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A bem da Nação

CURTINHAS XXXII

Reflexões sobre Democracia: Por onde nos leva a palavra “justo”

v      As palavras, goste-se ou não, enredam-nos. E quando se trata de enredar, nada supera em habilidade este adjectivo “justo”.

v      Antes do mais, “justo” tem uma fortíssima carga subjectiva, pressupõe sempre uma dada escala de valores – enfim, uma ideologia. Ora, em sociedades onde prevaleça o pluralismo ideológico (logo, nem dogmáticas, nem confessionais), haverá tantas situações “justas” (e, simetricamente, tantas situações “injustas”) quantos os pontos de vista que possam ser expressos livremente.

v      Existem, sem dúvida, “justos” relativamente aos quais a grande maioria coincidirá. Mas esses são as excepções, não a regra. E excepções que acontecem para, entre outras coisas de menor calibre, incutir um módico de humildade a quem, na circunstância, exerça os poderes de legislar e de governar – ou se encontre na oposição.

v      Num sentido ligeiramente diferente, “justo” pretende dar a entender que existe um cenário, uma situação, um preço (o famigerado “justo valor” dos nossos contabilistas) mais perfeito que os restantes, logo, insusceptível de ser melhorado – e que, uma vez atingido, a todos satisfará por igual.

v      É, ainda, uma escala de valores a querer impor-se. E que responde mal quando é confrontada com questões algo impertinentes, do estilo: E se alguém, mesmo assim, ousar manifestar desagrado? Trata-se-lhe da saúde como se fosse um insensato perigoso, um marginal? Ou reconhece-se que, bem vistas as coisas, a perfeição não morava ainda ali?

 O povo não concorda com o Soviete Supremo? Mudemos de povo!

v      Mas é também a convicção de que a informação completa sobre a realidade em causa está ao alcance da mão. Não está – e quem assim pensa presume de mais. Uma presunção que tem o enorme mérito de nos recordar que conviver com a incerteza (a pouca informação ou, mesmo, a falta dela) nunca é fácil – deixa invariavelmente uma sensação de incomodidade e um arrepio de insegurança.

v      Paradigma de tudo isto é o conceito de “justiça social” que pressupõe várias coisas: (a) que existe uma situação de onde todo o desagrado, toda a vontade de mudança desaparecem (um equilíbrio estacionário, diriam os matemáticos); (b) que essa situação é única (se houvesse duas, em alternativa e irreconciliáveis, a ideologia cindir-se-ia, e lá voltava a confrontação ideológica); (c) que há quem saiba, para lá de qualquer dúvida, qual situação seja essa (de novo, a hipótese da informação completa, agora com um toque de informação assimétrica); (d) que essa tal situação pode ser atingida, mais dia, menos dia (um novo Éden já num futuro próximo - e não no fim dos tempos).

v      À vista de tais pressupostos, parece ser quase impossível não concluir que nada é mais redutor que este qualificativo de “justiça social” – caminho feito para que nenhum vestígio de insatisfação seja tolerado, e para que ideologia e mito tomem o lugar dos factos e da pluralidade de opiniões.

v      Os gulags e os hospícios psiquiátricos começaram assim, com uma ideologia a querer impor, a bem ou a mal (mais a mal que a bem), o que entende ser a “justiça social” – afinal, a sua escala de valores. E, para o que aqui interessa, uma ideologia intolerante, impaciente e predisposta a usar da violência.

v      Uma das maiores surpresas com as quais os ideólogos das “sociedades justas” menos se conformam é aquela que lhes reserva, precisamente, quem, segundo eles, mais terá a beneficiar com a instauração da “justiça social”.

v      É muito comum que os destinatários das medidas de “justiça social” acabem por não se mostrar inclinados a ver como paradigma aqueles que quiseram protegê-los – nem demonstrem especial empenho em seguir-lhes as pisadas ou em copiar-lhes a escala de valores. Enfim, irão revelar-se uns ingratos com ideias próprias – e o ciclo de violência ficará relançado.

v      A realidade é que somos muitos, cada vez mais e cada vez mais diferentes, a ocupar sempre o mesmo espaço. E, como dizia Teillard de Chardin, esta crescente densidade, pelo número e pela diversidade, ou é acompanhada por uma mudança qualitativa profunda, estrutural, nas relações sociais, ou autodestrói-se.

v      Simpatize-se, ou não, com a ideia, o certo é que as sociedades modernas são essencialmente densas e plurais. Nelas, nenhuma ideologia poderá pretender impor-se ad perpetuum – porque haverá sempre quem faça sua outra escala de valores, e sonhe com a mudança que a levará ao poder.

v      Mudar, mudar sempre, é o lema das nossas sociedades. Este facto arrasta duas questões fulcrais: (a) que limites fixar à diversidade (ou seja, onde levantar os muros que susterão o assalto dos bárbaros); (b) como organizar a mudança, para que ela possa acontecer de forma pacífica.

v      Este último ponto é o tema da próxima “Curtinhas”. (cont.)

Lisboa, Fevereiro de 2007

a. palhinha machado

 

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