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A bem da Nação

CURTINHAS SOBRE A NOSSA ECONOMIA

CURTINHAS IV....

(Nós, portugueses ,convivemos mal com o risco. Preferimos o aconchego da fatalidade...)
Num artigo excelente (Miguel Sousa Tavares – O Expresso de 07/01/06), uma frase passa quase despercebida: (nós) não corremos riscos.
Pois é. Queremos certezas. Entregamo-nos de bom grado a quem nos prometa segurança para a vida. Mas correr riscos? Nem pensar, nunca!
O longo consulado de Salazar só é explicável porque íamos acreditando que ele nos resguardaria, sempre, do risco; que nos ofereceria, todos os dias, a certeza do amanhã; que, paternalmente, compreenderia as fatalidades de onde as nossa misérias e pecadilhos invariavelmente provêm (na realidade, se houve coisa que o homem nunca aceitou de bom grado foi a fatalidade, mas essa é outra história); em suma, estávamos por conta dele. Pertence-lhe por inteiro o mérito de deixar provado, à saciedade, que o português tem um horror atávico ao risco.
Mesmo aqueles que mais acirradamente se lhe opunham (o PCP) ganhavam espaço político à custa de prometerem, não desenvolvimento e bem-estar, antes certezas (uma escatologia histórica), segurança para sempre (provida pela vanguarda do proletariado) e, acima de tudo, ausência de risco (graças a uma economia planificada de cima a baixo).
Pobre de nós! Quando modernidade (económica, cultural, organizacional) e desenvolvimento são sinónimos de convivência com o risco, esta aversão absoluta ao risco arrasta-nos para uma mediania envergonhada, deixa-nos especialmente expostos a todos os riscos e afasta-nos lentamente do futuro. Recusamo-nos a acreditar que só possui um módico de certezas e segurança quem sabe enfrentar, medir, gerir e suavizar riscos.
A agricultura (e a pecuária, e a pesca) está pelas ruas da amargura? Como não haveria de estar se, desde há muito, todo o quadro legal se esforça por fazer recair sobre o agricultor, por inteiro, os riscos (financeiros e não-financeiros) inerentes a qualquer actividade económica, impedindo que surjam instrumentos e mercados onde tais riscos possam ser adequadamente cobertos (o Japão apercebeu-se disto no séc. XVI, e a Flandres no séc. XVII; nós ainda lá não chegámos)?
O espírito empresarial escasseia? Porque fás, ou porque nefas, haveria de abundar quando o insucesso de uma empresa (um cenário sempre possível, e nada excepcional, mesmo desejável em economia de mercado) é visto pelo nosso legislador com indisfarçada suspeição, e quase criminalizado?
A corrupção crepita? Mas onde existem alternativas para mitigar o risco de as coisas não correrem bem fora do apadrinhamento reconfortante?
O sonho de cada português é sentar-se à mesa do orçamento, perdida a esperança de ser ele, alguma vez, a “cortar o bolo”? Pois ingressemos todos na função pública – desde que sejam outros a suportarem os impostos.
A ordenação das nossas cidades é uma paródia, e a malha urbana uma ruína anunciada? Então proteja-se à outrance a certeza e a segurança dos inquilinos que estão, beneficiando-os com rendas congeladas – sem dar nenhuma oportunidade aos inquilinos que gostariam de estar.
Se quiséssemos ser honestos para com nós próprios, deveríamos colocar em todas as nossas fronteiras, bem visíveis para os que entram, grandes cartazes com os seguintes dizeres em letras garrafais:

PAI, PRECISA-SE !!!

Talvez aparecesse alguém...

Lisboa, Janeiro de 2006

A.PALHINHA MACHADO

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