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A bem da Nação

CRÓNICAS DO BRASIL

Interpretações

 

O PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) divulgou que os estudantes brasileiros estão nos últimos lugares nas provas de compreensão de leitura. O que foi confirmado pelo SNAEB (Sistema Nacional de Avaliação de Educação Básica).

 

A ideia inicial que a dificuldade financeira seria a principal responsável por essa constatação caiu em descrédito, quando se demonstrou que os alunos de famílias ricas brasileiras compreendiam menos os textos escritos que os filhos de operários europeus.   Vem então a conclusão: Não é a pobreza o factor primordial que determina o grau de insuficiência dos nossos estudantes e sim o ambiente cultural onde eles vivem.

 

Isso tudo me fez lembrar a história que me contou uma amiga brasileira, médica pediatra, que numa viagem à Alemanha, ficou surpreendida com a educação e cultura livresca de um jovem garçom*, que conheceu num “tour” pela cidade.

 

Como tornar a educação e a cultura uma coisa atractiva para as nossas crianças?

- Propiciando, desde a infância, uma escola que desperte o interesse para o mundo em que se vive, que ensine a procurar o bem estar do quotidiano e assim desenvolver o sentido de cidadania. Ensinar a dialogar, brincando com fantoches; despertar a curiosidade histórica com contos e estórias familiares; incutir responsabilidade com assiduidade e vivência escolar; estimular o sentido de orgulho à sua casa, à sua escola, à sua cidade, ao seu país, com actividades e competições desportivas e culturais; ensinar o respeito ao próximo quando, no enfrentamento, ouvir e aceitar o Outro. E para isso é preciso, além da preparação, autoconhecimento, boa vontade, amor à juventude e cidadania. Qualidades fundamentais de um bom mestre.

 

A tecnologia é um item à frente que vai encontrar uma mente já pré-embasada em condição de avaliar o que de bom ou de ruim  ela possa dar.

 

Mas infelizmente o que se vê são vaidades e colocações erradas na maneira de instruir, que complicam a mente dos estudantes. No afã de dar ou mostrar cultura, dá-se a ler aos nossos jovens textos complexos de literatura onde teorias analítico-filosóficas só passam pela cabeça e imaginação de alguns QIs (ou será QEs) elevados, longe da vulgar, mas comum, capacidade de interpretação. Isso é “colocar a carroça na frente dos bois”, é convidá-los ao desinteresse literário e colocá-los enfrente a uma televisão, que dá os assuntos pré-envasados (à maneira dela) para uma fácil assimilação, fazendo da nossa juventude uma geração acomodada, “bitolada” , com  pouca capacidade de discernimento e imaginação.

 

Creio, com a experiência de mãe e avó, sem pretensões pedagógicas ou filosóficas, que não as tenho, que o ensino actual no Brasil deixa muito a desejar, não só pelos métodos equivocados de alfabetizar como pela falta da maneira  simples e objectiva de educar. Só depois que se consegue o entendimento do básico é que se deve introduzir o estudante às questões filosóficas, onde o uso rebuscado da linguagem dá riqueza e expressão ao pensamento. Quando falamos bem, as palavras parecem ordenar e clarear os pensamentos. E isso como um feedback,  nos ajudar a pensar.

 

Os desafios para dar uma boa educação, num país como Brasil, que não tem prioridades bem definidas e respeitadas, são enormes, teriam que passar pela mudança de pensar de toda uma população. Das casinhas simples do interior, aos barracos das favelas, nas grandes cidades, comida e livros podem faltar, mas uma TV em quase todos os lares vai-se encontrar. O nosso presidente é um exemplo  dessa anomalia, cria faculdades, quer ver  todos na Universidade, mas nas escolas primárias, base de todo o saber, fragiliza o estudante e o  sistema de ensino, quando adopta directrizes em que  os alunos passam sempre de ano, isto é, são aprovados, mesmo sem saber direito ler e escrever. Assinar o nome, já basta, são considerados alfabetizados, passam a fazer parte das estatísticas da diminuição do analfabetismo do governo brasileiro.

 

Somos um povo com pouca instrução. Temos que aprender a falar e a pensar. Os governos têm de acreditar no que pregam, mas não fazem, investir de verdade na educação primária do país, para que esta atinja a maioria da população.

 

 

 D. Lerner disse:

 

“Não faz falta o saber ler ou escrever no sentido convencional... Quem interpreta o faz em relação o que sabe... Interpretações não dependem exclusivamente do texto em si”. 

 

É...dependem além dos conhecimentos, das experiências e até das percepções psíquicas de cada um. Mas na realidade do mundo actual, não saber ler, escrever ou interpretar as mensagens, é ficar à beira da estrada, é ser um zero à esquerda, é não valer nada.

 Fica a pergunta: será hoje a escola um verdadeiro instrumento da cultura ?

 

Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba. 15/01/07

 

* - Empregado de mesa

2 comentários

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    Henrique Salles da Fonseca 21.01.2007 20:13

    A ROGO DA DRª MARIA EDUARDA FAGUNDES:

    Prezado Dr. A. Palhinha

    Bem...é mais uma questão de interpretação. No Brasil, os pais podem escolher as escolas, o que eles têm é pouca opção. Pelo menos a maioria das nossas crianças precisa da Escola Publica, que já foi a melhor do país e hoje deixa muito a desejar por conta da falta de investimentos de sucessivos governos , omissos na questão da educação.
    Tempo houve em que estudar na rede de ensino publico era o ideal de todo o estudante brasileiro. Para entrar num Colégio Pedro II , onde os professores eram profissionais renomados, era preciso ter muito boa preparação. As vagas eram limitadas, só entravam os alunos com as melhores notas.
    Mesmo na atualidade, com todas as dificuldades, no nível superior, as faculdades que melhor ensinam e preparam são as Publicas Federais, sempre muito concorridas por terem os melhores profissionais.
    Mas o que se passa hoje a nível de serviço público, tanto na área da educação como na da saúde, da qual faço parte, é que o servidor está submetido a uma filosofia corrente no sistema, que lhe tira a autonomia, e o aprisiona a normas e procedimentos pré-estabelecidos, gerenciados por gentes em cargos administrativos de confiança, que respondem a interesses e objetivos politicos dos governantes. Tanto a Educação como a Saúde no Brasil, além dos problemas inerentes às deficiências do sistema, são usadas como manobra de manipulação política.

    Maria Eduarda Fagundes

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