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A bem da Nação

A REVOLUÇÃO COMERCIAL - 2

 

                            A NOVA SOCIEDADE

 

 

 

 

O término da primeira parte apontou duas consequências das viagens de descobrimentos e a fundação de impérios coloniais. Mas há outra.

 

Outra consequência importante da descoberta e da conquista de terras ultramarinas foi a expansão do suprimento de metais preciosos. Durante algum tempo o ouro foi o metal mais abundante e era relativamente mais barato em relação à prata. Por volta de 1540 essa relação inverteu-se. As importações da prata em enorme quantidade eram provenientes do México, da Bolívia e do Peru e produziram depreciação no seu valor. Tornou-se necessário entesourar certas quantidades de ouro para transacções de crucial importância. Daí em diante, durante cerca de oitenta anos,   a economia europeia baseou-se na prata. O resultado foi a elevação de preços e salários, mas o fenómeno não afectou igualmente todas as partes da Europa. A mineração de prata na Alemanha foi arruinada pelo volume de prata oriunda da América. A posição da Alemanha declinou, enquanto a Inglaterra e os Países Baixos passavam a uma situação de proeminência.   Durante um certo período a Espanha partilhou dessa proeminência,   mas estava pouco aparelhada para conservá-la. Ao fim do século XVI, a economia espanhola, que a princípio parecera beneficiar-se enormemente dos descobrimentos, estava quase inteiramente arruinada.

 

      AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA REVOLUÇÃO COMERCIAL

 

As principais características da Revolução Comercial foram parcialmente indicadas pela anterior discussão da expansão ultramarina. A mais importante foi a ascensão do capitalismo. O capitalismo pode ser definido, em sua expressão mais simples, como um sistema de produção, distribuição e troca no qual a riqueza acumulada é investida por seus possuidores privados com fins lucrativos. Os traços distintivos do sistema são a iniciativa privada, a concorrência pelos mercados e o negócio com finalidade de lucro. Compreende também o sistema de salário como forma de pagamento dos trabalhadores, isto é, uma forma de pagamento baseada não na quantidade de riqueza que os trabalhadores criam, mas na sua capacidade de competir uns com os outros para conseguir empregos. O capitalismo é a antítese  directa da economia das corporações medievais, na qual se acreditava que a produção e o comércio devessem orientar-se para o benefício da sociedade, com uma remuneração apenas razoável dos serviços prestados, ao invés de lucros ilimitados. Embora o capitalismo não tenha alcançado a completa maturidade senão no século XIX, a maioria dos seus aspectos básicos desenvolveu-se durante a Revolução Comercial.

   

Outro factor importante da Revolução Comercial foi o desenvolvimento do sistema bancário. Devido à rigorosa condenação religiosa e moral da usura, os negócios bancários quase eram considerados pouco respeitáveis na Idade Média. Durante séculos a pequena actividade bancária existente era praticamente monopolizada pelos judeus. Entretanto, havia excepções. A Igreja permitia a obtenção de lucros quando havia riscos. A consequência disso foi que, já no século XVIII, várias famílias italianas começaram a auferir grandes lucros com as actividades bancárias, como o banco dos Médicis, após a depressão do século XIV. No século XV surgiram o negócio bancário no sul da Alemanha seguido da França. Os Fuggers ao norte emprestaram dinheiro ao rei e bispos e serviram como corretores para o Papa na venda de indulgências e adiantaram os fundos graças aos quais Carlos V pode comprar sua eleição ao trono do Sacro Império Romano. Seguiu-se depois a fundação de bancos dos Governos destinados a atender às necessidades monetárias dos estados nacionais. O primeiro foi o Banco da Suécia, mas ao Banco da Inglaterra, fundado em 1694, estava reservado o papel de maior importância na história económica.

   

O desenvolvimento do sistema bancário fez-se acompanhar da adopção de vários instrumentos auxiliares das transacções financeiras em larga escala. Entre outras facilidades para a expansão do crédito figuram a adopção da letra de câmbio e em seguida o sistema de pagamento por cheque nas transacções locais. A emissão de notas bancárias foram substitutos do ouro e da prata. Os dois expedientes foram inventados pelos italianos e gradualmente adoptados na Europa setentrional. O sistema de pagamento por cheque assumiu especial importância no aumento do volume do comércio, uma vez que os recursos de crédito dos bancos puderam então expandir-se muito além do montante real de seus depósitos.

 

A Revolução Comercial não se limitou ao desenvolvimento do comércio e do sistema bancário. Inclui modificações fundamentais nos métodos de produção. O sistema de manufactura criado pelas corporações de ofício na Idade Média tardia caminhava a passos rápidos para a extinção. As próprias corporações dominadas pelos mestres, tinham-se tornado egoístas e exclusivistas. Delas participaram, comummente, apenas umas poucas famílias privilegiadas. Estavam tão sedimentadas pela tradição que eram incapazes de ajustar-se  às novas condições. Além disso, haviam surgido novas indústrias inteiramente fora do sistema corporativo. Exemplos típicos eram a mineração, a fundição de minérios e a indústria de lã. O rápido desenvolvimento dessas actividades foi estimulado por progressos técnicos como a invenção da roda de fiar e do tear para tecer meias e a descoberta de um novo meio para fundir latão que economizava quase a metade do combustível antes utilizado. Nas indústrias de mineração e fundição de minérios, as ferramentas e instalações pertenciam aos capitalistas, enquanto os operários eram meros percebedores de salários, sujeitos aos acidentes, desemprego e doenças profissionais.

 

 

Na próxima semana a terceira parte.

 

Belo Horizonte, 11de Maio de 2007

 

Therezinha B. de Figueiredo     

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