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A bem da Nação

RECORDÇÃO A RETER

 

Estive muito recentemente dois dias com a minha mulher em Barcelona. Dei por mim a reflectir sobre a última vez que visitara aquela cidade e onde fui protagonista de uma história rocambolesca.

Como foi possível que tenha escrito um livro em que alinho para cima de 30 recordações extraordinárias e me tenha esquecido desta?

Felizmente existem blogs porque o livro já está concluído, aguardando apenas que eu morra para poder ser editado, impresso e distribuído grátis por familiares, amigos, amigas e interessados.

Tem capa, título, texto, fotografias, mas corro um risco grave se o publicar em vida, como se pode constatar após a sua leitura. Para que não haja especulações direi apenas que se trata de uma questão de fé, em Deus e no Espírito Santo e nada tem a ver com pessoas ou situações da vida terrena.

Essa última visita ocorreu em Março de 1974 e foi extraordinariamente curta 3 ou 4 dias no máximo.

Em Janeiro desse ano produzira-se um aumento brusco, insólito e exageradíssimo no preço internacional do algodão, então como agora, uma “commodity” extremamente sensível e de capital importância no domínio do têxtil, actividade que ocupa uma parcela decisiva no comércio internacional e na globalização.

Eu era na altura sócio gerente não executivo na Empresa da minha família, a maior fiação autónoma do País, sedeada em Rebordões, Santo Tirso, com mais de 35.000 fusos e 480 operários. Produzíamos fio de algodão da mais alta qualidade e exportávamos para a Escandinávia e Reino unido, 85% da nossa produção.

Os lucros gerados que atingiam valores respeitáveis eram na sua totalidade aplicados na futura automatização da Empresa cuja sobrevivência só era possível com cerca de 80 trabalhadores pelo que o esforço exigido implicava muito tempo e enorme capital.

Avizinhava-se o espectro do Vale do Ave que acabou por lançar no desemprego dezenas de milhares de pessoas e deixou exangues centenas de empresários conscientes, bem intencionados mas impotentes para enfrentar o turbilhão e a hecatombe que se seguiu.

Havíamos feito no último trimestre de 1973, numa tentativa de mercados, uma abordagem à vizinha Espanha, mais concretamente à Catalunha, nomeando um agente em Barcelona, o Sr. Sastre (alfaiate em português), rapaz um pouco mais novo do que eu, com sangue na guelra, bem implantado no mercado local e com quem foi fácil estabelecer um bom relacionamento. Enviadas amostras e preços recebemos as primeiras encomendas com destino a 7 industriais locais, escalonadas para embarques até Março/Abril de 74. Contratos assinados em Dezembro de 73 não nos preocupámos com cláusula de salvaguarda de preços pois havia estabilidade e, como fizéramos com os outros mercados aguardaríamos a melhor oportunidade, em fase de “velocidade de cruzeiro” para concretizar esse objectivo.

O aumento inesperado do preço implicava para nós um prejuízo sério e logo nos primeiros fornecimentos para este novo mercado.

Em reunião do Conselho de Gerência propus o seguinte: ofereci-me para ir a Barcelona, tirando partido do meu magnífico espanhol, para falar com os 7 industriais compradores.

Coração nas mãos, não ia mendigar estaria apenas a solicitar um gesto de boa vontade visando o futuro que, por nossa parte pretendíamos longo e benéfico para todos.

Se o preço internacional tivesse baixado, nós seríamos os primeiros a baixar as cotações acordadas.

A minha sugestão foi bem acolhida, apenas com as dúvidas do Presidente. Tratava-se afinal de uma empresa familiar em que o meu irmão mais velho era o gerente executivo e Maios accionista individual.

A conversa telefónica com o Sastre, que eu mal conhecia, não pode ter corrido melhor.

E lá vou eu para Barcelona. Comprei o livro do Spínola, “Portugal e o futuro” no aeroporto, tinha-o praticamente lido à chegada, desembarco com forte carga de preocupação.

Prometo não falar neste blog, do Spínola, do 25 de Abril, do PREC, nada.

Talvez o faça noutra altura, noutro blog, não sei. Sei que aqui não o vou fazer.

Isto porque o que se passou a seguir, nada, tem a ver com o 25/4 ocorrido pouquíssimo tempo depois.

O Sastre aguardava-me no aeroporto. A preparação que fizera revelara dois problemas graves. Dos 7 industriais, dois mostravam-se extremamente hostis, negando-se a receber-me. Dos restantes, havia receptividade forte em apenas dois mas os outros anuíram em falar comigo. Todos assentaram num aspecto que consideraram rígido. A ser concretizado qualquer resultado, seria sem suporte documental. Como disse o Sastre, com uma certa graça seria uma espécie de saco, não azul mas um saco. Era o primeiro problema que não gostei mas tive de engolir.

O segundo problema consistia na fuga de capitais que estava a ser combatida pela Guarda Fiscal Espanhola em todos os aeroportos. Os jornais que li falavam na prisão de um cidadão alemão apanhado a sair de Barcelona com 750.000 pesetas, tendo sido engavetado e o montante confiscado.

Eu disse ao Sastre que confiava nele e ele em mim, que estava disposto a enfrentar os problemas, fizeram-se as marcações das reuniões.

O Sastre não me abandonou um segundo e não abriu a boca. Conheci entre os industriais um pai e um filho formidáveis, que Deus os abençoe e proteja, nenhum dos 5 visitados deixou de contribuir, embora um deles, custa-me dizê-lo porque tenho um fraquinho por judeus e especialmente por judias, foi incrivelmente sumitico.

Aceitei sem humildade o que me ofereceram e tive o cuidado de referir que não considerava aquilo uma esmola e que eram merecedores do meu reconhecimento independentemente dos montantes recebidos. Nunca falei espanhol tão bem na minha vida.

Ao todo foram 240.000 pesetas. Hoje é ridículo, são trocos, sem significado. Naquela altura, há 33 anos, era dinheiro, pouco, mas dinheiro.

Agradeci ao Sastre que fez o favor de me felicitar pela argumentação utilizada e pela convicção com que me exprimi. Ofereceu-me o jantar de despedida, disse-me que foi para ele uma lição. Essa, foi a melhor paga.

O 2º problema foi mais difícil. Uma noite sem dormir no hotel. Havia um espelho alto no corredor exterior do meu quarto. Estive até altas horas da madrugada em frente do espelho a estudar a melhor maneira de distribuir pelo corpo, meias, cuecas, camisa, algibeiras, gabardina, até no chapéu-de-chuva eu coloquei notas de 1000 pesetas (a maior denominação da circulação fiduciária espanhola de então) fora as muitas de 100 pesetas que me foram entregues. Parecia uma figura de circo tão almofadado me encontrava. Rezei todo o tempo.

Estará também este recheado de Pesetas?

Passei pela fieira de inspecção, fui percorrido com uma sonda metálica que não me afligiu mas fui também apalpado por mãos grosseiras de guardas-civis. O meu coração bateu então um pouco forte demais.

Tinha 41 para 42 anos, uma saúde de ferro, uma confiança enorme em mim. Tinha uma mulher formidável, e três filhos extraordinários.

Só ignorava que a muito curta distância estava um pesadelo que iria desabar sobre mim e sobre os meus de uma forma tão injusta e brutal e a que apenas sobrevivi com a ajuda da minha mulher e a fé em Deus e na Nossa Senhora que jamais me desamparou.

 

 

Lisboa, 14 de Maio de 2007

 

João Salgado

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