lá voltar, hei-de procurá-los mas eventualmente terei que me limitar a encomendá-los. E não haverá por certo qualquer confusão uma vez que os macuas estão muito islamizados e o Allah deles é o nosso Deus: no acto da encomendação, é só uma questão de nome e de ritos. Mas irei à procura deles, ai isso é que vou!

 

Chegado a Lourenço Marques, passei a desempenhar as funções de Tesoureiro do Quartel-general do Comando Territorial do Sul e assim acabei a comissão de serviço na Região Militar de Moçambique: sem actos heróicos nem punições.

 

Duvido que a máquina militar tenha tido grandes ganhos com esta minha missão; limitou-se a ter algum controle orçamental e a ter quem pagasse alguns compromissos. Mas eu ganhei imenso em mundividência, em humanidade, em experiência.

 

Onde está o motivo para a condecoração a que por lei tive direito? Fiz a tropa porque quis; não fui operacional; na vida estritamente militar, nada mais fiz do que o que me cumpria – mas reconheço que o fiz empenhadamente e as punições eram tão raras que a sua ausência não se fazia notar.

 

Por todos estes motivos, entendo que se me dispusesse a receber as medalhas das Campanhas de 1971, 1972 e 1973 em Moçambique, isso seria uma afronta aos operacionais que garantiram o conforto de que usufrui. Por esse mesmo tipo de razões, não me sinto com direito a ombrear com os verdadeiros ex-combatentes nas comemorações do 10 de Junho. A eles, toda a honra.

 

Eis, portanto, as medalhas que não tive.

 

Por isso comprei agora a cópia em miniatura da da Ordem de Cristo editada por um jornal de Lisboa em colaboração com o Museu de Presidência. Como a condecoração verdadeira nunca me foi conferida, comprei a cópia sem a mais leve hipótese de impostura.

 

 

Tavira, Agosto de 2006

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

(1) - Lema dos Comandos do Exército Português

(2) - Sobre esta viagem bem como sobre a componente não militar da minha presença em Moçambique durante quase quatro anos, farei outras crónicas

Curtinhas XIX

A LITÂNIA DE UMA CRISE

v     O maniqueísmo descreve-se em poucas palavras: para mim, o monopólio da razão; para ti, o erro contumaz.

v     Ora, estas crises lá na outra ponta do Mediterrâneo são sempre campo farto para os muitos maniqueísmos que por aí campeiam. E, nesta atribuição sistemática da culpa a Israel, gente que se diz progressista, mas que lê pouco, não vê que está a comungar dos preconceitos ideológicos que instigaram Hitler, Mussolini, Franco (para quem a desgraça de Espanha tinha origem nos judeus e na maçonaria), Staline, progroms czaristas - e, em tempos mais recuados, os Concílios de Toledo.

v     Ao longo dos séculos, tudo tem servido de pretexto para acertar contas cuidadosamente ocultadas com os judeus: em vez da observação honesta dos factos, a vontade de justificar, seja como for, a certeza bem-pensante do momento. Só por isso, o porquê do “problema judaico” (fenómeno eminentemente europeu, com uns quinze séculos de existência), e o papel que os próprios judeus nele têm desempenhado, continuam terra incognita.

v     Na presente crise, as acusações lançadas deixam a lógica malferida (tal como a verdade, a lógica conta-se sempre entre as primeiras vítimas de qualquer crise mais grave). Entendamo-nos: Israel foi criado para resolver os problemas históricos da Mitteleuropa com os seus judeus, e para esbater a lembrança do holocausto (nós por cá, na Península Ibérica, solucionáramos de vez o nosso “problema judaico” no final do séc. XV; e as restantes nações europeias nunca fizeram dos seus judeus um problema por aí além).

v     O próprio movimento sionista surgiu na Europa Central, no seio de judeus askhenazis, descendentes muito provavelmente, não de povos semitas, mas de populações judeizantes que eram numerosas na bacia mediterrânica, desde o séc. V. Para o sionismo moderno, Israel poderia ser o território original da sua religião - mas não era, seguramente, a terra dos seus antepassados.

v     É legitimo perguntar se, terminada a guerra, as reparações que os Aliados sentiam dever aos judeus europeus não seriam mais justas e generosas se estes continuassem, como até aí, cidadãos dos países que os viram nascer. E, ainda em tempo de perguntas: Porque não se sentiram as potências aliadas igualmente em dívida para com todas as outras vítimas do holocausto? Estaria subjacente a esse sentimento de culpa e expiação o desejo de solucionar de vez o tal “problema judaico”?

v     Duas realidades dessa época parecem incontornáveis: os judeus da Mitteleuropa, depois de terem passado o que passaram, não confiavam facilmente na vizinhança; e as nações europeias, a braços com o que a guerra destruíra, não tinham como os compensar (o milagre económico europeu nem sequer era ainda sonhado).

v     A solução foi dar aos judeus um território onde eles se instalassem, para aí cultivarem a sua própria recompensa. Pensou-se em Moçambique, pensou-se na Patagónia, mas o apelo ideológico-religioso da Terra Prometida falou mais alto. Com a comodidade de ela, desmembrado o império turco, se repartir por protectorados onde França e Reino Unido punham e dispunham a seu bel-prazer (e com a curiosidade de nenhuma destas duas potências ter conhecido, portas a dentro, um “problema judaico”). Por outro lado, o facto de as alternativas serem, ou uma colónia de um Estado europeu que mantivera uma neutralidade colaborante com os Aliados, ou uma província de um Estado independente, não terá sido estranho à decisão.

v     Quem pagou a factura da solução mais expedita (perfeita mesmo, sob vários ângulos) foram os que, à data, habitavam a Terra Prometida, forçados a apertarem-se para dar espaço aos que recém chegavam - ou a partir (o que traz à ideia uma outra pergunta: porque não recorrer agora a solução idêntica, e encontrar algures, para os palestinos deslocados, um território?)

v     O busílis de tudo isto está em que o Estado de Israel foi concebido como uma democracia "à ateniense" - ou seja: o acesso à cidadania pressupõe um dado atributo étnico-religioso-cultural. A prova étnica está na origem indo-ariana (os judeus sefaraditas e, sobretudo, os oriundos do Norte de África e da Etiópia são alvo de uma discreta discriminação); a prova religiosa está na veneração da Tora (o que levanta atritos com quem pratique outras religiões ou seja, mesmo, agnóstico); a prova cultural consiste, também ela, na adopção de princípios que caracterizam o modo de vida ocidental.

v     Por isso, os que habitavam a Terra Prometida não tinham lugar no novo Estado de Israel. Como nunca terão, porque o diferencial das taxas de natalidade entre judeus e não-judeus levaria a que, no curto espaço de uma década, a base actual da cidadania ficasse completamente subvertida. Sob este ponto de vista, enquanto Israel for um Estado étnico-confessional (logo, essencialmente não-moderno) o problema de fundo criado pelas potências aliadas não tem solução.

v     Racismo dos israelitas? Antes de nos precipitarmos com a resposta, convém meditar sobre o modo como nós, europeus, estamos a reagir à crescente presença de outras culturas nas nossas ruas.

v      Se tudo isto está na origem do actual conflito israelo-libanês, nada disto lhe serve de justificação.

v     O Hezbollah não é um Estado, nem é formado por apátridas. Mobiliza, sim, libaneses que, tanto       quanto se sabe, não foram directamente afectados pela criação de Israel. E o que se passa é que cidadãos de um Estado (o Líbano) se armam, se militarizam e se treinam para atacar continuamente um Estado vizinho (Israel), sob o falso pretexto da solidariedade islâmica. Por isso, a causa da presente crise não mora em Israel - mora no Líbano. E é no Líbano que terá de ser remediada.

v     Neste contexto, o Governo libanês só tem três saídas: (a) ou considera o Hezbollah um grupo que actua à margem da lei interna, e deverá perseguir, prender e julgar os seus membros; (b) ou perfilha os objectivos e as acções do Hezbollah, e deverá declarar guerra a Israel, suportando-lhe as consequências; (c) ou declara-se impotente, e terá de pedir ajuda internacional para meter na ordem os que, sendo seus cidadãos, e a partir do seu território, atacam um Estado vizinho.

v     Nas actuais circunstâncias, ao lutar contra uma agressão que se crê ao abrigo de qualquer resposta só porque não reveste a forma tradicional de Estado versus Estado, Israel combate por todos nós. Defenderia eu exactamente o mesmo se, por exemplo, o Grupo dos Amigos de Olivença, farto de esperar, começasse a atacar a tiro e à bomba a Espanha e os espanhóis que encontrasse.

 

Lisboa,. Agosto de 2006

A. Palhinha Machado

CRÓNICA DO BRASIL

Maledetti  voi  e  noi

 

Muito bom o filme "Piazza delle Cinque Lune", que conta a história duma investigação sobre o seqüestro e assassinato, pelas Brigadas Vermelhas, do líder da Democracia Cristã na Itália, Aldo Moro. Dá muito que pensar quando se vê o quanto somos impotentes contra tanta trama de "alto nível" e poder que, mais ou menos descaradamente, continua a conduzir os destinos da maioria dos seis bilhões de terráqueos. No final do filme o neto do estadista assassinado, Luca Moro,  faz uma breve aparição, cantando "Maledetti voi", com alguns versos que dizem também "Maledetti noi"!

Malditos vós que nos tratam como insetos, desprezíveis, que nos ignoram, que atropelam tudo e todos para alcançar objetivos que servem a interesses escusos e dissimulados, e malditos nós que na maioria das vezes nos comportamos de modo covarde, impassível, perante a corrente contínua de vergonha que nos faz espectadores dum mundo cada vez mais desigual e menos confiante.

Isoladamente cada um de nós é abaixo de inseto. Nada vale. Mas se fossemos capazes de nos darmos as mãos, de nos olharmos como irmãos, já seria muito difícil que nos impusessem leis, injustiças e vontades que beneficiam uma minoria, espantosamente pequena, em detrimento dos, quando isolados, mais fracos.

Corre pela Internet uma argumentação furada: Vote Nulo, como se isso resolvesse os problemas do país. Só piora, porque as corporações, normalmente de bandidos ou compadrios, teriam mais facilidade em se locupletarem com os votos úteis.

Infelizmente no Brasil uma esmagadora maioria do povo votante tem um tremendo atraso cultural. Não se informa nem arregaça as mangas para lutar contra o status quo que é o descalabro dos legislativos e dos executivos a todos os níveis. Os órgãos de informação dão espantoso destaque a desgraças fofoquentas como o julgamento duma facínora que matou pai e mãe, à facada e que talvez só fique quatro anos na cadeia. O destaque não é porque a população se indigne com tamanha injustiça, não. É porque isso é bom para fofocar!

Entretanto não se apercebe, por exemplo, que o governo decreta novos valores mínimos de produção para que as terras - propriedades - agrícolas sejam consideradas produtivas ou não. Os novos valores são absurdamente altos. Alguns valores são superiores às colheitas do ano passado, o que significa que essas terras, num abrir e fechar de olhos, podem ser expropriadas e entregues à sorte do MST. O que isto significa? Primeiro, que eventuais investimentos no setor agrícola tenderão a desaparecer. Quem vai querer investir e ficar com uma espada, amaldiçoada, em cima da cabeça? Depois, como o MST não é capaz de gerir o agro negócio, as exportações, sustento primário do nosso balanço comercial, se irão, sem dúvida, ressentir.

As eleições estão quase à porta. Algumas centenas de candidatos deveriam estar atrás das grades. Não estão porque a justiça é lerda e muitas vezes... como o caso dos famosos "ladrões do orçamento", um dos quais justificou o seu enriquecimento "milagroso" porque "ganhou 25 vezes, sozinhos a loteria" e o tribunal deu como válido o argumento! Continua circulando, "respeitado cidadão", porque rico!

E os indiciados nas CPIs do Bingo, do Mensalão e agora das Sanguessugas e de muitas outras CPIs que nunca chegam ao fim porque "entre eles se ajeitam"?

Maledetti voi que nos achincalham, nos roubam o bem estar de hoje e o futuro dos jovens, que nos esmagam e maledetti noi porque continuamos a permitir que nos ponham os pés em cima.

 

Rio de Janiro, 1 de Agosto de 2006

Francisco Gomes de Amorim

DO LADO DE CÁ

Do lado de cá pensamos pelas nossas próprias cabeças mas não negamos um conjunto de princípios em que fomos educados e que enformam genericamente os nossos raciocínios.

 

Ao conjunto desses princípios chamamos, do lado de cá, civilização ocidental, de base eminentemente greco-romana e judaico-cristã mesmo quando agnosticada; aos outros conjuntos de princípios genéricos chamamos civilização árabe, budista, hindu, maori, etc. e todos esses se situam noutros lados que não no de cá, no nosso.

 

Cada sociedade foi ao longo dos séculos lidando consigo própria e – empunhando umas mais que outras a divina espada como instrumento de fidelização das gentes – construindo o respectivo Código de Conduta. E, de facto, todos temos a orientação comportamental como algo de fundamental para enquadramento das vontades imanentes de cabeças mais ou menos serenas. Assim foi que cada civilização foi estabelecendo a sua própria fronteira entre dois conceitos universais mas de contornos particulares: o bem e o mal.

 

Mas há pedras no caminho e nós, na Civilização Ocidental, também tropeçámos nalgumas. Foi há bem pouco tempo que nos esfarrapámos contra esses dois escolhos civilizacionais que deram pelos nomes de Hitler e Estaline mas – porque tínhamos uma base comportamental consolidada – conseguimos regressar à normalidade com alguma rapidez, pesem embora os milhões de mortos que ficaram nas bermas da estrada. Quase esquecemos entretanto quem nos pôs esses obstáculos no caminho, Chamberlain e Kerensky, duas personalidades que claramente não estiveram à altura do que delas a História pedia. É que tanto um como outro lidaram com os adversários com a lhaneza em que haviam sido educados sem repararem que não se tratava de adversários mas sim de inimigos. E do lado de cá, há uma diferença fundamental entre adversários e inimigos: o adversário deve ser derrotado; o inimigo deve ser destruído.

 

E porque é que um e outro não estiveram à altura? Porque pactuaram com o contrário. Porque não notaram – ou deram por irrelevante – que as regras de conduta estavam postas em causa, que o padrão civilizacional estava à beira da ruptura. E quase rompeu: o rasgão de Hitler demorou 13 anos a consertar mas o de Estaline (e de seu “padrinho” Lenine) demorou 70 anos a remendar e é claro que ambos deixaram sequelas. E se pela primeira vez na História, em Nuremberga se julgaram os crimes do nazismo ao abrigo do Direito Natural, já os crimes do comunismo apenas ficaram registados “para memória futura” . . .

 

Um dos conceitos que no Ocidente temos como fundamental é o do respeito pela vida humana. A sacralização da vida faz parte da essência do nosso Código de Conduta; o seu respeito nem sempre tem sido cumprido com a pureza que um pilar básico civilizacional exige mas por isso é que existem as punições pelas infracções cometidas, compiladas nos vários Códigos Penais que cada Nação vai produzindo. Mais: durante muito tempo, quem atentasse contra a própria vida e consumasse o acto, não tinha direito a funeral católico.

 

Como forma de defesa da sacralização da vida, inventámos a carreira militar à qual só se teria acesso com base no voluntariado uma vez que se tratava de uma actividade em que a vida sempre estaria em risco; e por isso é que o Serviço Militar Obrigatório é uma aberração civilizacional a que as Nações só devem recorrer em situações de perigo extremo e – de preferência, se para isso houver tempo – com base numa decisão democrática claramente maioritária.

 

Militar tem, portanto, a missão de combater o inimigo externo à sua Nação pondo em risco a sua própria vida. Por isso mesmo, ele próprio e respectiva família auferem de um estatuto de protecção especial mais favorável do que o disponibilizado aos civis: se ao militar a Nação exige a disponibilidade da vida, a Nação protege o militar para além da vida.

 

Mas militar luta contra militar sem civis de permeio pois isso significaria pôr o seu próprio estatuto em causa. Do lado de cá, é cobardia um homem esconder-se por trás de outro para se encobrir do inimigo. Por maioria de razão, na civilização greco-romana-judaico-cristã, é uma aberração um homem esconder-se por trás de mulheres e crianças. Mais: isso confere-lhe o estatuto de aberrante e ignóbil cobarde.

 

Eis agora que chegámos a uma situação em que Israel é mais uma vez posto em causa pelos seus inimigos mas com a diferença fundamental relativamente às guerras anteriores de que, desta vez, o inimigo se esconde por trás de mulheres e crianças. Dá para recordar a expressão de Mao Tsé Tung quando ele dizia que “o povo é o estrume em que fermenta a revolução”. Sim, esse também não tinha nada de poético e pasmo quando noto muitos jornalistas europeus encarniçados contra Israel porque bombardeiam mulheres e crianças. E pasmo quando o silêncio jornalístico se faz ao saber-se que o refúgio dessas mulheres e crianças em Canaã era um arsenal de rockets do Hezbollah e que os Capacetes Azuis bombardeados e mortos por Israel estavam reféns dos muçulmanos que deles se serviam como um escudo humano com martírio de propaganda eficaz. E pasmo que esses jornalistas não reparem que o que está em causa é a Civilização Ocidental a que eles próprios pertencem. Mas noto que essa gente noticiadeira é muito sanguinária e que só querem é sangue e mais sangue. Autênticos vampiros, querem à viva força filmar criancinhas muçulmanas desgrenhadas e, de preferência, despedaçadas e correm a trás dos acontecimentos sem notarem que lhes estão a impingir propaganda de quem faz o mal e a caramunha. É que se, para nós, a vida humana é sagrada, para os actuais muçulmanos o povo é o estrume em que fermenta a revolta de Allah.

 

Apetece-me notar que, sendo os israelitas amigos dos americanos, a esquerda europeia continua com o tique soviético de combate ao poderio americano e, portanto, põe-se do lado de quem o afronta sem olhar a meios para alcançar esse fim. E como na nossa Civilização, a Ocidental, os fins não justificam os meios, esses nostálgicos da Guerra-fria cometem mais um adultério ao lidarem com um princípio estranho à nossa moral. E também é estranho que não tenham ainda notado que estão a fazer um favor a Mrs Hillary Clinton na sua pré-campanha para a Casa Branca, do mesmo se encarregando alguma plêiade democrata americana que critica tudo o que seja feito pela actual Administração e só pelo facto de ser ela a fazer: lembro-me de Joseph Stieglitz, Nobel da Economia em 2001, que vem escrevendo coisas que em tempo de guerra o poderiam incriminar. Felizmente para ele, os EUA não vivem actualmente num regime de guerra declarada.

 

Bem sei que americanos e judeus não são flores de cheiro mas também sei que os que se lhes opõem cheiram mal.

 

E para que não restem dúvidas, informo os meus leitores de que – tanto quanto a memória familiar regista – não tenho ascendência judia pelo que o apoio que moralmente dou a Israel na sua luta pela sobrevivência tem tudo a ver com o meu posicionamento na Civilização Ocidental de raiz greco-romana-judaico-cristã. Mais: enquanto forem os judeus e os americanos a assegurarem a defesa militar do Ocidente contra os muçulmanos que querem retomar o Al Andaluz e por certo também o Algarve de aquém-mar por onde mandaram até que o nosso rei D. Afonso III o conquistou, eu posso tranquilamente continuar do lado de cá a passar férias em Tavira e a escrevinhar estas coisas.

 

Sim, tudo isto tem como objectivo pôr em causa a Civilização Ocidental, tudo visa à expulsão judaica da Palestina e, no limite, à reconquista do sul da Península Ibérica.

 

Não tivessem todas estas confusões a ver com a nossa Nação e não gastaria eu um minuto com uma guerra que já dura desde os tempos bíblicos. E tudo pela causa original do pastoreio dumas cabras famélicas . . .

 

Tavira, Agosto de 2006

 

Henrique Salles da Fonseca

Baruch Espinosa

27 de Julho

Pai da Modernidade,  Baruch Espinosa (1633-77), o judeu português de Amesterdão foi excomungado há 350 anos por acreditar na razão e não na revelação. Tinha então 23 anos.  Segundo Rebecca Goldstein, sua biógrafa[1], Espinosa proclamou que:

 É assim que podemos imaginar quanto mal fez a Portugal esse radical fundamentalista que foi D. Tomás de Torquemada e seus sucessores

  • Nenhum grupo religioso tem o direito de reclamar a infalibilidade e tornar-se intolerante.
  • A preocupação da infalibilidade decorre  do desejo humano de auto engrandecimento. A infalibilidade é projectada por forma a favorecer as circunstâncias do nascimento próprio.
  • Isto é errado porque o respeito e consideração que cada um merece é inerente à sua condição humana e não resulta de revelação divina.
  • Os que seguem exclusivamente a religião tornam-se sectários enquanto  aqueles que recorrem à razão formam uma só nação.
  • Todos fomos dotados de capacidade racional; renunciar ao uso dessa faculdade e submeter-se ao pensamento alheio  não é ético nem  humano.
  • Democracia é a forma superior de governo. O Estado tem por função ajudar cada um a manter e a sua vida e o seu bem estar. Só um tal Estado tem o direito de exigir sacrifícios individuais. (Princípio da legitimidade)
  • No Estado não deve adoptar a  cultura de qualquer grupo social, sob o risco de afogar a dos restantes.  É útil à sociedade que  cada grupo ainda que minoritário mantenha e desenvolva a sua cultura própria. [Princípio das minorias criativas].

(Estas ideias viriam a encontrar eco na Constituição dos EUA. Ainda que Tomás Jefferson não refira  Espinosa, ele seguia Locke que por sua vez se inspirou em Espinosa)  

  • Erro de Espinosa: - para ele, a certeza resulta da conformidade com princípios estabelecidos. Exclui portanto o empirismo.
Estoril, Julho de 2006
Luís Soares de Oliveira
Embaixador

[1] Rebecca Goldstein. “Betraying Spinoza” Random House, 2006.

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