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A bem da Nação

CONVERSAS SOLTAS - 4

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes

Cenário – varanda do hotel em que o Presidente viveu de 1925 a 1941 frente ao Mediterrâneo na cidade de Bougies, leste da Argélia.

* * *

 *

MTG – Majestade, é uma honra recebê-lo no meu local de exílio. E, sobretudo, tão longe de Lisboa.

R – Ora, ora, Senhor Presidente, como sabe, nesta nossa condição, tanto nos faz a distância de Lisboa ao Porto como de Portimão a Bougies. E, curiosamente, estas são paragens que conheci na infância.

MTG – Ah! Desconhecia por completo.

R – Sim, sim. Na minha infância, fizemos um cruzeiro no yacht «Amélia» até ao Egipto. No regresso, se bem me lembro, percorremos vários portos nesta costa. Mas do que melhor me lembro é da entrada em Valeta, a imponência das muralhas do porto… E é claro que, do Egipto, me lembro das pirâmides e duma volta que dei num camelo.

MTG – Também conheci muitas destas paragens. Não na infância mas já como jovem adulto quando andei ao serviço da casa comercial do meu pai, a comprar e vender frutos secos. Sobretudo, amêndoa do Algarve. Mas o mercado era maior do que a produção e tínhamos que comprar noutras fontes. Viajei muito e ganhámos muito dinheiro. Mas… «nem só de pão vive o homem» e tive que enveredar por outros caminhos.

R - Os da literatura e da política?

MTG – Exacto. E assim foi que me vi em Londres como Embaixador.

 R – E que balanço faz dessa missão? Se não me engano, foram sete anos, ou seja, muito mais do que o habitual.

MTG – Era uma missão que a todos parecia impossível. Levar a Inglaterra a reconhecer a República sob a presença da Família Real acabada de chegar em exílio forçado, com laços familiares e de amizade pessoal com a Família Real inglesa… Bem, reconheço que a atitude serena da Família Real Portuguesa me facilitou enormemente a missão. Os ingleses fizeram-me saber muitas vezes que admiravam a serenidade do relacionamento de Vossa Majestade com o representante da República e – não deveria ser eu a dizê-lo – também apreciavam a atitude serena da representação diplomática. Tiveram sempre a delicadeza de nunca referirem que parecia sermos amigos. Ainda bem que tiveram esse cuidado. Evitaram problemas políticos que Vossa Majestade dispensava e a República, ali representada por mim, também não queria de modo nenhum.

R – Gosto de confirmar que não fui motivo de preocupação. O Senhor devia ter muito mais com que se preocupar…

MTG – … o problema da dívida portuguesa, a ultrapassagem das sequelas políticas do «Ultimatum» que continuavam a azedar as relações bilaterais e, mais tarde, a pré-Grande Guerra, a nossa participação nos combates integrados nas Forças Britânicas, o nosso desempenho militar em África e mais um ror de temas que na altura pareciam relevantes mas que hoje dão vontade de rir.

R - Lembra-se de algum?

MTG - O empenho que coloquei na satisfação do pedido que a rainha Alexandra me fez de lhe redecorar o seu gabinete de trabalho com prejuízo de tempo na análise de informações mais ou menos relevantes que os Serviços de cada lado me iam transmitindo para eu enviar ou não à outra parte.

R – Os ingleses enviavam-lhe informações?

MTG – Informações classificadas que eu deveria analisar e encaminhar para quem eu considerasse conveniente. Nem sempre são as vias habituais, Majestade.

R – Pois, pois… Nem todos estão nos cargos certos, nem todos são merecedores das informações, nem todos percebem o que elas significam…

MTG -Nem todos os políticos ou funcionários se interessam pelo fim da História.       O fim da História – não o fim cronológico nem biológico mas, sim, o do alcance dos grandes objectivos da Humanidade tais como o equilíbrio económico estrutural, a harmonia social, a abastança cultural e moral – é nisso que o animal histórico, o homem, não pensa tão frequentemente quanto devia; dedica-se a questões menores, à análise conjuntural e perde o sentido dos grandes objectivos da Humanidade, o fim da História. Como Hegel diria, «a verdade que os homens demandam».

R - Sim, Senhor Presidente, concordo, mas já os latinos diziam «primum vivere, deinde philosofari» e nós, em vida, ainda estávamos na fase de tentarmos alcançar a primeira etapa, a do conforto material. Certa vez, tive conhecimento de uma discussão sobre o local politicamente mais apropriado para construir um simples chafariz para dar de beber a cavalos e azémolas. Um «Sentido de Estado muar».

MTG – E quando eu fui Presidente, as discussões não seriam muito diferentes dessa. Tudo tem a ver com os modos de satisfazer eleitorados, de ganhar votos nas eleições seguintes. E um Rei é deposto e um Presidente é levado ao desespero por causa da aguada de burros e mulas…

R – E por quê este exílio em Bougies?

MTG – Porque naquela época, aqui era a França exótica onde podia entregar-me tranquilamente à escrita e onde encontrei quem cuidasse de mim.

R – Senhor Presidente, fiquemos por aqui. Acho que continua a não querer contar tudo mas não se esqueça de que, para nós, «tudo o vento levou». O nosso próximo encontro vai ser na Ericeira onde espero espantar alguns colegas nossos.

MTG – Que colegas, Majestade?                                               

R – Fantasmas.

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca  

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