Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

Caravaggio

 

 

   (1573 - 1610)

 

  

- Sigam em frente e lá em cima virem à direita – indicou o maltês lá do meio da escada em que estava empoleirado a reparar qualquer coisa na empena da casa apalaçada na esquina oposta à do restaurante em que eu estava a jantar. Não ouvi a pergunta que as quatro jovens nórdicas loiras fizeram ao empoleirado mas, pela resposta que li nos gestos, adivinho que queriam saber do melhor caminho para o centro de St. Gorg (entoe-se George, à maneira inglesa).

 

Cena banal que se poderia imaginar em qualquer outra esquina neste nosso Planeta Azul mas ali, nos arredores de Valetta, a capital de Malta, tudo fazia sentido. A começar pela maneira de escrever o nome do local em que nos encontrávamos e que não consigo reproduzir exactamente porque não temos no nosso alfabeto a pintinha sobre a letra «g» que os malteses inventaram para lhe atribuir o som forte que se espera de um George sendo que a mesma letra sem a tal pintinha assume a suavidade felina que lhe damos num gato. Sim, o alfabeto maltês tem 29 letras e diversos apêndices de acentuação que lhes possibilita escrever em caracteres latinos uma língua composta por quase 70% de expressões oriundas mais ou menos directamente do árabe clássico enquanto os restantes por cento se distribuem algo desequilibradamente entre italiano, francês, inglês e sabe Deus mais quê. Não fora uma evidente injustiça e quase me apetecia dizer que nem o Diabo os entende. E só porque me chamo Henrique é que não pergunto àquela gente por que razão é que o «gh» que consta do início de tantas palavras é mudo. Como bem compreendi a desorientação das jovens nórdicas que nem munidas do inglês internacional conseguiam interpretar a toponímia. A menos que o objectivo delas passasse também por meterem conversa com o alcantilado electricista …

 

Não tentei obviamente esclarecer a questão que assim fica por desvendar pois de imediato passei a notar que o fulano estava a trabalhar à hora a que eu estava a jantar. E a minha mulher e eu não jantamos assim tão cedo que dê para à mesa ouvirmos os pregões vespertinos – se é que os há. O que sucede é que o clima naquela metade sul do Mediterrâneo, praticamente à entrada do Golfo de Sirta, esse que banha directamente a Líbia ardente, não permite que se trabalhe na rua durante as horas a que nós, os setentrionais, estamos habituados a usar para conseguirmos pagar ao merceeiro. Em Malta, os trabalhos agrícolas decorrem entre as 5 e as 8 da manhã e a partir das 5 da tarde até que o serviço esteja concluído; o trabalho urbano na rua segue um padrão mais adamado pelos Sindicatos mas a verdade é que o fulano estava a trabalhar enquanto eu jantava. Apurei que nas pedreiras – Sector importante – o trabalho cessa às 12 porque a partir daí não há quem aguente e consta-me que nas fábricas tem havido uma certa preocupação de melhoria das condições de trabalho para que se consiga maior produtividade. Mas a deslocalização industrial fechou a última fábrica de “jeans” enquanto eu por lá andava e a empresa de semicondutores a cuja porta passei ficou a representar 35% das exportações maltesas. Sendo actualmente o ordenado mínimo nacional de cerca de € 600,00 (€ 403,00 em Portugal) e o ordenado médio de € 1000,00 (€ 670,00 em Portugal), dá para imaginar os estragos que a globalização se prepara para fazer naquelas paragens …

 

E já que refiro este tipo de questões, aproveito para informar que todo o canteiro agricultável (a dimensão geral da parcela agrícola é muito pequena) está trabalhado e por todo o lado se vê rega gota-a-gota. Na ilha de Malta a água é chupada do mar e dessalinizada enquanto na de Gozo ainda conseguem satisfazer cerca de 30% do consumo total por exploração de lençóis freáticos. Na ilha de Comino vivem 4 pessoas – não sei bem a fazer o quê – pelo que sobre o consumo de água não rezam as crónicas. A produção nacional de alimentos satisfaz cerca de 20% do consumo e se pelo cenário descrito se percebe que a produtividade da unidade de cultivo tem que ser relativamente baixa e o produto resultante caro, a maioria dos alimentos consumidos é importada e possui uma parcela significativa de custo de transporte. De tudo para concluir que uma refeição no restaurante-esplanada do Hotel Intercontinental sobre a praia de St. Gorg (não esquecer a pronúncia) que nos custou o equivalente a € 90,00, poderia em Portugal valer € 50,00. Já fartos do vinho corrente servido nos almoços organizados para os grupos de turistas em que nos metemos uma ou outra vez, mandámos vir o escanção para nos sugerir o melhor vinho da carta e pagámos por um branco “buvable” o equivalente a € 30,00. Daqui sugero aos enólogos portugueses que aproveitem uns dias de férias para viajarem até Malta pois que encontrarão boas oportunidades para venderem os serviços que por cá possam escassear. Melhor: sugiro aos exportadores portugueses de vinhos de mesa que aproveitem uns dias de férias para se lembrarem de que aquele mercado existe. É pequeno, o que facilita os nossos problemas de dimensão; paga bem e está em crescendo. Por lá só vimos várias marcas de vinho do Porto, não vimos nenhum da Madeira (a não ser num molho de bife que lemos num menu) e quanto a vinhos de mesa só vimos “o tal rosé” que leva bem longe o nome de Portugal. Está ali muito trabalho por fazer e não me parece que a concorrência e a estrutura de preços sejam impeditivas de lá chegarmos.

 

E se digo que o mercado de consumo de vinhos de mesa está em crescendo, isso deve-se a que o actual modelo de desenvolvimento do país assenta no turismo e este, como sabemos, é sequioso.

 

E para concluir este intróito, refiro que o expoente máximo que encontrei no turismo maltês é o quadro de Caravaggio, “A decapitação de S. João Baptista”, lindamente exposto na co-catedral de S. João, em Valetta.

Não há reprodução que iguale o original. Só lá indo para ver o esplendor.

 

Continuemos …

 

Lisboa, Junho de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D