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A bem da Nação

ERNESTO DA CAL


(Ferrol, 1911 ou 1915 - Estoril, 1995)

As traseiras da casa que eu habito dão para a Rua Prof. Ernesto da Cal.

Poucas pessoas sabem de quem se trata mas acontece que eu fui seu amigo e com ele privei, sobretudo na década de 80, aqui no Estoril.   Seguem alguns dados e lembranças sobre Da Cal.

Ernesto Da Cal nasceu no Ferrol, Galiza, em 1915. Era filho de um engenheiro da base naval. Quando eclodiu a Guerra Civil de Espanha, Da Cal cursava Humanidades na Universidade de Madrid.   Como todos os estudantes madrilenos dessa geração,   alistou-se para combater pela República.    Em Abril  de 1939, foi enviado aos EUA, numa missão relacionada com a compra de armamentos. Encontrava-se em Nova York quando o Governo republicano abandonou Espanha. Decidiu então varrer a Espanha do mapa e dedicar-se ao ensino nos EUA. Doutorou-se na Columbia University, com uma tese sobre Eça de Queiroz e seguiu a carreira universitária, regendo as cátedras de
Literatura Portuguesa na NY University e no City College de Nova York.    Ao reformar-se em 1975, instalou-se em Portugal – a sua "Galiza realizada" – onde viria a falecer em 1995.   No Outono de 1984, a meu insistente pedido, Da  Cal acedeu mostrar-me a sua Espanha. Foi a primeira vez que pisou território espanhol, após a vitória do Franco. O que se segue são apontamentos de conversas recolhidos durante essa viagem.   Tratar-se-ia de uma viagem ao passado, não fosse o caso de, como diria Da Cal, o factor tempo em Espanha ser inconsequente.

Fala Da Cal:

- "A memória é sempre uma recriação pessoal da História. Como tal, pressupõe arte. A memória é pois uma versão artística da História."

- "Eu tenho um conceito metahistórico que me permite ver que em Espanha nada de novo acontece. O conflito centro-periferia  é tão velho como as populações da Península. A resistência ao poder central,   seja nacional ou estrangeiro, seja imposto em nome do César ou de Cícero,   do Império ou de Deus, é sempre uma relação de forças e não de vontades.   A vontade persiste; não pode ser aniquilada."

- "Madrid do meu tempo era uma pequena cidade no meio de um deserto. Conhecíamo-nos todos. Até Primo de Rivera conviveu connosco, os estudantes. Era um príncipe, mas matava sem piedade. Foi ele quem iniciou a onda de atentados que viriam a  desestabilizar a República. O pai deste rei foi meu companheiro na turma do colégio".

- "Odiávamos Alfonso XIII, mas hoje reconheço que foi um grande espanhol. O patético da saída da família real espanhola acabou por me comover. Nunca perdoei ao Embaixador inglês não ter comparecido à despedida da Rainha Eugénia, tia do rei de Inglaterra."

- "Nós, os estudantes, defendemos Madrid para evitar  que Madrid caísse nas mãos dos "centralizadores". Queríamos Madrid pueblo e não Madrid capital.”

À chegada a Madrid,  no Outono de 1984:

- "Olha! Este era o caminho que levávamos para a guerra. Íamos ali adiante, ás Portas de Hierro, impedir o avanço dos  mouros. Eu era sargento das milícias. Tinha 19 homens sob o meu comando. Nenhum sabia nada de guerra. Nem eu. Os milicianos achavam que não é próprio do homem esconder-se ou agachar-se. Combatiam de peito aberto. Não escapou nenhum. Por essa encosta abaixo correu muito sangue. Só nos defendíamos. Nunca contra-atacávamos pois os anarquistas, que eram em maior número, votavam sempre contra qualquer proposta de contra-ataque. Os franquistas podiam sempre reagrupar as suas forças e lançá-las de novo contra nós. Eu escapei por milagre. Pouco antes do ataque franquista que trucidou o resto da minha gente, um estafeta veio-me chamar para comparecer no Comando Geral. Queriam-me em Barcelona, como tradutor, para ajudar as Brigadas Internacionais.   Em Barcelona, nada
havia para comer. Íamos para as docas esperar pelos bombardeamentos aéreos. Quando as bombas caíam na água, os peixes mortos saltavam para terra. Era a nossa única fonte de proteínas."

Ernesto Da Cal recita:


- "Y el Cid - lucero de hierro -

    por el cielo azul cabalga".

 

Em Granada,   de visita à catedral, Ernesto da Cal estava um pouco engripado mas lá ia acompanhando a corrente dos que visitavam o monumento. À saída, falando com um padre jesuíta, lamentou:

- Granada produziu Llorca, mas mataram-no.

O jesuíta: - Deram-lhe a glória. Llorca só é admirado porque o mataram.

Da Cal explode: - Não pode dizer uma cousa dessas!   

Quer tomar um pouco de rapé? - atalha o padre.

- Agradeço.

Ernesto aspira um pouco do pó e espirra.

- Alivia muito a cabeça – comenta o padre e acrescenta: “Se não posso salvar-lhe a alma, pelo menos livro-o da gripe”, Diderot.

 

 

“RIO DE SONHO E TEMPO”

Non toques a lembrança
branca frol de penuxen
que do sopro mais leve
se dispersa no ar

O calix que contén
o vinho do recordo
é cristal de saudade
e quebra só de olhar

Nunca voltes do eisilio
en procura de aromas
do remoto xardín dos anos idos
—o teu retorno os tornará perdidos
e xa máis nunca os poderás lembrar

Deixa a memoria livre
inventar a verdade
das cousas que pasaron—
sen pasar.

 

Estoril, Maio de 2007

 

Luís Soares de Oliveira

 

 

Notas do “A bem da Nação” extraídas da Internet:

 

1.      Guerra da Cal (pseudónimo de Ernesto Pérez Guerra, nacido en El Ferrol en 1911) fue uno de los más íntimos amigos gallegos de Federico García Lorca, colaborando estrechamente con el poeta andaluz - como co-autor a juicio de Gibson y García Posada - en los 'Seis Poemas Galegos'.

 

 

2.     ARQUIVO DA EMIGRACIÓN GALEGA

 

GUERRA DA CAL, Ernesto (Ernesto Laureano Pérez Guerra)

 

Países: Estados Unidos / Portugal

Delegação "americana" ao Congresso dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa 1960 - Ernesto da Cal é o terceiro a contar da esquerda

 

(Ferrol, A Coruña, 22/12/1911 - Lisboa, 27/07/1994)

De rapaz e trala morte do pai, viviu varios anos en Quiroga. Despois vive e estudia en Madrid onde fai amizade con García Lorca, Américo Castro, Neruda, Buñuel e Serafín Ferro, frecuentando a tertulia do café "Regina". Durante a Guerra Civil colabora na revista "Nova Galiza" publicada en Barcelona e na que firma co seu verdadero nome, Ernesto Pérez Guerra. Tamén formou parte do Batallón de Milicias Populares Gallegas e combate na fronte de Toledo. Mais tarde fai tarefas especiais para a Sección Exterior do Servicio de Información Militar do Ministerio de Guerra, trasladándose de Barcelona a Nova York en misión oficial. Ó fin da guerra sorpréndeo nesa cidade e decide permanecer alí para seguir ampliando os seus estudios. En 1939 vai formar parte do corpo docente na Universidade de Nova York onde organiza un programa de doutoramento en portugués e doutórase na Columbia University coa tese "Lengua y estilo en Eça de Queiroz". Foi un destacado especialista en estudios portugueses e na lírica galega. Fixo traballos para enciclopedias importantes como a "Colliers Encyclopedia" (1949-1950), na "Encyclopedia of World Literature"(1946) ou na "The American Encyclopedia"(1967) . Tamén fixo importantes contribucións ó "Diccionário de Literatura Portuguesa, Galega e Brasileira" (Lisboa, 1955-57). En outubro de 1959 foi nomeado doutor "honoris causa" pola Universidade de Bahía (Brasil). Unha vez xubilado, no ano 1977, retírase a vivir en Estoril, Portugal, continuando nos últimos anos da súa vida defendendo a causa de Galicia e da súa lingua e cultura. Morre en Lisboa á idade de 82 anos

en xullo de 1994. Casou con Margarita Ucelay, exiliada española, docente de literatura española en Nova York.

Obra no exilio: "Lua de alén mar" (1959); "Poemas" (1961); "Río de sonho e tempo" (1963); "Motivos de Eu" (1966); "O renacemento galego contemporáneo" (1965); "Linguagem e estilo na obra de Eça de Queiroz" (1968); "Futuro inmemorial" (1985); "Deus, Tempo, Morte, Amore e outras Bagatelas" (1987); "Seis poemas de Rosalía de Castro" (1988); "Espelho Cego" (1990); Carta a Valentín Paz-Andrade (Estoril, 18 de marzo do 86) en: PORTELA YÁÑEZ, Charo e DÍAZ PARDO, Isaac (ed.) (1997a); "Caracol ao Pôr-do-sol" (1991)

 

Organizacións ás que pertenceu:

Batallón de Milicias Populares Gallegas

 

 

 

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