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A bem da Nação

O VICE - REINADO DO PRATA (3)

                       DOMÍNIO INGLÊS NO PRATA  
 
 
           O relato da última parte terminou com a criação do VICE - REINADO DO PRATA e a conseqüente primazia de Buenos Aires e o seu reconhecimento pelas autoridades de Lima.
 
 
           O estabelecimento do Vice-Reinado do Prata sancionou a dependência político-administrativa em relação a Buenos Aires de vasta área que já operava em torno do porto do estuário do ponto de vista comercial  e em alguns casos, do económico também. O sistema fluvial e os roteiros terrestres que afluíam ao porto, inclusive os secundários, no Paraná, no Paraguai e no Uruguai, ajudavam essa dependência. A nova organização surge em prejuízo da antiga, já com sinais de decadência. As razões de Buenos Aires importam agora. As autoridades de Lima são obrigadas a reconhecê-las.
 
          O VICE - REINADO foi provisoriamente criado em 1776 e definido em 1777 numa região em que os interesses lusos e espanhóis se contradiziam, em que as corrente de povoamento tinham interesses opostos. Esta importante organização caracterizava a nova política colonial espanhola e tinha em Buenos Aires o seu centro comercial. As atenções da metrópole estavam voltadas, progressivamente, para ela desde a segunda metade do século XVIII, em conseqüência de seus reflexos na parte sul do continente americano de condições peculiares. Isto significava que a Espanha agiria em defesa do seu império ultramarino salvando-o da ruína, que o ameaçava.
 
         A ascenção de Buenos Aires continha, realmente, um sentido novo - o comercial - diferente daquele que definiu as instituições do México e do Peru nos séculos XVI e XVII com base na atividade mineradora.
         Vinda de um passado de poucos recursos econômicos, em contraste com a opulência do México e do Peru, a nova sede do VICE - REINADO começava a empreender a expansão da sua riqueza, que lhe fortaleceria a estrutura, num primeiro tempo. A expansão, à base do pastoreio, encontra dificuldades impostas pelo cerco dos índios, que limitavam a área pastoril da campanha em torno da cidade. A saída foi a procura por terras ribeirinhas do Paraná e daquelas que constituíam a Banda Oriental. Depois empreendeu a conquista das pradarias próximas e formou a sua própria área pastoril. O couro é produzido em volume crescente e transforma-se em moeda de troca com o exterior. O objectivo metropolitano de desenvolver o comércio e a tributação começava a ser alcançado.
 
        Os rebanhos de cavalos, gado vacum e ovelhas encontram condições propícias para desenvolver e auxiliaram o progresso em torno de Buenos Aires.
 
        No interior sobressaem o cultivo do algodão, a agricultura, o cultivo da vinha de Mendonça e San Juan. São produções de caráter doméstico. O sistema de troca é interno, à base desses produtos regionais, sem expressão externa. Distinta, portanto, da cultura do litoral voltada para o exclusivismo pastoril, produção e fornecimento do couro. Mas esse couro, produto de exportação, é disputado também pelo artesanato no interior , que o aproveita como matéria prima para fazer utensílios.
 
       O velho sistema colonial representava estímulo indireto ao artesanato, à manufactura e às pequenas indústrias do interior. Essa situação se desequilibra na medida em que a nova política surge e se impõe. A entrada de manufaturas espanholas debilita a fraca indústria do interior e abre amplas perspectivas à exportação do couro em estado bruto. O sistema de rígido monopólio mantinha o equilíbrio relativo, mas prolongado, na vasta região platina e suas dependências. O progresso das províncias do litoral decorre não só do couro, sua principal atividade económica, mas também do contacto com a metrópole e o mundo. A posição de Buenos Aires ascende em rítimo acelerado. O interior empobrece. Suas províncias se isolam cada vez mais. Elas geram interesses e descontentamento locais e regionais que as colocam em choque com as do litoral e com a cidade do estuário.
 
      O  VICE-REINADO, importante como organização política e administrativa e fundamental para o novo sitema colonial, encerra uma contradição difícil de ser superada sem grandes alterações. As medidas de liberdade de comércio geram as causas de dissolução que contribuem para que, com a autonomia, aquela organização política e administrativa se enfraqueça e acabe por fragmentar-se.
 
     Typische Pampaslandschaft des Argentinischen Gran Altiplanicie Central  "Adios pampa mia...", de Perez Prado, canta bem a nostalgia das lonjuras perdidas
           
A PRESENÇA INGLESA
 
 
       O sistema comercial, o de monopólio oficial, imposto pela Espanha às suas colônias, de início, assemelhava-se ao adoptado por Portugal. No século XVII, Madrid introduz a participação dos comerciantes metropolitanos e coloniais, mas mantém o monopólio oficial ou de bandeira. Durante o período da mineração, quando o México e o Peru tiveram a primazia entre as colónias espanholas na América, vigorou o velho sistema. Outras áreas coloniais espanholas, no continente americano, ganham destaque, quando a produção mineradora começa a decair.  A época da mineração e do monopólio oficial gerou e manteve o regime das duas frotas. A nova época, sob novo sistema, dá origem aos navios de registo. O regime das duas frotas, a fase do corso, desconheceu a navegação direta e nomal para o Prata. Ela aparece com o regime dos navios de registo. Este novo sistema assegura a supremacia platina e o papel fundamental de Buenos Aires e o seu centro comercial. O activo contrabando originário da fase final de vigência do regime das duas frotas mostrara que ele já não correspondia às exigências da realidade. O contrabando prejudicava os lucros da coroa espanhola e, por isso mesmo, era perseguido pelas autoridades, mas protegido pelos particulares. Com o regime dos navios de registo, o problema altera-se: os prejuísos do contrabando não são apenas da coroa, mas também dos comerciantes particulares, que na metrópole e na colônia estavam associados ao novo sistema. A ofensiva assumida pela Espanha para deter o rápido processo de deteriorização de suas colónias na América do Sul baseou-se, portanto, na aliança entre o grupo mercantil da metrópole e das colónias e os latifundiários.
 
 
      A legislação metropolitana, de velhos tempos, vinha protegendo a criação pastoril e o latifúndio platino em prejuízo da agricultura. Ela impedia o desmembramento da propriedade por herança. Nas colónias espanholas do sul, os estancieiros empenhavam-se em construir suas posses no carácter de bens vinculados. As terras não podiam ser divididas nem alienadas. No caso de morte do proprietário eram passadas ao filho primogénito para evitar divisão,  expropriação e principalmente a transformação dos campos de pastoreio em terra cultivável. Havia correlação entre expansão pastoril e o latifúndio. Toda concessão do direito de criar gado era acompanhado da concessão territorial correspondente. O latifúndio alastrava-se e tomava como área de expansão a Banda Oriental. Nesta região, as disputas dos campos e do gado colocará em choque espanhóis e portugueses; argentinos e brasileiros. A Espanha encontra apoio no grupo mercantil da metrópole e da colónia, que lutam contra os prejuízos do contrabando. E nos latifundiários, que lutam pelas pastagens do gado.
      Ambos, grupo mercantil e latifundiários, estabelecem uma aliança para implantar o novo sistema, ou seja, um estreito contacto que acabou por se transformar em característica comum a todas as colónias hispano americanas com base em princípios e interesses económicos. Posteriormente assegurou quase sem incidentes sua coexistência política no movimento emancipador.
 
 
Campo Belo, 15 de fevereiro de 2007  
 
 
Therezinha B. de Figueiredo
 
          

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