Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

A ORDEM MUNDIAL E O DESARMAMENTO

 

                           Continuarão as armas nucleares a dissuadir a guerra?

 

 

Não é estultícia nem é novidade afirmar que a ordem internacional entrou numa escalada de risco desde que a situação no Médio Oriente se agudizou com a invasão anglo-americana do Iraque. No entanto, com este episódio pode ter-se apanhado um banho de humildade ante à prova provada de que os meios convencionais estão longe, por si só, de poder resolver todos os conflitos do planeta. Por outro lado, é de esperar que a mesma cultura de humildade elucide as democracias ocidentais que o pretexto da sua superioridade moral não basta para impor a outros povos os modelos e os conceitos inspirados pela matriz filosófica do seu sistema. Principalmente se tivermos em conta que as duas devastadoras confrontações bélicas mundiais foram provocadas por povos europeus e governos democráticos.

 

O fim da II Guerra Mundial abriu uma era em que as duas principais potências, EUA e URSS, seguraram os cordelinhos da situação internacional graças ao efeito dissuasor da arma nuclear. Se esta arma não pode invocar outro mérito, deve pelo menos ser-lhe reconhecido o de ter contribuído para evitar uma nova hecatombe, mas sabe-se lá com que angústia e suspense sufocados. À excepção de alguns conflitos regionais de consequências trágicas para os respectivos povos envolvidos, a verdade é que um certo equilíbrio geral sustentador da paz prevaleceu até à queda do muro de Berlim, marco histórico do fim da guerra-fria.

     

Mas logo a seguir, a visão unilateralista da política externa dos EUA veio cortar a raiz da oportunidade de uma reavaliação séria, ponderada e ampliativa dos problemas atinentes a uma nova ordem internacional. Pode dizer-se que a Al Qaeda ajudou a precipitar os acontecimentos, e é um facto, mas a uma nação poderosa e com as responsabilidades dos EUA exigia-se cabeça fria e auto-domínio, ao invés de retaliação tout court, com a tresloucada pretensão de querer resolver o problema do terrorismo internacional com recurso incontido aos meios convencionais. Melhores resultados teriam hoje sido capitalizados se tivesse sido empreendida uma verdadeira política de aproximação aos povos em crise, em paralelo com um serviço de informações competente, ramificado e concebido em franca e alargada cooperação. O terrorismo não tem qualquer justificação moral, não senhor, e há que procurar compreender o mais possível as suas tácticas e os seus ardis, no que um bom serviço de informações desempenha um papel de capital importância.

     

Estando por resolver o problema do terrorismo islâmico, neste momento as atenções centram-se na problemática do armamento nuclear, com os episódios do Irão e da Coreia do Norte a exigir aos fóruns de discussão a bitola certa sobre o que fazer e como fazer. A Coreia do Norte pode neste momento estar mais sustida no seu empolgamento, mediante as promessas de ajuda económica que lhe foram feitas e que possivelmente encerrarão o processo até um novo capítulo. Agora, o problema do Irão é de um cariz diferente e mais sinuoso, porque escorregadio como a enguia. Começa por não se saber como classificar a pretensão de Ahmadinejad, ele chefe de um governo eleito em regime democrático. É lícito considerar o Irão um país não confiável só por causa da sua localização geográfica, religião e desejo de hegemonia regional? Como assim se Israel, Índia e Paquistão já detêm essas armas estratégicas?

     

O que mais desconforta no problema iraniano é ele estar em banho-maria, mas um banho-maria que pode ir aos poucos escaldando à medida que a credibilidade dos EUA se esvazia cada vez mais com a evidência confirmada da sua desastrosa intervenção no Iraque. Ninguém ignora que não se pode assobiar para o lado quando um país que ameaçou apagar Israel do mapa e quer disputar o domínio da região não consegue disfarçar a sua ambição de possuir um arsenal de armamento nuclear, mesmo que o não diga à boca cheia. Veja-se o ainda recente incidente do aprisionamento dos militares ingleses para se perceber que o Irão não pretende deixar qualquer espécie de crédito por mãos alheias, tanto mais agora que uma conjuntura bem favorável lhe foi oferecida de bandeja pelos EUA, a partir do momento em que este anulou o seu inimigo estratégico regional.

      Sensatos ou ... ?

Até quando vai continuar o tira-teimas do enriquecimento do urânio no Irão? Como não atentar no perigoso precedente que se abre se esse país conseguir os seus desígnios, estimulando o seguidismo de outras potências regionais?

     

O historial das armas nucleares não aconselha qualquer tergiversação, se tivermos presente a memória dos bombardeamentos do Japão e a angustiosa incerteza que ensombrará sempre o espírito da humanidade com a simples lembrança da sua letalidade. A decisão dos responsáveis pelo planeta só poderá ser uma. A abolição dessas armas e o início de uma política de desarmamento geral e controlado. Só assim será possível perspectivar uma nova ordem internacional e auspiciar uma era de paz.

 

 

 

                                            Tomar, 3 de Abril de 2007

 

                                              Adriano Miranda Lima

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D