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A bem da Nação

VERDADE E PROPAGANDA

 

 

 

 

Na sua edição de 11 de Janeiro de 2007, começava o “The Economist” um artigo com a afirmação de que na China a separação entre a verdade e a propaganda sempre foi um difícil exercício, mesmo quando se trata de números.

 

Tratava o referido artigo de saber qual a fiabilidade da contabilidade chinesa quando o Ministro das Finanças pediu às 1200 empresas cotadas na Bolsa de Xangai que seguissem o mais possível as normas internacionais de contabilidade e, mesmo assim, terá autorizado algumas importantes excepções. Às outras empresas, o Ministro pediu que se fossem adaptando voluntariamente a essas normas.

 

“Seguir o mais possível” pode significar uma total cedência às dificuldades, ou seja, um persistente afastamento das ditas regras; as “importantes excepções” querem claramente dizer que algumas das empresas com significativa relevância na economia chinesa se manterão oficialmente estranhas ao processo de adaptação à transparência internacional; um pedido pode não ser correspondido; o voluntarismo é sempre subjectivo.

 

Ou seja, é previsível que tudo continue na mesma, seguindo critérios contabilísticos típicos dos meandros do Yang-Tsé-Kiang e nada tendo a ver com o que nós, os outros, consideramos correcto. Por outras palavras, dá para crer que a informação financeira prestada pelas empresas chinesas tanto pode corresponder à verdade como à propaganda.

 

Nada disto seria relevante se a China continuasse isolada do mundo mas como todos sabemos, é precisamente o contrário que está a suceder e, pior, o mundo está a esvaziar-se a favor da China. Ora se nos estamos a perder por ali, então o mínimo que podemos pedir é que haja transparência. Ficámos a saber que não há.

 

Na sua edição de 30 de Dezembro de 2006, o “China Daily” tratou com enorme relevo o “5º Papel Branco da Defesa Nacional” apresentado poucos dias antes pelo Chefe do Departamento de Relações Exteriores do Ministério da Defesa aos 70 adidos militares de 45 países acreditados em Pequim.

 

Pesem embora as sucessivas afirmações de que a China tem uma política de defesa não agressiva, é recorrente a citação a Taiwan e à hipótese da sua secessão; os outros grandes desafios colocados à política chinesa de defesa referidos no resumo do jornal têm a ver com o reforço dos laços entre Washington e Tóquio e com os testes nucleares da Coreia do Norte.

 

Quando cerca de 5000 empresas em Xangai são de capitais de Taiwan, quando as relações de Hong Kong e Macau com Taiwan são de primordial importância, quando as zonas especiais envolventes de uma e outra são enormes receptáculos do investimento de Taiwan, não dá para compreender muito facilmente como é que se compatibiliza um modelo de desenvolvimento económico com uma política de defesa que cita o motor desse desenvolvimento como alvo prioritário. Poderá não passar de uma autêntica chinesice minha mas, na verdade, levantam-se-me sérias dúvidas sobre a congruência do documento.

 

No que respeita aos outros dois desafios, acho bem que lá estejam em paralelo pois que se trata de dar uma no cravo e outra na ferradura. Fico, contudo, mais sereno quando leio que no âmbito da questão nuclear, a China se compromete a seguir o princípio fundamental de nunca ser o primeiro utilizador. Como sabemos que os EUA e a Rússia seguem idêntico princípio, parece que a mensagem se destina à Coreia do Norte ou ao Irão ou a ambos. Oxalá que esta leitura esteja minimamente correcta. Caso contrário podemos a qualquer momento ter o caldo entornado.

 

E que mais nos diz o papel? Compara vários parâmetros, a saber:

 

Despesas totais com a Defesa em 2005 (biliões de $US)

§         EUA        =   495,33

§         UK          =    57,88

§         Japão      =    45,387

§         França     =    42,891

§         Alemanha =   31,139

§         China      =    30,646

§         Rússia     =    18,603

 

Despesas per capita/pessoal ao serviço em 2005 (milhares de $US)

§         EUA          =   356,61

§         UK           =    288,03

§         Japão       =    188,47

§         França      =    123,54

§         Alemanha  =    122,93

§         Rússia       =     16,39

  • China         =     13,32

 

Mais consta do documento que o Exército reduziu sucessivamente os efectivos humanos em 1 milhão de homens em 1985, em 500.000 homens em 1997, em 200.000 homens em 2003 e em 2005 outros 200.000 homens. Actualmente, os efectivos humanos do Exército Popular de Libertação serão de 2,3 milhões de homens.

 

 Estes não foram desmobilizados e por isso cantam...

 

 

Sucede que as despesas militares eram uma das matérias que mais me fazia temer que a China pudesse ser uma bolha a estoirar a qualquer momento, como já referi em “No caminho de Novosibirsk…”. Recordo que esse meu temor resultava da falta de credibilidade da política monetária e orçamental de um país onde as despesas militares eram segredo de Estado. Pelos vistos, já não são segredo. Serão verdadeiras? Será este papel verdadeiro ou propaganda?

 

Não me dei ao trabalho de ir verificar a informação estatística que deve estar disponível na Internet sobre os elementos relativos aos membros da NATO citados no documento em referência mas temo que a informação relativa à China seja estatisticamente tão credível como a contabilidade das empresas cotadas na Bolsa de Xangai . . .

 

Andam entretanto pela Internet umas “vozes” acerca de um míssil chinês que terá derrubado um satélite americano. A ser tecnicamente plausível e factualmente verídico, devia ser um satélite que andava a espionar – perdão, verificar – a diferença entre a propaganda e a verdade na política chinesa de defesa. Seria mesmo ?

 

Se não acreditamos nas estatísticas espanholas, porque é que havemos agora de acreditar nas chinesas?

 

Lisboa, Janeiro de 2007

 

 Henrique Salles da Fonseca

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