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A bem da Nação

CRÓNICAS DE MOÇAMBIQUE

Turismo Cinematográfico

 

A eminente aposta que pode valer a pena abraçar

 

 

 

O cinema é um sector muito dinâmico, pois movimenta avultadas somas de dinheiro, equipamentos e pessoas. Nos últimos anos o continente africano tem sido uma opção cada vez mais apetecida pelas grandes companhias cinematográficas produtoras e distribuidoras do ocidente, em particular a Walt Disney, Miramax Films, Warner, Warner Bros, Motion Pictures, Fox, Touchstone, etc.

 

O cinema pode ser incluído no segmento do turismo cultural, pois a indústria cinematográfica serve-se dos cenários naturais, dos hotéis e de outras facilidades turísticas e culturais para as suas produções. Convencionou-se assim o turismo cinematográfico como parte do segmento cultural e, consequentemente, como turismo cinematográfico.

 

Estas estratificações e oportunidades propiciaram uma determinada especialização do mercado cultural. Assim, estabeleceram-se nichos de mercado a montante, enquanto que a jusante a cadeia se consolidou. Alguns países tornaram-se referências obrigatórias na cadeia de produção e de festivais de filmes. Países como os EUA (Hollywood), Índia, Holanda, China e Nigéria viraram grandes produtores e centros cinematográficos. Outros como França (Cannes), Itália (Milão e Veneza) e até o Burkina-faso (Ouaguadougou) simplesmente transformaram-se em sedes permanentes de festivais internacionais de cinema.

 

 Moçambique tem o pôr-do-Sol mais bonito do mundo

A indústria da sétima arte estruturou-se e quem se beneficiou ao longo dos tempos foi o próprio turismo cultural. Os países criaram as bases para as produções e para os festivais. Tanto nos países produtores como nos países organizadores de festivais de cinema, cresceram as chegadas internacionais e a oferta turística.

 

No nosso continente o destaque vai para o Burkina-faso, como sede de festivais e, por tabela, para a Nigéria – que criou a Nollywood – e a África do Sul como centros produtores de referência. A África do Sul já é detentora de um Grammy com o filme Tsotsie.

 

Inicialmente, conhecida como Alto Volta, o Burkina-faso ou Terra dos Homens Incorruptíveis – vale lembrar – transformou a sua capital Ouagadoucou na maior sala de cinema do continente. País pobre, sem grandes recursos e sem a menor propensão para as agro-indústrias, o Burkina-faso teve no seu Presidente, o malogrado Thomas Sankhara a visão necessária para fazer do cinema não apenas um mercado, mas, e sobretudo, um veículo de desenvolvimento. Não poderia estar mais certo, porque rapidamente o Burkina-faso virou salão nobre, e do festival, resultaram outras tantas produções locais que amiúde preenchem espaços de entretenimento para o mundo.

 

Waga, como é carinhosamente conhecida a capital do Burkina-faso, é visitada por milhares de cineastas e curiosos ano sim e ano não.  A economia local gravita em torno do festival. Facturam as companhias aéreas, as produtoras locais, os transportes terrestres, os hotéis, as casas de moda e as nocturnas, para não fazer referência ao sector de restauração e bebidas. 

 

Antes do continente africano ter passado para a cobiça das produtoras ocidentais, a Ásia foi, igualmente, procurada. Vários filmes e documentários de longa e média metragem, mostrando os cenários sagrados e virgens da Índia, Indonésia, Tailândia, Tibete, Malásia, etc., serviram para rodar um sem número de películas. A Índia até chegou a ser o maior produtor mundial de filmes. Produções como Sandokam, Apocalipse Now (Oliver Stone), O Último Imperador (Bernardo Bertolucci), Fire, Earth (Deepa Nehta), Kamasutra e outros filmes, incluindo as séries de acção de Bruce Lee, foram rodadas na Ásia.

 

Com o advento das novas tecnologias e a possibilidade de conversão de cenários naturais em mentiras que apenas o cinema sabe fazer, as produtoras passaram a procurar países onde a relação custo-benefício passou a ser o segredo do negócio. Quer dizer, com a informática tornou-se fácil modificar gravações rodadas em locais sem montanhas ou lagos e, posteriormente, incorporarem-se tanto uns como outros, como parte do cenário. Então, a questão fundamental torna-se a seguinte: países cujos preços são relativamente acessíveis, e onde existam facilidades e garantias dos governos locais para viabilizar as produções.

 

A busca do continente africano, pelas grandes produtoras cinematográficas, sobretudo as ocidentais, escalou a África do Sul, logo após a época da democratização. Mais tarde, o Zimbabwe ganhou visibilidade. No começo dos anos 90, o Zimbabwe era espectacularmente competitivo e possuía um bom conjunto de técnicos que asseguravam as produções, que em circunstâncias normais, exigiriam largas somas. Infelizmente, a crise económica forçou as produtoras a procurarem novas paragens. Moçambique aproveitou-se bem da crise e, produto da tranquilidade política, dos seus cenários ainda por explorar, atraiu desde as cadeias de televisão até as produtoras.

 

Numa sentada são rodados Patrice Lumumba (2000), Jóia de África (2002), Preto e Branco (2003), Costa dos Murmúrios (2004), Catch a Fire (2006), Fronteiras de Sangue, Aly (2002), O Intérprete (2005) e mais recentemente, Diamantes de Sangue (2006). Estes são apenas alguns, de algumas dezenas de produções já feitas no nosso país.

 

Duvido que já nos tenhamos sentado para debater sobre os benefícios directos e indirectos que estas produções trouxeram ao País. Não devem ser poucos, mas fica sempre a sensação de um vazio após cada produção e também de que poderíamos ter aproveitado um pouco mais. De uma coisa temos a certeza – o país passou a ser mais conhecido além fronteiras, podendo atrair outras grandes produções. Os técnicos locais ficaram mais expostos a trabalhos internacionais e os figurantes lucraram algumas verbas.

 

A grande questão subjacente é sobre os lucros do nosso Instituto Nacional de Cinema. A entidade regula o sector, mas de uns tempos a esta parte confronta-se com dificuldades até para manter o espólio do País. Também me questiono sobre a oferta de equipamentos que o país já deveria possuir para não ficar dependente da vizinha África do Sul.

 

A indústria cinematográfica é sensível a aspectos como estabilidade política, social e económica. Enquanto o boom perdurar voltaremos, certamente, a ter muitas mais companhias a escalar o nosso país. Ao Ministério do Turismo caberá a responsabilidade pela coordenação dessas produções. Por regular, entenda-se, um papel de facilitador e interlocutor directo com entidades como Interior/Polícia, e a Cultura, para além, naturalmente, das cadeias de hotéis e dos Municípios.

 

Facilitar o turismo cinematográfico passa, também, pela promoção do potencial existente no país. Os recursos técnicos, a combinação dos cenários do litoral com os do interior e as cidades que tipificam diversas cidades africanas. A estes argumentos, acrescente-se a simpatia e a hospitalidade deste povo. Por conseguinte, existe a necessidade de atrair essas grandes produtoras, abrir as portas do país para as grandes produções e assegurar que os ganhos cheguem também ao cidadão comum.

 

Como ainda não podemos produzir em escala comercial – quem sabe – seria de bom-tom que estas produções voltassem ao país para um grande festival de cinema que passaria pelas salas do norte, centro e sul, bem à maneira do cinema móvel que um dia palmilhou as aldeias deste país.

 

 

Jorge Ferrão

Coordenador Regional da Área de Conservação

Transfronteiriça do Limpopo,

Ministério do Turismo

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