Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

Divagando pela utopia – 11ª parte

Resumo da 10ª parte: Há países formalmente integrados no ainda (erradamente) chamado terceiro mundo que já pensam por si próprios e concorrem com quem estava habituado a pôr e dispor a seu jeito; antes que surta efeitos o princípio dos vasos laborais comunicantes entre a China e a Europa, vai morrer uma geração desempregada de europeus; o Acordo Multifibras (e outros equivalentes) pode ter que vir a ser ressuscitado; a Europa não tem uma política externa consistente; o perdão da dívida do terceiro mundo não faz sentido apesar da sua acumulação ser dramática; as doações de capital ajudam mas não resolvem os problemas do desenvolvimento.

 

Plausível - Ora cá estamos de volta e vejo que traz uma revista debaixo do braço.

Utópico –- Há coisas engraçadas. Estivemos antes do intervalo a falar sobre a acumulação da dívida dos países do terceiro mundo e eis que inesperadamente me passa pela mão esta velha revista, o “Courrier International” de Setembro de 2000 (1), com um artigo de James Galbraith precisamente sobre esse tipo de questões.

Plausível –- E como se chama o artigo?

Utópico – Em português será qualquer coisa do género de “Não abandonemos a reforma do FMI nas mãos dos liberais”.

Plausível –- E que diz ele assim de tão especial?

Utópico –- Diz que a reforma do FMI não deve passar pela sua dissolução mas, pelo contrário, deve reforçar os poderes que lhe estão actualmente conferidos.

Plausível –- E em que se fundamenta ele?

Utópico –- Fundamenta-se naquilo que ele considera um perigo e que consiste na hipótese de o mercado internacional de capitais ficar exclusivamente nas mãos da banca privada.

Plausível –- Mas porque é que ele considera isso um perigo?

Utópico –- Porque não reconhece ao monetarismo puro e duro a capacidade suficiente para a resolução dos problemas que se colocam ao financiamento das economias do terceiro mundo.

Plausível –- Como assim?

Utópico –- Porque as taxas de crescimento das exportações desses países têm que ser superiores às dos respectivos serviços de dívida; caso contrário, não acumulam o suficiente para poderem corresponder às obrigações contratadas. Ora, não se pode pedir à banca privada que adopte posições do estilo de Santa Casa de Misericórdia praticando taxas de juro inferiores às que os mercados sugerem. Ele acha que só o FMI pode resolver os verdadeiros problemas desses países e que o mal de todos eles começou quando Nixon e Gerald Ford permitiram que a banca privada entrasse na “reciclagem dos petrodolares”.

Plausível –- Temo não estar a perceber.

Utópico –- Os falhanços dos mercados internacionais de capitais totalmente livres no período entre as duas guerras conduziram à constituição em 1944 das chamadas instituições de Bretton Woods – o Banco Mundial e o FMI. O primeiro objectivo era o de financiar a reconstrução da Europa e, depois, o de criar as condições necessárias à estabilidade das taxas de câmbio no âmbito do que os países poderiam alcançar o pleno emprego sem enfrentarem dificuldades nas respectivas balanças de pagamentos. De 1945 a 1970, o sistema funcionou relativamente bem: tanto a Europa como os EUA estiveram em quase pleno emprego, com taxas de câmbio estáveis e com acesso ilimitado ao mercado de capitais. Os grandes países em desenvolvimento apoiaram-se em dinâmicos mercados de exportação de produtos primários para desenvolverem as suas próprias indústrias, ao abrigo de barreiras proteccionistas. Enquanto a Europa e os EUA puxavam pela procura mundial, os países pobres cresciam a ritmos duas vezes mais elevados que os do primeiro mundo. Mas no princípio dos anos 70, o sistema claudicou e James Galbraith acha que isso sucedeu porque se cedeu ao desejo dos banqueiros americanos (e europeus) retomarem o papel que tinham tido entre guerras. E quando o choque petrolífero chegou em 1973-74, os Presidentes americanos fizeram-lhes a vontade que ali em cima referi e acabaram com a era da estabilidade cambial. Países como o Brasil, México, Argentina, Rússia e Indonésia recorreram maciçamente a financiamentos privados e quando em 1981, a Reserva Federal americana duplicou as taxas de juro, o caos instalou-se nesses países.

Plausível -– Mas porque é que recorreram a esses financiamentos?

Utópico -– Pelas razões contrárias às da Índia, China e Taiwan que se mantiveram afastados desses mercados.

Plausível –- Por motivos ideológicos?

Utópico –- Não creio que houvesse qualquer sintonia ideológica entre a China e Taiwan. Independentemente das razões de cada um, Galbraith limita-se a concluir que os países que recorreram aos mercados internacionais de capitais entraram em sérias dificuldades. Trata-se da mera constatação de um facto.

Plausível –- E depois?

Utópico –- Depois do caos instalado, lá teve o FMI que voltar à baila mas agora só disponibilizando meios de pagamento a quem seguisse políticas que ele próprio considerasse correctas. Nós próprios, cá em Portugal, com os desequilíbrios revolucionários, também o tivemos por duas vezes: da primeira, em 1978 foi o CDS para o Governo como avalista de políticas sensatas; da segunda, foi o Dr. Ernâni Lopes, em meados de 1983, que teve que assumir a liderança da governação efectiva se bem que oficialmente apenas desempenhasse o cargo de Ministro das Finanças. De acordo com o modelo que passou a ser seguido pelo FMI, os países têm que se comprometer com Planos de Reajustamento Estrutural devidamente negociados se quiserem obter financiamentos directos em condições que a banca privada não pode acompanhar, nomeadamente juros e prazos.

Plausível –- Desculpe uma breve interrupção mas satisfaça-me a curiosidade: que relação há entre James e John Keneth Galbraith? Utópico -– James é filho de John.

Plausível –- E têm alguma relação intelectual?

Utópico – -Acho que essa apreciação pode ficar para depois.

Plausível –- Muito bem. Obrigado pelo esclarecimento e continuemos. Estávamos na reentrada em cena do FMI que, pelos vistos, faz concorrência directa aos banqueiros privados que, por isso mesmo, lhe querem acabar com a saúde.

Utópico –- Não. As críticas são mais finas do que isso. Os financiamentos directos que o FMI actualmente faz não são suficientes para garantirem o desenvolvimento. Eles são apenas o aval às políticas acordadas e limitam-se a ser como que um analgésico para as dores de cabeça dos banqueiros maiores credores. Servem também para evitar os estigmas duma falência ou para evitarem a necessidade de o país em apreço ter que enveredar por uma política de controlo dos movimentos externos de capitais. Estes Planos de Reajustamento Estrutural não pretendem sequer constituir uma fórmula de compensação dos golpes sofridos pelas instituições financeiras do país pobre; acabam por ser uma assumpção de responsabilidades pelo próprio FMI em relação a medidas que teriam sempre que ser tomadas depois de se ter optado pela fatalidade de tentar assegurar o desenvolvimento sob as condições comerciais que os banqueiros privados conseguem, podem ou querem facultar.

Plausível –- Então o FMI é apenas uma Aspirina?

Utópico –- Tem um efeito analgésico suportado por uma acção terapêutica. Os Planos de Reajustamento Estrutural não são inócuos. São mesmo muito discutidos e até há quem diga que o FMI erra ao preconizar políticas padrão para casos substancialmente diferentes.

Plausível –- E não é assim?

Utópico –- Quem quer acabar com o FMI não hesita em fazer grande alarde sobre os erros que o Fundo cometa mas cala as decisões acertadas que ele tome. Eu diria que nem o FMI acerta sempre nem os seus críticos são desinteressados.

Plausível –- Então, no que ficamos?

Utópico –- Há quem diga que as taxas de câmbio flutuantes são o mecanismo mais apropriado para o controlo do défice comercial. James Galbraith chama-lhes os economistas conservadores.

Plausível -– Volto a perguntar: e não é assim?

Utópico – Bem, efectivamente há quem ache que esse mecanismo não é eficaz. Ele, por exemplo.

Plausível –- E ele diz isso porque . . .

Utópico -– . . . porque entende que as flutuações das taxas de câmbio – sobretudo quando se trata de desvalorizações – não provocam “ipso factu” uma melhoria da competitividade das exportações nem asseguram o pleno emprego. Pelo contrário, as desvalorizações provocam um encarecimento das importações o que leva as empresas dos países em desenvolvimento a reduzirem a compra de bens de equipamento resultando com essa redução do investimento uma quebra global da competitividade.

Plausível –- E acha que ele tem razão?

Utópico –- Eu também acho que as desvalorizações discretas têm um efeito negativo pois apenas dificultam a importação de um determinado tipo de bens, eventualmente daqueles a que a política não se dirigia. Os produtos de luxo já eram caros antes da desvalorização exactamente pelo facto de serem supérfluos, de luxo, sendo que quem os compra se deve estar mais ou menos nas tintas para os preços e continua a importá-los na mesma. As matérias prima passam a custar mais e induzem um efeito habitualmente significativo no crescimento dos preços dos produtos com elas fabricados. Se o país é energeticamente dependente, então o efeito de elevação geral dos preços é muito significativo. Os bens de consumo importados sofrem também um encarecimento e se se tratar de alimentos, então o efeito no rendimento das famílias é perfeitamente nefasto. Ora, se o aumento generalizado dos preços de custo provoca naturalmente um aumento generalizado nos preços de venda, então onde é que vai parar a competitividade económica? Plausível –- Ao cesto do lixo?

Utópico –- Sim, admito que assim seja. Já com as desvalorizações deslizantes os efeitos podem ser muito menos negativos porque a economia vai-se adaptando a pouco e pouco e não há solavancos. Nós passámos por essa experiência e foi assim que recuperámos um pouco dos desequilíbrios revolucionários de 1974-75.

Plausível –- Mas a desvalorização deslizante tem que ter um fim. Não se pode desvalorizar “per saecula saeculorum”.

Utópico –- Claro. A solução da serpente que funcionou na Europa antes da moeda única deu uma estabilidade perene às moedas e, em simultâneo, permitiu ir gerindo a política cambial de cada país de um modo aceitável.

Plausível – Portanto, voltando ao início: acha que o FMI deve ser extinto?

Utópico –- Não, eu também acho que o FMI deve ser mantido e até reforçado. O que eu também acho é que não é de excluir a proposta japonesa de há anos de se constituírem fundos regionais de estabilização cambial que funcionariam como antecâmara regional ao próprio FMI a quem ficaria destinada uma função de última instância.

Plausível –- Um Fundo Asiático?

Utópico -– Sim, essa era a proposta japonesa que integraria os 12 países da ASEAN mais a China.

Plausível –- E acha que a China alinharia num sistema desses?

Utópico –- Se a China continuar a decretar o valor do Yuan à maneira do Doutor Salazar com o Escudo, tanto lhe faz como fez pertencer ou não a esse organismo. Não será por participar no Fundo Monetário Asiático que a China passará a aceitar outro câmbio para o Yuan que não o decretado pelo Comité Central do Partido Comunista Chinês. Corre é o risco de não ser aceite como membro de pleno direito no FMA e passar a ser excluída de muitas decisões importantes para a Ásia e para o mundo todo. Voltaria à situação anterior de pária do planeta. Haveria inclusive que lhe rever o estatuto de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e inerente direito de veto.

Plausível -– Bem, a conversa está interessante mas vamos ter que interromper. Podemos continuar depois do intervalo?

Utópico -– Sim, podemos. Até logo.

 

Lisboa, Maio de 2005

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

(1) - Mais precisamente, trata-se da edição nº 517 correspondente à semana de 28 de Setembro a 4 de Outubro e o artigo em apreço está publicado a págs. 59 e seg.

Crónica de Lisboa - 7

O MAIOR PROGENITOR DO PAÍS . . .

. . . foi um Padre de Trancoso que teve 299 filhos concebidos em 53 mulheres, sendo 214 do sexo feminino e 85 do masculino.

A façanha consta de sentença proferida em 1487 e que se encontra devidamente guardada na Torre do Tombo, em Lisboa.

O réu, Padre Francisco Costa, foi condenado a arrastamento pelas ruas de Trancoso amarrado aos rabos de cavalos desarvorados e o seu corpo deveria de seguida ser esquartejado sendo a cabeça e as mãos enterradas em Comarcas diferentes.

Mas a sentença teria que ser homologada pelo Rei e o monarca de então, D. João II, não concordou com o castigo. Foi mesmo ao ponto de indultar o condenado e de o mandar para casa pois considerou que assim contribuíra muito positivamente tão fogoso sacerdote para o combate ao despovoamento que já então grassava naquela região.

Compreende-se deste modo a enorme profusão de pessoas com o apelido Costa naquela zona, facto que continua a ser motivo de brincadeira pois não falta quem pergunte a cada um se não é descendente do Padre Francisco.

Eis um modo peculiar de se construir uma nação e de melhor se compreender o cognome do rei, o Príncipe Perfeito.

Lisboa, Maio de 2005,


Henrique Salles da Fonseca

AVISO sobre um AVISO


O blog “A bem da Nação” pretende ser um local de debate de ideias, nomeadamente na área da Economia mas sem que esta matéria disponha de monopólio.

Por minha vontade – legitimada pela qualidade que possuo de proprietário do blog – apenas dou cabimento a textos que se enquadrem nos bons usos e costumes e que como tal sejam reconhecidos pelo senso comum em que nos enquadramos. Ficam, assim, “ab initio” excluídos textos que incluam palavreado heterodoxo em relação à moral corrente.

No blog “A bem da Nação” a autocracia é meu direito inalienável e por isso tenho decidido que nele só dou acesso a democratas. Ficam deste modo excluídos todos os textos em que eu identifique origem nas doutrinas totalitárias, quer de direita quer de esquerda, quer populistas quer elitistas. Não dou cabimento a quem advogue o sistema de castas nem pactuo com a luta de classes.

Considero que a apresentação de novas ideias é o motor do desenvolvimento que eu próprio desejo para Portugal mas isso não significa que todos tenhamos que estar de acordo com todas elas. Mais: pode-se dar mesmo o caso de começarmos por rejeitar uma ideia e passado algum tempo de reflexão a adoptarmos. Quantas e quantas vezes isso me tem sucedido.

Dentro deste estatuto editorial, só é publicado o que passar ao meu crivo.

Mas a Economia tem uma fortíssima ligação à Política e, portanto, é natural que surjam textos de inspiração partidária. Para que não restem dúvidas quanto aos meus critérios objectivos (não vá algum texto meu ter passado despercebido a algum Leitor) e tomando em conta a actual representação parlamentar, só aceito contributos do CDS, do PPD/PSD e do PS, forças políticas a quem reconheço democraticidade. E só a elas reconheço essa característica doutrinária essencial.

Nestas circunstâncias, tenho o maior gosto em corresponder ao pedido que me foi gentilmente formulado pelo Professor António Brotas publicando o AVISO que consta da peça seguinte.

Henrique Salles da Fonseca

AVISO

PS-Veteranos (Nucleo 1)

PS-Veteranos é uma estrutura informal recentemente criada no interior do PS, formada por núcleos totalmente autonomos de militantes do PS com mais de 65 anos e largos anos de participação na vida interna do partido, que entendem ser esta uma maneira de continuarem uma actuação já antiga e, em linhas gerais, concordam com as ideias e propósitos indicados nestas linhas. Os núcleos, que se podem formar expontaneamente, deverão ter um mínimo de 3 militantes e deverão procurar relacionar-se e coordenar a sua acção, mas poderão emitir comunicados e actuar como entenderem em conformidade com as suas regras próprias. Considerar-se-á que um núcleo existe desde que dê conhecimento da sua existência aos outros. O primeiro nucleo surgiu em 7 de Maio de 2005 .

PS-Veteranos procurará: estar presente em reuniões/comemorações do PS; divulgar ideias, críticas e opiniões (dentro e fora do PS); participar em debates; estimular as participações individuais em grupos de trabalho e centros de estudo; participar efectivamente em acções do PS, nomeadamente, em eleições, com a condição dos seus contributos serem efectivamente ouvidos e tidos em conta.

Dum modo geral, lembrando coisas do passado e fazendo propostas imaginativas para o futuro, procurará contribuir para que não sejam ignorados temas que interessam à sociedade portuguesa. Procurará, assim, conservar a memória e contribuir para o enriquecimento da nossa vida política.

1º Comunicado do Núcleo 1.

O Núcleo 1 de PS-Veteranos aproveita o jantar promovido, em 12 de Maio. pelas Secções de S.João/Beato/Alto de Pina, Almirante Reis e Penha de França para noticiar a sua existência e divulgar este primeiro comunicado.

Em primeiro lugar, queremos saudar os militantes presentes, em particular os que irão representar o PS nas próximas eleições autárquicas com especial destaque para o Manuel Maria Carrilho, candidato já escolhido à Presidência da Câmara de Lisboa. A todos queremos pedir a atenção para as questões e sugestões que se seguem:

1- A breve prazo, em matéria de infraestruturas pesadas de transporte, serão tomadas decisões importantíssimas para o futuro de Lisboa e da sua Área Metropolitana, nomeadamente, sobre a travessia ferroviária do Tejo pelos comboios TGV e a localização da sua estação terminal. Estas decisões influenciarão toda a estrutura urbanística de Lisboa e dos seus arredores. Apelamos aos candidatos a autarcas de Lisboa e dos Concelhos interessados para acompanharem muito de perto este problema que, abordado numa óptica puramente ferroviária e económica, pode não ser resolvido do melhor modo para os habitantes da região. Pensamos que compete aos autarcas analisar e ponderar com muito cuidado (e atempadamente para poderem exprimir a sua opinião) as consequências para a cidade das diferentes soluções, algumas já apresentadas sem, aparentemente, terem despertado grande atenção de parte dos autarcas . Esperamos que estes assuntos sejam amplamente discutidos na próxima campanha eleitoral .

2- Terão também uma grande influência sobre o custo e a qualidade de vida em Lisboa as futuras extensões da rede do metro. Quanto a este assunto, é verdadeiramente impressionante ver como não são analisadas nem discutidas, nem nos jornais, nem nos orgãos da autarquia, projectos com flagrantes defeitos, que parecem traçados em cima do joelho, nem quando são perfeitamente irrealistas e deliriantes como é o caso da "linha das colinas", apresentada há alguns meses num encontro promovido pela Câmara, e que ninguém ainda comentou. Nesta matéria, Lisboa parece uma cidade de zumbis desinteressados do seu destino. ( A imagem vem-nos de um texto do nosso saudoso camarada Raul Rêgo. Também, só numa cidade de zumbis se pode justificar o alertar no metro, diariamente com altifalantes, os utentes para o facto de não estar em funcionamento, há meses, a ligação da estação do Rossio à linha de Sintra). Esperemos que as próximas eleições contribuam para por fim a estas situações.

3-Vai ser vendido o quartel de Campo de Ourique. Parece, de toda a evidência, que antes de ser vendido um espaço público como este, deve ser feito e aprovado pela Câmara um plano de urbanização que tenha em conta os interesses do bairro. Pensamos que no espaço deste quartel (antigo quartel de Infantaria 16) deve ser feito um memorial que recorde que dele saiu, na madrugada de 4 de Outubro de 1910, a revolução da República.

Pensamos que a Secção do PS de Campo de Ourique já se interessou por este assunto. Esperamos que os candidatos à Câmara e à Assembleia Municipal se empenhem também nele.

4- Com poucas despesas podem ser feitas coisas originais numa cidade. Vemos, frequentemente, turistas à saida das bocas de metro, com um mapa na mão, a saberem o sítio onde estão, mas desorientados e sem saber para que lado ir, por não saberem de que lado é o Norte. Sugerimos que a futura Câmara , que esperamos seja do PS, mande desenhar nos passeios, à saida das bocas do metro, rosas dos ventos, ou setas mais ou menos artísticas, a indicar de que lado é o Norte. Estamos certos que os turistas agradecerão e levarão uma boa impressão da nossa cidade.

CONTACTOS: Viriato Wolfango de Macedo e António Brotas. (12 de Maio de 2005).

ESCOLA E FAMÍLIA - 3

Eduardo Alfredo Cardoso de Miranda, Prof. Universitário
Comunicação apresentada em 28 de Novembro de 2003 na “Associação Sindical dos Professores Pró-Ordem”, Rua Prof. Vieira de Almeida, 5, 2C – 1600-664 LISBOA.

(continuação)

5 - TEORIAS DA ESCOLARIZAÇÃO

Há várias teorias sobre a educação moderna, sobretudo, partindo das desigualdades sociais. Sobre estas, alguns autores consideram que a grande causa subjacente ao insucesso escolar se posiciona nas diferenças de capacidade linguística onde a comunicação entre os agentes se encontra recheada de ruídos bloqueadores de entendimento: “... o discurso contribui para a sedimentação do preconceito linguístico e também para a exclusão das minorias e criação de estereótipos que dividem a população escolar entre aqueles que conseguirão alcançar o sucesso e aqueles que não ...” (7)
Assim, a composição discursiva das crianças da classe trabalhadora se cingem a um
[Error: Irreparable invalid markup ('<código>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Eduardo Alfredo Cardoso de Miranda, Prof. Universitário
Comunicação apresentada em 28 de Novembro de 2003 na “Associação Sindical dos Professores Pró-Ordem”, Rua Prof. Vieira de Almeida, 5, 2C – 1600-664 LISBOA.

(continuação)

5 - TEORIAS DA ESCOLARIZAÇÃO

Há várias teorias sobre a educação moderna, sobretudo, partindo das desigualdades sociais. Sobre estas, alguns autores consideram que a grande causa subjacente ao insucesso escolar se posiciona nas diferenças de capacidade linguística onde a comunicação entre os agentes se encontra recheada de ruídos bloqueadores de entendimento: “... o discurso contribui para a sedimentação do preconceito linguístico e também para a exclusão das minorias e criação de estereótipos que dividem a população escolar entre aqueles que conseguirão alcançar o sucesso e aqueles que não ...” (7)
Assim, a composição discursiva das crianças da classe trabalhadora se cingem a um <código linguístico restrito>, uma forma de discurso que contém pressuposições que o seu autor/emissor espera que o outro entenda. Esta forma de discurso é inerente à sua origem cultural, de uma classe social baixa. Afirma-se que este tipo de linguagem na base do código restrito é mais visível nas experiências práticas e não susceptível para as ideias mais elaboradas. Desta forma, no diálogo caseiro as respostas também são limitadas, estreitando a curiosidade necessária naquela fase da vida. Pressupõe, por isso, que se fica a dever a uma questão de ginástica mental e não de inteligência. Neste sentido, pode concluir-se que os jovens com discursos mais elaborados, tendencialmente, mostram maior propensão para entenderem os códigos e os assuntos empregues na educação formal. E é por este motivo reprodutor das desigualdades que Samuel Bowles e Herbert Gintis adiantam que a escola não tem tido a capacidade de alterar, por via da sua prática, as desigualdades existentes na sociedade. Também Ivan llich, conhecido pela sua postura crítica sobre os moldes deste desenvolvimento económico que imprime um cunho particular à sociedade capitalista, nos adianta que a escola tende a inculcar um consumo passivo, isto é, uma absorção e aceitação acrítica desta ordem social.

Bourdieu e Passeron, autores de muitas obras sobre esta temática preconizam que a forma como as escolas e outras instituições funcionam mais não fazem que perpetuar as desigualdades económicas e sociais ao longo das várias gerações. O que equivale dizer que quase não há sequer mobilidade inter-geracional. Nesta perspectiva, a escola exerce uma clivagem (motivadora/não motivadora) no sentido de facilitar as oportunidades a uns e não a outros. Em função de um estudo de Paul Willis, realizado em 1977 em Birgmingham, o autor concluiu que “os miúdos das classes trabalhadoras obtêm empregos de classe trabalhadora” e que os mesmos, através das suas trajectórias escolares, eram convencidos que não dispunham de capacidade suficiente para terem sucesso, isto é, “não são suficientemente espertos”. Uma vez aceite esta inferioridade estão limitados e levados a ocuparem lugares subalternos.


6- OS LIMITES DA INTEGRAÇÃO


Esta enorme máquina em que se transformou a sociedade actual, onde a ciência e a técnica se associaram não produz apenas conhecimento, também ignorância e cegueira. A par da grande divisão do trabalho, trouxeram sem limites os inconvenientes da sobre-especialização, reflectindo-se no ensino, mercê da compartimentação e fraccionamento dos saberes. Para a maioria da população, sobretudo das camadas mais desprotegidas, este saber tornou-se esotérico, isto é, pouco acessível e pouco perceptível. As ideias provenientes do político procuram fazer-nos crer que a escola está acessível a todos e que os que ficam pelo caminho não têm aptidão. Por outro lado, citando Morin “hoje, pede-se a cada um que acredite que a sua ignorância é boa, necessária, e são-lhe fornecidos quando muito alguns programas de televisão onde os especialistas eminentes lhes ministram certo número de lições recreativas. O desapossamento do saber, muito mal compensado pela vulgarização mediática, coloca o problema histórico chave da democracia cognitiva.” (8). Esta situação esconde ou torna pouco perceptível que a “... dificuldade chave que é revelada pelo insucesso de todas as sucessivas reformas do ensino não pode ser reformar a instituição sem ter previamente reformado os espíritos, mas não se pode, reformar os espíritos se não se tiver previamente reformado as instituições.” (Morin, p. 202)

Neste sentido a possibilidade da não integração social por via da escola pode ser encarado como um desvio social. Seja o desvio em que matéria for, é um fracasso da sociedade global. Neste aspecto, deve-se à própria sociedade a falta de capacidade integradora. (cito) “... o papel da escola é o de ensinar a língua padrão, sendo que não ensiná-la sob a alegação de ser uma violência impor valores a um grupo ou de que imaginar que cada falante só aprende a falar um dialecto, é um equívoco relacionado a valores sociais dominantes ou a estratégias escolares discutíveis.” (9)

Para terminar direi que: qualquer facto social deve ser analisado numa óptica pluridisciplinar, porque cada uma das ciências mercê do seu objecto de estudo contribuirá para transformar o fenómeno social em fenómeno social total.


FIM



(7) - GOMES, Alberto Albuquerque, (org. Denize E. G. Silva e Josênia A. Vieira) - Análise do discurso percursos teóricos e metodológicos, Brasília: Editora Plano, 2002, p. 245.

(8) - MORIN, Edgar - Os problemas do fim do século, p. 200.

(9) - GOMES, Alberto Albuquerque, (org. Denize E. G. Silva e Josênia A. Vieira) – Análise do discurso percursos teóricos e metodológicos, Brasília, Editora Plano, 2002, p. 251-252.

ESCOLA E FAMÍLIA - 2

Eduardo Alfredo Cardoso de Miranda, Prof. Universitário
Comunicação apresentada em 28 de Novembro de 2003 na “Associação Sindical dos Professores Pró-Ordem”, Rua Prof. Vieira de Almeida, 5, 2C – 1600-664 LISBOA.

(continuação)


2- A SOCIALIZAÇÃO (3) PRIMÁRIA

É aquela que o indivíduo experimenta desde a nascença e em virtude da qual se torna membro da sociedade e em particular do seu grupo. Tem para o indivíduo uma importância básica, ela estrutura toda a sua grelha de análise e esta acumulação de informação particular, face ao posicionamento familiar na estratificação social, não determinará mas influenciará toda a descodificação da realidade social.

Pensamos ser pacífico admitir que a escola não se posiciona socialmente ao nível da camada social mais baixa, mas sim a um nível superior, neste sentido aqueles que se encontram abaixo dela terão mais dificuldades do que aqueles que se encontram a um nível superior. É fácil, nesta perspectiva, perceber que o jovem na posse de capitais baixos sofra as suas consequências no que respeita ao sucesso escolar. Por exemplo, em relação aos códigos linguísticos, aos assuntos tratados em casa facilitadores do desenvolvimento mental, se possuem computador ou não, se têm ligação à INTERNET ou não, onde passam as férias, se foram despertados para os hábitos de leitura, etc. etc. Toda esta trajectória de vida terá o seu peso.

3- A SOCIALIZAÇÃO SECUNDÁRIA

É o processo subsequente à socialização primária. Esta etapa da socialização pretende ser abrangente, isto é, proporcionar ao jovem, por via de uma interacção diversificada, aperceber-se da diversidade de representações sociais salientes nos actores representativos dos vários grupos estratificados (4). Permitir-lhe-á um conhecimento multi-sub-cultural. Como já se referiu, todas as sociedades hoje em dia e cada vez mais, manifestam uma crescente divisão social do trabalho (5), que toma corpo pela legitimação escolar. É por esta via que se almeja a posição social e respectivas recompensas: económicas, de prestígio e de poder. É esta a base que nos possibilita a mobilidade social ascendente.

A socialização secundária implica, por isso, duas educações: uma informal no sentido em que permite o contacto com outras formas particulares de pensar, sentir e agir que cada um arrasta para o espaço escola; e de uma formal que tem que ver com os conteúdos programáticos. Atendendo a esta diversificada amostra representativa dos vários grupos sociais, o resultado escolar é diferenciado com prejuízo para aqueles da estrutura social mais baixa. Por isso se diz que a escola reproduz as desigualdades sociais: “A escola não passa de um instrumento utilizado pelos estratos dominantes para garantir a reprodução da estratificação social.” (6) A escola funciona como um mecanismo de decantação, isto é, como um mecanismo de selecção, interiorizando naqueles jovens a convicção de que o seu insucesso se fica a dever à sua falta de capacidade natural. Mas esta dificuldade, segundo alguns especialistas sobre esta matéria, também se fica a dever à postura do agente educador.

Mas claro que esta discussão abrange todos os sectores da sociedade responsáveis pela educação: “O relativo insucesso das políticas educativas de igualização das oportunidades de sucesso escolar derivam do facto de os alunos de estratos sociais mais elevados, devido a uma educação familiar mais consonante com os valores e estilos de aprendizagem escolar, aproveitarem melhor as oportunidades de êxito do que as políticas de sucesso de aplicação generalizada oferecem e, assim, se manterem ou aumentarem as desigualdades. Logo, a chave da questão está na diferenciada educação familiar informal que os alunos levam para a escola.”


4- ALGUMAS PERSPECTIVAS DA SOCIOLOGIA EM RELAÇÃO À ESCOLA

Um dos precursores da sociologia, Durkheim (meados do séc. XIX e princípio do séc. XX), definiu educação como sendo “a acção exercida pelas gerações adultas sobre as que ainda se não encontram amadurecidas para a vida social. Ela tem por objectivo suscitar e desenvolver na criança um certo número de condições físicas, intelectuais e morais que dela reclamam, seja a sociedade política, no seu conjunto, seja o meio específico a que ela se destina particularmente.” No fundo, é dotar os mais jovens de aptidões ajustadas aos imperativos da sua sociedade. E estes imperativos vão-se alterando com o andar dos tempos e considerando o tipo de sociedade a que nos referimos.

No nosso tipo de sociedade, a educação tem por atributo homogeneizar e diferenciar os seus membros. Por homogeneizar, deve ser entendida a capacidade de reforço e de entendimento que imprime, levando os indivíduos a prosseguirem um rumo no tempo, sem grandes perturbações. Por diferenciação, deve ser entendida a capacidade de desigualdade que distribui os seus membros por posições sociais diferenciadas, é “um processo de construção social. (...) A escola de hoje não é igual à escola de ontem e não terá necessariamente de ser igual à escola de amanhã. A mudança operada e a que certamente se irá dar é essencialmente o resultado de um longo e conflituoso processo de elaboração e reelaboração, em que as diversas forças sociais participam ou competem, conferindo a cada momento uma nova face à educação. (...) está dependente do contexto político, económico e cultural de cada sociedade.” (Eurico Lemos Pires e outros; p. 15). Isto significa que a sociedade, em cada momento, tem uma grande capacidade para se reequilibrar. E embora os conflitos possam denotar um estado de patologia social, eles mais não são do que alavancas mobilizadoras para se vencerem inércias sobretudo, nas nossas sociedades, marcadas por uma forte e crescente concorrência generalizada.

(continua)

(3) - PIRES, Eurico Lemos; FERNANDES, A. Sousa; FORMOSINHO, João - A Construção Social da Educação Escolar, Lisboa, Edições ASA, 1998, p. 239. “Consiste nos processos sociais através dos quais um indivíduo se torna membro de grupos sociais, apreendendo a cultura desses grupos e adoptando um comportamento social aprovado por eles.”

(4) - PIRES, Eurico Lemos; FERNANDES, A. Sousa; FORMOSINHO, João; A Construção Social da Educação Escolar, Lisboa, Edições ASA, 1998, p. 235. “... desigualdades existentes entre os membros de uma sociedade – em termos de poder, prestígio ou riqueza – poderemos ver aí uns certos padrões regulares. Estes são geralmente designados por estratos. (...) Nas sociedades modernas os estratos apresentam-se em termos de classes ou sistemas de status e classes.”

(5) - GIDDENS, Anthony, Sociologia, Lisboa, Fundação Caloustre Gulbenkian, 1997, p.878. “Divisão de um sistema produtivo em tarefas ou ocupações laborais específicas, criando interdependência económica. Todas as sociedades têm formas, elaboradas ou rudimentares, de divisão de trabalho, nomeadamente entre as tarefas distribuídas pelos homens e as cumpridas pelas mulheres. Com o desenvolvimento da industrialização, contudo, a divisão do trabalho tornou-se mais complexa do que em qualquer outro sistema anterior.”

(6) - PIRES, Eurico Lemos e outros, A Educação Social da Educação Escolar, p. 190.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D