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A bem da Nação

CRÓNICA 24 - 30 MAIO – 1 de Junho 2006

Porque é que há guerras tribais em Timor – IV

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A última revolta ocorreu em 1959 e segundo escrevi em “Timor-Leste o dossier secreto 1973-1975” (Contemporânea Editora, 1999):

“Se as tropas aliadas tivessem deixado Timor neutral, pode ser que 60 mil timorenses tivessem sobrevivido à brutal invasão japonesa e aos bombardeamentos aliados. Depois do Armistício, a Administração Portuguesa escolhe como novos “Régulos” pessoas nas quais poderia confiar, embora, a sua maioria, carecesse de legitimidade real capaz de os impor às tribos e comunidades locais. A administração portuguesa continua a utilizar os mesmos métodos brutais e de trabalhos forçados com que experimentara antes da Guerra eclodir. Isto provoca a infame rebelião de 1959 em Uato-Lari (na costa leste) em que milhares de guerreiros indígenas marcham para lutarem contra os Portugueses.

 

Para alguns historiadores a rebelião foi provocada por agitadores indonésios mas não deixou sombras de dúvidas que se tratava de uma situação temível.

 

Eventualmente uma “Bére–Bi” (designação dada à mulher timorense) trai o seu próprio povo e lança o alarme no Sporting, um clube em Díli (Filipe Themudo Barata, ex Governador 1959-1963, em ‘Timor Contemporâneo’, ed. Equilíbrio Editorial, Lisboa 1998, apresenta a versão oficial da rebelião, que difere desta e que ocorreu enquanto ele estava em trânsito para tomar posse como Governador). Reforços são imediatamente enviados de Goa (uma então colónia portuguesa na Índia) e acaba por não se derramar sangue. Centenas de patriotas timorenses são deportados para as colónias africanas de Moçambique, Angola, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe. Para o povo de Timor-leste a guerra só voltará 16 anos mais tarde.

 

Entre 1945 e Junho 1974, o governo indonésio, cumprindo as leis internacionais, assevera nas Nações Unidas e fora dela ‘não ter ambições territoriais sobre o território de Timor’.

 

Em 1960, Timor era considerado um território não autónomo sob administração portuguesa de acordo com a Resolução 1514 (XV) de 14 Dezembro 1960. Entre 1962 e até 1973, a Assembleia-geral da ONU aprova várias Resoluções que apoiam o direito à autodeterminação de Timor-leste e das restantes colónias portuguesas, então eufemisticamente denominadas Províncias Ultramarinas, em sintonia com a França que designava os seus territórios coloniais como ‘Territoires d’outre Mer’.

 

A rebelião começou a 7 de Junho de 1959 na povoação de Uato-Lari e estendeu-se até Viqueque e, de acordo com Bruce Juddery do “Camberra Times”, combinava elementos anti-coloniais, anti-portugueses e tribais. O governador português exacerbou os ânimos ao formar uma milícia em Lospalos na ponta leste a fim de combater a rebelião. Numa semana morreram entre 500 a mil pessoas. Segundo Juddery, a Indonésia tinha infiltrado oficiais seus meses antes para semearem sentimentos dissidentes no litoral norte até Baucau mas Bill Nicoll, (The stillborn nation, Visa, Melbourne, 1978) explica que os indonésios eram dissidentes da Permesta (rebelião das ilhas exteriores da Indonésia, Molucas do Sul), apoiados pela CIA para lançarem uma guerra secessionista mais ampla na Indonésia. Aparentemente não tinham o apoio de Djakarta embora o cônsul indonésio fosse demitido em 3 Junho 1959. Os indonésios tinham obtido asilo português mas foram expulsos enquanto os dirigentes locais do movimento de Uato-Lari foram deportados para Angola e só foram autorizados a regressar a Timor em 1968. Nesse ano abriu a delegação da PIDE em Díli que além de vigiar timorenses também se preocupava com a Timor Oil Company e outras ameaças como os sindicalistas australianos. Abílio de Araújo liga a PIDE a uma resposta à insurreição de Junho 1959. Nesse mesmo ano, a sua equivalente australiana, ASIS (Australian Secret Intelligence Service) abre uma delegação em Díli. A comunidade árabe de Timor situava-se em Alor a oeste de Díli e quando tentou naturalizar-se indonésia no Consulado em Díli, os portugueses ofereceram-lhe a nacionalidade portuguesa (Kompas, 15 Agosto 1977).

 

Já Themudo Barata (‘Timor Contemporâneo’, ed. Equilíbrio Editorial, Lisboa 1998) narra assim a sublevação de 1959:

 

         “As primeiras notícias de que algo de preocupante se passa no leste chegam ao Administrador de Baucau nos primeiros dias de Junho, através duma informação do Encarregado do Posto de Baguia: dois dos indonésios de Viqueque ter-se-iam reunido com alguns chefes nativos de Uato-Lari e Uato-Carbau para planear uma revolta. As reuniões efectuaram-se de  noite e naqueles próprios postos. … Nesse mesmo dia o Administrador de Baucau é instruído para “ter os indonésios preparados para, se necessário, serem transportados para Díli.”

O Administrador – então em Díli – transmite estas instruções para Baucau, com o pedido de as comunicarem também para Viqueque. Porém, já em 3 de Junho aquele Administrador havia sido chamado pelo Encarregado do Governo, que o incumbiu de regressar de avião a Baucau para prender dois timorenses tidos como implicados no movimento (um deles o encarregado da estação postal).

O Administrador de Viqueque foi informado, em princípios de Junho, por carta da Administração vizinha (Baucau) dos acontecimentos de Díli e das movimentações dos asilados de Viqueque até Uato-Lari e Uato-Carbau. Pareceu-lhe, porém “que tais notícias não correspondiam à verdade”, pois todos os dias se avistava com os indonésios. E além disso, quatro deles tinham acabado de assinar uma declaração em papel selado pedindo para regressar à Indonésia. É provável que, pressentindo que as coisas não estariam a correr-lhe de feição, isto fosse uma simples tentativa de se escaparem.

 A bela Baucau, vítima da sua própria beleza, há muito que precisava de valores civilizacionais que a defendessem da cobiça alheia

Todavia, pela meia-noite de Domingo, dia 7, a residência do Administrador estava a ser assaltada e ele a ver-se obrigado a retirar sob fogo dos sublevados!

Nas vésperas, o Secretário da Administração de Baucau havia-lhe transmitido instruções do Governo para que os indonésios fossem avisados que uma viatura os viria buscar “a fim de regularizarem assuntos do seu interesse”. Santa ingenuidade!

Os indonésios apercebem-se que o cerco se aperta. Na manhã desse Domingo, o Administrador ouve alguns dos indigitados na presença dum velho colono. Todos garantem que nada fizeram e nada sabem.

Contudo, apesar disso, determina que um dos apontados como mais activo aguarde a conclusão das averiguações no quartel dos “cipaios”. Este finge obedecer, vai buscar a sua roupa a casa dum amigo, mas no percurso encontra-se com o Tenente Gerson que o manda seguir imediatamente para Uato-Lari para sublevar esse posto. Ele cumpre. O Administrador só a posteriori descobre tudo isto. Na ocasião continuava a confiar, considerando que “algum perigo que porventura pudesse existir havia passado”. Tanto assim que – como confessa no seu relatório – na tarde desse Domingo jogou tranquilamente futebol com os indonésios “quando já arriavam a bandeira nacional em Uato-Lari”.

De facto, pelas cinco da tarde, Uato-Lari é assaltado pelo chefe atrás referido com apoio de alguns cipaios, tendo o cuidado de cortar logo as ligações telefónicas com Viqueque. Convoca o povo e manda emissários a Uato-Carbau para falarem com dois chefes de suco desse posto e com instruções para fazerem o mesmo. O plano prossegue com êxito!

Pelas oito e meia dessa noite, três indonésios (Gerson, Jeremias Pello e Moniaga) reúnem-se em casa dum funcionário aposentado com mais três ou quatro timorenses de certo nível cultural e umas dezenas de outros mandados vir de localidades próximas. Moniaga havia procurado contacto telefónico com os asilados de Baucau. Ou não o conseguiu ou não foi convincente, pois estes nove indonésios foram presos na manhã seguinte sem qualquer dificuldade: estavam todos pacatamente dormindo.

Sentindo-se descobertos, os asilados políticos de Viqueque decidem assaltar a Secretaria da Administração e apropriar-se de todas as armas e munições, o que fizeram cerca das onze e meia da noite, regressando com esse espólio à casa onde se haviam reunido. Entretanto, Gerson mandou cortar as ligações telefónicas com Ossú (no caminho de Baucau – Viqueque) e interceptar a estrada com árvores para impedir o trânsito.

Nessa noite – num novo gesto bem revelador do seu estado de espírito de uma extrema confiança para além dos limites da prudência – o Administrador dispensou um dos dois cipaios armados que, com os “moradores”, fariam a guarda à Secretaria “porque o ambiente era calmo”, “porque o movimento tinha sido já descoberto em Díli e efectuadas prisões e porque já os indonésios estavam prontos a seguir para Díli nessa manhã (…) aparentemente satisfeitos (…)” A guarnição era pequena obrigando-os a perder por vezes noites sucessivas. Quis poupá-los.

Grande decepção iria ter! Poucas horas depois dá-se o assalto à Secretaria. Há guardas que resistem e são feridos.

O Administrador só dá conta do que se passa quando os sublevados se decidem a assaltar a sua casa. Pouco deve passar da meia-noite. É cercada pelos indonésios que arregimentaram também uns timorenses que dormiam por ali para receberem salários e pagamentos de côcos que tinham vendido ao Estado. Surpreendido pelo tiroteio, reage como pode. O Tenente Gerson comanda o grupo que ataca a residência, enquanto outro asilado, acompanhado por um timorense dos que estiveram na reunião, toma posições junto à ponte da estrada para Ossú, no intuito de impedir a retirada.

O Administrador consegue meter-se num jipe com a família e com um Aspirante Administrativo (timorense) que o coadjuvava e, debaixo de fogo, com o jipe varado pelas balas, felizmente sem danos pessoais, chega a Ossú, tendo logrado passar sobre os troncos que pretendiam barrar-lhe a estrada.

Telefona para o seu colega de Baucau pedindo 50 “moradores” para o acompanharem no seu regresso a Viqueque., logo que deixasse a família em segurança. Pelas três da madrugada telefona também para Díli (para o Chefe do Gabinete) a dar conta desta grave ocorrência, o qual lhe determina que peça o jipe da Missão local e se dirija a Baucau para onde lhe serão dadas directivas.

Os sublevados não ficam inactivos. Apropriam-se da camioneta da Administração de Viqueque e seguem para Uato-Lari. Chegam pela manhã sendo recebidos pelos amotinados que tinham ao peito tiras de pano com as cores da bandeira indonésia.

O Tenente Gerson, com dois timorenses mais evoluídos, prossegue para Uato-Carbau, onde são igualmente bem recebidos.

Em Díli, o Chefe do Gabinete, após o dramático relato do Administrador Ramos, telefona ao Chefe da Polícia. Dão umas voltas rápidas pela cidade para esclarecer uma perseguição suspeita (ou fantasiosa?) que haveria sofrido o radiotelegrafista que àquela hora entrava de serviço, segundo participação que acabara de fazer à Polícia.

Dirigem-se à residência do Encarregado de Governo que dá ao Tenente Braga instruções para informar o Chefe de Estado-Maior acerca da situação e para lhe dizer que deve mandar imediatamente preparar duas Secções de Atiradores reforçadas, sob o comando dum subalterno para seguirem para Baucau logo ao alvorecer. Isto para além, claro está, de outras providências como: controlo de comunicações telefónicas, alerta das unidades militares e imediata detenção dos restantes asilados indonésios.

Pelas seis da manhã, o Encarregado de Governo assiste no campo de aviação de Díli à partida daquela pequena força para Baucau, onde haviam sido mandadas requisitar camionetas e convocados alguns civis (timorenses, europeus e chineses) a quem foram distribuídas armas e munições. Recomenda-se aos chefes nativos da Circunscrição de Baucau que reúnam os seus homens e patrulhem a sua área com os meios tradicionais.

Pouco depois do meio-dia de segunda-feira, o Administrador Ramos regressa a Viqueque apoiado por essa pequena força (um oficial, um sargento e nove praças), estando ele próprio armado apenas com uma simples espingarda calibre .22, cedida por um particular.

Pelo fim da tarde sabe-se que havia regressado o motorista da camioneta de um comerciante chinês, que os sublevados coagiram a ir a Uato-Lari e que dá notícias preocupantes: os revoltosos foram recebidos por bastantes chefes nativos com os seus arraiais.

Decide-se então promover também o levantamento de arraiais fiéis. Na zona de Viqueque, com excepção de Lacluta, a população reagiu mais lentamente. Em Lautém, a reacção foi muito viva e muito rápida: poucas horas depois todo o povo se mostrava disponível e, nessa noite, o respectivo Administrador tinha já à sua volta centenas de homens.

Nessa agitada manhã de segunda-feira, dois dos restantes asilados de Viqueque são detidos a caminho de Ossú, prova que os revoltosos apenas haviam encontrado algum apoio na região a leste da estrada Baucau – Viqueque, nas áreas de Uato-Lari e Uato-Carbau.

Segundo as últimas informações chegadas ao Gabinete, os rebeldes haviam deixado em Uato-Lari gente sua chefiada pelo António Metan e pelo indonésio Moniaga e tinham reunido a norte de Uato-Carbau três grupos relativamente numerosos. Suspeitava-se que tivessem – ou que pensassem ter – apoios em Laga, fundeadouro no estreito de Wetar (na costa norte), onde a presença demasiado frequente de córcoras indonésias causava certa desconfiança.

Os arraiais de Lautém, coordenados pelo Administrador Serra Frazão e apoiados por uma parte da pequena diligencia militar estacionada em Lospalos, formam o cerco por leste, mantendo-se também atentos à zona de Laga.

Em Díli há preocupação e um certo nervosismo: são poucas as informações sobre o que realmente se passa nas áreas sublevadas e são muito poucos os meios. Na terça-feira, dia 9, decide-se enviar um reforço de mais alguns soldados e designa-se o capitão Manuel João Fajardo para dirigir localmente as operações. Este destacamento iria de avião, mas, afinal, à última hora, vai em alguns “Unimogs” militares.

É manifesta uma certa tensão no relacionamento entre o Estado-Maior do Comando Militar e a Repartição do Gabinete do Encarregado do Governo, ainda que o responsável máximo seja, em ambos os caos, a mesma pessoa.

Uma divergência importante surge quanto ao plano a seguir para dominar a sublevação. O Chefe do Gabinete (que, na prática, vinha coordenando tudo, em ligação com os Administradores) discorda da orientação seguida pelo Capitão que passou a comandar as tropas enviadas para o leste, o qual centra as suas forças e preocupações em Viqueque, para onde faz seguir também todo o pessoal civil disponível em Baucau, incluindo médicos e enfermeiros. Ao contrário, entendia o Gabinete ser fundamental impedir o acesso dos revoltosos à costa norte e dar, portanto toda a atenção à zona de Baguia para barrar o caminho para Laga. O Capitão era apoiado pelo Chefe do Estado-Maior. O Tenente Braga coloca o assunto ao Encarregado do Governo (e Comandante Militar) que concorda com as suas preocupações, mandando imediatamente reforçar a guarnição de Baguia com parte de um destacamento militar que guardava a estação de rádio de Baucau.

O tempo corria. Estava-se já a 10 de Junho. As comunicações com Viqueque continuam difíceis. Desde há dois dias nada se sabe da coluna militar. A diligência de Baucau seguiu na noite de 10, quarta-feira, para Baguia e na madrugada seguinte segue de Díli uma nova Secção de Atiradores para a substituir.

E – atente-se na pobreza dos meios – envia-se mais um cabo e duas praças timorenses com uma Bazuca para reforçar Baguia.

Pelas 11 horas de 11 de Junho, efectivamente os insurrectos estão à vista de Baguia e pelo meio-dia tentam um primeiro assalto à tranqueira  (recinto de protecção a antigas instalações militares em Timor onde depois se instalaram os postos administrativos). Nesse preciso momento estava a chegar um jipe com o tal lança-granadas Bazuca, que nem sequer houve tempo de recolher dentro da tranqueira. Só num pequeno intervalo entre os assaltos isto se consegue. Os sublevados retrocedem com algumas baixas, recompõem-se e, por mais de uma vez, repetem a tentativa. Felizmente, para nós, as armas e munições que tinham roubado eram de fraca qualidade (muitos cartuchos não disparavam).

Iniciam a debandada em direcção a Uato-Carbau. Na circunscrição de Baucau, apenas dois chefes nativos do Posto de Baguia tinham apoiado os revoltosos mas não conseguiram sublevar os seus povos e foram mortos pelos seus próprios homens.

No final da tarde, quando o Gabinete procurava ainda obter notícias da coluna do Capitão Fajardo, surge inesperadamente na linha a voz de um guarda-fios que procurava restabelecer as ligações telefónicas com Ossú. Estava escondido no mato e não ocultava o medo bem natural que sentia naquela situação. Já havia podido contactar com o seu colega de Uato-Carbau, que o informou que os rebeldes já tinham regressado após o ataque a Baguia, fugindo para as suas terras ou procurando esconder-se.

Pouco depois, o mesmo guarda-fios informa que esse seu colega lhe diz que se ouviam grandes estrondos para os lados de Uato-Lari. Vem depois a saber-se que eram as nossas forças que, antes de entrarem em Uato-Lari, haviam disparado granadas de morteiro.

Este pequeno incidente é bem revelador das enormes dificuldades técnicas no domínio das comunicações e, também, da falta de ligação entre as pessoas. Somente pelas 10 da manhã do dia 12, sexta-feira, o Encarregado do Governo (e Comandante Militar) entra em contacto com o Capitão Fajardo. Estava já em Uato-Lari. Procedia a averiguações que retardavam o seu avanço para Uato-Carbau. Segundo ele, os rebeldes estariam concentrados na foz da ribeira de Irabere, preparando-se para atacar Uato-Lari. Todavia, nesse momento a coluna com os arraiais do Administrador de Lautém atacava Uato-Carbau, depois de ter atravessado a vau aquela ribeira.

Continuavam a ser diferentes as perspectivas do Gabinete e do Comando das operações militares: o primeiro considerava urgente que a coluna se ligasse aos arraiais no ataque a Uato-Carbau: o segundo entendia que o essencial seria conter a ameaça da presumida concentração na foz da Irabere.

O Comandante Militar chama imediatamente o Chefe de Estado-Maior e determina que, na manhã seguinte, o Capitão Barreiros (acompanhado dum antigo funcionário civil que conhecia bem aquela região) fosse assumir o comando da coluna, enquanto o anterior prosseguia as suas averiguações em Uato-Lari. Parte de avião para Baucau no dia 13. Na véspera, os arraiais de Lautém ocupam Uato-Carbau. A rebelião desmantela-se. Os rebeldes espalham-se. É o “salve-se quem puder”.

Mais uma semana e, dos principais responsáveis apenas havia por capturar um dos indonésios, que foi detido na manhã do dia 20 e um ajudante de observador dos serviços meteorológicos, detido quatro ou cinco dias depois.

Precisamente nesta ocasião (22 de Junho) chegava eu ( Filipe Themudo Barata, Governador 1959-1963) a Timor.

 

O instrutor do processo pensa que foi tudo iniciativa do próprio Cônsul Nazwar Jacub, solidário com rebeldes de Sumatra, que via no êxito da sublevação em Timor um reforço para o seu Partido. Talvez isso tenha uma grande parcela de verdade, mas o facto é que o novo Cônsul (Teng Ku Hussim) continuou a dar apoio aos implicados e, inclusive, a sugerir-lhes o recurso ao asilo político. E mais ainda: as ameaças da Indonésia não pararam. As actividades suspeitas do novo Cônsul prosseguiram e, poucas semanas após o meu regresso à Metrópole, na fronteira terrestre (região de Covalima), há mesmo infiltrações declaradas de grupos de cerca de 200 indonésios acompanhados de polícias com pistolas-metralhadoras e espingardas, que deram origem a sérios confrontos e a firme reacção das nossas tropas de 2ª linha.

 

 

FIM DA 4ª PARTE

O VELHO E O NOVO MUNDO - II

 Francisco Gomes de Amorim - autoretrato (aguarela)

 

Voltemos à Europa, dando uma passadinha pelo Japão. Não fica no caminho geográfico, mas serve para ajudar a compreender o que, sem que se adivinhe o futuro, possa vir a acontecer.

Nas principais cidades do Brasil, a valorização imobiliária nos últimos anos – não se cogita em especulação – quase não tem acompanhado a inflação. Daí o negócio não parecer muito atrativo.

O Japão, depois do restabelecimento da indústria e da economia, a seguir à II Guerra, começou a “sentir” que havia pouca moeda circulante no mercado o que impedia um mais rápido crescimento. Pequeno território, pouca possibilidade de expansão, muito dependente de matérias prima importadas, julgou ter encontrado uma solução tipo “vapt-vupt”: onde é que o povo gasta a maior fatia do seu salário, sobretudo o povo das cidades? Na compra de casa própria. Então a solução é inflacionar o valor dos imóveis, estender o crédito para 20, 30 ou mais anos e esse dinheiro “extra” vai inflamar a circulação monetária, esta a economia, etc. Pensado, feito. Pouco tempo demorou para se verem centenas, milhares de turistas japoneses viajando e gastando mundo afora, em sucessivas levas de “charters” e excursões tipo viaje now, pay later, aparecerem mais Toyotas e Suzukis, computadores e um monte de outras coisas, a maioria das quais se faz hoje na China. E os turistas? Entretanto desapareceram. E a economia do Japão? Tremeu. Tremeu porque o povo ficou endividado!

Estamos a chegar à Europa, onde o custo de um imóvel é algo quase inalcançável para a grande maioria dos jovens mortais que entram no mercado de trabalho. Ainda me lembro de há 50 anos ser avisado de que não devia pagar de aluguel mais do que 1/6 do meu salário! Hoje, em grande número de casos, são necessários dois a trabalhar para que um pague o aluguel e o outro a alimentação, comida, etc. Resultado: não casam, “juntam-se”, descasam mesmo não casados, trocaram afinal de parceiro econômico e desbaratam as suas vidas.

Mas porque não compram casa, em vez de alugar? Primeiro porque o preço dos imóveis é altíssimo, e mesmo que tenham que dar só uma “entradinha”, essa “entradinha” equivale muitas vezes ao salário de um a dois anos de trabalho! Dirão: mas o banco financia até 50 anos e juros muito baixos (estamos a falar da Europa, hein?) Que maravilha! O comprador fica a vida inteira a pagar um imóvel, raro chega ao fim do compromisso, jamais sendo dono do que quer que seja, e o banco... o banco está sempre garantido com a garantia real e com os juros, que é disso que ele vive. E como vivem os bancos!

Quem paga e se arruína: o povo, a classe média, o sustentáculo da nação.

Para quem vai de países terceiro ou segundo mundistas, pode até deslumbrar-se pelo aparente vidaço daqueles que vivem, por exemplo, em Londres.

Mas quando se começa a falar com eles sobre o que resta no bolso e quanto devem de mortgage (prestação do imóvel), cartão de crédito, etc., sente-se que o balanço está um tanto desbalanceado. Sempre a favor dos bancos, of course.

Não sabemos se foi assim que acabaram os grandes impérios, mas o exemplo do Japão dá-nos para pensar um pouco. Trasladando o assunto para o Brasil então...

Solução: acabar com os bancos? Com a inflação imobiliária? Imitar a Revolução Soviética de 1917 e dividir o número de quartos de todas as casas pelo número de famílias da região?

Nada disto parece resolver.

E então? Vamos cruzar os braços e deixar que tudo continue a acontecer talequalmente?

Não vamos. Soluções, em se querendo, aparecem.

A ver.

 

Rio de Janeiro, 29 de Junho de 2006

 

Francisco Gomes de Amorim

O VELHO E O NOVO MUNDO - I

 

Na Europa, os países ex-império-colonialistas deparam-se hoje com um problema curioso: dão e não dão o estatuto de cidadão aos ex-colonizados, queixam-se da migração constante, e o que cada vez mais se verifica é que daqui a poucos anos vai ser difícil encontrar um inglês na Inglaterra - ainda vão ficar uns quantos no norte do Reino Unido, só que essa união... - o mesmo se passando em Portugal e em França. Pelo menos.

Mão-de-obra barata vai chegando de todas as partes do mundo onde esses “impérios” dominaram, conseguem muitos encaixar-se nos postos de trabalho mais humildes, vão mandando dinheiro para as famílias enquanto não conseguem criar condições para as levar para junto de si, proliferam mais do que os autóctones europeus, e qualquer dia...

Na Península Ibérica, sem que as condições se possam igualar às de hoje, já dominaram os iberos, os celtas, os godos e mais uma catrefada deles, e o mundo seguiu em frente.

Como em cada segundo do presente começa o futuro, e sem ter qualquer bola de cristal, o que aparenta é que o tempo, talvez mais breve do que parece, se encarregará de trocar os atuais indígenas branquelas por aqueles a quem até há pouco estes chamavam, um tanto pejorativa, ou superiormente, de indígenas àqueles que, sossegados, estavam nas suas terras. Sossegados enquanto não se matavam e comiam uns aos outros! Mas enfim...

Em Londres é difícil ouvir falar inglês dentro dum bus! Línguas estranhas soam para quem é de linguajar original do latim ou anglo-saxão, mas que será árabe, hindi, africano e muito também de português e brasileiro. Mais brasileiro.

 Os loiros anglo-saxónicos já rereiam em Londres . . .

Em Portugal os sotaques baralham-se, o que é bonito de se ouvir, às vezes um crioulo de Cabo Verde ou Guiné, de mornas ou coladeiras, outros de rebitas, quizombas ou marrabentas, e pasmem ao ouvir uma outra língua cheia de rrr e shshsh vindos de uma infinidade de eslavos fugidos do tal neoliberalismo da Ucrânia, Moldávia, Rússia, Polônia e mais ainda

Desde há uns anos se inverteu o fluxo migratório. O novo mundo, que causou maravilha e espanto quando surgiu aos olhos dos primeiros europeus que o avistaram, não tardou a virar terceiro, para não dizer quarto Mundo! O primeiro é aquele onde se ganha e gasta bem, o segundo é o que nem fede nem cheira, o terceiro o que alimenta os dois de cima, e o quarto... o que serve para experimentos bélicos e farmacêuticos e ganha doações de medicamentos com prazos vencidos. Vencidíssimos. Generosidade!

Curioso é querer-se hoje combater o que se chama de neo-liberalismo que outra coisa não é e não tivesse já sido vista no passado, com a diferença de nos tempos mais antigos não haver muita moeda para acumular, nem bancos usurários, mas assim mesmo os mais ricos construíam para si palácios, reservavam-se as melhores terras para a caça, mandavam vir para concubinas as jovens mais bonitas das suas terras, etc.

E o povo... O povo? Continua igual. Leva na cabeça e parece que gosta.

Mas voltemos às economias.

Continuemos nós procurando a felicidade, a nossa e dos outros, para começar, à nossa volta neste Mundus Novissimus, que este ano vai enfrentar uma luta muito mais difícil do que vencer a Copa do Mundo: escolher os novos mandatários do povo (?). Já no próximo dia primeiro de Outubro.

 

Rio de Janeiro, 28 de Junho de 2006

 

Francisco Gomes de Amorim

Curtinhas XIV....

e a escola mais nos ensina que....

v      As voltas e reviravoltas que o ensino e os cuidados de saúde, cada um a seu modo, não cessam de dar por cá escondem uma questão crucial: o que implica para o Estado assumir uma determinada função?

v      Para tantos de nós, a resposta a esta questão é de tal modo óbvia que nem sequer faz sentido perguntar: implica dar mais trabalho ao aparelho administrativo do Estado, está bem de ver. Afinal, Estado e administração pública não são uma e a mesma coisa? Não, não são. Mas, adiante.

v      Que tipo de trabalho, já agora? Se a função em causa envolver o fornecimento de bens, ou a prestação de serviços, prosseguem, lá terá a administração pública que o fazer, melhor ou pior. E lá terá o dinheiro dos contribuintes que custear pessoal, meios e tudo o mais, aconteça o que acontecer.

v      E isso é mau (é a vez de eles agora começarem a perguntar)? Não, respondo eu, se a administração pública, quando fornecer bens (ou prestar serviços), respeitar as regras do modelo de mercado. Sim, se essas regras forem sistematicamente ignoradas.

v      Mas que regras são essas? Para o que aqui interessa, uma só: quem não gostar, ou escolhe outra coisa, ou muda de fornecedor. Porque a virtude do modelo de mercado (tal como a da democracia) não é colocar um qualquer óptimo social ao alcance da mão. O que faz dele o melhor de entre todos os modelos socialmente a-justos (no sentido de que não promovem activamente nenhum padrão de justiça social) é a capacidade que nos confere de escolhermos diferente, se for essa a nossa vontade legítima. Dito de outro modo, só o modelo de mercado (e a democracia, na esfera política) não faz da insatisfação e da mudança um drama, ou uma tragédia.

v      Ora o nosso sistema de ensino nunca viu com bons olhos a insatisfação (dos alunos e de seus pais; das famílias, enfim) e a mudança (de escola, de livros escolares, até de estrutura curricular) que lhe dá visibilidade. Com o argumento de que se trata de uma missão do Estado, por isso facultada gratuitamente, pais e alunos não são livres de escolher nada. E, se reclamarem, são ingratos que não sabem reconhecer a dádiva. Entre nós, quando se trata do ensino básico e liceal, nenhuma escolha é possível, nenhuma vontade de mudar é legítima fora do recinto amuralhado da administração pública.

v      Por outro lado, como a insatisfação da procura (as famílias) não se pode manifestar de forma eficaz, e a mudança só por excepção acontecerá, a oferta (os professores) não tem maneira expedita de saber o que vale. Vistos do lado de cá, o das famílias, os professores são uma mole indistinta, igual a si própria por todo o território nacional.

v      Aliás, a confusão entre Estado e administração pública, que acima referi, dá lugar a silogismos vários, e é mesmo causa de alguma esquizofrenia no nosso modo de pensar. Mas é interessante notar que todos esses silogismos têm em comum o facto de negarem a liberdade de escolher precisamente a quem dizem ser o leitmotiv da função em causa – as famílias.

v      Consagre-se a liberdade de escolha das famílias em matéria de ensino e o silogismo desmoronar-se-á. Muito provavelmente, sob o coro dos que, aconchegados pela hierarquia formal do funcionalismo público, suportem mal a disciplina do mercado – o que é dizer, a vontade mesma dos que eles dizem servir.

v      Como assim? E as famílias com baixos rendimentos? Ficam sem acesso ao ensino, por não poderem pagá-lo? Ou verão os seus filhos condenados a frequentar escolas que ninguém quer?

v      É aqui que entra em cena uma resposta radicalmente diferente para a questão que lancei de início. Funções tradicionais da soberania à parte, ao Estado Prestador/Produtor oponho eu o Estado Regulador/Supervisor. Quando conveniente, o Estado Intermediário Financeiro que recolhe fundos aqui para custear este ou aquele tipo de procura acolá (ensino e saúde são, seguramente, bons exemplos disto). Mas só em casos extremos, de urgência extrema, face à falência da iniciativa privada e à impossibilidade de instituir soluções alternativas de contratualização, vejo justificação para que a administração pública enverede por prestar serviços (ou produzir bens) destinados a satisfazer procuras que devem expressar-se livremente.

v      Regular o ensino, designadamente os métodos de avaliação de alunos, professores e escolas. Supervisionar as escolas, levando-as a divulgarem publicamente, ano após ano, o que fizeram e que resultados obtiveram. Mediante contratualização, criar uma rede de escolas que aceitem praticar mensalidades contidas num dado intervalo de valores (não uma mensalidade única, igual para todas as escolas, ainda que ajustada a cada ano de escolaridade). Estabelecer para cada menor em idade escolar uma subvenção (através de vouchers, mas há outras soluções) que só possa ser gasta em determinadas despesas com o ensino (pagamento de inscrições e mensalidades escolares, aquisição de livros escolares e outros materiais de estudo, etc.). Fixar um regime de prémios pecuniários anuais para as escolas contratualizadas que atingirem níveis de excelência. Subsidiar directamente escolas, apenas quando tal estiver previsto nas medidas de ordenamento territorial e de combate à desertificação.

v      Em suma: financiar o ensino, financiando directamente a procura (as famílias com filhos em idade escolar) – e não, como hoje acontece, a oferta (os professores).

v      E que se faz a tanto professor/funcionário público (o “se” é, desde logo, capcioso, na medida em que dá por assente a passividade dos que são e querem continuar a ser professores)? E não só a esses, acrescento eu, mas a todos os que queiram dedicar-se ao ensino e tenham competência para tal, já que ignorá-los seria criar uma outra coutada (antes, na procura - pela negação da liberdade de escolha; depois, na oferta – pela bloqueio da liberdade de prestação de serviços) reservada ainda a quem hoje pertence aos quadros do funcionalismo público.

v      O que faz alguém que se propõe produzir (ou prestar) algo para ganhar a sua vida? Estabelece-se. Cria uma empresa. Contrata colaboradores. Lança-se no mercado. E corre riscos. Porque há-de ser diferente no ensino?

v      O maior obstáculo será, talvez, o “estabelecer-se” – dado que instalações escolares como devem ser envolvem sempre investimentos avultados. Mas o património do Estado tem-nas: umas melhores, outras piores, mas existem já. É pô-las em locação através de concursos abertos a todas as empresas cujo objecto seja ensinar e que aceitem contratualizar, conforme indiquei mais acima.

v      E os professores? Continuarão eles a ganhar todos o mesmo, segundo o respectivo grau de antiguidade? Continuarão a ter os seus salários e as suas pensões de reforma garantidos pelos contribuintes? Terão emprego assegurado até ao fim dos seus dias? Respondo igual: porque é que o ensino tem de ser diferente?

Lisboa, Julho de 2006

A. Palhinha Machado

EMPRESAS FAMILIARES

 

Mitsui Takafusa, empresário japonês, viveu entre 1684 e 1748, era neto do fundador do actual Grupo Mitsui e disse algo como:

 

“Nunca desperdice a atenção com o que nada tem a ver com o trabalho. Os Mercadores que imitam Samurais ou pensam que as religiões preservarão os seus corações, ao deixarem-se absorver pelas artes e diversões, acabarão por ver que só arruinarão as suas casas. Nunca esqueçam que o negócio da família é que não pode ser esquecido por um único momento.” 

 

O crescimento da Mitsui poderá ter resultado da concentração da atenção das várias gerações daquela família no negócio propriamente dito mas a manutenção da empresa na esfera familiar desde o início do séc. XVII significa que a questão sucessiva da liderança está efectivamente resolvida. E se funcionou durante todos estes séculos, significa por certo que a solução foi boa e que poderá vingar por mais umas quantas centenas de anos.

 

Sim, a questão da sucessão é vital para a manutenção de uma empresa na esfera familiar do fundador e é frequente as más soluções provocarem a saída da empresa da esfera familiar ou, muito pior, a morte da empresa. Esta, a questão primordial; em tudo o mais as empresas familiares equivalem às demais, as não familiares.

 

 

Entende-se por empresa familiar toda aquela cujo capital é propriedade de uma família. Quanto a dimensão, ela vai desde a que pertence a uma única pessoa, o “patrão”, àquela que tem o capital maioritariamente distribuído por vários membros de um mesmo clã quer se tratar de uma micro-empresa (uma barbearia ou mercearia de bairro) ou de um conglomerado com estabelecimentos em vários continentes (o BES, a MITSUI e a FIAT, por exemplo, são Grupos familiares, pese embora terem partes dos respectivos Capitais dispersas em bolsa).

 

De acordo com estimativas de 1994, as empresas familiares tinham as seguintes relevâncias nos PIB’s dos respectivos países:

 

v      Itália – 98%

v      EUA – 96%

v      Índia – 95%

v      Suiça – 87%

v      Espanha – 80%

v      Inglaterra – 75%

v      Portugal – 70%

 

O facto de a estimativa portuguesa ser menor que as dos outros países poderá dever-se a alguns factores essenciais:

 

Þ      o sector empresarial público em 1994 ainda ter um peso significativo;

Þ      as multinacionais instaladas em Portugal naquela época terem contribuído significativamente para o PIB nacional;

Þ      as nossas empresas familiares mais comuns apresentarem fracos níveis de produtividade e, portanto, menor contributo para o PIB

 

Nos EUA existiam em 1997 pelo menos 2 milhões de empresas familiares com facturação anual superior a 1 milhão de dólares e 42% das 500 maiores empresas americanas eram familiares. As empresas familiares americanas foram naquele ano responsáveis pelo emprego de mais de 60% do efectivo laboral do país e por cerca de 50% da massa salarial disponibilizada.

 

Em 1993 na Europa identificaram-se 13 milhões de empresas familiares não agrícolas empregando 91,5 milhões de pessoas. A grande maioria eram PME’s mas as micro-empresas (até 10 trabalhadores) representavam 91% do total e quase 30% do emprego.

 

Para além da relevância económica, há que referir as empresas familiares como instrumentos de estabilidade social na medida em que frequentemente resultam de iniciativas de auto-emprego com evolução natural para a ocupação produtiva de famílias inteiras. Em complemento desta característica positiva (auto-emprego), as empresas familiares tendem também a possuir uma perspectiva de longo prazo pois são o “ganha-pão” de gerações sucessivas dentro de um mesmo clã e tendem a preservar os valores do fundador como características essenciais que particularizam a empresa num mundo cada vez mais anónimo.

 

Mas seria imprudente ignorar os perigos que a estrutura familiar das empresas encerra. As interferências dos familiares-proprietários na gestão exigindo uma formalização especial dos procedimentos, os recrutamentos alternativos de familiares ou estranhos especialmente competentes, a política de remunerações e as invejas intra e extra familiares, as sempiternas zangas familiares e respectivas consequências sobre os gestores, eis alguns temas que merecem especial cuidado neste tipo de empresas.

 

Contudo, as vantagens podem ultrapassar largamente os inconvenientes se se tomarem algumas medidas cautelares, nomeada e primordialmente a separação institucional da gestão estratégica da gestão corrente e se a substituição do fundador fôr cuidadosamente preparada.

 

Eis portanto que a vida das empresas familiares se divide em duas fases: - a fase do fundador; - a fase posterior ao fundador. É na impreparada passagem do testemunho a nível da liderança que a sobrevivência de grande número de empresas se joga.

 

Mas a experiência feita neste tipo de questões é já muito ampla e existem procedimentos estandardizados que permitem evitar ou facilitam a ultrapassagem das crises. Torna-se, contudo, essencial conhecer esses procedimentos e essa a razão pela qual já existem cursos onde se trabalham todos estes e muitos mais temas relevantes na esfera da gestão desde o Direito às Finanças passando pelo Marketing, pelos Recursos Humanos e pela Economia. Esses cursos são frequentemente de nível universitário mas ultimamente tem-se chegado à conclusão de que a muitos empresários interessa sobretudo a concentração temática de modo a que possam decidir estrategicamente. Assim, para além das Post-Graduações universitárias de amplo espectro, têm surgido cursos livres com cerca de 20 horas de duração ministrados em horário post-laboral ou de fim-de-semana alargado de modo a que os empresários não se ausentem das respectivas empresas por períodos inconvenientes.

 

Faz pois todo o sentido promover a divulgação das soluções de reconhecido mérito junto dos empreendedores, dos seus potenciais sucessores, dos familiares com assento nos órgãos decisórios bem como de todos aqueles que, não pertencendo à família proprietária, exerçam funções de gestão em empresas de tipo familiar. 

Eis uma matéria quase virgem em Portugal à espera de concretização. 

Lisboa, Maio de 2006

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 Publicado na revista "Indústria", da CIP, edição de Maio/Junho de 2006

Curtinhas XIII....

 

O QUE A ESCOLA NOS ENSINA

v      Em 2005, o galardão mundial da melhor escola de MBA foi atribuído à Universidade de Navarra.

Edificio central de la universidad de navarra Universidade de Navarra, edifício principal, Pamplona

v      Como? Perguntaram muitos, sem poderem esconder a surpresa. Não sei exactamente como, mas suspeito que o facto desta universidade pertencer à Opus Dei não deverá ser estranho ao sucesso. Não, não por razões confessionais, nem por obra e graça do Céu. Bem mais prosaicamente, porque quem lá manda não são os professores. É, sim, o aparelho fortemente disciplinado desse movimento religioso, que sabe que alunos quer, o que quer para eles, o que quer deles e como o fazer.

v      Ocorreu-me esta efeméride quando assistia a mais umas querelas sobre o nosso sistema de ensino básico e liceal. Por cá, todos constatam que as coisas há muito que não vão bem. Todos diagnosticam maleitas. Todos prescrevem mezinhas de efeito garantido. Todos opinam - e tudo continua mal há décadas. Pois então eu também vou opinar.

v      Entre nós, o ensino é predominantemente público. E o ensino público organiza-se em torno de ideias simples: (i) cada aluno tem acesso garantido à escola pública que serve a sua área de residência (mais propriamente, a do seu encarregado de educação ou de quem passar por tal) – e só a essa; (ii) a escola é para ser gerida pelos seus professores – e só por eles; (iii) o Ministério fixa, lá do alto, para valerem em todas as escolas sem excepção, parâmetros de funcionamento rígidos, curricula e o modo como se avaliará os conhecimentos dos alunos - mas deixa aos professores a liberdade de escolherem os livros de estudo que melhor lhes aprouver, formarem turmas e fixarem horários.

v      A tónica de tudo isto recai, como é evidente, sobre a oferta (o ensino) e, mais ainda, sobre o agente que a assegura (o professor). Por isso, a administração pública impõe pessoas e instalações – e diz como quer que se faça. Mas não verifica, a seguir, caso a caso, se tudo se passou como ela disse querer – nem se quis bem. E só há pouco começaram a ser dados uns passinhos tímidos no sentido de verificar, junto dos alunos, o que foi feito, e se houve razão para ser feito assim. As mais vocais associações de professores, essas, naturalmente, não simpatizaram nada com a novidade.

v      O que mais me intriga é que, neste assunto, propostas e contrapropostas giram sempre à volta do mesmo consagrado, intocável esquema: escola pública, professores, funcionários públicos, com a administração pública (por cá diz-se “o Estado”, mas trata-se de um lapso conceptual nada inocente) a reger a orquestra. Privados, só os alunos. Ah! E os livros escolares.

v      Há algo de genético nesta forma muito nossa de abordar os problemas de dimensão nacional – a qual, diga-se em abono da verdade, não é de hoje. Vejamos o quê.

v      Não é o conhecimento um elemento estruturante das sociedades modernas? É. Logo, o ensino só pode ser uma incumbência do Estado (até aqui, sem comentário).

v      Mas a conclusão ganha, entre nós, um sentido muito particular: se incumbe ao Estado, há que confiar a funcionários públicos, seja lá o que for. E quem não tenha vínculo laboral ao Estado, é fatal, está a mais. Começa assim o silogismo que confunde Estado, no sentido de uma nação que se organiza em função de rumos claramente traçados, com o alter ego da administração pública.

v      Ora, falar-se entre nós de funcionários públicos é invocar uma hierarquia rígida, tipo tropa, onde o que está em cima é sempre, por definição, mais sabedor, confiável, diligente e competente do que o pobre que estiver um degrau abaixo. Em comum, apenas duas coisas: (i) nenhum deles, em cima ou em baixo, se considera na obrigação de prestar contas (ainda que ligeiras, displicentes e superficiais) àqueles outros que, por negaça do destino, não tiveram a dita de entrar para a função pública; (ii) ambos têm o futuro assegurado, com melhor ou pior passadio.

v      E o silogismo completa-se: é ele que vai colocar a tónica da questão na oferta. E é esta tónica que vem justificar a assimetria entre o agente, aquele que provê, e o destinatário, aquele que é provido. Como se todos ficassem submetidos à hierarquia da administração pública: uns, os agentes, em cima; outros, os destinatários, em baixo.

v      Temos assim que, na politologia lusa, a escola só é concebível enquanto peça do aparelho administrativo do Estado, submetida a uma centralização de espartilho (não se confunda hierarquia formal com disciplina funcional!) e tripulada por quem, já despreocupado quanto ao seu futuro, acha de todo inútil dar, de tempos a tempos, umas quantas satisfações à puridade. Afinal, não são eles, os professores, a face do Estado para o ensino e o conhecimento? Como ousar disputar a vontade do Estado, ou pôr em causa os seus excelentes propósitos?

v      É sabido que o silogismo não se circunscreve ao ensino: na saúde, na conservadoria dos registos, na elaboração de estatísticas, até nos transportes, só para dar uns quantos exemplos, fazemos uso dele com largueza.

v      Mas, estranhamente, não é que permanece arredado de outras tarefas igualmente essenciais para qualquer nação que se preze, como sejam o fabrico do pão e o cultivo dos primores? Para desespero de muitos padeiros e de não menos agricultores que, certamente, apreciariam ter no dinheiro dos contribuintes a certeza do seu salário e da sua reforma, e não ter que dar satisfações a ninguém, menos ainda aos seus clientes. Ou seja, também eles não desdenhariam ser funcionários públicos “à portuguesa” – sorte que bafejou os professores e uns quantos mais.

v      Este silogismo, que nos acompanha desde os alvores do regime liberal, mantém-nos até hoje mergulhados no clima típico das monarquias absolutistas, com a administração pública a posar como soberano iluminado. E, por causa dele, o Estado (isto é, todos nós, portugueses) tem sido obrigado a engordar (pagando nós) o seu aparelho administrativo, no convencimento de que só assim funções imprescindíveis poderão ser adequadamente preenchidas. É possível que sim, é possível que não. Excepção feita às tradicionais funções do Estado, esta, decididamente, não é matéria em que haja uma só receita, como o silogismo insinua.

v      É claro que o silogismo serve às mil maravilhas a dois grupos de cidadãos: (i) os que vêem nele a via ampla para entrarem na função pública e colherem sossegadamente os respectivos frutos até ao final das suas vidas; (ii) e os que se propõem fazer o bem com o dinheiro dos contribuintes. Completado o silogismo, assim se fecha o ciclo de interesses que o tem sustentado, acarinhado e multiplicado.

v      Acontece que o silogismo rasga uma clivagem no modo de pensar, dando a todos traços de esquizofrenia. No plano individual, estou em crer que uma boa maioria dos professores se preocupa, genuinamente, com que os alunos aprendam, e bem. Colectivamente, porém, esses mesmos professores, ao considerarem-se o alfa e o ómega do sistema de ensino, querem só para eles próprios. Justamente aquilo que, ao que sei, a Universidade de Navarra não tolera.

Lisboa, Junho de 2006

A. Palhinha Machado

 (ao centro)

 

FANTASIA

 

Por várias vezes me apeteceu tratar os condutores de carroças de Marraquexe por “Vossa Boçalidade” mas considerando a facilidade que aquela gente tem para as línguas, limitei-me a expressar visualmente a minha repugnância pela atitude de mão daqueles fulanos evitando arranjar algum sarilho de que só eu poderia sair a perder.

 

À perfeita maneira boçal, a ordem dada ao animal para que ande mais de pressa é um ou vários toques na boca que frequentemente correspondem a puxões ou, mais apropriadamente, a verdadeiros “socos nos queixos”. Os animais correspondem à ordem como o cão do Professor Pavlov que salivava cada vez que à sua frente acendia uma luz eléctrica por reflexo condicionado e, naquele caso, sem qualquer relação com a lógica equestre civilizada.

 

As vítimas mais vulgares são burricos – enfezados por gerações sucessivas de fome e sede – mas as mulas também são frequentes e não apresentam quaisquer melhorias de tratamento em relação aos seus parentes mais pequenos. Os cavalos são raros no comércio e exclusivos nos trens para transporte de turistas mas o estatuto de cada classe não distingue mordomias e os “socos nos queixos” distribuem-se uniformemente por todos esses dóceis trabalhadores herbívoros.

 

Para sorte dos boçais, já lá vai o tempo em que os animais falavam . . .

 

Numa cidade com tanto animal, não deixei de reparar na inexistência de locais de abeberamento e cheguei a imaginar que aquelas gentes confundem burros, mulas e cavalos com camelos que só bebem quando o rei faz anos. Por uma única vez reparei num homem a dar água ao seu cavalo e temo poder concluir que todos os outros passam muita sede, o que se vê claramente pelo aspecto desidratado de todos eles e se sente no estrume pestilento que vai ficando pelas ruas. Daqui sugiro à nossa Sociedade Protectora dos Animais que estabeleça um protocolo de cooperação com a cidade de Marraquexe instalando por lá alguns chafarizes com um letreiro escrito em árabe, francês e português de modo a que todos os alfabetizados possam saber que se trata de uma iniciativa portuguesa destinada aos animais que trabalham naquela cidade. Não custa nada fazermos um brilharete com dinheiros da UE e ainda pomos uns estudantes de arquitectura a ganhar nome junto da população asinina marroquina.

 

Um dos programas turísticos mais procurados chama-se “Fantasia” – exactamente assim, à portuguesa – e consta de um jantar e de um espectáculo folclórico de música, alguma dança e muita participação equestre. Para quem como eu gosta de cavalos e de equitação, tem interesse e é agradável.

 

As imponentes instalações de recente construção em que tudo se desenrola consistem num castelo devidamente amuralhado mas no enorme terreiro que lhe dá acesso pode estacionar à vontade uma centena autocarros e o dobro de automóveis ligeiros.

  

Cavalo "berbere",  de certeza o antepassado do nosso "lusitano"

Fazemo-nos ao portão principal entre alas de cavalos berberes devidamente ajaezados e respectivos cavaleiros em traje a rigor e carabina em riste. Não resisti a posar junto de um deles, até para ficar com uma ideia mais nítida sobre o tamanho médio dos cavalos (pouco mais que 1,50 m ao garrote). Esperava ver freios de grandes alavancas e montadas pronunciadas mas apenas vi bridões sem história; as selas não estavam em exibição especial e para ver do que se tratava tive que vir aqui à Internet à procura de uma fotografia de “sela fantasia berbere”; as cabeçadas não tinham focinheira útil e por isso os cavalos – à semelhança de todos os burros e mulas que vi pela cidade – andam de boca aberta em atitude de esgar esteticamente desagradável e abominável na perspectiva equestre.

  O imaginário marroquino da Caverna do Ali Bábá põe-lhe um recheio de despojos cristãos, quiçá os de D. Sebastião

Entrando para o castelo propriamente dito, logo se nos depara a gruta do Ali Bábá e uma galeria com as fotografias dos visitantes ilustres, nomeadamente Ronald Reagan. Não sei se fiquei no mesmo lugar nem sequer na mesma mesa do grande Presidente americano mas, apesar de sermos cerca de 1500 convivas, o jantar foi muito bom. E – por esta é que eu não esperava – muito bem acompanhado por um vinho tinto marroquino chardonais cuja marca “quelque chose” esqueci. Todos os grupos folclóricos em presença nos visitam na mesa e as meninas não sossegam enquanto não desinquietam os cavalheiros para um pésinho de dança e nos presenteiam com estridente trilo de língua bem junto ao nosso desprevenido ouvido.

  As berberes não cobrem a cara e cantam e dançam com a alegria que as mulheres árabes podem não sentir

O recinto do espectáculo equestre deve ter uns 200 m de comprimento por uns 50 de largura e é nele que, vindos do breu, evoluem sob o foco dos holofotes em larguíssimo galope uns quantos ginastas saltando de um flanco para o outro do cavalo, fazendo o pino junto à espádua e outras tropelias que encantam a multidão expectante. Tudo acompanhado de música a condizer com o ritmo do espectáculo, o público marroquino conhecedor do seu folclore não deixa de nos contagiar com os cânticos que entoa e com as palmas com que tudo acompanha. Afinal, o espectáculo não é só no recinto equestre propriamente dito mas nas bancadas também.

 

O grande número é, no entanto, a “Fantasia” que consiste em duas equipas de 9 cavaleiros que vêm lá do escuro do fundo do recinto a correr lado a lado num galope muito forte e, imediatamente antes de pararem, devem dar um tiro de tal modo simultâneo que pareça um só. Cada equipa faz três exibições e são os aplausos das meninas dos grupos folclóricos que determinam qual das equipas é a vencedora.

 

Escusado será dizer que os cavalos pouco ou nada têm de árabe e são todos berberes pois caso contrário não conseguiriam passar do galope larguíssimo à paragem em menos de meia dúzia de metros. E, na verdade, sem que se trate de cavaleiros eruditos, não se vêem brutalidades chocantes para quem gosta de equitação fina. É claro que eles já nem sequer devem saber viver sem a boca escancarada mas, como era noite cerrada, não havia por ali moscas que os engasgassem e, com a repetição, todos aqueles cavalos sabem de cor onde acaba a pista e têm que parar mesmo sem acção especial da manápula do cavaleiro.

 

Música bem sonora, o público a cantar e a bater palmas, os cavalos quase à carga, os tiros e o fogo de artifício fazem da “Fantasia” um espectáculo a não perder por quem, como nós, decidira fazer uma viagem no tempo e ir até bem longe nos arquivos da História.

 

E, de facto, eu imaginara que esta viagem a Marrocos me levaria à Idade Média mas enganei-me claramente pois funcionam em paralelo dois estilos de vida que na boa verdade nada deveriam ter a ver um com o outro e, contudo, toleram-se sem que aparentemente existam conflitos: a vida dentro e fora do Souk; a avó de caftan e véu na companhia da filha de saia comprida e blusa com mangas mas de cara destapada e a neta de jeans e blusa de manga à cava; o velhote de caftan e cofió à conversa com outro fulano trajando completamente à ocidental; a maioria dos homens de cara completamente escanhoada e alguns barbudos à moda do Ben Laden (muito raros os bigodes, donde o meu “moustache” a dar-me a alcunha).

 

Mas – pese embora a dramática falta de água para a agricultura – vi os campos todos em produção a fazerem os mercados agrícolas portugueses enrubescerem de vergonha e imaginei o que aquele país poderá ser quando utilizar mais intensamente as águas provenientes do degelo do Atlas. Claro está que em Marrocos não existe por certo nenhuma política do estilo do “set aside” europeu e, pelo contrário, dá para acreditar que esteja em vigor algum mercantilismo e que a procura interna se vá satisfazendo sem interferências externas com objectivos paralisantes da produção nacional. Objectivos estes semelhantes ao que fazem os responsáveis pelo aprovisionamento das Grandes Superfícies portuguesas que tanto vibram quando a Selecção Nacional de futebol se classifica para as meias-finais do Mundial mas que profissionalmente não hesitam em sistematicamente beneficiar o adversário.

 

Lisboa, 5 de Julho de 2006, antes do jogo Portugal-França

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

Nota final:

 

  • No regresso a Portugal, demos uma volta por Casablanca em vez de desperdiçarmos 6 horas no aeroporto. O Guia que nos acompanhou disse-nos logo de início que íamos começar por visitar o que de mais importante existe em Casablanca, a Mesquita Hassan II. É de facto um monumento imponente mas eu continuo a acreditar que o que de mais importante existe em Casablanca são as pessoas.

ONDE ESTARÃO ELES ?

 

Como Sultão em viagem pelo deserto e chegando-se ao mar, foi das costas de um camelo que vi a berbere Amogdul, "a bem guardada", a que nós, os portugueses, viemos a chamar Mogador. Mas o que primeiro me chamou a atenção foram as ilhas que acalmam a baía frente às muralhas da cidade. Soube mais tarde que a essas ilhas se lhes tinha chamado Purpurinas e que Júlio César ali mandou comprar a tinta para o seu manto imperial.

 

  

Ilhas Purpurinas, frente a Mogador

 

Cresce o respeito pelo lugar quando lhe sabemos da idade.

 

Inicialmente sob o domínio dos fenícios e dos cartagineses a região foi romana durante quase cinco séculos sendo então conhecida como Província Mauritana Tingitana. Os vândalos ocuparam-na em 429 mas Belisário, general bizantino, expulsou-os em 533 e Bizâncio passou a dominar toda a região. Do século VII ao X os berberes que habitavam esta região lutaram pela independência contra a dinastia árabe Omeya cujo reino se estendia até à parte sul da Península Ibérica. Contudo, no século XI, o fundador de Marraquexe, Yusuf ben Tasfin, incorporou Marrocos no Império Almorávida e a Amogdul passaram os árabes a chamar Essauira. Só que esta dinastia durou apenas 43 anos e os Almôadas que se lhes seguiram governaram apenas durante uma centena de anos não passando muito tempo até que as lutas pela hegemonia regional acabassem por enfraquecer o poder árabe e proporcionar finalmente o acesso dos berberes ao poder. Mas estes transferiram a capital para Fez e deixaram esta região como que ao abandono.

 

Abandono este muito propício à política atlantista portuguesa que ficou na História como tendo motivações religiosas – a Reconquista – mas que bem sabemos ter sido causada pelo espartilho europeu ao nosso desenvolvimento.

 

Eis a lógica da expansão portuguesa do Algarve dàquem para o de além-mar e da tomada pelas armas de vários portos considerados então importantes para o comércio com o interior africano e . . . saber-se-ía depois para que mais. Essauira foi conquistada e rebaptizada de Mogador e com ela Sebta (Ceuta), Agadir (Santa Cruz do Cabo de Gué, que viria a possuir importante hospital de apoio aos nossos navegantes descobridores), Melilha, Arzila, Larache, Casablanca e Tetuão. Foram os portugueses que a partir de 1506 construíram as primeiras fortificações de Mogador, como a famosa Escala, hoje seu ex-libris.

 Escala, fortaleza de Mogador

 

Mas em 1578 fomos derrotados na Batalha dos Três Reis perdendo o nosso mítico D. Sebastião e a região ficou novamente sob o poder árabe, concretamente do domínio da dinastia Alauí. Diz o nosso ditado que “quem tudo quer, tudo perde” e foi precisamente isso que ali nos aconteceu.

 

Aos portugueses que lá viviam só lhes restou a alternativa de morrerem ou de se integrarem pois o regresso a Portugal estava dificultado pelo descalabro que sobre o reino se abatera e não era o momento mais apropriado para fazer vingar em Essauira um estilo de vida que acabara de ser derrotado pelas armas.

 

No século XVIII, graças ao comércio com a Europa, o sábio sultão Sidi Mahomed Ben Abdallah tornou a cidade no porto mais importante de todo o reino e Essauira viveu a sua época dourada como porta marítima de todo o interior até Tumbuctu.

 

Afinal, duzentos anos depois da nossa derrota militar, pareceu que nem tudo estaria completamente perdido e que era novamente possível aos portugueses fazerem qualquer coisa por ali. À sabedoria do sultão se deve a instalação dos Consulados de Portugal e da Dinamarca ficando a época marcada por uma harmoniosa convivência entre berberes, judeus, árabes, portugueses e saharianos, etnias que puderam livremente viver na região. Só que estes portugueses já nada tinham a ver com os que lá tinham ficado esquecidos pela nossa soberania, entretanto misturados com o pó da terra.

 

Viver e deixar viver, eis a filosofia que preponderou durante o reinado de Sidi Mahomed Ben Abdallah. Que belo exemplo para os dias de hoje . . .

 

Entretanto Casablanca cresceu mais do que o esperado e Essauira adormeceu. Foi necessário chegar aos finais do século XX para que a cidade acordasse com a chegada de surfistas, estrelas da música pop, artistas em busca de inspiração... Dizem os cartazes que Essauira dispõe hoje de uma das melhores estruturas turísticas de Marrocos, sendo considerada como o melhor "spot" surfista da costa atlântica norte-africana. Eu vi os wind-surfistas por lá mas ainda nada que se compare com o Guincho.

 

Foi em pleno Festival Gnaua que entrei pela porta principal da cidade amuralhada e raramente vi tanta gente por unidade de superfície. Apesar de tudo, ainda conseguimos – a minha mulher e eu – tirar uma ou duas fotografias numa esquina que poderia perfeitamente ser na “Alcárcova de Baixo”, em Évora. Sim, a nossa Mogador está lá com todas as características urbanas e arquitectónicas de qualquer cidade portuguesa medieval e é uma pena que os sons de então se tenham arabizado por completo sem rasto da nossa memória.

  Mogador, cidade portuguesa medieval

 

Os gnaua são descendentes dos escravos, originários da África negra. Organizados em irmandades, são músicos, magos ("maalem"), encantadores de serpentes, videntes, médiuns e as suas práticas musicais, de iniciação e terapêuticas misturam ritos africanos, árabes e berberes. Os gnaua fundam a sua prática no culto dos "jinn" (espíritos) e os seus ritos têm características comuns aos cultos africanos da possessão, comparáveis ao vudu haitiano e à macumba brasileira mas oficialmente são muçulmanos como forma de garantirem a sobrevivência no seio de uma sociedade mais tolerante no discurso político do que nas prédicas dos Imãs.

 

O Festival Gnaua tem a música como pretexto mas acaba por misturar todas estas particularidades culturais. Para aumentar a confusão, é costume convidarem músicos de jazz, pop e rock mas o som que mais se faz ouvir ao longe é o dos tambores indígenas e dos cânticos e palmas do acompanhamento. Estava eu sobre um baluarte de construção portuguesa quando à distância de uma praia os vislumbrei e ouvi como se estivessem ao meu lado. Não precisei de me aproximar para acreditar que lá estivesse alguém em transe.

 

E se o transe resulta da excitação e da Fé nalguma forma de transcendência, já o maravilhoso da fábula se fica pelos ditos e contos. Contam-se 81 “coisas” sobre Mogador que nem contos chegam a ser mas que revelam o maravilhoso que a cidade inspira tanto a residentes como a visitantes.

 

Diz-se que em Mogador os amantes coleccionam e se oferecem pirilampos e com eles juram amor eterno porque são os únicos animais cujo brilho perdura para além da morte e que quando secam, os misturam com argânia fazendo uma pasta com que discretamente untam os lábios antes de se beijarem. E diz-se também que este “unto da luz” tem poderes afrodisíacos pois no escuro da noite é sempre “emocionante” ver como brilha o corpo amado mostrando por onde passaram os lábios em lânguido e longo desejo. Ah! E diz-se ainda que quando a felicidade é muita, que os corpos emanam um brilho interior que perdura por dias a fio e que se o quiserem esconder por baixo de roupas escuras, que o brilho se vê nos olhos de quem tanto ama. Eis por que se diz que a luz de Mogador transforma os amantes em seres luminosos.

Não sei se os portugueses que lá abandonámos em 500 e em 700 estavam inebriados pela luz dos pirilampos ou pela pasta de argânia mas duvido que o pó em que se transformaram nos dê algum brilho ao esquecimento a que os votámos.

 

Talvez seja mais do que a hora de os resgatarmos mas, entretanto, há que perguntar: onde estarão eles?

 

Lisboa, Julho de 2006

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

Notas de pé de página:

 

  • Almoçámos peixe fresco tão bom como o que se come no Algarve dàquem-mar num bom restaurante sobre o molhe resguardado do porto de pesca sobre o qual também funciona um estaleiro de construção e reparação. Não me apercebi de que por ali andassem interesses portugueses, nem sequer na multidão de barcos àquela hora em doca. Temo que o estrangulamento europeu às pescas portuguesas não esteja a ser sublimado por investimento nestas águas tão ricas;

 ´

Onde estarão os barcos portugueses?

  • Tanto dentro como fora das muralhas, há uma apreciável densidade de hotéis que devem ser da bitola das nossas 3 estrelas. Não me apercebi de que por ali andassem interesses portugueses, o que me espantou pois sempre fomos ávidos de dinheiro e por ali anda muito;
  • Uma referência de muita simpatia aos nossos companheiros de viagem, o Carlos e a Ana, casal residente em Viseu e que estavam em Lua-de-mel; ele, engenheiro numa empresa fabricante e exportadora de equipamentos de fitness e ela, enfermeira de oncologia. Quando conheço jovens desta qualidade, fico tranquilo quanto ao futuro do meu país e quando sei que eles vivem no interior, confirmo que as Universidades são o maior instrumento do desenvolvimento daquelas regiões. Companhia muito agradável que conhecêramos na véspera num jantar de “fantasia”. Este espectáculo de folclore equestre será tema de outro palavreado.

 

Carlos e Ana, óptimos companheiros de excursão

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