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A bem da Nação

Marcas dos Açores nos Sertões de Minas Gerais

“Eles chegaram empoeirados das andanças

Poeira do chão e das lembranças

Sonhos carregados de esperanças

O dourado sol brotou da terra

Do seio centenário rasgado a fundo

Burros e caçambas num segundo...”

 

(Mário Edson Ferreira Andrade)

  

  

 

Nelson Rodrigues, polémico escritor e jornalista pernambucano, já dizia:

“Nós esquecemos o passado. Um dia desses quando acordarmos seremos um povo sem história”. Nunca um pensamento foi tão verdadeiro como este para aqueles que vieram para os sertões brasileiros.

 

Após se embrenhar nas matas seguindo as picadas abertas pelos bandeirantes, à cata das riquezas do eldorado, esses homens afastados de tudo e de todos, lutando contra o gentio e a natureza selvagem, desbravaram a terra e a colonizaram. Nela tornaram-se donos e senhores todo-poderosos, deixando para trás histórias e raízes às vezes não tão nobres e respeitáveis.

 

Faiscadores, militares, padres, aventureiros, oportunistas, vaqueiros, peões, homens e mulheres que procuravam uma nova vida, eram as pessoas que se atreviam a enfrentar o inóspito sertão. Necessidades de toda a ordem e fome grassavam entre esses mineiros pioneiros. E assim foi necessário abastecer o interior das Minas Gerais de carne, que vinha através dos caminhos do sertão do sul, região meridional do país, onde imigrados açorianos criavam gado e plantavam trigo. Tocando os bois chegavam os vaqueiros e tropeiros do sul que nas novas terras do sertão se juntavam a outros migrantes, e acabavam por ficar quando recebiam como pagamento parcelas de terra e percentagens de gado que dividiam desigualmente com os donos pioneiros das sesmarias.

 

Isoladamente ou com suas famílias, mais açorianos foram chegando a essas paragens. Traziam hábitos e costumes ilhéus que foram ao longo dos anos se adaptando à medida que a relação com o meio ambiente exigia. A farinha de trigo, no sertão não produzida, foi substituída pela farinha de mandioca do silvícola. A carne bovina, mais farta, passou nessa nova terra a ser mais consumida. A religiosidade, a administração doméstica, a culinária, as expressões culturais receberam acréscimos e alterações africanas e gentílicas numa demonstração de capacidade de assimilação e integração com outros povos, sem contudo  perderem as características que os tornavam culturalmente identificáveis.

 

A distância das origens, o isolamento, a rusticidade do meio, a união com o gentio e o africano, as lutas pela sobrevivência e pelo chão, fizeram desse imigrante um forte, o pai de um novo povo. Mas como a herança que vai de pai para filho,   também nas gerações que se sucederam apareceram as marcas destes pioneiros.

 

Os açorianos que emigraram inicialmente para o Brasil foram na nova terra bandeirantes, desbravadores, colonizadores, vaqueiros, escravos brancos, construtores de fortalezas, fundadores de vilas, cidades e comunidades, agricultores, criadores de gado, políticos, padres, militares, enfim homens que ajudaram a construir as Minas Gerais e outras regiões deste país. Era o ilhéu daquele tempo homem rústico, desassombrado, profundamente religioso, amável, porém místico e desconfiado, curioso, rijo de físico e de carácter.

 

Nas festas populares, em geral de cunho religioso com laivos pagãos, nos hábitos de formarem irmandades, no amor à família, no apego às tradições, no espírito independente, na hospitalidade, na vocação feminina para o artesanato, no ciúme de suas mulheres, na mesa farta de doces, pães e queijos vemos nos mineiros a herança vocacional dos seus antepassados açorianos. Muitas famílias que nestes solos aportaram (Terra, Brum, Silveira, Dutra, Faria, Fagundes, Rosa, Rezende, Cunha, Garcia, Neves, Bittencourt, Goulart) e que hoje são referência na história mineira,  vieram das ilhas de bruma e lava, e com muita peleja e dificuldade ajudaram a construir no Brasil um novo mundo.

 

Uberaba, 14/04/97

 

Maria Eduarda Fagundes

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