CRÓNICAS DE MOÇAMBIQUE
Quando o frio se soltou em Giriyondo
Ninguém sabe exactamente por que é que a região é apelidada de Giriyondo. Não vive ninguém nas proximidades. Não creio que alguém tenha vivido ali outrora. As evidências da presença humana são escassas. No meio do nada surge uma construção atípica. Uma mistura de moderno e de tradicional. Autêntica tecnologia de ponta coberta de capim.
Em 2003, um grupo de profissionais do programa conjunto Limpopo, Kruger e Gonarezhou visitou o local. Com o raiar do sol apaixonaram-se pela espectacular imensidão da floresta e do vale. Resvalando, redescobriram o aconchego do vale. Não desfrutaram do verde mas apenas do azul por onde passeiam as águias. Entre escolher e decidir listaram-se opções. O posto não ficaria nem tão alto nem tão baixo. Tudo central como as democracias da natureza.
Terraplanando visões, binóculos em riste, rabiscaram-se desenhos e esboços arquitectónicos. Sonhou-se, então, edificar um Giriyondo de paragem única. Sem constrangimentos e procedimentos alfandegários. Sem revistas e com um tempo de espera recorde, cinco minutos por cliente. Giriyondo seria uma espécie de terra de ninguém, porém com identidade e soberania próprias.
África do Sul, Moçambique e Zimbabwe num bloco contínuo. O arranque de uma ambição que extrapolaria fronteiras e brincaria de biodiversidades. Não seria apenas Giriyondo, seria algo que ainda não o é.
Em 2004 a componente sul-africana tomou a dianteira. Comunidades locais, ambas shangane, distanciados pela geografia e confinamento político, deram o toque arquitectónico que eles, melhor que ninguém, conhecem. Um ano depois, Moçambique partiu em direcção à meta. Entre os dois países estamparam-se as marcas e o sorriso da hospitalidade Africana. As matas de mopane nunca mais seriam as mesmas.
A 7 de Dezembro de 2005, destemidamente, embrenharam-se os primeiros turistas. As temperaturas giriyondanas continuaram altas, 40 graus centígrados.
Quando a expectativa era de pouca chuva, nos primeiros meses estas foram torrenciais. Os restos de uma temporada plena de queimadas foram consumidos pelo verde-mar da vegetação. Para 2006 preparou-se um ritual de informalidades. Chapéus de abas largas e óculos de sol. Uma vez mais a Natureza surpreendeu. Fez frio. Muito mais que o habitual. Só quem não se separou dos casacos se deu bem. Ninguém, antes, tinha sentido tanto frio em pleno 16 de Agosto. De pés juntos, a data entrou para a história. O 16, na realidade, já fazia parte da história. Três ilustres presidentes deixaram sua marca. Falaram femininamente da Natureza, fauna e flora. Descerraram lápides. Testemunharam a integração regional da bicharada. Povos e culturas. Crenças.
Os números “giriyondinos” vão falando por si. Nos primeiros oito meses de gestação, pelo menos 15.000 utentes atravessaram o posto. Cerca de 5.000 viaturas aventuraram-se pelos caminhos sinuosos. Turistas, comunitários que matam a saudade e procuram pão, caçadores de tesouro do fundo dos mares, enfim, curiosos. Quando chegarem aos 100 mil, faremos o próximo almoço, sem mais ares condicionados, beberemos de novo um Rupert & Rothchiled e falaremos em valores monetários arrecadados. Por enquanto, continuaremos empenhados em aprimorar a vocação natural do ecossistema, dignificar e melhorar a condição de vida dos que ainda habitam na adversidade, assumiremos que a natureza é o maior legado que o planeta nos poderia ter oferecido.
Moçambique e o parque transfronteiriço entram para as rotas turísticas internacionais. Aquecem-se os reactores para Campeonato do Mundo de Futebol em 2010. A vila de Massingir, porta de entrada do lado de Moçambique, precisa de se converter num pólo turístico. A albufeira já desperta a cobiça de quem entra e sai. Massingir é o próximo desafio, que já virou prioridade absoluta.
Jorge Ferrão
(Coordenador da Área de Conservação Transfronteiriça do Grande Limpopo)
