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A bem da Nação

NOBEL DA ECONOMIA 2005

Do Diário Digital extraí a seguinte notícia que me parece interessante para os «habitués» do “A bem da Nação”:

Nobel da Economia distingue dois investigadores da teoria dos jogos

O economista Robert J. Aumann da Universidade de Jerusalém e o norte-americano Thomas C. Schelling, da Universidade de Maryland, EUA, são os co-vencedores do Prémio Nobel de Economia 2005, anunciou a Real Academia Sueca das Ciências esta segunda-feira.

Os investigadores Thomas Schelling e Robert Aumann, respectivamente de 84 e 74 anos de idade, foram os galardoados com o prémio deste ano pelas contribuições dadas para o entendimento do binómio «conflito e cooperação» na teoria analítica dos jogos, isto é, nos modelos de interactividade das organizações, refere a instituição em comunicado.
Para estes especialistas da teoria dos jogos, a questão central reside em saber porque alguns grupos manifestam maior tendência para o conflito interno enquanto outros revelam maior vocação para cooperarem.
Entre outras obras, o norte-americano Schelling é autor do livro «The Strategy of Conflict», editado em plena conjuntura da corrida ao armamento nuclear, enquanto que o trabalho de Aumann demonstra a tese de que a cooperação é uma realidade mais objectiva nos jogos duradouros.
O prémio Nobel da Economia, é atribuído pelo Banco da Suécia em memória de Alfred Nobel, tendo distinguido 55 académicos nesta área das ciências até à actualidade.


Da Internet extraí as fotografias dos dois laureados.

Para saber mais sobre Robert J. Aumann, ver por exemplo em:
http://cepa.newschool.edu/het/profiles/aumann.htm

Para saber mais sobre Thomas C. Schelling, ver por exemplo em:
http://cepa.newschool.edu/het/profiles/schelling.htm

Boas leituras.

Lisboa, 10 de Outubro de 2005

Henrique Salles da Fonseca

EXERCÍCIO DE MEDITAÇÃO


Clarence Darrow (1857 – 1938) foi um advogado americano que alcançou fama defendendo causas que poucos dos seus colegas aceitariam.

A certa altura terá dito qualquer coisa do género do que em português soaria como:

"Para se ter sucesso na política são necessários ares de homem honrado e de palhaço e não ser nem uma coisa nem outra"


Se quiser saber mais, visite http://www.law.umkc.edu/faculty/projects/ftrials/darrow.htm

Boa meditação,

Lisboa, 7 de Outubro de 2005

Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 1

“O paradoxo da paz” Nota prévia: o presente “Lido com interesse” devia ter o nº 2 dado que em Julho passado esta epígrafe merecia ser aplicada ao resumo que então fiz do texto anterior do Professor Doutor Manuel Ennes Ferreira sobre a maldição que as riquezas naturais lançam sobre os países atrasados. Contudo, o mesmo vento nunca sopra duas vezes e, portanto, só agora inicio esta série com a numeração que assim lhe cabe. 

 

 

Título original: “Development and the Peace Dividend Insecurity Paradox in Angola” 

Autor: Manuel Ennes Ferreira, titular da cadeira “Economia africana” no Departamento de Economia do ISEG (UTL) 

Editor: Taylor and Francis Group –

Para mais informações, ver em http://www.tandf.co.uk/journals/titles/09578811.asp 

Edição: “The European Journal of Development Research”, Vol.17, No.3, Setembro de 2005, pp.509 – 524

 

Resumo: «No final de uma guerra civil, é frequente tomarmos como certo que haja um lucro a receber pela reorientação das despesas militares, o chamado “dividendo da paz”, permitindo mais elevadas taxas de crescimento económico e maior atenção às questões sociais. Contudo, esta possibilidade não está minimamente garantida em todas as circunstâncias. A grandeza do “dividendo da paz” depende de uma série de factores multidimensionais que a Economia Política do Desenvolvimento nos ajuda a compreender. No presente artigo, o conceito “paradoxo da insegurança do dividendo da paz” é-nos apresentado como a descrição da situação que ocorre quando o “dividendo da paz” não se materializa. Neste sentido, sublinha o autor a necessidade duma análise mais ampla ligando a segurança humana e o desenvolvimento. No caso de Angola, os “interesses pessoais” estabelecidos ao longo de mais de 25 anos de guerra civil impedem a compatibilização de segurança pessoal e desenvolvimento criando deste modo as condições para que ocorra o “paradoxo da insegurança do dividendo da paz”.»

 

Frases que retive: 

 

«(…) nunca houve unanimidade de opiniões quanto ao positivismo, negativismo ou neutralidade das despesas militares sobre o desenvolvimento» 

 

«O conceito de desenvolvimento evoluiu das estreitas dimensões económicas para a colocação da pessoa como o centro do processo. O desenvolvimento humano e a segurança ficaram intimamente ligados» 

 

«É comum a ideia de que o desarmamento e reestruturação das despesas militares podem resultar num reforço do desenvolvimento»  «Os ajustamentos necessários na recolocação de activos humanos e de capital físico têm custos no curto prazo, nomeadamente desemprego, de adaptação económica e de reconversão social, antes que ocorram os benefícios nos médio e longo prazos» 

 

«No campo político, o dividendo da paz resulta na pressão que se exerce sobre a abertura à democracia. Estará o Governo preparado para isto, garantindo os direitos a todas as partes? E se o acordo de paz resulta num duopólio político, excluindo e menosprezando as oportunidades para todos aqueles que não se sentem representados por essas duas partes, será que isto beneficia o dividendo da paz ou garante a segurança política e os direitos civis?» 

 

«Angola pode infelizmente transformar-se num “case study” nesta matéria. Os interesses pessoais – tanto económicos como políticos – que se estabeleceram ao longo de mais de 25 anos tornam difícil que nos mantenhamos optimistas no que respeita à obtenção de algum dividendo da paz. De facto, é o contrário que parece ser verdade. A insistência num modelo económico baseado no acréscimo de exportação de recursos naturais, com o petróleo à cabeça, a estruturação do sistema económico e político com base na corrupção [“rent-seeking”, no original], a “legitimação” obtida pelo fim da guerra civil e o adiamento das eleições – tudo isto pode servir de ingrediente para que a população não sinta melhoras sensíveis na situação alcançada» 

 

«(…) quem ganha com isto?» 

 

«A autonomia financeira de que Angola dispõe actualmente, se bem que insuficiente para beneficiar a população em geral, serve pelo menos para satisfazer a elite governante» É sempre com interesse que leio os trabalhos do Professor Doutor Ennes Ferreira e só espero que eles sejam lidos com redobrada atenção pelos verdadeiros destinatários, os angolanos que ainda têm o gosto do estudo. Mas deve ser um reduzido círculo dentre os poucos que em Angola ainda sabem ler.

 

Pobre país tão rico.

 

Lisboa, Outubro de 2005

 

 Henrique Salles da Fonseca

PALAVRAS QUE CONFUNDEM

(a propósito do valor facial das palavras)

Sei bem que estou a ser miudinho, picuinhas até. Mas é só porque penso que cada palavra tem valor, na exacta medida em que sugere a quem a ouve ou lê um dado contexto emocional: há as que nos envolvem num ambiente de segurança; há as que nos põem de sobreaviso; há, também, aquelas que nos lançam logo para o centro da tempestade. Mais ainda. Estou em crer que nada se ganha por baralhar e confundir aquilo que é, sem sombra de dúvida, a mais antiga e a mais robusta estrutura de códigos: a linguagem verbal.
Vem isto a propósito do hábito, que se enraizou entre nós, de designar por “produtos” realidades que são coisa bem diferente. Os Bancos e, em geral, todas as instituições financeiras deliciam-se a apresentar e a publicitar as suas ofertas, designando-as por “produtos financeiros”. A própria Autoridade de Supervisão entrou na moda e não só condescende com a designação, como a usa despreocupadamente nos seus próprios escritos.
Ora, se esses tais “produtos financeiros” fossem verdadeiros produtos, quem os apropriasse poderia fruí-los pacificamente, sem contar com mais ninguém. É este, precisamente, o conceito de “produto”: tudo o que é susceptível de apropriação individual e que não necessita da acção directa de outrem para ser satisfatoriamente utilizado, ou consumido, consoante o fim para que tenha sido adquirido. Podem ser precisos muitos de nós, ao longo de uma complexa teia de esforços e relações, para produzi-lo. Mas, uma vez produzido, fica na posse de alguém; e esse alguém, mesmo se estivesse sozinho no mundo, poderia desfrutá-lo tant bien que mal. Sob este ângulo, um produto produto poderá expor aquele que o possui, ou detém, a uma pluralidade de riscos – mas nunca ao risco de contraparte, muito menos ao risco de crédito; e mesmo a possível exposição ao risco de mercado surgirá, apenas, se foi adquirido, não para fruição pessoal, mas para ser revendido. Resumindo: quem seja possuidor de um verdadeiro produto pode estar seguro de que, daí, nenhum risco financeiro (os tais riscos de mercado, de contraparte e de crédito) lhe advirá. Esse produto é um bem nele próprio, e as suas propriedades intrínsecas não estão, de modo nenhum, condicionadas por, ou dependentes da intervenção de terceiros.
Nada disto se passa nos “produtos financeiros”, como é sabido. Estes são contratos pelos quais uma das partes se obriga, de modo firme ou apenas contingente (isto é, sob condição), a pagar quantia ou quantias, desde logo determinadas ou simplesmente determináveis, em datas futuras que ficam expressamente indicadas. E, enquanto contratos, expõem pelo menos a parte activa (aquela que tem legitimidade para exercer os direitos convencionados) ao risco de contraparte, em geral, e ao risco de crédito, em particular. Isto porque a parte passiva (a que deve satisfazer as obrigações contratadas), chegada a hora de cumprir, pode muito bem falhar – ou porque não quer pagar aquilo a que se obrigou (risco de contraparte), ou porque não tem meios para o fazer (risco de crédito). Por isso, quem levar a efeito uma aplicação financeira (o que é dizer, quem adquire um activo financeiro) só verá os seus propósitos alcançados se, e apenas se, a outra parte cumprir – ou seja, é imprescindível que esta última actue, pagando, para, só então, a parte activa se dar por satisfeita.
Ao apresentarem como “produtos” os activos financeiros que eles próprios emitem, ou outros quaisquer que se limitem a comercializar, os Bancos (e todas as restantes instituições financeiras), deliberadamente ou por mera desatenção, estão a criar no espírito de quem os ouve e lê duas ideias afins – a saber: a de que se trata de um bem com propriedades intrínsecas; e a de que se trata de algo isento de risco. Nada de mais errado: primeiro, porque o que está em causa é, sempre, não um bem, mas uma relação contratual que não dispensa a presença actuante da contraparte (o Banco ou a instituição financeira) até ao integral pagamento do que ficar convencionado; depois porque os riscos de crédito e de contraparte estão lá, faça-se o que se fizer, prometa-se o que se prometer – são indeléveis. Acresce que nenhum dos muitos “produtos financeiros” oferecidos está coberto pelo Fundo de Garantia dos Depósitos, o que expõe plenamente quem deles for titular às ocasionais dificuldades de tesouraria ou, mesmo, à insolvência das entidades que os devam servir.
Quando os destinatários das mensagens publicitárias são, na sua larga maioria, pessoas pouco versadas nas subtilezas do mundo financeiro, como é o caso, seria mais correcto, e mais honesto, chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes.

A. Palhinha Machado
Outubro de 2005

AS GRANDES CRISES DINÁSTICAS NACIONAIS

Num dos últimos programas “A Alma e a Gente”, o Professor José Hermano Saraiva introduziu a tese do homem providencial/excepcional para explicar porque é que duas crises dinásticas aparentemente tão iguais, a de 1383/1385 e a que pôs termo à dinastia de Aviz, conheceram epílogos tão diferentes. A primeira, teve-o na figura do Condestável Nuno Álvares; a outra, não. Ergo...

Sem diminuir o papel do querer individual na construção de tantos factos históricos – e, até, na determinação dos rumos da História – creio que uma vontade isolada nunca poderia, nem poderá, ir longe. Para influenciar fortemente os acontecimentos, o apelo de um só terá de ser assumido e aceite por muitos outros que o façam seu, e que por ele estejam dispostos a lutar. Acresce que esses tais muitos não poderão ser uns “muitos” quaisquer; terão eles de dispor dos meios que lhes permitam fazer prevalecer uma vontade que é já um querer colectivo. Com isto, não estou a perfilhar, nem a leitura de Veríssimo Ferrão, nem (no extremo oposto) a de Álvaro Cunhal sobre a crise de 1383/1385. Estou, apenas, a preparar o terreno para a minha própria conjectura, que ouso descrever em seguida.

Provavelmente, todos reconheceremos na riqueza, no poder e na linhagem três poderosos motores da História (principalmente, em períodos de umas poucas gerações, não mais) e na demografia a vaga de fundo que atira a evolução histórica, ora para esta praia, ora para aquela outra, ora para os rochedos.
Recorrendo à interpretação marxista (que aqui dá boa ajuda), a riqueza traduz o modo (ou seja, as regras) como se distribui o produto social. O poder, esse, revela a capacidade não só para impor comportamentos e atitudes a outros, de forma sistemática, continuada e geralmente não-violenta, mas também para orientar o excedente económico. Por fim, a linhagem é o que projecta o poder e a riqueza para lá dos dias; é o que confere, a uma e a outro, o sentimento reconfortante da perpetuidade; é, enfim, a defesa de ambos a partir do futuro. Riqueza sem poder é coisa vã e precária: é ter sem determinar; é depender, em última análise, da vontade do outro. Poder sem riqueza não é menos vão, nem menos precário: à sensação de vazio que é mandar sem possuir, junta-se a incerteza do que virá se o poder ficar perdido. Por fim, poder e riqueza que não possam ser transmitidos (inter vivos ou mortis causam), em conjunto, é a frustração de não conseguir perpetuar um modelo de sociedade que beneficia interesses próprios.
Quando lanço mão destas três coordenadas – sobre o pano de fundo de um forte crescimento demográfico, porventura mais acentuado entre a nobreza por razões que me parecem óbvias – a crise de 1383/1385 torna-se-me mais clara. De um lado, os que encabeçavam linhagens (os primogénitos da nobreza), muitos deles, mas não todos, habituados a privar com a corte régia – que era, simultaneamente, a fonte e a garantia última do poder e da riqueza exibidos. De outro, uma amálgama que só episódios de ruptura político-social (revoltas, guerras, afirmação violenta do poder régio) fariam aproximar do trono: (i) os filhos segundos que o direito consuetudinário afastava da riqueza e das linhagens de onde provinham; (ii) os ramos menores da nobreza, tão ou mais distantes do poder régio quanto os filhos segundos das grandes linhagens; (iii) os que, na roleta das intrigas cortesãs, por má fortuna ou por má cabeça, haviam perdido o favor real. No meio, com a morte do rei D. Fernando, um enorme vazio de poder. Aqueles, teriam de disputá-lo para segurar a riqueza e a linhagem que ainda lhes pertenciam. Todos estes outros, o perseguiam para criar uma nova realidade em redor do trono que os favorecesse e, desse modo, lhes permitisse encabeçar as linhagens de onde provinham, ou iniciar novas linhagens. Quase todos a dominarem a arte da guerra e dispostos a praticá-la.

A crise estala, então, porque as relações sociais que os costumes haviam consagrado entre os extractos da nobreza já não comportavam a dimensão demográfica de todos aqueles que, mal ou bem, se reclamavam de uma linhagem. A morte do rei, sem filho varão que lhe sucedesse, surgia, então, como uma oportunidade irrepetível para provocar alterações profundas no topo da nobreza (hoje dir-se-ia: para velozes ascensões sociais no seio da classe nobre). O facto de a coroa ser reclamada por um rei estrangeiro (em nome de sua mulher portuguesa, é certo) veio, apenas, tornar ainda mais negro o futuro dos que eu (com bastante exagero, reconheço) designarei por os “desprotegidos da nobreza”, já que a grande nobreza castelhana não deixaria de reclamar o seu quinhão português, certamente à custa dos domínios régios (menos favores ficariam para os de cá) e da pequena nobreza local (que assim se veria mais diminuída nas suas riquezas, o que poderia ameaçar a continuidade das suas próprias linhagens).

Se não fosse o problema dinástico que a morte de D. Fernando abriu, outro qualquer pretexto seria aproveitado, cedo ou tarde, para pôr em causa o topo do poder (o trono), abalá-lo, reorientá-lo e, em último caso, subvertê-lo – só então se alcançando um novo equilíbrio interno. As pressões demográficas que se verificavam no seio da nobreza não permitiriam descanso.
Aliás, foi assim, sempre, em Portugal e no reino vizinho. Por cá, e dando de barato a crise de onde surgiu o reino, foram as lutas entre (os partidários de) D. Sancho II e (os partidários de) as suas irmãs que trouxeram D. Afonso III, e com ele a mudança de cima a baixo na composição da nobreza (turbulência que está na origem dos livros de linhagens); foi o confronto permanente entre (os partidários de) D. Dinis e (os partidários de) o seu filho Afonso; foi, enfim, a batalha de Alfarrobeira; e não foi mais porque, a um poder régio extremamente forte (D. João II) se seguiu um período de enorme prosperidade que permitiu aos reis seguintes manter saciados os seus vassalos mais ambiciosos (é, a esta luz, interessante notar a multidão de filhos segundos e de nobres provenientes de linhagens, até então, periféricas que aparecem no proscénio; D. Pedro de Menezes, em Ceuta, é disto um bom exemplo). Em Leão e Castela as lutas intestinas também não pararam: foi a herança de Fernando Magno; foi Sancho a opor-se a seu pai Afonso X; foi Pedro, o Cru (e por isso morreu Inês de Castro), foi Juan de Antequera, foram os Trastamaras – só para citar uns quantos. De ambos os lados da fronteira, a cada nova composição (e hierarquização) da nobreza seguia-se um período de consolidação e estabilidade, aqui e ali entrecortado por convulsões palacianas, até que, três ou quatro gerações mais tarde, os “desprotegidos da nobreza”, agora outros, voltavam à liça para tentar mudar o estado das coisas a seu favor.

Voltando a Portugal. Após 1385, com a subida ao trono de D. João I, o povo continuou povo; os mercadores burgueses saborearam um curto protagonismo, insuficiente para lhes franquear o acesso ao poder dos nobres (salvo, indirectamente, por via feminina) e aos favores reais; os nobres continuaram a disputar as mercês régias, umas vezes com estratégias ofensivas (queriam mais), outras, defensivas (não queriam perder o que já haviam obtido), outras ainda, casamenteiras (alianças de linhagens, ou alianças destinadas a atrair para a linhagem, com o propósito de reforçá-la, a riqueza de burgueses e lavradores de maiores posses). Sob este ponto de vista, as diferenças entre 1350 e 1400 terão sido mínimas, reduzidas à expressão de uma sociedade cujo tecido mudava muito, muito lentamente.
Por certo, crise é invariavelmente sinónimo de dois grupos que se enfrentam com determinação, predispostos e irredutíveis. Mas em Portugal, no ano de 1383, faltava ainda muito para que o grosso da riqueza tivesse origem nas trocas mercantis. No final do séc. XIV, como um século antes, a distribuição do produto social assentava em exacções, rendas, doações e esquemas cortesãos (as cortes eram soluções perfeitas para distribuir de tudo por aqueles que pouca ou nenhuma terra possuíam, dos excedentes alimentares às prendas trazidas de longe). A esfera das trocas mercantis ainda estava pejada de monopólios (como o da moagem da farinha, privilégio da casa de Bragança). A violência aberta, ou a simples ameaça de violência, eram, nesses tempos não tão recuados assim, mecanismos usados sem pudor para distribuir o produto social e orientar o excedente. O progressivo alargamento das trocas monetárias, e da própria massa monetária (acompanhando o processo de afirmação dos Estados nacionais na Europa), veio, de algum modo, substituir essa violência subjacente à ingrata missão de sobreviver por uma nova forma de privação, mais subtil, mas não menos incómoda, que resulta das restrições de natureza monetária. Mas isso só aconteceu entre nós vários séculos mais tarde.

Concluindo. A crise de 1383/1385 pôs frente a frente nobres, uns e outros capazes de mobilizar apoios entre o povo. A avaliar pelas crónicas, os “desprotegidos da nobreza” levaram a melhor, também neste capítulo. Esse facto, porém, não torna uma luta feroz entre gente da nobreza numa revolta popular. E o povo, abandonado a ele próprio, não passava de uma turba sem grande capacidade militar. Não é Nuno Álvares Pereira o paradigma dos “desprotegidos da nobreza”? Tal como são, quase todos os que o rodeavam?

A crise que pôs termo à dinastia de Aviz tem características completamente diferentes. Desde logo, porque a expansão portuguesa tinha esvaziado o crescimento demográfico, em particular entre a população nobre. As lutas intestinas no seio da nobreza não pararam (e talvez se tenham exacerbado até), mas foram deslocadas para novos espaços e ficaram muito dispersas – passaram a ser questões longínquas de índole local, mesmo quando exigiam a intervenção régia. Novas oportunidades de riqueza, poder e linhagem surgiam lá longe, onde o poder real mal chegava e quase não se fazia sentir. As necessidades de um império permanentemente em expansão e permanentemente ameaçado facilitavam a concessão de mercês régias. Não mais deambulavam pelo território do reino, como tinha acontecido três séculos atrás, grupos cada vez maiores de nobres insatisfeitos e sem futuro. A gesta marítima portuguesa e a defesa das praças-fortes maghrebinas iam diluindo, lenta mas inexoravelmente, os “desprotegidos da nobreza”. Alcácer Quibir reduziu-os a nada.
Foram eles, os “desprotegidos da nobreza”, que faltaram para dar ao Prior do Crato o apoio militar que o povo, sozinho, nunca lhe poderia dar. Era ainda cedo para se falar em sentimento nacional; as questões dinásticas pouco ou nada diziam ao povo, sobretudo ao das urbes; e não havia ainda arte militar que dispensasse a presença de nobres na condução da guerra.

Será possível extrair da História lições que nos sirvam na crise nacional que vivemos, onde todos buscam o homem providencial?

A. Palhinha Machado
Setembro de 2005

Publicado no "Lusofonia-Goa" de Outubro de 2005, Panjim, Goa

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