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A bem da Nação

A LONGA ESPADA DE DREYFUS

 

 

 

- Que cara tão pesada trazeis hoje, Padre Silvino (1). Ou já ma tendes feitoou estais para ma fazer.

- Tendes razão, Senhor Barros (2), tendes razão; venho para vos falar de coisa muito séria. Já venho da quinta de cima onde tratei do mesmo com a Senhora vossa Mãe e agora é convosco que terei que me entender.

- Dizei, Padre, dizei.

- Venho a mando do Senhor Bispo para falar com todos os assinantesdo “Action Française”.

- E que tem o jornal a ver com o Senhor Bispo?

- Bem sabeis que os escritos de Maurras foram catalogados no Index, Senhor Barros, bem sabeis. Já falámos sobre isso. Por certo não ides agora negar.

- Pois não nego, claro que sei dessa classificação.

 Charles Maurras (1868 - 1952)

 

- Então, se sabeis, tereis que acabar com essa assinatura e destruir todos os exemplares que tendes guardados nos vossos arrumos.

- Mas, Padre Silvino, bem sabeis que aqui em Trás-os-montes estamos muito isolados, que não temos muita comunicação com o que se passa por esse mundo além. Ainda se estivéssemos no Porto ou em Vila Real . . . mas aqui em Chaves, o único modo de sabermos alguma coisa é pelos jornais.

- Mas tendes os jornais de Lisboa e do Porto que também assinais. Eles dão-vos as notícias de que dizeis carecer. Que mais quereis? Não vos bastam as notícias das cidades portuguesas?

- Queremos notícias lá de fora, do estrangeiro e bem sabeis que não havemos de assinar jornais jacobinos e hereges. Queremos artigos de opinião mais do que simples notícias. Essas, sim, chegam-nos as de Lisboa e do Porto. E a “Action Française” explica-nos muita coisa de que por cá nada se fala. Charles Maurras é de leitura muito interessante e faz-nos bem ler o que ele escreve.

- Pois sabei que Sua Santidade o papa Pio XI determinou que Charles Maurras e a “Action Française” não fossem mais lidos. São agora hereges e vós deveis cancelar a assinatura (3).

Image du pape Pie XI Pio XI (1857 - 1939)

 

- Padre Silvino, por vós o farei. Por vós!

- Não, Senhor Barros. Deveis fazê-lo por ordem do nosso Bispo; não por mim. Eu apenas obedeço e é isso que vós fareis também: obedecereis à Santa Madre Igreja!

- Mas Padre . . .

- Senhor Barros, bem sabeis o castigo que espera quem desobedece à Santa Madre Igreja.

- Sim, Padre Silvino, claro que sei, a excomunhão.

- Então, se sabeis, poupai-me a tal prejuízo como vosso amigo e Confessor.

 

Este diálogo aconteceu em Chaves nos finais de 1926 e teve tudo a ver com as discussões que envolveram o caso Dreyfus o qual claramente dividiu a França em dois campos irreconciliáveis e, como se pode ver, chegou bem dentro de outros países europeus, neste caso o nosso.

 

Tudo começou quando em 1894 Madame Bastian, empregada de limpezana Embaixada Alemã em Paris, descobriu uma carta suspeita no cesto dolixo do adido militar alemão, o Tenente-Coronel Schwarzkopfen. Madame Bastian entregou os papéis aos serviços secretos franceses que logo concluíram que existia um traidor entre os oficiais franceses a fazer espionagem para os alemães. Quando o caso se tornou conhecido, a carta passou a ser conhecida como "le bordereau" (o memorandum).

 

O caso Dreyfus centrou-se na condenação por traição de Alfred Dreyfus em 1894, um oficial de Artilharia judeu no exército francês. O crime foi enquadrado como alta traição e o acusado sofreu um processo conduzido a portas fechadas e que foi considerado fraudulento. Dreyfus era, afinal, inocente: a condenação baseava-se em documentos que se verificou mais tarde serem falsos e quando oficiais de alta patente franceses se aperceberam disso, tentaram ocultar o erro. A farsa foi acobertada por uma onda de nacionalismo e xenofobia que invadiu a Europa no final do século XIX. Dreyfus foi condenado a prisão perpétua na ilha do Diabo, na Costa da Guiana Francesa.

La dégradation d'Alfred Dreyfus Demissão de Alfred Dreyfus com a simbólica quebra da espada

 

Em 1898, evidências da inocência de Dreyfus possibilitaram um segundo julgamento. A permanência da sentença anterior provocou a indignação de Émile Zola. O escritor expôs o escândalo em 13 de Janeiro de 1898 no L'Aurore numa famosa carta aberta ao Presidente da República, Félix Faure, intitulada J'accuse!: "Como poderias [tu, França] querer a verdade e a justiça, quando enxovalham a tal ponto todas as tuas virtudes lendárias?". Nas palavras de Barbara W. Tuchman foi "uma das grandes comoções da história". O caso Dreyfus foi notoriamente um processo de anti-semitismo em que muitos cantaram pelas ruas "Morte aos Judeus". Theodor Herzl e Zola partiram para o ataque denunciando os culpados da farsa.

 

A disputa entre os dreyfusards e os anti-dreyfusards foi particularmente violenta uma vez que envolvia vários assuntos no clima controverso e agitado de então. De certa forma, estas divisões seguiam a linha de demarcação entre uma direita apoiando frequentemente o retorno à monarquia e clericalismo – ou seja, o envolvimento da Igreja Católica Romana na política pública – e uma ala esquerda apoiando a República, muitas vezes com sentimentos anti-clericais. A virulência das paixões levantadas pelo caso deveu-se ao anti-semitismo. Em 1886 havia sido publicado o livro anti-semita de Edouard Drumont, "La France Juive". Maurras alinhou claramente pelos anti-dreyfusards e também por isso teve o apoio da direita política europeia chegando mesmo a ter uma clara influência sobre o pensamento de Salazar. Contudo, em França os intelectuais – professores, estudantes, artistas, escritores – subscreveram pedidos intercedendo por Dreyfus.

 

Nas manifestações que se faziam um pouco por toda a parte, uns gritavam "Vive Dreyfus! Vive Zola!" enquanto que do outro lado da barricada os gritos eram de "Vive l'Armée! Mort aux Juifs!". Sim, houve mortos e feridos.

 

Afinal, durante a revisão do processo que promoveu a reabilitação de Dreyfus (1906), provou-se que Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, Major do exército francês, fora o verdadeiro autor da carta que Madame Bastian encontrara no caixote do lixo na Embaixada alemã em Paris.

 

Passados anos e abertos novos campos de batalha, foi Maurras hostilizado (1926) pelo Vaticano dando-lhe a oportunidade de desabafar que se tratava da “vingança de Dreyfus”. Mas afinal, em 1938, o Vaticano recuaria nas hostilidades e os escritos de Maurras voltavam a ser permitidos aos leitores católicos.

 

Muitos anos mais tarde, falecido já o Senhor Barros, deram os seus herdeiros hospedaria ao venerando Padre Silvino, então já Monsenhor, que naquela casa veio a falecer com mais de 90 anos de idade. E foi um dos filhos do Senhor Barros, o meu amigo António Teixeira Homem, que lhe perguntou certa vez:

- Oh Senhor Padre Silvino. O que é que o Senhor teria feito se o meu Pai não tivesse cancelado a assinatura da “Action Française”?

- Oh Toni. Teria embarcado para o Brasil . . .

 

A isto chamo integridade de carácter. O Padre Silvino estragaria eventualmente a sua própria vida mas um amigo confesso não se excomunga!

 

Bem longa, esta espada de Dreyfus . . .

 

 

Lisboa, Fevereiro de 2007

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

(1) - Silvino Rodrigues da Nóbrega, Padre da Diocese de Vila Real, chegou a Monsenhor

(2) - Francisco de Barros Cabral Teixeira Homem

(3) - Charles Maurras era um católico que não pactuava com o “negócio eclesiástico, o que inspirou grande preocupação a uma parte da hierarquia católica que em 1926 levou o papa Pio XI a colocar os seus escritos no “Índex”; contudo, com a eleição do escritor em 1938 para a Academia Francesa, a proibição de leitura foi levantada

 

Bibliografia: Wikipédia (Dreyfus)

 

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