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A bem da Nação

PORTO CHEIROSO

 

 

Cheguei a Hong Kong no dia 23 de Dezembro de 2006, em trânsito para Macau. Com o actual aeroporto já se perdeu aquela aventura que existiria nos tempos do antigamente de aterrar quase pelo meio dos prédios da cidade a ver as donas de casa a engomar a roupa.

 

Mal aterrámos e passámos a Alfândega, logo fomos detectados por quem a nossa Agência de Viagens encarregara de nos encaminhar ao destino. Afirmo categoricamente que se tratava de alguém que já não era jovem mas houve duas coisas que não lhe consegui detectar: idade aproximada e género. Situar-se-ia, talvez, entre os 40 e os 70 anos de idade mas, não sendo homem, também não me pareceu que fosse mulher. O que sei é que logo ali começou uma correria por uma auto-estrada moderníssima em direcção a uma enorme estação marítima repleta de gente a subir e descer escadas rolantes em direcção a locais enigmáticos com nomes nossos desconhecidos, comprando apressadamente bilhetes numa fila interminável que quem nos acompanhava ultrapassou sem a mais pequena cerimónia para não corrermos o risco de perder a carreira, maratona esta que só cessou quando finalmente nos sentámos no ferry catamaran que disparou por ali fora, também ele com medo de perder o destino. E este interminável parágrafo é bem pequeno quando comparado com a azáfama a que fomos obrigados depois de um entorpecedor voo de 11 horas. Passar num ápice do parado à correria até pode fazer mal à saúde. Não somos carros de corrida que façam poucos segundos dos zero aos cem quilómetros de velocidade. Mas sobrevivemos. Fique aqui o registo para memória futura de que o “jet lag” e o stress fazem uma salada de gosto amargo para quem nasceu há mais de 60 anos. E a propósito de salada, lembrei-me então do dito lisboeta de que a dita de alface “só fica a preceito quando temperada por um cego e mexida por um louco”. Nós íamos cegos de cansaço e doidos com a correria. Seguiu-se uma viagem de cerca de uma hora até Macau ao longo da costa cantonesa pejada de baías, promontórios e outras belas paisagens. Gostei, a salada saiu a preceito.

 

Andando pescadores e piratas nas respectivas fainas, todos invocando a protecção das Divindades dos mares do sul da China, recolhiam ao seu abrigo natural quando disso era mister ou os ventos se levantavam em tufões. Eram os rododendros a planta nativa mais abundante nas encostas circundantes daquelas águas calmas. O aroma suave chegava-lhes a ocultar os odores do peixe fora de água ou de outros mais típicos da espécie humana. Por isso lhe chamaram Hong Kong, o que no nosso linguajar significa Cheiroso Porto. Se aos súbditos britânicos não choca essa inversão dos factores, nós sempre preferimos chamar-lhe Porto Cheiroso. Mas como a colónia não foi lusa, prevaleceu o nome pela ordem cantonesa.

 

Nessa vida andaram séculos e mais séculos até que uma época chegou em que apareceram gentes de grandes narizes, pele rosada e . . . cheirando a mortos. Não eram os mesmos que viviam em A-Mah Gao; estes não vinham para viver e não faziam tantas rezas como os outros.

 

Aos outros, o Imperador Celestial oferecera A-Mah Gao como agradecimento pela ajuda no combate aos piratas; a estes, o Imperador tivera que conceder a ilha de Hong Kong e a península de Kowloon por ter perdido a Guerra da Ópio; os das rezas fizeram uma fronteira de pedra e cal, as Portas do Cerco; estes fizeram uma fronteira em tapume de madeira de modo a avançarem todas as noites alguns metros para dentro do Império do Meio; os outros perfilhavam os filhos que faziam às chinesas com quem viviam; estes não autorizavam que chineses e cães se aproximassem dos seus jardins; aqueles aprendiam a falar a língua do sul da China; estes obrigavam os chineses a falar a língua que traziam lá de longe, o “ínglixe”.

 

E havia mais uma diferença: quando alguém fugia do Império do Meio e chegava a Hong Kong a nado ou numa sampana, estes mandavam-no de volta e os mandarins cortavam-lhe o pescoço; os outros, os de A-Mah Gao, não recambiavam os fugitivos e, se bem que não lhes dessem cama nem roupa lavada, pelo menos deixavam-nos viver.

 

Foi por causa destas diferenças que aqueles narizes compridos de A-Mah Gao lá ficaram quase 450 anos e estes, os de Hong Kong, só cá ficaram 150. Todos têm narizes compridos, pele rosada e cheiram a mortos mas com uns pode-se viver e com os outros . . .

 

Terá certamente sido o pragmatismo britânico que induziu os chineses de Hong Kong a substituírem os rododendros por cebolas e assim foi que do aroma ficou o nome que quanto a rododendros, só estilizados aparecem na bandeira. As cebolas foram a boa desculpa para as muitas lágrimas vertidas pelo desprezo a que os da terra se sentiam votados pelos forasteiros.

 

Hong Kong é um centro comercial em ponto grande e parece que não dorme. Digo que parece pois não fui testemunha do que por lá se faz a horas menos cristãs. Fui dar um giro depois de jantar à zona em que há comércio daquelas bugigangas que as Senhoras tanto gostam de ver: barraquinhas ao longo do eixo da rua, de costas voltadas para as lojas de pedra e cal, mercadoria bem insinuada pelos olhos dentro de clientela menos mexedora que a espanhola, algum artefacto mais útil a constituir excepção à futilidade da regra definida. Mas ao longo de Nathan Road, aí sim, lojas de marca, luxo a sobrar. Deliciei-me ao ver a loja da portuguesíssima “Aerosoles” assim como já gostara de ver em Macau a da “Vista Alegre”. Afinal, não são só as lojas dos 300 em Portugal que pertencem a chineses, na China também há lojas portuguesas por muito mais que 300.

 

Basta reparar no tamanho dos edifícios dos inúmeros Bancos para se constatar que Hong Kong deve ser uma mega-praça financeira. Não dá para saber se a hegemonia regional se manterá por muito tempo pois está visto que Xangai quer subir ao pódio mas, de momento, a actividade parece ser febril com a Bolsa de Valores mais activa daquelas partes do mundo. Basta sabermos que em Dezembro de 2006 ali se movimentou algo como o equivalente a 1,71 triliões de Dólares americanos para podermos imaginar que o que por ali vai . . . não vai na rua: em número de empresas cotadas, é das maiores a nível mundial. Este, sim, o grande item do modelo local de desenvolvimento.


 O edifício da Bolsa tem mais de 50 pisos, o que é banal em Hong Kong

 

A super-dimensão do edifício que alberga a Bolsa é de facto impressionante mas como por lá todos os edifícios são muito altos, quase olhamos para ele com alguma indiferença. É que quem por lá tiver menos de 40 pisos, passa por abarracamento do Casal Ventoso. Edifícios com 50 pisos são banais e a competição está em curso para saber onde se constrói o prédio mais alto do mundo. De momento, o record está em Taipé mas Xangai já lhe vai no encalço. Os cálculos de engenharia devem ser notáveis mas temo que a sensatez não ande por ali ao rubro.

 

O Pico Vitória, na Ilha de Hong Kong propriamente dita, tem escassos 400 metros de altitude mas, um pouco além de meia-encosta, existem duas torres de apartamentos com 80 pisos. Quase no topo do Pico, existe um miradouro donde se desfruta uma vista deslumbrante mas . . . os últimos pisos de alguns dos prédios da cidade ultrapassam a altitude do miradouro. Exactamente no Pico Vitória existe uma antena de rádio ou televisão mas bem junto dessas instalações, uns bons metros acima do miradouro, há prédios de habitação com vários pisos. Se há ocasiões em que se diz que o Céu é o limite, creio que em Hong Kong só vão sossegar quando, do lado de fora da janela da cozinha de um desses apartamentos, se encontrar alguém a tocar harpa, sentado numa nuvem.

 

 A família Salles da Fonseca sentiu que era justo posar perante o valioso equipamento do fotógrafo chinês que ganha a vida no miradouro do Pico Vitória

 

A regra dos 45 graus vulgarmente aplicada em Portugal – e creio que na Europa, de um modo geral – diz que do topo de qualquer edifício deve poder extrair-se uma linha nesse ângulo que tem que chegar ao solo. Assim se definem as alturas máximas em função da distância às edificações circundantes. Pois bem, essa regra deve ser proibida naquelas paragens e quem a ela se referir, correrá certamente o risco de internamento em hospício para alienados mentais. É vulgar que a metade inferior de cada prédio nunca receba a luz directa do Sol e, em contrapartida, cada um fique na intimidade dos vizinhos da frente. Lúgubre é a palavra cuja sonoridade mais se aproxima desta realidade. Contudo, as populações continuam a querer afluir a estas condições de vida. Dá para imaginar como será o estilo de vida do outro lado da fronteira, na Província de Cantão...

 

Certa noite fomos jantar ao restaurante “Aqua” que se situa no 29º piso de um prédio perto do cais, em Kowloon. O luxo sóbrio da arquitectura do átrio prometia agradáveis surpresas e assim foi até ao topo, incluindo o próprio elevador. As recepcionistas do restaurante esperam os clientes à saída do elevador e logo nos encaminham para a sala através de uma porta que à nossa aproximação se abre automaticamente sobre uma plataforma em degraus até uma janela “de corpo inteiro” que nos apresenta uma paisagem deslumbrante de néons, navios acostados a nossos pés, a ilha de Hong Kong e seus arranha-céus piramidais, o Pico Vitória e as torres descomunais, a loucura transformada em paisagem num repente para que não estávamos preparados. Já conheço um pouco mais do mundo para além do meu bairro em Lisboa mas confesso que dei por mim extasiado, de boca aberta, feito saloio. Lindíssimo! O jantar foi bom mas quase nos esquecemos que lá íamos para isso. Passados os olhos pelo restaurante propriamente dito, éramos todos europeus com excepção de quem nos servia.

 

  Deslumbramento completo. Não me lembrei de perguntar como se diz "féerie" em cantonês

 

No território, à falta de um, há dois hipódromos de corridas de cavalos e as apostas são um negócio muito importante para milhões de apostadores e alguns milhares de correctores, jockeys, tratadores, proprietários de cavalos, etc. O vício do jogo está profundamente arreigado nos chineses e se não fosse conduzido para entretenimentos com alguma sanidade, certo seria que havia de degenerar para vias pecaminosas. Porque será que só o legislador português é que não vê esta evidência?

 

Deixo para o fim um mistério que propositadamente não esclareço: como é que na língua cantonesa falada em Macau “porto” se diz “gao” e no cantonês de Hong Kong se diz “kong”? Confesso que não me preocupo muito com a questão e atribuo a diferença a um qualquer sotaque regional semelhante à “vaca” no sul de Portugal e à “baca” lá no norte. Ou então foi a dureza de ouvido dos ingleses que levou a esta diferença; pela nossa parte fomos muito mais genuínos e só usámos apócopes e corruptelas . . .

 

Lisboa, Janeiro de 2007

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

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