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A bem da Nação

O VICE-REINADO DO PRATA – 6 (última parte)

                                

 

AS RAZÕES DA FRAGMENTAÇÃO

 

 

   O final da quinta parte relata o interesse da Inglaterra pela autonomia dos povos americanos de colonização ibérica.

 

   

   A Inglaterra aproveita a crise de autoridade proporcionada pela fase napoleónica e começa a remover os últimos obstáculos à conquista plena dos mercados antes vedados da América. Depois de atacar a colónia holandesa do Cabo, que já fora lusa, uma esquadra britânica desembarca forças em 1806, em Buenos Aires. No ano seguinte repete a operação. A presença inglesa estava lançada no Prata. Antes mesmo de chegar à capital da colónia, Rio de Janeiro, a corte de Lisboa decreta a abertura dos portos, em 1808 e estabelece na colónia um governo europeu e metropolitano. O ministro inglês Strangford conseguira não só o acto relativo aos portos, mas o encaminhamento dos Tratados chamados de aliança e amizade, firmados em 1810.  Eram concedidas às mercadorias britânicas direitos de entrada inferiores aos que incidiam sobre as mercadorias da metrópole. As acções da Inglaterra na luta pela emancipação das colónias ibéricas da América exterioriza o domínio que vinha exercendo na esfera comercial. Um exemplo da associação da Inglaterra naquela luta foi a participação de um almirante inglês no comando da frota que transportou as tropas de San Martin do Chile ao Peru. Essa mesma frota serviu à consolidação do poder do príncipe D. Pedro no Brasil. Operou para submeter as províncias do norte e nordeste ao governo do Rio de Janeiro e contra a própria frota lusa no Atlântico.

 

Carlota Joaquina quis ser raínha em Buenos Aires mas os ingleses não gostaram da ideia

 

   O grupo mercantil de Buenos Aires imporia, com as forças das circunstâncias e a própria força, o direito de comerciar com todos os povos. O Vice-Reinado organizado sob o sistema de comércio livre com a metrópole, dá assim o primeiro passo para a autonomia. Após a independência do poder político,   as colónias hispano-americanas começaram a traficar com os ingleses que abasteceram os seus mercados. Os navios espanhóis ficaram impossibilitados de navegar no Atlântico já dominado pelos ingleses.

 

   Da queda da monarquia espanhola à consolidação da autonomia platina transcorre um período em que o comércio daquela área se desenvolve extraordinariamente com a Inglaterra e o Brasil. O movimento pela autonomia liderado por Buenos Aires e vitorioso, somado às novas condições comerciais, agravam ainda mais a situação de desequilíbrio já existente entre as províncias do litoral e as do interior. As do litoral colhem os benefícios da liberdade de comércio:  - enriquecem e desenvolvem. O grupo mercantil dirigente da revolução e possuidor de meios materiais para manter forças militares, resiste e combate remanescentes espanhóis, estendendo a emancipação a outras áreas e subordinando-as em muitos casos.  As do interior com sua indústria precária fora prejudicada pelo sistema de livre comércio. Empobrecia gradualmente. Nelas reinavam a desordem e o caudilhismo e os seus produtos ficavam onerados pelos fretes de transporte e taxas cobradas sobre eles em Buenos Aires. Havia, ainda, uma diferença entre o porto do estuário e as províncias litorâneas não dotadas de alfândegas. Elas não auferiam, por isso, os mesmos benefícios de troca com o exterior.

 

   Essa contradição minou a unidade do Vice-Reinado, que se fragmenta após a sua autonomia.

   O sistema comercial firmado na função da alfândega de Buenos Aires e a primazia da cidade portuária correspondia a uma liderança sobre a nação recém nascida e contra essa liderança levantariam todos os prejudicados: - O Paraguai, a Banda Oriental, as Províncias do interior. Buenos Aires defrontaria sérios obstáculos ao desenvolvimento. De um lado, a luta contra os remanescentes espanhóis; do outro, o desequilíbrio interno com as partes em luta pondo em perigo a própria autonomia.

 

   Enquanto confusão e tumulto geram a nacionalidade argentina, no Brasil corresponde a um período de desenvolvimento pacífico; de consolidação de reformas, em que o príncipe D. João, regente e depois rei, esboça o aparelho de Estado, firma a autonomia da Corte sobre a extensa área geográfica da colónia; estrutura a sua administração sempre com o apoio da Inglaterra,   consegue alcançar empreendimento externos, como a conquista de Caiena e a expansão para o sul. Ao mesmo tempo, D. Carlota Joaquina aproveitando as circunstâncias e as condições dinásticas, pretende estabelecer um trono para ela em Buenos Aires. A crise, no Brasil, deflagraria mais adiante e demandaria imensos esforços. Na área platina vinha de longe: - a autonomia apenas a fez explodir. Se a maioria das províncias do interior se colocavam dependentes da cidade portuária sem condições de resistência, outras desde cedo repudiaram a liderança de Buenos Aires como Lima, Paraguai e Alto Peru. Esta é uma das explicações para a guerra contra o Paraguai empreendida na segunda metade do século XIX pelo Brasil, Argentina e Uruguai. O antagonismo económico e social impôs a separação política. Depois de 1617,   quando o Paraguai se separou administrativamente de Buenos Aires, ficou privado do contacto directo com o Atlântico e manteve-se isolado sem conseguir superar essa dificuldade, apesar do comércio com os portugueses.

    

    A crise era generalizada: - o retrocesso do sector industrial era consequência exclusiva da crescente entrada de mercadorias estrangeiras que regulavam no mercado colonial as relações de oferta e procura.  Enquanto na Europa a decadência do artesanato é superada com o surgimento da manufactura nacional, nas colónias não aconteceu este factor substituição.

 

    Do outro lado do estuário surge o protesto de Montevideu, que com o passar do tempo ganha impulso e começa a rivalizar com Buenos Aires. No fim do século XVIII, a luta da cidade oriental manifesta-se abertamente. No início do século XIX, a rivalidade cresce entre os dois portos. Buenos Aires acusa Montevideu de "maus patriotas, piores súbditos, espanhóis só de nome, traidores ao Rei e à Nação" e até mesmo de "colónia inglesa". Mas as crónicas da época apontam a entrada, em Montevideu, em 1805, de 22 navios norte americanos. Onze deles transportavam escravos. Em 1806,   este número cresce para trinta. Vinte transportavam escravos. Desde os fins do século XVIII, o Prata vinha merecendo os cuidados e as atenções norte-americanas, que via nesse amplo mercado uma área pela qual devia lutar.

 

   A nova política comercial espanhola continha a semente da contradição. A prosperidade metropolitana induz o movimento pela autonomia das colónias. O desenvolvimento delas continha, por sua vez, a semente da penetração inglesa e seu domínio posterior.  Como o grupo mercantil portenho aceitara e se beneficiara das medidas do novo sistema de comércio, ela aceitaria e se beneficiaria do sistema imposto pela expansão inglesa. Sem constituir capital comercial suficiente para construir a produção manufactureira, mantendo unicamente a esfera da circulação comercial, a burguesia portenha seria empresária de uma revolução pela autonomia frustrada, reduzida ao plano político. A Argentina constituiria – como o Brasil – dependência económica e financeira da Inglaterra, por todo o século XIX. E em grande parte do século XX, quando representou o último suporte do imperialismo inglês nesta parte do continente – o último a ceder lugar ao norte-americano.

 

 

Belo Horizonte, 25 de Abril de 2007 

 

Therezinha B. de Figueiredo

                    

 

Fonte de pesquisa:

«As Razões da Independência»

Nelson Werneck Sodré

Editora Civilização Brasileira – 3° edição

 

 

 

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