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A bem da Nação

A casa açoriana através dos séculos.

 

Situado na rota marítima das Américas e Índias, o arquipélago dos Açores sofreu desde inicio da sua povoação (séc. XV) influências culturais e arquitetónicas de várias regiões do globo que, adaptadas à necessidade dos primeiros povoadores, à geografia e clima locais, determinaram ao longo dos anos os diferentes estilos de suas casas.

 

Sendo as ilhas vulcânicas e ricas em florestas, a principio, o material mais usado foi a madeira e a pedra basáltica. A construção era rústica, simples e defensiva visando a proteção dos habitantes contra os elementos da natureza e dos piratas. Em geral, as casas eram cobertas de colmo ou de telhas, possuíam um único piso, tinham paredes triangulares com pequenas janelas e portas com a abertura bem acima do nível da rua. Internamente havia uma divisão de madeira em três compartimentos. A entrada ficava no meio da construção, de um lado o quarto de cama e do outro a cozinha, com a lareira, o forno e a amassaria onde se preparava a comida. O piso era de terra batida, com excepção do quarto que tinha o chão e o teto forrados de madeira. Entre o teto e o telhado havia um espaço chamado “falsa”, que se atingia por uma escada manual colocada junto à parede.

 Casa primitiva

Anexo à casa havia um depósito coberto ( cisterna) que recolhia as águas da chuva. No pátio, um poço e uma pia facilitavam a limpeza. Mas, até o início do século XX, era comum as pessoas mais simples lavarem as roupas nas ribeiras.

 

Produzia-se o alimento que se comia. O que a terra não dava se importava, quando as naus chegavam. Para secar o milho construía-se uma armação de madeira em forma de pirâmide chamada “pião”.  No quintal, espaço para a eira, lagar, chiqueiro e horta. Sobre os muros escuros, que dividiam e fechavam a propriedade, a vinha se deitava e açucarava sob a acção do calor do Sol, retido na pedra negra. Galinhas e pintainhos vagavam soltos durante o dia. À noite eram recolhidos à cozinha ou a um pequeno galpão, para protegê-los do vento e do frio.

 

Os anos passaram, as casas ficaram mais confortáveis, mas o estilo predominante ainda era o importado do continente português.  Em dados momentos históricos, os contactos com outras culturas trouxeram mudanças e crescenças que modificaram e enriqueceram as propriedades mais abastadas dos Açores. Aportaram às Ilhas a cantaria, os azulejos de Portugal, o ouro e a prata das Américas, as peças decorativas das Índias, as novas cores e formas sul-americanas, que clarearam os tons tristes e escuros das construções açorianas.

 

Depois dos descobrimentos marítimos portugueses e do domínio filipino, chegou a vez do Barroco. A beleza e a graça da arquitetura vinham das curvas, das figuras e dos trabalhos em talha dourada e policromada. A pedra  basáltica passou a bordar janelas, pórticos e portas das habitações, fazendo contraste com as paredes brancas de cal e com o vermelho dos telhados. Formava-se a aparência mais comum da morada açoriana.

 Casa típica do séc. XVI

 

Nos séculos XVII e XVIII surgem as belas casas senhoriais de dois e três pisos com suas capelinhas ou ermidas, fruto da inspiração ou devoção religiosa dos seus moradores. No rés-do-chão guardavam os coches e os grãos.  No primeiro andar ficavam as câmaras, antecâmaras, as salas de comer, os quartos, copas e cozinhas. As janelas em guilhotina ganharam vidraças vindas da Inglaterra, Os portais dos solares e quintas ostentavam bandeiras, brasões, figuras decorativas em alvenaria, faiança, porcelana ou madeira que enfeitavam de dia e assustavam de noite. Algumas varandas trabalhadas com ripas de madeira lembravam a influência moura.

 

Mas as forças da natureza também actuavam como modificadoras do ambiente. Periodicamente tremores de terra e erupções vulcânicas lançavam as ilhas em convulsão e destruição. E, mais uma vez, novas construções apareciam com características da época substituindo as primeiras.

 

Quando o óleo de baleia representava para a economia mundial o que o petróleo representa hoje, à cidade da Horta aportavam baleeiros de New Bedford e navios mercantes ingleses buscando marinheiros açorianos e deixando mudanças e transformações nas pacatas ilhas. Surgiram as barracas, casas leves, simples, mas confortáveis, em madeira, com base em pedra ou cimento, e janelas grandes, envidraçadas, de inspiração norte-americana. Nas freguesias, as casas mais ricas ganhavam mais um piso, janelas decoradas e portões com enfeites e trancas.

 

Com os retornados das emigrações dos séculos XIX e XX, muitas construções foram feitas e outras passaram por transformações tão grandes, que chegaram a ameaçar o aspecto arquitetónico das ilhas.

 Ponta Delgada, 2007

Atualmente para se construir é necessário obedecer a regras e condições estéticas, na tentativa das autoridades locais de preservar a beleza e as características tradicionais das casas açorianas.

  

 

Maria Eduarda Fagundes Nunes

 

Ref. Bibliog. “ Ambientes Açorianos “ de Francisco  Ernesto de Oliveira Martins

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