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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 14

  

Título: D FERNANDO II – UM MECENAS ALEMÃO REGENTE DE PORTUGAL

Autora: Marion Ehrhardt

Editora: Livraria Estante Editora – Aveiro

Edição: Maio de 1987

 

 

 

 (Coburg, 1816 - Lisboa, 1885)

 

A minha curiosidade sobre D. Fernando de Saxe-Coburg-Gotha, marido da Rainha D. Maria II e “autor” do Castelo da Pena, foi-me satisfeita pelo meu amigo António Teixeira Homem que me emprestou o documento que rapidamente li com interesse.

 

Considerando que o texto é bilingue em português e alemão, que há uma parte de Notas Explicativas e algumas gravuras e que tudo cabe em 60 páginas, temos que concluir que se trata de um pequeno opúsculo, passe o pleonasmo. Consiste a publicação na transcrição da conferência proferida pela Autora em Dezembro de 1983 na abertura da «Exposição de Ex-libris Alemães» realizada pelo Instituto de Estudos Alemães da Universidade de Coimbra, em colaboração com o Göthe-Institut, vulgo o Instituto Alemão.

 

Devo desde já esclarecer que nunca compreendi com precisão como é que há quem atribua a D. Fernando o título de Rei pois, ao abrigo da tradição portuguesa – onde não se aplica a Lei Sálica – o critério sucessório do trono sempre recaiu sobre o mais velho dos filhos varões do Rei e, inexistindo filho varão, na filha mais velha. A mulher do Rei é Rainha mas o marido da Rainha titular do trono é Príncipe consorte. Veja-se o caso britânico actual com a Rainha Isabel II, titular do trono, sendo o Duque de Edimburgo, seu marido, o Príncipe consorte. A lei portuguesa é igual à inglesa e creio que isso sucede desde o reinado do nosso D. João I cuja mulher era inglesa, a Rainha D. Filipa de Lencastre, e terá sido ela que trouxe a lei. Mas como nós, os meridionais latinos, somos mais sanguíneos que os frios nórdicos britânicos, admitamos que o marido da Rainha possa ser Rei consorte em vez de apenas Príncipe consorte. Essa condescendência vinha do tempo da Rainha D. Maria I cujo marido, o seu tio D. Pedro, Príncipe do Brasil, ficou conhecido como D. Pedro III Rei consorte. Face a este precedente juridicamente espúrio, admitamos que o marido da Rainha D. Maria II possa ter ficado conhecido por D. Fernando II Rei consorte mas nunca sem este último complemento. Rei por via do contrato pré-nupcial e não por direito próprio.

 

E de tal modo o título resulta apenas da convenção pré-nupcial que o Príncipe deveria «renunciar à considerável fortuna a que tinha direito por morte de sua mãe e que, em contrapartida, receberia uma determinada dotação anual que seria dobrada logo que nascesse o príncipe herdeiro que traria a D. Fernando também o título de rei». Aliás, o primeiro marido da Rainha, o Príncipe Augusto de Leuchtenberg, nunca foi Rei. Assim sendo, porque é que D. Fernando, o segundo marido, haveria de o ser?

 

Dessa convenção pré-nupcial constava também que D. Fernando seria comandante em chefe do Exército português, missão a que se furtava sempre que podia. E se numa das vezes que deveria ir de Lisboa a Setúbal passar em revista as tropas do General Vinhais foi encontrado em Cacilhas em casa do Contador da Marinha a cantar um dueto da ópera «Semiramis» de Bellini (1801 - 1835) com a filha do dono da casa, de outra vez foi encarregue de ir a Coimbra combater os revoltosos comandados pelo Marechal Duque de Saldanha mas chegando a Santarém mandou fazer um alto a fim de auscultar os “ares”. Tendo concluído que a generalidade da população e das suas próprias tropas estavam do lado dos sublevados, dirigiu-se lentamente até Coimbra e uma vez lá chegado dialogou com os emissários de Saldanha em vez de pegar em armas. A retirada foi paulatina. Ficou definitivamente por esclarecer se se tratou de um gesto de sensatez se de cobardia. O que não ofereceu dúvidas foi o fim da carreira militar de D. Fernando.

 

A partir de então D. Fernando dedicou-se à procriação, sua principal função no campo extra-militar.  Fê-lo com afinco e a Rainha acabou por morrer durante o seu 11º parto.

 

Grande amante das artes, utilizou as ditas dotações pecuniárias de origem alemã para patrocinar inúmeros artistas portugueses não só adquirindo-lhes obras como financiando-lhes os estudos no estrangeiro. Reuniu uma notável colecção de pintura de que seleccionou 83 quadros para constituir a Galeria Nacional de Pintura de Lisboa cujo espólio pertence actualmente ao Museu Nacional de Arte Antiga. À sua fortuna se devem as reparações de fundo levadas a cabo no mosteiro da Batalha, na Torre de Belém e no mosteiro dos Jerónimos bem como a construção do Palácio da Pena e a reparação do Castelo dos Mouros em Sintra.

 Palácio da Pena, Serra de Sintra - no ano 3000 os arqueólogos vão ter dificuldade na definição da época de construção de tanta mistura

Mas foi na música que D. Fernando assumiu uma atitude mais particular. Assim, se no campo das formalidades, financiou uma bolsa de estudos ao jovem José Viana da Mota que desse modo seguiu para a Alemanha onde estudou com vários Mestres, Liszt por exemplo, já no âmbito da privacidade a cantora Elise Hensler ficou conhecida como Condessa de Edla. Este romance foi de tal modo profundo que D. Fernando recusou por sua causa os tronos de Espanha e da Grécia que insistentemente lhe foram oferecidos, a fez sua segunda mulher e, na viuvez, usufrutuária dos seus bens que in fine reverteriam para o Estado.

 

Na morte, teve inúmeros defensores do seu nome, nomeadamente os pintores Columbano Bordallo Pinheiro e Francisco Metrass e, no campo das letras, Ramalho Ortigão.

 

Regente durante a menoridade do futuro D. Pedro V, reinou, não governou e serviu de exemplo por essa Europa além pelo exercício da Chefia do Estado sem interferência na governação corrente.

 

Em conclusão, eu diria que teve uma acção positiva para Portugal, que soube exercer a sua função de Príncipe consorte com dignidade e que teve uma vida bastante folgada. Diria mesmo que teve uma vida cheia de sorte.

 

Finalmente, uma nota que me merece muita simpatia: recusou formalmente o trono de Espanha para garantir que não seria o autor da fusão ibérica.

 

Lisboa, Abril de 2007

 

 

Henrique Salles da Fonseca

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