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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 16

 

 O prazer do voo

Foi nos idos de 70 do século passado, o XX, que li um pequeno livro do americano Richard Bach (1936, Illinois, EUA -) que na tradução portuguesa se chamava “Fernão Capelo Gaivota”. Oferecido por uma amiga na despedida de uma das minhas saídas para África, li-o duas vezes durante o voo de Lisboa a Luanda; não o li pela terceira de Luanda a Lourenço Marques. E se o li duas vezes, isso ficou a dever-se ao facto de me ter sido oferecido por quem foi e porque nele descobri o peso que ao longo da vida transportamos com tudo o que é prosaico e senti a leveza do que é profundo. Os pássaros do livro – como os da Natureza – passam a vida a tratar de comer; o pássaro-herói admirava-se como os seus congéneres ignoravam tudo o que é superior, nomeadamente a delícia do voo, ou seja, o imaterial, a espiritualidade. E se os outros perseguiam pequenas partículas e insectos, ele conseguia imaginar-se em céus infinitos e desmaterializar-se de uma nuvem para outra apenas por força do pensamento. A imaterialidade deveria reinar sobre o mundano, o espírito deveria comandar tudo …

 

É claro que me lembrei sempre do famoso conselho que nos sugere “primum vivere, daeinde philosophare” mas não esqueci aquele extremo literário do americano Bach e sempre que vejo alguém a carregar um saco de batatas ou a falar com uma linguagem muito técnica – daquela que nós, os economistas, tanto apreciamos – logo neles vejo os congéneres do pássaro-filósofo Fernão Capelo Gaivota.

 

Eu próprio tratei de arrebanhar partículas e insectos enquanto estive ao activo mas agora que estou aposentado posso deliciar-me com o prazer de voar. E é isso que sinto fazer quando leio livros como este a que agora passo a referir-me:

 

Título: A Ideia de Europa

Autor: George Steiner

Tradutora: Maria de Fátima St. Aubyn

Editora: Gradiva

Edição: 1ª, Setembro de 2005

 

 

Com 55 pequenas páginas, é da dimensão de um livrinho: breve prefácio de José Manuel Durão Barroso, ensaio introdutório de Rob Riemen e apenas 30 páginas de texto do Autor propriamente dito.

 

A contra-capa desperta o interesse do putativo leitor de um modo realmente cativante:

«A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. […] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘ideia de Europa’.» «Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho de – como Trotsky proclamou – o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Göthe. Liberto de uma ideologia falida, o sonho pode e deve ser sonhado novamente. É porventura apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido da vulnerabilidade trágica da condition humaine poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que ‘a vida não reflectida’ não é efectivamente digna de ser vivida.»

 

Mas esta selecção fica longe de resumir as 30 mais densas páginas que li nestes últimos tempos, excepção feita a qualquer grupo de 30 páginas da ‘Crítica da razão pura’ de Kant que venho tentando digerir com alguma cerimónia há cerca de ano e meio.

 

Se tivesse sido eu a fazer a contra-capa, eventualmente teria escolhido outras frases e uma que por certo haveria de ponderar seria aquela em que o Autor afirma que «(…) este mamífero desgraçado e perigoso gerou três ocupações, vícios ou jogos de uma dignidade completamente transcendente. São eles a música, a matemática e o pensamento especulativo (…)» ou aquela outra em que cita Leibnitz quando o filósofo afirma que «quando Deus fala consigo próprio, canta álgebra». E as escolhas poderiam ser tantas que a boa solução passa precisamente pela ausência de qualquer escolha, o que na prática se traduz na leitura do livro. E o convite à leitura integral do texto resulta ainda mais explícito quando, a título de resumo, o Autor refere os seus cinco axiomas definidores da Europa – o café, a paisagem a uma escala humana, a toponímia humanizada, a dupla descendência de Atenas e Jerusalém e a apreensão do ocaso – e pergunta: «E a seguir?»

 

 George Steiner e «a demanda do conhecimento desinteressado»

Se quer saber, leia o livro e faça-o lentamente como que a saborear. Nem todos os dias nos aparecem pensadores que justificam um prefácio como o de Durão Barroso, a não perder.

 

Assim como também não é diariamente que lemos textos como o de Rob Riemen num ensaio introdutório cuja nota dominante é a de «convidar os outros para o significado».

 

Sim, porque «somos todos gregos».

 

Com a vantagem de proporcionar fácil transporte, este é dos tais livros que hei-de reler e, depois de já o entender plenamente, então vou saboreá-lo.

 

Lisboa, Abril de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

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