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A bem da Nação

UMA VERDADE MUITO INCONVENIENTE

 

 

A crise actual resulta de uma espécie de aquecimento global: os nossos salários estão demasiado elevados para a produtividade. Isso derrete a nossa competitividade, leva à extinção de vários sectores, altera o clima das empresas. Foi isso que veio denunciar o recente Boletim Económico do Banco de Portugal, perante a indignação de sindicatos e comentadores. Esses interesses, que pretendem seduzir a opinião pública a ignorar o óbvio, mostram que esta é uma verdade muito inconveniente.

A balança externa tem um défice ao nível do pior da nossa História Moderna. Temos desemprego, crescimento baixo, falta de competitividade e elevados custos laborais. Não é preciso muito para compreender que o último facto causa todos os anteriores. É verdade que existem muitas outras coisas a afectar a nossa conjuntura. A crise orçamental e a invasão chinesa, os problemas educativos e a derrapagem na saúde, mudança de tecnologia, moeda única e alargamento europeu. Mas não está aí a causa específica da situação. As crises orçamentais e ameaças externas têm-se repetido por cá sem darem crises e os problemas educativos e sanitários são endémicos na sociedade portuguesa. Quanto às outras mudanças, elas trazem tantas oportunidades quanto perigos. Apontar esses elementos não é diagnóstico, mas simples sumário descritivo.


 

 

 Nem mesmo unidos os proletários de todo o mundo conseguirão agora vencer os ditames da China que ainda se diz comunista

 


O busílis da questão é que Portugal é o país dos Quinze que nos últimos dez anos mais aumentou os seus custos de trabalho por unidade produzida. Quase todos os nossos parceiros e a média europeia reduziram esses encargos, que nós temos subido. Este indicador, relacionando o crescimento dos salários com a produtividade, é uma das formas mais adequadas de apreciar a evolução da competitividade de uma economia. Tal significa que perante os desafios da globalização os Estados europeus têm feito reformas e ajustado as suas economias, enquanto os portugueses se deixam embalar em retóricas enganadoras e direitos adquiridos.

Dito de forma mais directa, a causa principal do enorme e teimoso desemprego e da anemia produtiva que nos assolam é os nossos salários andarem demasiado altos. Perante isto muitos respondem, com irritação e desprezo, apontando para o baixo nível das suas remunerações relativamente ao que ganham os estrangeiros ou os políticos. Mas não é com esses que se deve fazer a comparação. O confronto que importa é com a produtividade, o que se consegue precisamente pelo estudo dos custos de trabalho por unidade produzida, que nos diz que estamos a ganhar de mais para o que fazemos.

Essa é aliás a razão da invasão de imigrantes, atraídos pelas generosas condições que nós minimizamos e eles desejam. Aceitando montantes menores que os que exigimos, ficam com os empregos que os portugueses não querem. Desde o início do ano 2000 a nossa economia tem mais 232 mil desempregados. Mas no mesmo período não se reduziram os postos de trabalho disponíveis, antes aumentaram de uns impressionantes 170 mil lugares. A economia portuguesa, apesar da crise, está a criar muitos empregos. Mas empregos que os portugueses desdenham e os estrangeiros vêm ocupar.

Desemprego, défice externo, estagnação, imigração, todos os sintomas nos dizem que só recuperaremos a dinâmica económica se reduzirmos o nível salarial e mudarmos a legislação laboral, ajustando-os à realidade. Isso acabará por ser feito, quer queiramos quer não, através das falências, despedimentos, recessão económica. Seria muito mais rápido e saudável se fosse assumido explicitamente e corrigido conscientemente.

Infelizmente muitos interesses gostariam de poder ignorar esta realidade. Atribuindo a outros as suas responsabilidades, evitam o que é preciso fazer. Esses têm o poder para adiar a terapêutica e arrastar a crise muito mais do que seria preciso. Mas a economia, como o clima, tem uma característica definitória, o seu impiedoso realismo. Quem se recusa a atender às suas previsões, em nome de doutrinas e ideais, sofre sempre as consequências. Esta é uma verdade muito inconveniente.

 

João César das Neves
professor universitário

naohaalmocosgratis@fcee.ucp..pt

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