A riqueza do Pico
As vinhas do Pico
Terra periférica, reserva humana e religiosa de Portugal, os Açores sempre foram tratados com algum descaso pelas autoridades da metrópole portuguesa, a ponto de muitos continentais não saberem exactamente onde ficam e quem os colonizou. Apesar de sua localização estratégica, de vital importância nas rotas marítimas dos séculos passados e nos serviços de comunicação internacional, via cabos submarinos, essas nove ilhas vulcânicas de beleza invulgar, desde o seu descobrimento, lutaram com enormes dificuldades para conseguirem subsistir.
A exiguidade do solo do Pico, basicamente pedregoso, fez com que os primeiros habitantes dessa ilha tivessem que picar a pedra vulcânica para terem terra para plantar e viver. A cultura do trigo, mais exigente, quase não tinha terreno, por isso era na fronteiriça ilha do Faial que os picoenses buscavam a farinha para fazerem o pão. Mas se esse solo era ingrato para o grão, para a vinha era uma dádiva.
Foi da Ilha da Madeira que chegaram os primeiros bacelos. A parreira agradeceu o suado chão com muita uva e da boa. Daí para o vinho foi questão de pouco tempo, da colheita de uma primeira safra, com certeza.
Em pleno século XVI a produção de vinho já era tão abundante que foram necessárias medidas extra para aprovisioná-lo em vasilhames. Do solo vulcânico, negro, pedregoso e ressequido, que guardava o calor do sol, brotava com fartura a videira, repleta de cachos sumarentos e doces, como uma oferenda de Baco aos cestos daquela gente.
Os vinhedos da Ilha Montanha se expandiam e era tamanha fartura que em 1649 chegou-se a colher oito mil pipas de vinho. Houve época que era tanto que encheram tanques e embarcações por falta de recipientes para guardá-lo.
O Pico produzia o néctar dos deuses e o Faial, ilha irmã na formação e administração, comercializava-o e exportava-o através do porto da Horta. Era o progresso que chegava para aqueles ilhéus que encontravam na tanoaria, na vindima, na trasfega, na alcoolização, no estufamento, nos serviços de transporte e armazenamento do vinho, trabalho e riqueza para a Terra.
Os brasis nos armazéns da ilha aqueciam o ambiente para o amadurecimento do vinho (cinco anos). Envelhecido, limpo e graduado (14 graus), era avaliado por provas. A alcoolização para a protecção e fortificação era feita com aguardente da terra ou estrangeira, em geral francesa, a preferida pelos compradores ingleses (Casa Scott Idle De Sobradello & Cª) que no século XVIII tinham representação no Faial e revendiam-no para as Antilhas e Martinica. Os americanos e os habitantes da Nova Escócia vendiam-nos madeira e peixe salgado e levavam de volta o vinho do Pico como pagamento. São Petersburgo e Hamburgo muito apreciavam o malvasia exportado pelo Faial, que consideravam como vinho doce, um dos melhores.
Gustave Lebbe, viajante sueco que passou no Faial em 1800 escreveu “... A experiência de alguns meses me tem provado quanto é salutar o uso do vinho do Faial e posso afirmar com fundamento que o tempo o torna muito melhor, de modo que, com cinquenta anos, seria um verdadeiro tesouro numa adega. É inútil dizer que só me refiro ao vinho de boa qualidade” – (Arquivo dos Açores).
Para protecção da qualidade do vinho do Pico era interditada a importação de outros vinhos dos Açores, apesar das várias tentativas para introduzi-los com o objectivo de aumentar a produção, em detrimento da sua qualidade, coisa que seria um desastre para o Pico e Faial. Felizmente por certo tempo a Câmara da Horta entendeu o problema e protegeu o comércio vinícola picoense. Porém no ano de 1810, os comerciantes conseguiram do Governo uma provisão derrubando essa protecção. O vinho importado das outras ilhas foi tratado, misturado e pelos comerciantes promovido e vendido mais barato com prejuízo para o famoso vinho do Pico, que para manter a qualidade perdeu financeiramente a colocação. Daí para a frente disputas e decretos governamentais favoreciam alternadamente produtores, comerciantes e taberneiros, enfraquecendo o comercio do excelente vinho, que era muitas vezes comprado e adulterado nas ilhas ou mesmo no estrangeiro, na busca desonesta do lucro.
Em 1852 uma praga (oidium) se abateu sobre as vinhas dos Açores. Foi um desastre ambiental e comercial para aquelas pobres ilhas que tinham no vinho a sua maior riqueza. Os produtores viram com horror secarem os vinhedos sem nada poderem fazer. Acabaram-se os empregos. Era o fantasma da fome que mais uma vez rondava os lares picoenses, acarretando outra leva de emigrantes para o estrangeiro. A família americana dos Dabney, que vivia naquele tempo no Faial, importou dos Estados Unidos um microscópio para ajudar no combate à doença. Todos olhavam o parasita pelas lentes de aumento do moderno aparelho, mas... tudo foi inútil, as preciosas cepas se perderam, e como no caso da laranja, mais uma vez faialenses e picoenses amargaram o descaso das autoridades portuguesas e a pobreza.
Anos depois por iniciativa particular do produtor e plantador de vinhedos faialense Manuel da Terra Brum, um longínquo meu parente, para o alento dos produtores de vinho, introduziu a uva americana Isabel, mais resistente às pragas, mas de qualidade inferior. Salvou-se a produção doméstica da uva, mas nunca mais Pico e Faial produziram o vinho doce de qualidade, que tanta importância teve para o comércio dessas ilhas centrais.
Na actualidade estão tentando com a ajuda da ciência e tecnologia melhorar a qualidade do vinho dessas ilhas Atlânticas. Quem sabe um dia o vinho do Pico volte a ter a fama que o fez apontado de forma elogiosa por Tolstoi em um dos seus livros?
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 22 de Março de 2007.
Ref. bibliográfica
Anais do Município da Horta
Subsídios para a História da Ilha do Faial
Autor Marcelino Lima
1943 Vila Nova de Famalicão

