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A bem da Nação

MARROCOS

 
Agosto de 2007 cumpriu a regra e apresentou na região de Tavira alguns dias de mau tempo que nos impediram de ir à praia. Sabendo desse costume, já tínhamos decidido em Lisboa que desta vez havíamos de optar por um programa alternativo diferente do que é a habitual opção da maioria dos veraneantes no Sotavento algarvio, o das compras nas cidades mais próximas. Em Tavira, Ayamonte, Faro ou Huelva, esta alternativa tipicamente feminina, a das compras, pode ter a componente masculina de atestar o depósito do carro nas bombas da Galp em Espanha para se poupar bom dinheiro na componente fiscal do preço da gasolina. Ficamos de consciência tranquila por mantermos a opção por um produto português e poupamos a bolsa. Assim se junta o útil ao agradável. É claro que a poupança se esvai logo de seguida numa almoçarada de «revueltos», tapas, «calamares», «atum al horno», «braço de cordero» e outras iguarias andaluzas. Fica a sensação de vingança contra a voraz hidra fiscal portuguesa e ninguém se lembra de ler o cartão de agradecimentos do relativamente módico Fisco espanhol.
 
Portanto, desta vez não “educámos” o Fisco português e rumámos para o interior do Concelho de Tavira, região serrana praticamente desconhecida dos veraneantes. Abandonado o Algarve do slogan que diz que “il y a mer et mer, aller et Voltaire”, aí vamos nós à procura do tal Portugal desconhecido que nos espera algures. De Tavira ao Cachopo anunciam-se nada menos do que 40 kms mas há o cuidado de nada dizer sobre o número interminável de curvas típicas dum traçado que em tempos serviu asininos, equinos e respectivos transgénicos a que prosaicamente chamamos mulas. De piso irrepreensível, o traçado é fantástico para nele se imaginar um rally automóvel, de preferência com carros antigos para melhor condizer com o perfil serrano.
 
E o que vemos? Qualquer desavisado responderá: nada! Permita-me esse alguém que o corrija e diga: muito! Vê-se tanto vazio como o silêncio é por vezes ensurdecedor.
 
O percurso desta estrada tem a particularidade geográfica de passar directamente do litoral para a serra sem qualquer transição pelo chamado barrocal, aquela zona intermédia que ao longo de quase todo o Algarve faz a transição entre as praias e aluviões e a região claramente serrana. Passe o erro algébrico e diria que passamos de repente do 80 para o 8. Não, passamos do 80 para o zero. E de niilismos vamos tendo inúmeros exemplos ao longo da subida até Alcaria do Cume para iniciarmos a descida da encosta norte rodeados de um pujante … niilismo.
 
Encostas e cumes praticamente carecas das árvores que possam em tempos ter tido, eis a revelação da falência total de uma economia que nada produz para além de um ou outro núcleo minúsculo em torno de algum restaurante de estrada onde só param turistas no Verão e onde se sugere que no Inverno só lá vão durante o dia por causa das neblinas nocturnas e dos penhascos para que se debruçam certas bermas desprotegidas. A população que ainda por lá reside, claramente envelhecida, fala-nos da emigração dos jovens para o litoral, para Lisboa e para o estrangeiro e conta com o apoio domiciliário de um ou outro Centro Paroquial – financiado pela Segurança Social, é bem de ver – para não morrer ao abandono, longe de um mundo que já a não reconhece como útil e a visita como espécie em vias de extinção. Moram no fundo de barrancos onde antigamente havia alguma água e deram-lhes nomes fantásticos como o afixado naquela placa que nos deixa boquiabertos: Marrocos. Reminiscências da conquista de Ceuta? Assunto a estudar.
 
Houve por ali alguma agricultura de subsistência mas actualmente já não há quem tenha forças para arcar sequer com um molhe de estevas. Contudo, partindo do princípio de que haja por lá quem saiba ler, alguém afixou num poste de iluminação pública no Cachopo um escrito que rezava assim:
 
AVISO
Avisa-se os interessados que pagamos € 0,80 (16 Escudos)
o kg de esteva, até ao fim da campanha em Dezembro de 2007.
É para uma empresa espanhola e francesa.
Ass) … (esqueci o nome)
 
 
Desconheço se se trata de preço justo e não encontrei quem me dissesse se esta procura é correspondida. Presumo que as estevas – maioritariamente urze – sirvam para a extracção do óleo essencial e cá fico eu com pena de ver uma actividade que poderia muito bem ser realizada no local em vez desta mera recolha sem outro valor acrescentado que não a mão-de-obra indiferenciada. E dado o envelhecimento da população, já estou a ver a apanha ser feita por forasteiros que nem o valor da mão-de-obra deixem na serra algarvia e, pelo contrário, a transformem em transferências para o Brasil, Roménia ou Bulgária.
 
O niilismo é por vezes interrompido por plantações de pinheiro manso e dizem-me que se trata de uma acção pública no âmbito das Matas Nacionais[1]. Faço votos sinceros para que os pirómanos se desviem para outras bandas, de preferência para os lados das Penitenciárias ou dos hospícios psiquiátricos.
 
A profusão de Núcleos Museológicos anunciados na estrada nada deve ter a ver com o número de turistas que os procure e apenas sugere que algum arqueólogo ou antropólogo por ali andou à solta sem grandes restrições de verbas. Era Sábado e estava fechado o único museu que procurei, na aldeia do Cachopo.
 
Assim se vê como o pouco que na serra mexe resulta sobretudo – se não mesmo em exclusivo – da iniciativa pública, ou seja, tem origem nos impostos que o Fisco cobra. Do que vi, concluo que a serra do Caldeirão nada produz actualmente que justifique os dinheiros públicos para lá encaminhados. Numa época de restrições orçamentais, tudo de mau pode suceder caso não se encontre um modo de ressurgimento da economia produtiva local.  
 
Em alternativa ao investimento público, creio que em algumas daquelas encostas se poderiam muito bem expor amplos vinhedos a ressuscitar a mais antiga Região Demarcada de vinhos, a de Tavira, agora que água não falta no Sotavento algarvio e admito que pudesse interessar a exploração dos ventos ou dos raios solares para a produção energética mas estas sugestões poderão ser menores ou até risíveis perante os resultados de um concurso de ideias para a recuperação desta serra como parte produtiva de Portugal. A Câmara Municipal de Tavira devia sentir-se obrigada a debater estas questões ou, no mínimo, a promover o tal concurso de ideias. Não tenho notícia de que esteja para aí virada.
 
Descendo pela encosta norte, rapidamente chegamos a Martinlongo e a um belo planalto que se estende até Alcoutim, na margem do Guadiana. Considerando que esta pequena vila encontrou no rio a razão de ser do desenvolvimento turístico que agora ensaia, é com uma certa dose de angústia que me pergunto sobre qual o modo de vida das outras gentes naquele planalto de terras abandonadas.
 
É com pesar e quase revolta que constato a paralisia total da economia agrícola portuguesa em enormes extensões de território humanamente desertificado e já não perco muito tempo a identificar a origem deste flagelo: nunca houve a preocupação de promover a transparência dos mercados agrícolas e, pelo contrário, parece sempre ter prevalecido a preocupação histórica de beneficiar o comércio. Portugal não tem um problema agrícola muito complicado mas em compensação tem um gravíssimo problema comercial e deste modo não há dinheiros públicos que cheguem para colmatar as necessidades duma sociedade rural moribunda que ao longo de gerações se esvaiu para faraónicos Centros Comerciais.
 
Bucólica mas triste esta viajem em que percorri 162 kms de completa infertilidade.
 
Por este caminho, o interior desertificado português em breve chegará às portas de Lisboa.
 
 
Tavira, 26 de Agosto de 2007
 
Henrique Salles da Fonseca
 
 
 
 
 


[1] - Será o pinheiro espécie monopolista das Matas Nacionais? Não haveria outras árvores mais apropriadas à Serra do Caldeirão como alfarrobeiras, amendoeiras, figueiras, azinheiras ou mesmo os tão protegidos sobreiros?

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