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A bem da Nação

PORTUGUESES DA PERIFERIA

 

Portugal se consolidou como terra cristã e se expandiu como tal nos tempos medievais. Foi Continental, Insular e Ultramarino. Integrar de uma forma homogénea esses “Portugais,” com geografia e povos diferentes, sempre foi um desafio, uma missão impossível para o governo português. O sistema político-administrativo que Portugal exportava para as áreas periféricas ou de fronteiras era o mesmo do reino. Privilegiava o Centro, base do governo, e nas periferias (continentais, insulares ou ultramarinas) utilizava coutos homiziados para a ocupação da terra, garantindo assim a defesa dessas áreas instáveis, onde a paz era inconstante, como nas lutas contra os mouros, na época da formação da nação.

 

Nos Açores, no começo da povoação, não foi diferente. As ilhas atlânticas, distantes do reino, desabitadas, foram a princípio ocupadas por degredados, alguns judeus, e famílias com seus escravos, todos subordinados aos donatários, para manter esse espaço português, importante nas rotas de navegação, ponto de apoio para as naus que cruzavam o mar oceano.

 

Porém, no final do século XV e inicio do XVI o rei de Portugal, por motivos políticos, passou a receber nas ilhas colonos vindos da Europa, na maior parte do Continente, Flandres e França, que vinham com os seus parentes e senhores, súbditos da Coroa Portuguesa, fugidos da pobreza da Guerra dos Cem anos, à procura de uma vida mais afortunada. Essa miscelânea de povos deu origem ao açoriano, que em cada ilha tem sua característica e sua diferença, dependendo de quem ocupou aquele terreno.

 

Do inicio do século XVI ao século XVII algumas ilhas dos Açores conseguiram razoável desenvolvimento, à custa de ciclos de produção do pastel, urzelina, trigo, laranja, uva e gado que comerciavam com o Continente e alguns países da Europa. Em geral, nos postos de direcção da terra estavam os descendentes dos primeiros donatários e colonizadores, mas sempre subordinados às directrizes e controle da Coroa, que os mantinha num estrato social periférico, presos à terra, para assegurar o espaço português. Cultura só para a nobreza e os mais abastados que podiam assumir as despesas do estudo e da deslocação para o continente. Primordial era manter o homem comum na defesa da terra e na produção do trigo, para alimentar as praças de guerra na África e as necessidades cerealistas do reino.  A política era medieval, não primava pelo desenvolvimento intelectual, o importante era manter a fronteira portuguesa, até que as crises de alimento, provocadas pelas catástrofes naturais, frequentes naquelas ilhas vulcânicas, fizeram com que parte daquela gente procurasse noutras terras a sobrevivência.

 

Mas as ilhas eram em muitos aspectos diferentes. Na localização geográfica, na composição da população, nas características do solo, nas vocações, nas produções e até mesmo na atenção dispensada pela Coroa. Enquanto São Miguel, Terceira e Faial determinavam um eixo mais desenvolvido e economicamente representativo, recebendo da metrópole mais incentivos e até recursos, outras ilhas como Santa Maria, Pico, Flores, Corvo e São Jorge e Graciosa pouco eram visitadas pelos corregedores do rei.  Mas sob o aspecto político-administrativo todas recebiam o mesmo tratamento, eram dirigidas ou supervisionadas por membros da elite da corte, que visavam antes de tudo o favorecimento do reino. Essa diferenciação trouxe alguns privilégios na educação e na política de algumas ilhas, principalmente nas da Terceira e São Miguel. As demais dirigiram suas potencialidades para o artesanato, para a pesca, para a caça à baleia, para a criação de gado e produção de cereais e vinho, tentando achar um caminho salutar para a preservação da população. Nas ilhas de fraca economia e de pouca expressão política, o status social se dissociou do poder económico. O julgamento individual passou a ter mais importância que o colectivo, o valor moral e educacional passou a ser parâmetro de qualificação e admiração, não importando muito a riqueza material.

 

A instrução chegou às ilhas junto com os padres franciscanos e jesuítas, que ganharam dos nobres e devotos insulares espaço e dinheiro para construírem igrejas e colégios.

Em 1759 quando D. José declarou traidores os jesuítas e os expulsou do reino, os colégios açorianos passaram então a ser ocupados pelos oficiais letrados vindos do Continente,  e que depois rarearam, apesar de Pombal, pois nos Açores ganhava-se mal, não havia médicos e cirurgiões e deficitárias eram as acomodações.

 

O ministro todo-poderoso de D. José tentou, sem muito êxito, melhorar as condições de desenvolvimento das Ilhas, agora chamadas Adjacentes. Mas mais uma vez o Governador general para os Açores era do reino.  D. Antão de Almada embora ouvisse os açorianos nas suas queixas, só fazia o que de fato interessava ao rei. E como periodicamente acontecia, a terra tremia, os vulcões acordavam ou então o solo exaurido não dava o grão. Era outra época de dificuldades espantando os açorianos para o estrangeiro.   D. Antão não pensava assim, dizia em carta ao ministro, que a penúria era devida à preguiça dos açorianos.   Pombal, que receava a falta da já deficiente mão-de-obra nos campos, não titubeou, obrigou-os a terem passaporte. Só com a permissão do governador podiam se mobilizar dentro e fora do espaço português. Tratava-os como estrangeiros, sem liberdade, dentro do seu próprio país.  

 

Apesar da tentativa de sair da administração medieval, o arquipélago dos Açores continuava atrasado, sempre capitaneado por gente de fora, que nada tinha haver com as aspirações e as necessidades do povo ilhéu.   Mas com o tempo e as mudanças de regime político o açoriano aprendeu a se safar.

 

No Faial, ilha central e de certa importância para o arquipélago, pois tinha e tem um bom porto (da Horta), a Maçonaria nos anos 1800, através dos seus integrantes, naturais da ilha, gente de certa importância económica e política, fundou estabelecimentos de ensino (de nível primário e secundário), um grémio literário, uma biblioteca, uma escola de música, um periódico e até uma Secção da famosa Sociedade Geográfica de Lisboa (1881).

 

[maconaria.jpg]  Sem comentários ...

 

Com as idas e vindas dos migrantes a sociedade açoriana se modificou. Elementos novos foram agregados à maneira de viver do açoriano. A riqueza dos retornados bem sucedidos melhorou e muito a vida dos ilhéus, engrossou as divisas do país.

 

São Miguel, ilha de evolução diferenciada, a maior e a mais influente,  assumiu a liderança do arquipélago. Tentou a auto-administração em 1892, mas só a conseguiu dois anos após a revolução dos cravos, juntamente com a fundação da primeira Universidade dos Açores, em 1976. Finalmente Portugal Continental entendeu que ser açoriano é uma maneira diferente, especial, de ser português.

 

Após mais de cinco séculos onde o açoriano foi periferia e fronteira, delimitando o espaço, alimentando o sonho português, exposto às frequentes intempéries da natureza, às incertezas da guerra, aos ataques destruidores e gulosos dos corsários, à fome e à miséria, que tiraram muitos dos seus filhos do berço pátrio, os Açores entram na Idade contemporânea com um grande desafio, se adaptar as exigências do mundo actual, onde a educação e o conhecimento tecnológico são os factores básicos para o desenvolvimento. Hoje as barreiras a vencer são outras, não menos desafiadoras,  para todos os portugueses sejam eles insulares ou continentais.

 

 

Uberaba, 7 de Abril de 2007

 

Maria Eduarda Fagundes

 

Referências  bibliográficas:

 

Anais do Município da Horta (Marcelino Lima)

 

O Faial e a periferia açoriana dos séculos XV a XIX (Núcleo Cultural da Horta)

 

Arquipélago (Revista da Universidade dos Açores) História Vol. VI

 

Códice 529 – Açores

Do Arquivo Histórico Ultramarino

A Capitania-Geral dos Açores Durante o Consulado Pombalino

(Introdução e fixação do texto por JOSÉ GUILHERME REIS LEITE)

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