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A bem da Nação

CRÓNICAS DO BRASIL

O  VELHO  AUTOMOBILISTA

 

Para quem tem carta (ou carteira) de condução há mais de 57 anos, a sua renovação não poderia ser outra coisa além dum mais ou menos simples exame médico, as convenientes fotografias e... toma lá, dá cá, o que é usual em países que não necessitam ser do primeiro mundo, mas do mundo da lógica, do simples, do corretamente administrativo.

Mas aqui, sob o brilho do sol tropical, onde o calor convida a menos deslocações, menos tempo em filas (bichas), mais simplicidade ainda, se possível, seria recomendável. Não é. Tudo complicado, burocrático, demorado, custoso, sacrificante e muito demorado.

Como avançado em anos, valendo-me da lei que manda os idosos passarem na frente dos ainda mais ou menos jovens, pensava que ao me dirigir a um departamento do DETRAN, responsável por esse serviço, além de ser amavelmente recebido por uma funcionária, o que aconteceu, veria o meu “problema” resolvido na mesma hora. Não. Foi ouvir, atrás do mais simpático sorriso carioca, que eu não podia ser atendido sem que previamente marcasse, pelo telefone, o dia e hora para ser atendido. Para facilitar a vida do velhote. Perdi um dia!

Deu trabalho a tal ligação telefônica. Ou estava ocupado ou nos enfiavam uma musiquinha no ouvido durante uns dez ou quinze minutos até que... caía a ligação. Por acaso a musica nem era muito ruim: um concerto de Liszt! Fino, hein? Repete a cena, gasta mais uma, longa, ligação telefônica e lá acaba por aparecer uma voz, sempre docemente carioca, que agenda o atendimento para dali a meia dúzia de dias. Com hora marcada.

Volta ao tal DETRAN; ali recebe uma folha de papel informando que necessita levar os originais e mais um xerox de: carta de condução, carteira de identidade, CIC (cadastro de contribuinte) e ainda uma prova de residência, para o que serve a conta da água, da luz ou semelhante.

Como é habitual, ali perto tem uma papelaria que vive de fazer xerox para os motoristas!

Preenche um formulário onde se inclui nome de pai e mãe (os avós foram dispensados), endereço, telefone e até o e-mail! Chique! Modernidade é isto.

Depois de conferida toda aquela papelada, cujos dados são transferidos para o computador, os xerox que nos custaram dinheiro vão todos para o lixo!!! (Porque não copiaram dos originais?)

Por fim entregam-nos uma espécie de outro formulário com a indicação dum centro médico onde tem que se fazer o exame de vista. Só de vista. Também é necessário marcar dia e hora pelo telefone, e chegado o tempo, vai o teimoso motorista, lá, onde Judas perdeu as botas, ser ocularmente examinado. Antes porém do exame preenche novo formulário, outra vez incluindo pai e mãe, endereço, e-mail e outras utilirrémas indicações, paga R$ 42,00 em dinheiro vivo (não aceitam cheque nem cartão de crédito, nem dinheiro morto), até espreitar por uma espécie de binóculo com uma letrinhas lá no fundo.

Findo este, o formulário (o primeiro), recebe um carimbo, que deveria dizer “Olho Vivo”, mas que nada diz. A peregrinação continua. Dali volta ao tal DETRAN, preenche novo formulário - a funcionária já não se lembrava quem eu era! - insistem em que é necessário o nome dos pais, mandam o paciente sentar-se em frente de outra colega que lhe tira um retrato “virtual”.

Pronto. Pronto? Nada. Agora tem que ir fazer um exame de leis de trânsito. Chamado de Prova Simulada. Até eu, que tenho carta há mais de meio século ?!?  Agora é que preciso mostrar que conheço as leis de trânsito? É.

Dão-nos um folheto muito bonito para que o incauto motorista estude aquilo que ele faz já, mecânica ou instintivamente, há décadas. Pelo sim, pelo não, abre o folhetinho e... é uma delícia. Explica o que é um choque, um atropelamento, e outras aventuras usuais, que colisão frontal ocorre quando um dos veículos circula na faixa errada (o que foi uma tremenda novidade), descreve o que se chama de Acidente Misterioso - quando o motorista não sabe explicar o que lhe aconteceu (freqüente nas madrugadas de sextas e sábados)-, tem uma tabela com o custo de cada multa, não na moeda do país mas em Ufirs (Unidade de Referência Fiscal, já extinta por Decreto Lei mas... ainda em uso!), e ainda destaca que o cidadão é o indivíduo consciente do seu papel na sociedade. Um “baita” tratado de filosofia popular.

A segunda metade do folheto traz uma série de perguntas com as várias alternativas de resposta certa ou erradas. Uma BELEZA. Fala em inércia e cinergia, que para um povo culto é o mesmo que arroz e feijão, indica que a resposta certa para o caso de se encontrar um acidente na estrada é deixar o acidentado morrer (porque o Simulado não distingue entre babaca e médico, por ex.) e por aí vai nessa festa.

Mais uns detalhes: para se fazer esta “Prova Simulada”, há que, pela “enésima” vez, marcar dia e hora pelo telefone! Dez ligações infrutíferas, outros tantos minutos de música e esperar mais dez dias pela sua vez. Chegada a hora o desgraçado lá vai, para lá... longe, faz a prova num computador, rodeado de gente que nunca viu um bicho eletrônico.

Terminaram as andanças!

Não. Há que voltar ao tal DETRAN e, por fim, receber a nova carteira, cabisbaixo, sabendo que daqui a três anos terá que repetir todo este peregrinar!

Há dois dias este delicioso DETRAN, mandou para os jornais a seguinte nota:

”O DETRAN-RJ pede desculpa pelos transtornos causados aos usuários e informa que o pedido de alteração da Carteira Nacional de Condução solicitado pela usuária “x”já foi encaminhado para o posto... O prazo de conclusão do processo, citado pela usuária, varia de acordo com a demanda sendo, geralmente, concluído em menos de noventa dias”!

Que delícia. Menos tempo do que isto levou o Cabral para aqui chegar e a Carta de Caminha a ser entregue ao Rei!

Será que o arquivo do DETRAN ficou esquecido em Lisboa quando o Dom João VI para aqui veio? Como temos progredido!

 

Rio de Janeiro, 23 de Abril de  2007

Francisco Gomes de Amorim

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