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A bem da Nação

CRÓNICAS DE MOÇAMBIQUE

O delta do Banhine

 

 

O delta do Banhine, onde se situa o Parque Nacional do Banhine (PNB), estende-se entre as planícies do Alto Limpopo e do Alto Changane, a noroeste da província de Gaza. O delta é coberto por finos depósitos aluvionares, transportados por riachos efémeros subterrâneos cujas nascentes se localizam no Zimbabwe, ou são impelidos por intensas chuvas ocasionais. Na maior parte da área o nível freático encontra-se a uma significativa profundidade, frequentemente abaixo dos 60 metros.

Banhine relembra o famoso Okavango, misturando o misterioso, inexplorado, sagrado e romântico. É um lugar imprevisível que muda os cenários tão depressa como a coloração das suas águas superficiais.

Os habitantes locais designam a área por Banhine que, em shangane significa planície de inundação. Banhine ressurge e cataliza a atenção de um selectivo grupo de turistas e ornitólogos que procuram paz, harmonia e aves exóticas. A população de avestruzes que habita o PNB é um dos últimos gene pools de “avestruzes puras” na África Austral. Para surpresa e agrado de todos, elas encaram novamente os visitantes com maior naturalidade.

 

O SERENGHETI MOÇAMBICANO

 

Em 1972, esta vasta região de Banhine foi proclamada Parque Nacional e nessa altura terá vivido os seus momentos de glória.

Conhecido como o Serengheti de Moçambique, devido à presença de um grande número de mamíferos de grande porte que ocupavam a extensa planície de inundação, o Parque representava o habitat ideal para as avestruzes que sobreviveram às várias ameaças, em parceria com os antílopes de médio porte e as aves aquáticas, para além de uma importante diversidade de peixes.

Em meados dos anos 70, o PNB ficou literalmente entregue à sua sorte. Sem administração ou fiscalização do Estado, a caça furtiva e a captura ilegal imperaram, conduzindo ao extermínio de abundantes populações de mamíferos, como elefantes, zebras, bois-cavalos, pala palas e elandes, entre outros. A matança ocorreu em larga escala. Houve testemunhos da exportação de marfim do Banhine para a Europa no referido período.

Entre 1974 e1997, Banhine quase sumiu do roteiro da Conservação da Natureza moçambicana. Desde 1998, o programa do Ministério do Turismo para as áreas de conservação transfronteiriças assumiu a responsabilidade pela dotação de meios e recursos mínimos para a revitalização dos seus ecossistemas. Para a nova administração, a recuperação dos efectivos de avestruz afigurou-se como uma prioridade, paralelamente à gestão das zonas húmidas, que albergam uma considerável diversidade de aves aquáticas, muitas delas raras ou em vias de extinção. O programa tem tido resultado positivos a tal ponto que a população de avestruzes se cifrava em cerca de 800, segundo o censo de 2004.

 

O SANTUÁRIO DA AVIFAUNA

 

O PNB tem ciclos sucessivos de inundações e de secas que proporcionam extraordinárias condições de alimentação e de habitat para um grande número de aves aquáticas, incluindo flamingos, gansos, patos, pelicanos e cegonhas, para além de aves de rapina, como as águias.

Ornitólogos da região descobriram o local e viajam para o Banhine por sua conta e risco. Mesmo sem as condições semelhantes às de outros parques, estes visitantes instalam as tendas e desfrutam de belezas cénicas impressionantes, sobretudo quando as águas atraem os milhares de flamingos e pelicanos.

No local foi instalado um Centro de Pesquisa Científica. Para os académicos e outros interessados fica aberta a possibilidade de estudarem, a fundo, este importante ecossistema e a secular actividade piscatória cujo colectivismo é pouco comum.

As águas de Banhine surpreendem, também, por outras razões. Durante a época seca, cuja periodicidade varia entre os dois e cinco anos, as populações deslocam-se em grupos para as lagoas para praticar uma das mais antigas e interessantes formas de caça – a pesca colectiva.

 

A PESCA COLECTIVA NO BANHINE

 

As comunidades locais shangane controlam os ciclos de inundação e estiagem nas lagoas do Banhine. Os agregados familiares não devem exceder os 600 habitantes. Sempre que se antevê um período de estiagem, as famílias residentes convidam aldeias próximas ou distantes para as intensas sessões de pesca.

A pesca colectiva, passe a designação, assume contornos especiais por não usar métodos e instrumentos convencionais. Todos os pescadores começam por participar numa pequena cerimónia tradicional de culto aos antepassados. Seguidamente instalam-se em cabanas precárias, construídas em poucos minutos junto dos lagos e charcos pouco profundos. Finalmente, quando a ordem de avanço é dada pelo líder tradicional, entram para os lagos, com a água pelos tornozelos e, servindo-se de capulanas, peneiras, cestos de palha, latas e de outros utensílios, retiram da água praticamente todo o pescado indefeso e sem alternativas de sobrevivência.

A pesca colectiva dura no máximo duas semanas. Pode ser menos se a quantidade de peixe for reduzida. Quando o peixe é retirado, inicia-se o processo de tratamento. Depois de aberto e despido de seus interiores, o peixe é colocado em varões improvisados para um curto período de secagem. Os pescadores não arredam pé do local. Tudo quanto fazem é pescar, limpar e pendurar o pescado, secar e preparar os fardos para serem transportados e consumidos mais tarde noutros locais.

Quando a pesca termina, a estiagem já não dá tréguas e só restam os ovos dos peixes. Estes ovos são o garante para uma nova geração piscícola, quando a água regressar alguns meses mais tarde. Para os convidados, com os cestos mais ou menos repletos, sobra o longo percurso de volta às aldeias. A estiagem ganha corpo e a planície seca na totalidade. Banhine vira local desolador. O ecossistema perde muito da sua vitalidade. As aves aquáticas vão embora, os mamíferos iniciam uma pequena migração para os rios Save ou Limpopo e apenas as avestruzes resistem a tanta secura e ao “pousio” da Natureza.

Pela sua natureza e peculiaridades, jamais esta pesca colectiva foi posta em causa. Nem faria sentido “desaproveitar” tanto peixe que estaria condenado a morrer de forma natural. O ritual, na realidade, é secular. Até parece que só esta actividade colectiva garante a sobrevivência da planície, da qualidade do peixe e da vitalidade do delta.

Este ano o delta secou. Banhine vestiu-se de nostalgia e de recordações.

Memórias da estação de diversas cores, de penas e pássaros, chifres, pernas e peixes, de movimento e agitação. Por enquanto, o delta repousa. Aguarda, em silêncio por um novo tempo de chuva que venha molhar os espíritos e alegrias dos residentes e das espécies animais.

 

Jorge Ferrão

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