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A bem da Nação

Abarcando o Globo

Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII

 Stephen Brookes

 

 

Olhar para o mapa-múndi de Henricus Martellus, 1490, é contemplar um planeta estranho em formação. A Europa parece vagamente familiar, mas para lá do Mediterrâneo tudo se dissolve bruscamente em mito. África é uma mancha mais ou menos quadrada, ligada à Ásia por uma longa e estreita faixa de terra. Uma ilha enorme, designada Taprobana, domina o oceano Índico, e não há o menor sinal das Américas ou do oceano Pacífico; o mapa, simplesmente, termina na China. Metade do mundo é uma barafunda, e a outra metade nem sequer é ainda imaginada.

Mas dê-se um salto de meio século, até 1545 e ao mapa de Pero Fernandes – e o planeta aparece radicalmente transformado. Uma enorme vaga de descobertas trouxe, pela primeira vez, o mundo para o centro das atenções. A África tem já a forma que a distingue, a Índia não é mais uma excrescência insignificante, o Pacífico lá está em toda a sua vastidão, e a América faz a sua aparição. A imaginação deu lugar ao conhecimento. Um novo mundo, com todas as suas complexidades e possibilidades, acaba de irromper.

Os dois mapas – obras-prima, qualquer deles – fazem parte de uma exposição bem recheada que abre hoje (24/06/2007) na Galeria Slacker. Sob o lema “Abarcando o Globo: Portugal e o Mundo nos séc. XVI e XVII”, trata-se de um olhar abrangente e impressionista sobre o império comercial que os Portugueses construíram, e que se estendia do Brasil a África e ao Japão – um império que pôs ao alcance da Renascença um dilúvio de conhecimentos, que desencadeou o expansionismo europeu e que deu início (para o bem e para o mal) à integração do mundo moderno. É para nós difícil imaginar quão indutor de transformações este período foi”, diz Julian Raby, o director da Galeria Slacker e da Galeria Freer do Museu Smithsonian. “É o primeiro instante da globalização – o conhecimento sobre a variedade do mundo em termos de pessoas e culturas começava a despontar. De alguma maneira, o que pretendemos revelar é essa sensação de êxtase perante as complexidades e as texturas do mundo

 Sackler Gallery

Com cerca de 275 em exposição, isso não deve ser difícil. “Abarcando...” é a maior exposição isolada nos 20 anos de existência da Galeria Slacker – ocupa toda a área disponível e extravasa mesmo para o vizinho Museu da Arte Africana – sendo, sem dúvida, a mais variada. Há ovos de avestruz africana encastoados em ouro, crucifixos do Sri Lanka minuciosamente talhados, um canibal brasileiro pintado em tamanho natural, astrolábios chineses, bonecas indonésias, um escudo japonês em pele de raia e todo um fascinante conjunto de maravilhas.

Apesar do seu propósito globalizante e do seu ecletismo quase de fugir, a exposição é bem mais do que lembranças recolhidas num império em expansão. “Buscámos trabalhos com verdadeiro significado estético”, diz Jay Levenson, o comissário convidado desta exposição, que, para reunir este conjunto de peças, teve de esquadrinhar mais de cem colecções por esse mundo fora. “Trabalhos que contam histórias de viagens, mas que documentam também o intercâmbio de culturas.”

Apesar de ter mudado a face do mundo, o império português permanece, em larga medida, desconhecido na América, ocultado pelas viagens espanholas para o Novo Mundo. Todavia, as explorações que começaram em 1419, sob o impulso de Henrique, o Navegador, (em particular, a abertura, por Vasco da Gama, em 1498, de uma rota marítima que contornava a África) tiveram uma importância não menor, lançaram os alicerces de um comércio marítimo à escala global e estabeleceram um império que resistiu até aos tempos modernos; o último posto distante, Macau, foi entregue à China somente em 1999.

Foi um império único, concebido, não pela vontade de conquistar, mas de comerciar, e, em menor grau, de expandir a Cristandade. As primeiras viagens, costa de África abaixo, visavam quebrar o monopólio islâmico sobre o comércio com o Oriente, e também forjar uma aliança com o mítico Prestes João, um rei cristão que se supunha reinar algures em África. Com flotilhas de barcos pequenos e ligeiramente armados, os portugueses estabeleceram, não colónias, mas feitorias comerciais. E, à medida que se aventuravam cada vez mais fundo na Ásia, iam tomando consciência de que se relacionavam, não com o mundo primitivo que eles esperavam encontrar, mas com culturas complexas, profundamente enraizadas, e com economias florescentes.

Estamos a falar mais de relações entre iguais”, diz Levenson. “Tudo gira em torno do comércio e da troca de conhecimentos”.

No entanto, a construção de um império, seja ele qual for, raramente é um negócio bonito de se ver. E, na verdade, os portugueses não andavam pelo mundo a promover uma maior compreensão entre os povos – procuravam, sim, dominar as rotas comerciais, e eram impiedosos. O comércio de escravos florescia, os portos que não se submetessem eram bombardeados, e multiplicava-se a pirataria. Num episódio memorável, Gama, ele próprio, encerrou cerca de 400 muçulmanos numa embarcação e queimou-os vivos – incluindo mulheres e crianças.

Muitas destas obras de arte foram obtidas a um preço extremamente elevado”, diz Raby, “fosse ele a morte de populações indígenas, as doenças trazidas para a Europa, ou o resultado de recontros muito violentos”.

E, em certo sentido, é essa vertente que faz de “Abarcando...” uma exposição tão fascinante: põe em exibição objectos que reflectem mais uma ambiguidade perturbante do que um multiculturalismo feliz. Cada encontro era diferente, mas as peças de arte que daí resultaram raramente revelam uma miscigenação sem entraves de culturas; muitas delas, na realidade, mal escondem uma tensão latente.

Repare-se, por exemplo, num notável saleiro em marfim, proveniente da Nigéria do séc. XVI. Provavelmente feito como moeda de troca para os coleccionadores europeus, é uma peça de grande beleza, talhada refinadamente e que mostra um grupo de marinheiros portugueses (que poderiam estar a comerciar escravos) num barco. As faces dos marinheiros estão talhadas quase como se fossem máscaras africanas, e o capitão do navio tem, numa das mãos, uma lança africana. O efeito é encantador – até nos apercebermos do pequeno rosto, de olhos muito abertos, que desponta de dentro do barco e, num instante, esta obra-prima adquire um significado perturbador.

A complexidade do relacionamento dos portugueses com as culturas que iam encontrando é ainda mais notória na arte proveniente da Ásia, ou “Estado da Índia”, conforme ficou conhecida a teia de enclaves portugueses na região. Muitos desses locais distantes eram pequenas feitorias concebidas para administrar o lucrativo comércio das especiarias. Mas Lisboa também ocupava grandes manchas de território, incluindo Bombaim e Goa, e onde quer que os portugueses detivessem o controlo do território, dominavam também nos planos cultural e religioso – em parte, sob o impulso dos missionários Jesuítas que procuravam converter almas.

Goa no séc. XVI era um território com umas centenas de milhar de metros quadrados onde viviam, talvez, um milhão de pessoas”, diz Sanjai Subrahmanyam, professor na UCLA e autor do livro “O Império Português na Ásia, 1500-1700”. “E aqui estamos nós a falar sobre conversões forçadas, a destruição de templos hindus, a eliminação da população muçulmana.

Nem tudo eram conversões à força, mas, apesar de tudo, o grau de influência do Cristianismo nas peças indianas expostas não pode deixar de surpreender. Muitas são espectaculares; uma mesa de comunhão do séc. XVII, proveniente de Guzarate, mescla os estilos indiano e europeu com uma graciosidade natural, e uma peça de marfim finamente talhada representando Cristo, o Bom Pastor, inspira-se profundamente nas tradições da escultura indiana; num primeiro olhar, dir-se-ia uma peça da arte budista.

Todavia, bem mais reveladora é a placa em marfim que retrata o Menino Jesus a navegar numa das naus de comércio portuguesas. Intitulada “O Menino Jesus como marinheiro do navio da Salvação”, a óbvia integração vai muito para lá do título. O mestre artista do Sri Lanka que a talhou conseguiu eliminar do seu trabalho todos os traços da sua própria cultura, e dir-se-ia tratar-se de uma peça saída de uma oficina da Renascença Italiana. Como peça de arte, é adorável. Já como exemplo de abnegação da própria cultura, é um pouco chocante.

Outras tensões imperiais afloram ao longo da exposição, de muitas maneiras, o que não é menos revelador. Na China, o choque português foi tão débil que é quase imperceptível; Pequim adoptou os conhecimentos astronómicos vindos de Lisboa, muito superiores, mas manteve tudo o mais a uma distância bem estudada.

No Japão, porém, as coisas redundaram em desastre. Aí, os portugueses foram inicialmente bem sucedidos, conseguindo converter ao Cristianismo cerca de 150,000 pessoas. Mas o sucesso rapidamente se desfez; os regentes shoguns proibiram a religião, expulsaram missionários e forçaram os cristãos japoneses a pisarem placas de bronze com a face de Cristo (conhecidas por fumi-e) para provarem a sua indiferença.

Na verdade, foi somente no Brasil (descoberto virtualmente por acaso por Pedro Alvares Cabral em 1500) que os portugueses conseguiram construir uma enorme colónia, em oposição às pequenas feitorias. Subjugadas, sem dificuldade, as populações indígenas Tupi, Lisboa pôde, por fim, estabelecer grandes plantações de cana-de-açúcar, para onde levaram centenas de milhar de escravos oriundos de África e durante os séculos seguintes dominou o comércio de escravos transatlântico.

Muito embora essa face perturbante do império seja abordada apenas ao de leve, alguns quadros de Africanos e Tupis, do pintor holandês do séc. XVII Albert Eckhout, oferecem uma visão que prende. De uma escala heróica, esses quadros foram encomendados para servir de “literatura promocional” destinada a encorajar os investimentos nas plantações, diz Raby, da Galeria Slackter – concebidos para mostrar aos europeus como os povos aborígenes beneficiavam dos aspectos civilizacionais da colonização.

E é difícil não ouvir os ténues ecos de todas estas aspirações multiculturais na exposição “Abarcando o Globo”. Desde o momento em que todas estas descobertas foram celebradas, no séc. XVI, por Luiz Vaz de Camões no seu poema épico “Os Lusíadas”, o Império não tem deixado de estar no âmago da identidade nacional de Portugal, com os aspectos mais agrestes, suavizados, e os mitos, manipulados de maneira favorável. Financiada generosamente pelo Ministério da Cultura de Portugal e por algumas dúzias de bancos e empresas portuguesas, esta exposição pode ser interpretada como um hino de louvor ao imperialismo português, colocado ao abrigo de perguntas incómodas pela sua própria esmagadora vastidão. Mas, afinal, o que estas peças revelam é uma história mais profunda e infinitamente mais satisfatória – o nascimento tenso, difícil e por vezes brutal do mundo moderno.__

 

The Washington Post

Stephen Brookes

Domingo, 24/06/2007

 

Tradução: Dr. António Palhinha Machado

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