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A bem da Nação

Curtinhas XLVII

Silly season
(ou “ner sutor supra sitra”)
v      Ao estilo português, uma associação empresarial, pouco conformada com a perspectiva do NAL (Novo Aeroporto de Lisboa) na Ota, reuniu um grupo de sábios para opinar sobre a momentosa questão. E os sábios – os que de tudo sabem e sobre tudo opinam, quase sempre os mesmos – não se fizeram rogados...e opinaram. Que disseram eles?
v      Que NAL, sim, mas em Alcochete, e só com uma pista, para a coisa sair mais em conta. E que a Portela continue como até agora, pois tem ainda muitos e bons anos pela frente.
v      Uma opinião muito à nossa moda: bate, mas não magoa. Exemplar q.b. Para nos deixar, se não esmagados por tanto saber, pelo menos reverentes, agradecidos e desvelados perante tamanha argúcia. Afinal, nunca ninguém tinha pensado nisso, antes!
v      O diabo são os detalhes. Detalhes que, diga-se em abono da verdade, os sábios de cá, volta e meia, desprezam, por serem indignos (eles, os detalhes, não os sábios) da visão “de grandeur” que eles (agora os sábios, não os detalhes) caprichadamente cultivam. E, no caso, são três os mafarricos que saltitam em redor: (a) o número de pistas a construir no NAL; (b) a articulação dos fluxos de tráfego entre a Portela e o NAL; (c) a expansão do NAL, uma vez chegado o dia. Vejamos um por um.
v      Não vou defender (como já ouvi a um alto, mas não tão sábio, responsável) que bom, bom, seria o NAL ter logo três pistas (ainda não perdi a esperança de lhe perguntar como é que ele faria o milagre de distribuir, sem desastres pela certa, as operações aeroportuárias por três pistas paralelas; e de lhe lembrar também que, se se cruzassem, só uma delas poderia estar operacional à vez - o que, bem vistas as coisas, para efeitos operacionais, era como se existisse uma só pista[i]). Acontece, para desmerecimento dos nossos sábios, que Portugal (e, já agora, a região de Lisboa) não tem - quando deveria ter já, por muitas e poderosas razões - um aeroporto com duas pistas que possam ser operadas simultaneamente.
v      Dispusesse a Portela de duas pistas paralelas plenamente operacionais (e fosse mais tolerante a regulamentação sobre o ruído em áreas urbanas) e, mesmo com os volumes de tráfego que se projectam para os próximos 20 anos, estar-se-ia ainda longe do ponto de saturação. Haveria que investir, é certo, na zona de parqueamento das aeronaves e em terminais de passageiros e de carga que separassem o tráfego aéreo intracomunitário do intercontinental; mas isso custaria 1/6, vá lá, 1/5 das verbas agora faladas para o NAL. Só que não dispõe, nem poderá jamais dispor, por evidente falta de espaço (e por força dos tais limites regulamentares em matéria de ruído).
v      1ª Conclusão: o que há que debater é a concepção, o modelo (Aeroporto regional? Hub intercontinental?) de um aeroporto com duas pistas aptas a operar de forma independente, com segurança máxima. E, só lá mais para diante, sabendo-se conscienciosamente o que se quer, abalar por aí, à procura da localização mais conveniente.
v      Imaginemos, por um momento, que já estão operacionais Portela e Alcochete (como poderia ser a Ota com uma só pista). A ideia dos opinativos sábios é que o NAL seja a segunda pista da Portela, suficientemente distante para permitir operações simultâneas. Muito bem.
v      Não seria difícil por aí além distribuir os fluxos de tráfego aéreo ponto-a-ponto (isto é, os que, pelo ar, demandam a região de Lisboa; e os que de cá voam para o estrangeiro) pelos dois aeroportos. Talvez uns quantos, a quem saísse na rifa Alcochete (ou a Ota), resmungassem contra a má sorte. Mas seria tempestade de pouca dura. Com o tempo, todos se habituariam – e a contribuição das ligações terrestres para diluir más vontades seria insubstituível.
v      O busílis está nos trânsitos: os voos feeder (voos regionais que, pendularmente, carreiam tráfego para os voos intercontinentais e distribuem o tráfego que os voos intercontinentais trazem) só têm razão de ser se operarem no mesmo aeroporto dos voos intercontinentais; e, simetricamente, sem voos feeder não é realista explorar comercialmente rotas intercontinentais. As sábias opiniões, para surpresa dos vulgares mortais, não se detiveram nesta questão de somenos.
v      Nem parece estarem cientes de que, sem o problema dos trânsitos bem resolvido, o NAL só contará com voos intercontinentais esporádicos. E que, sem voos intercontinentais regulares: (1) os volumes de tráfego aéreo que se perspectivam são uma ficção; (2) a TAP deixará de existir – pelo menos, tal como hoje a conhecemos.
v      2ª Conclusão: a variável estratégica do NAL não é nenhuma daquelas que as projecções até hoje feitas abordam. São os trânsitos. E a escolha é entre um aeroporto para servir tráfego aéreo ponto-a-ponto em rotas regionais (um aeroporto regional, pois) e um hub intercontinental (en passant: por estranho que pareça, o Aeroporto Sá Carneiro tem condições para se tornar um hub regional, o do noroeste peninsular; condições que Lisboa, pela sua localização absolutamente periférica, está longe de reunir).
v      Enfim, a possibilidade de expandir um aeroporto – logicamente, com uma segunda pista (a ampliação dos terminais, sendo um bico de obra, não compromete o modelo de exploração de nenhum aeroporto, nem impede que os aviões lá continuem a operar em segurança; incomodidade, nestes casos, não é sinónimo de menor segurança).
v      Para que a pista existente pudesse continuar a operar em segurança, a pista a construir teria de estar afastada umas boas centenas de metros, o que dificultaria as futuras condições de exploração (além de agravar o custo final do investimento, com ligações terminais/pistas desnecessariamente longas). E a alternativa (encerrar a pista existente enquanto decorresse a construção da segunda pista – durante, para aí, uns 2, 3 anos) é completamente descabelada.
v      3ª Conclusão: O NAL pode arrancar com terminais sobredimensionados, faraónicos mesmo – ou em modestos barracões. Agora, o que não pode deixar de ter, logo desde o primeiro dia, é duas pistas aptas a operar com toda a segurança, simultaneamente.
v      O que seria da silly season sem episódios facetas como este que a inconformada associação acaba de nos servir?
A. Palhinha Machado
AGOSTO 2007


[i] Configurações de pistas, como a que se vê na Portela, são fruto do tempo em que os aviões operavam em função do regime de ventos e de outras condicionantes meteorológicas. Não mais.

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