CRÓNICAS DO BRASIL
O MUNDO
Nesta grande esfera, achatada nos pólos, que é o nosso PLANETA, Habita o HOMEM, ser pensante, às vezes nem tanto, que está sempre em busca de algo ou de alguma coisa; seja respostas às suas indagações existenciais, seja à procura da felicidade ou do poder. Na vontade de se comunicar ou de interagir com o meio, descobriu a linguagem universal dos símbolos, representativa dos seus pensares, ideias e valores. Entre os Homens, desenvolveu a marca pessoal e as características sócio-culturais que fizeram as diferenças. Nas diferenças achou os atractivos para as trocas, das trocas passou ao COMÉRCIO, quando o que produzia excedia ao consumo.
Com o deslocamento humano de uma região para outra no GLOBO, levando consigo conhecimentos e valores que foram introduzidos e negociados com outros grupos, começou a vislumbrar o que hoje chamamos a GLOBALIZAÇÃO.
No século XV, um homem de imaginação e cultura, nascido na cidade de Nuremberg, filho de um casal abastado da antiga Boémia, teve a ideia de representar o MUNDO numa esfera armilar recoberta por pergaminho onde eram assinaladas em lindas e coloridas iluminuras as terras, lugares e povos conhecidos àquela época.
Martin Behaim. Era esse o seu nome, recebera educação aprimorada e fora discípulo do célebre inventor Régiomontano.
Em Portugal, centro cultural da navegação naquele tempo, conheceu o seu futuro sogro, o flamengo Joss Hurtere (Jorge Dutra), donatário das ilhas do Faial e Pico, nos Açores. Nessas misteriosas terras de lava e bruma viveu, por alguns anos, casou e teve um filho com o mesmo nome.
Em 1490 regressou a Nuremberg para receber herança materna. Lá ficou dois anos quando, então, construiu o famoso e polémico GLOBO TERRESTRE, à luz dos descobrimentos portugueses na costa africana e sob a inspiração do tradicional mapa de Martellus Germanus (1489). Ofereceu sua obra à sua cidade natal.
Voltou a Lisboa, trabalhou para a Coroa por algum tempo e após algumas peripécias e infortúnios ocorridos em sua vida veio a falecer nessa cidade, sozinho e abandonado. Seus trabalhos cartográficos foram fundamentais para o desenvolvimento das grandes navegações e, através deles, novas terras e novos comércios foram descobertos.
As riquezas do ORIENTE e do NOVO MUNDO, como as especiarias, os tecidos, as porcelanas, a madeira, os metais e pedras preciosas eram levados à EUROPA para serem comercializados, não só pelas grandes potências colonizadoras da época (Portugal e Espanha), mas também pelos piratas e corsários de várias origens (ingleses, franceses, holandeses e argelinos) que no litoral da América faziam concorrência na exploração do comércio com os nativos. De volta, traziam conhecimentos, tecnologia, ferramentas, armas, produtos europeus e de outros lugares por onde passavam. Introduziram a cultura da cana-de-açúcar, do café, da fruta e de muitas outras plantas. Trouxeram, também, gado e animais diversos, que na actualidade fazem a riqueza económica de vários países do continente americano.
No Brasil, a transferência da Corte portuguesa, no século XIX, de Lisboa para o Rio de Janeiro, a abertura dos portos às nações amigas e a fundação do Banco do Brasil, foram os primeiros passos em direcção ao comércio mundial e à independência.
Após a década de sessenta, o termo GLOBALIZAÇÃO passou a ter um significado económico-comercial assim definido pelo Houaiss: …”Processo mundial de internacionalização económica com forte impacto sócio-cultural.”
O MUNDO se expandiu, a população mundial cresceu. Com a evolução tecnológica veio a rapidez dos meios de comunicação e divulgação. Os produtos comerciais rapidamente se difundiram. Perspectivas de novos e grandes mercados surgiram e com elas a formação de associações como a ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO que permite aos países-membros o acesso a mercados mundiais mediante regras que protegem os interesses e anseios de todos.
A presença dos países mais fortes (ditos centrais) e dos mais fracos economicamente (periféricos) na OMC tem força diferenciada. As disputas comerciais existentes entre eles, onde o poder de barganha está estreitamente relacionado com o poder político-económico, nem sempre se fazem de maneira equilibrada pois na maioria das vezes as forças e as dependências vão dizer para onde as águas vão correr…
Nações menos competitivas em geral acabam por se moldar à conformidade dos interesses daqueles que detêm mais força de negociação.
Subsídios e medidas proteccionistas a produtos e a produtores. Obstrução à abertura de novos mercados consumidores. Dificuldades a cesso a empréstimos bancários. Leis de protecção a direitos de propriedade intelectual relacionada com o comércio são medidas usadas pelos países centrais, apesar da actuação da OMC no sentido de satisfazer equitativamente a todos, para resguardar interesses próprios. Segundo Stephen Moore (Hoover Institution – Universidade de Stanford) o total de subsídios gastos pelos EEUU, em protecção às empresas privadas americanas, chega a ser maior que o PIB de países como Portugal.
Para os economistas, entender e saber aproveitar o fenómeno da GLOBALIZAÇÃO é a maneira mais correcta de se relacionarem com ela. Usar os benefícios monetários advindos desse comércio, transformando-os em aquisição de produtos e conhecimentos tecnológicos que nos faltam é a melhor maneira de tornar nações mais independentes e com maior capacidade de negociação.
Para os grupos anti-globalização (GLOBALISE RESISTANCE e PARTIDO VERDE), as prioridades humanas são a protecção ao meio ambiente e as medidas de apoio às pequenas e médias empresas, como a saída para a preservação do mundo e o combate à pobreza.
Hoje a Globalização segue a passos mais curtos e pesados pois as dificuldades enfrentadas pelos países em desenvolvimento contam com o apoio popular que pode inviabilizar ou reduzir qualquer resultado comercial nacional ou mundial.
Quando se vê o mundo dominado pelo egoísmo e sede de poder vêm-nos à memória os caminhos históricos já percorridos pelos nossos ancestrais.
E então sentimos que estão semeando ventos …para colher tempestades …
Maria Eduarda Fagundes
(Médica ginecologista)
