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A bem da Nação

CRÓNICAS DE MOÇAMBIQUE

O Ibo dos sonhos do professor Calisto

 

Numa ilha parada e decadente, o turismo faz renascer uma pontinha de entusiasmo numa terra que já foi praça de escravos e palco de pelejas ferozes entre colonizadores portugueses e mercadores árabes. Pode ser o renascimento, mas são precisas ajudas e boas vontades, a começar pelas próprias autoridades locais

ibo.JPG Fortaleza do Ibo

Não foi difícil ter informações sobre o sacristão da igreja de São João Baptista. O Sr. Calisto encontrou-me na rua que vai para o mercado e aí acertámos a hora e local da nossa conversa. Já sabia quem eu era e que queria falar com ele. É fácil no Ibo reconhecer um estranho. Habitam na ilha pouco mais de 3.000 pessoas. Muitos se mudaram para o continente há muitos anos. E a cada dia muitos são os que decidem procurar uma vida melhor em outros cantos do país. A vida não está fácil. A paisagem é desoladora. As casas são comidas pelas raízes das árvores. “Pouca gente habita aquilo que é comum chamar-se centro histórico, ‘conjunto monumental’ ou, moçambicanamente, bairro de cimento. Quem lhe define agora a urbanidade é a natureza exuberante. Ela vai-se apoderando de todas as pedras como coisa ávida de recuperar o que perdera”, escreveu Júlio Carrilho no seu “Ibo — a casa e o tempo”.

O Sr. Calisto é professor na escola primária de Cumbuana, no Ibo. Vive na ilha há dez anos e, desde a sua chegada, junta às funções de professor um outro ofício: celebra missa na Igreja de São João Baptista. “Não há padre aqui no Ibo. Eu celebro a missa há muito tempo, há dez anos, desde que resido aqui. Quando cheguei aqui já não havia padre. Havia uma senhora responsável pela igreja, mas logo a seguir foi embora para Portugal e então fiquei a tomar conta das orações.”

A Igreja de São João Baptista está a cair em pedaços. As portas escancaradas. As estátuas despedaçadas repousam o seu sono de abandono, na sacristia. Poucas flores artificiais mostram que ainda há alguém a querer manter vivo o edifício, mas o esforço parece ser em vão. Poeira, infiltrações e telhado desmantelado fazem o resto da paisagem.

“A igreja está totalmente decaída, não há apoio, muitos falaram com o bispo mas ele ainda não deu uma resposta. Até agora. As portas estão estragadas, as pessoas entram de qualquer maneira. O bispo novo ainda não veio aqui. O antigo, que foi transferido para Maputo, chegou a vir aqui e viu a situação lastimável da nossa igreja”, diz-nos o senhor Calisto que todos os domingos celebra a missa e dá a comunhão aos fiéis. “Numa missa consigo 5 ou 6 fiéis. A falta de fé é um grande problema. Somos muitos católicos, mas poucos vão à missa. Todos somos vindouros (sic). Eu por exemplo sou natural de Muidumbe, sou maconde. Os católicos do Ibo não são naturais daqui, vieram de fora, Montepuez, Namuno, de muitos lugares, só vieram trabalhar aqui.”

O Ibo é uma mistura de gentes e história, “homens e mulheres, ricos e pobres, de fora e de dentro”. E de religiões, embora a maioria dos habitantes seja muçulmana. Como a Roquia e a Salima, as miúdas que encontrei na praia a vender doces de coco e messiquiro. Frequentam a sexta classe na escola pública para aprender a ler e escrever, e vão à madrassa  decorar o Alcorão.

O sr. Calisto queixa-se de não ter meninos para o catecismo. Ele acha que não é um problema de falta de católicos. Se houvesse um sacerdote a sério talvez as coisas mudassem…“Não faço catecismo durante os dias de semana porque não tenho meninos, é um problema de falta de fé dos pais. Somos poucas pessoas a comungar. Eu próprio, a minha família, o Sr. Alexandre e agora se juntou a nós uma parteira.” Pergunto-lhe como é que faz com as hóstias. “O padre Crisanto, que é pároco encarregue da igreja no Ibo e da de São Paulo em Pemba, traz as hóstias quando ele cá vem. Outras vezes vou a Pemba, falo com o padre, ele abençoa e entrega-me as hóstias para a Missa.

Paraíso para turistas

A ilha do Ibo já foi um prazo, já foi terra de comércio de escravos. Quando a capital do grupo de ilhas Quirimbas foi mudada para Pemba, a ilha do Ibo já não foi mais nada. Ficou refém das marés vivas e do esquecimento do tempo, com as varandas sempre mais vazias e sempre mais decrépitas. Já se pensou fazer dela o centro de uma Zona Especial de Turismo, mas deu em nada. Hoje faz parte do Parque Natural das Quirimbas e está a ser redescoberta. O seu ar decadente e fascinante ao mesmo tempo começa a despertar o interesse de investidores nacionais e internacionais. Será que, timidamente e a muito custo, se tornarão realidade as palavras do arquitecto Carrilho “o presente ciclo de degradação e um certo marasmo será ultrapassado pela redescoberta da riqueza natural, de novas vocações para o relançamento económico e social e da importância do património tangível e intangível das ilhas no seu conjunto e do Ibo, em particular”?

Kevin Record acredita que sim. Investiu cerca de dois milhões de dólares na reestruturação do edifício Belavista, na rua homónima. O edifício que já foi sede do Registo Civil. Um hotel de charme, o Ibo Island Lodge, que está a funcionar há alguns meses. “Um investimento grande e um grande desafio. É preciso trazer tudo de fora. E de qualquer ponto, a distância é enorme e cara. Mas acho que vale a pena”, diz-nos, não escondendo algumas preocupações e descontentamentos com as autoridades moçambicanas que não ajudam muito. “Questões administrativas e contratuais com o Governo moçambicano não nos tornam a vida fácil. Queríamos muito ter mais apoio.” Até nós, jornalistas, tivemos que ouvir as descomposturas da administradora da ilha porque não fomos apresentar as saudações às autoridades locais quando chegámos.

Mas estão contentes os ourives. A cooperativa local que trabalha a prata em filigrana começa a vender aos turistas que aí chegam. E voltou-se a tomar café produzido nos cafezais locais. E os carpinteiros também voltaram a talhar a madeira para fazerem a maravilhosa mobília, tão característica da ilha. E os produtos das machambas são vendidos ao restaurante. “A nossa filosofia é de ajudar a gerar rendimento em vez de fazer doações. É a nossa maneira de contribuir para o desenvolvimento e para combater a fome e o desemprego que reinam nesta ilha maravilhosa”, diz-nos Kevin Record.

Uma piscina que dá para o infinito é um dos requintes do hotel que tem 14 quartos e suite e um spa para massagens com óleos da ilha, feitos pela dona Ancha que aprendeu a arte no Zimbabwe. O custo é puxado: 195 dólares para os nacionais e 295 para os turistas internacionais. “Temos que mandar vir tudo de fora: combustível, loiça, vinhos…”. Os detalhes da decoração (todos os móveis foram reproduzidos in loco no estilo do Ibo), as inúmeras actividades oferecidas, os manjares no terraço e nos jardins, os cafés nas varandas, têm o seu preço. O paraíso não é de graça...

O Sr. Calisto está esperançado. Ma non troppo. “Agora começam a aparecer muitos turistas. Acho que é bom para verem a degradação do Ibo. Muitas casas estão em ruínas. Muitos abandonaram a ilha e foram para Pemba. Muitos estão no bairro Paquitequete. Tenho esperança que isto possa vir a mudar. Só que o problema é que as pessoas falam e depois não cumprem. Muitos dizem que vão resolver o problema da igreja, mas até agora não foram além das palavras.”  

Por Paola Rolletta

In  http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/

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