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A bem da Nação

DISPARIDADES, SINGULARIDADADES ou CURIOSIDADES ?

"Mussulo" no mar - Francisco Gomes de Amorim

 

Dirá um brasileiro: «Esse país não tem jeito!» Qual país? O Brasil. Então porque não dizem «Este país não tem jeito?» A resposta é de uma simplicidade tocante: porque não!

Sem razão aparente, ou talvez por demasiado científica, o «este» quase desapareceu do português do Brasil, para dar lugar a «esse»! O «este» só é usado em casos de extrema raridade.

Agora que o livro "Um Abraço à Vela" foi para a editora, começou por passar pela revisão de duas especialistas, que devem ter feito talvez um milhar de propostas de correções ao texto inicial, para além daquelas gralhas evidentes ou erros de digitação.

Faltavam muitas vírgulas, muitas. Na reunião para discutir as prepostas correções, houve que fazer um pequeno preâmbulo para que as senhoras ficassem cientes de que não se tratava de rever um texto de Machado de Assis, o purista, o mais correto escritor de língua portuguesa do Brasil, nem de Guimarães Rosa com todos os seus regionalismos, e muito menos do senhor prémio Nobel que não usa vírgulas, nem pontos, nem nada desses (ou destes?) sinais de pontuação, provocando faltas de ar em quem se atreve a ler as suas premiadas obras.

Passou-se à revisão, e logo se deparou entre o autor e as simpáticas revisoras um pequeno problema: possivelmente por uma questão de economia, o brasileiro quase já não usa, também, o pronome pessoal. Por exemplo, os portugas dirão: «no cais estava o João, o Fagundes, o Afonso e a Tereza.» Enquanto por aqui «estaria João, Fagundes, Afonso e Tereza.»

E quando se tocou na famigerada crase, aí a «nossa briga» animou, no meio de animada e alegre - sempre - troca de opiniões, porque para crasear há que ter a preposição e o pronome, com o efeito, em Portugal, de abrir a vogal, que no Brasil está sempre aberta. Como os braços do Cristo do Corcovado, seja o «a» mudo ou não.

O livro, escrito num (em um!) linguajar mestiçado de português das várias margens do grande rio Atlântico, causava alguma dificuldade ao «purismo» da língua, acabando por concluir-se, com humildade, que não se tratava de uma obra de literatura, mas de um relato e impressões de viagem, necessitando para isso, o autor, de se expressar sem pretensões de ser proposto a imortal de qualquer academia!

Nem sempre a vitória foi do autor! Como no próprio título da obra: "Um Abraço à vela!" A que propósito é que este (esse?) «à» aqui é craseado? As revisoras propuseram uma comparação bem simples: «E se o abraço fosse num barco com motor? Seria um Abraço a motor ou ao motor?» Aí o autor capitulou! Não havia dúvidas. A crase no título está errada. Mas quem vai dizer, em português, com o «a» mudo, "Um Abraço a vela?" Ninguém. Não faria sentido.

À boa moda ditatorial houve que impor a opinião, mesmo que cientificamente errada, do autor:

Vai ter que levar a crase! Levou. E o livro, com crase e tudo, vai ficar muito bom.

São estas singularidades ou disparidades ou... que nos unem. São as curiosidades da língua. É a riqueza da Lusofonia. A falar é que a gente se entende.

 

Rio de Janeiro, 21 de Agosto de 2007

Francisco Gomes de Amorim

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