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A bem da Nação

BURRICADAS - 1

Chuva de molha-tolos ( I )

v      E, de surpresa, estalou a crise nos mercados financeiros (fala-se ainda de uma crise passageira).

v      Um momento, Leitor: Surpresa? Crise? Aguaceiro breve em dia de Verão? Será assim? Pelo que se lê, dir-se-ia que é. E, no entanto...

v      Tudo parece ter origem no mercado imobiliário norte-americano. Afinal, um episódio mais do “efeito valsa” entre taxas de juro nominais e preços de imóveis: aquelas a descer e estes a subir, num rodopio.

v      Surpresa é que não foi, certamente. Desde que assumiu o cargo de Chairman da Federal Reserve (EUA), vai para dois anos, B. Bernanke não pára de alertar tudo e todos para a bolha especulativa que se estaria a formar no mercado das operações hipotecárias - em especial, nos compartimentos “não residencial” (que ainda não deu um ar da sua graça) e “residencial/risco agravado” (eufemisticamente, subprime - o que é dizer, com risco acima da média do mercado).

v      Crise será – mas, porquê? E, antes disso, como?

v      O “como” percebe-se. As taxas de juro nominais praticadas, em cada instante, nas operações sobre activos financeiros denominados numa dada moeda, não são fruto do acaso: formam-se a partir das taxas directoras que quem exerce a autoridade sobre essa moeda vai fixando de tempos a tempos.

v      Quando as taxas directoras descem, sobem (uns mais, outros menos) os preços dos activos financeiros (aqui entendidos como direitos, firmes ou contingentes, de receber liquidez em datas futuras) denominados nessa moeda (a razão de ser desta relação de causa/efeito é, de há muito, bem compreendida). E, por ricochete (ou contágio), os activos financeiros denominados noutras moedas vêem os seus preços variar também. Foi o que aconteceu nos EUA, e na UE, a partir de Setembro de 2001 - por razões de todos conhecidas.

v      Acontece que os imóveis têm uma dupla natureza: são bens de uso – a sua posse satisfaz necessidades que compõem a esfera real da economia; e são activos financeiros que pertencem à esfera nominal da economia - a sua propriedade (um acervo de direitos que podem ser transaccionados livre e separadamente) é fonte de rendimento. E é justamente por serem activos financeiros que as bolhas especulativas do imobiliário ocorrem de tanto em tanto.

v      No caso, tudo terá começado na América, de maneira quase linear: (1) taxas nominais mais baixas implicavam, para os devedores, menor esforço financeiro – logo, mais rendimento disponível; (2) preços do imobiliário (e dos terrenos) em crescendo sugeriam mais valias futuras, ali, ao alcance da mão - e pela certa; (3) preços mais altos (de imóveis e terrenos urbanizáveis) aumentavam, pelo menos à primeira vista, a capacidade de endividamento de quem já fosse proprietário; (4) com taxas nominais a descer, era possível contrair novas dívidas, mantendo o esforço financeiro que vinha do passado - tanto mais que o desemprego não se fazia sentir por aí além. Enfim, o azul do céu num radioso dia de Verão.

v      Muitos dos que podiam endividar-se ainda um pouco mais, não hesitaram. E, até os que não podiam, não quiseram deixar passar a oportunidade. Os Bancos (e outras instituições financeiras), esses, é que não podiam, de maneira nenhuma, perdê-la: também para eles, com a descida das taxas de juro nominais, o que pingava das suas carteiras de activos puramente financeiros começava a não dar para, simultaneamente, pagar estruturas, regra geral, pesadas e oferecer aos accionistas um retorno decente. Se a procura de liquidez (e a correspondente oferta de dívida) por parte das “Famílias” pressionava e pressionava, só havia que satisfazê-la, para manter o barco equilibrado e melhor compor os resultados no final do ano.

v      A tentação, para os Bancos, era enorme: de todo o lado pulavam as oportunidades para concretizar operações (os empréstimos hipotecários residenciais) que a tradição via como aplicações das mais seguras e que a supervisão (à luz do Acordo de 1988) tratava com desmedido favor.

v      Era certo que os empréstimos hipotecários residenciais, sobretudo esses, tinham prazos que tornavam os Balanços dos Bancos demasiado rígidos e algo difíceis de financiar. Mas a titularização de créditos, os instrumentos de dispersão do risco (por exemplo: “derivados de crédito”) e as operações “sintéticas” - as “meninas bonitas” dos mercados financeiros, desde meados dos anos ‘90 – aí estavam para afastar o incómodo.

v      Para os Bancos, tudo parecia bater certo: (1) mais e mais empréstimos bancários, com as correlatas comissões; (2) empréstimos que eram seguidamente desmembrados e reagrupados por prazos e por limiares de risco, formando carteiras supostamente homogéneas; (3) carteiras que eram, por sua vez, colocadas no mercado, através de operações de titularização (verdadeiras ou “sintéticas”) que rendiam ainda maiores comissões; (4) operações que envolviam “derivados de crédito” para maior sossego de quem nelas investisse; (5) instrumentos complexos, talhados caso a caso, que nem sempre eram fáceis de descodificar, mas que lá iam gerando umas comissões mais.

v      De financiadores últimos, os Bancos transmutavam-se, assim, em prestadores de serviços e fornecedores (“originadores”, é o termo técnico) do mercado de capitais. Com duas apreciáveis vantagens para eles, Bancos: comprometiam capitais próprios em fracções menores e por prazos mais curtos; e não viam necessidade de empolar o seu próprio passivo para obterem proveitos.

v      Perfeito, dir-se-ia – e era essa, na verdade, a convicção geral: dos Bancos, já se viu porquê; de quem sonhara com casa própria, porque podia finalmente tê-la; dos que já tinham casa, porque conseguiam converter em liquidez a valorização potencial desse seu património, sem ter de alienar o que quer que fosse; dos investidores, porque as novas alternativas de investimento permitiam-lhes atenuar os efeitos da descida das taxas de juro nos seus rendimentos, com a sensação de estarem imunes ao risco.

v      Se assim era, o que terá corrido mal? Ou aquele não seria ainda o mundo perfeito em que tantos acreditavam estar a viver já? (cont.)

A. PALHINHA MACHADO

Setembro de 2007

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