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A bem da Nação

NO CAMINHO DE NOVOSIBIRSK . . .

 

 

. . . para São Petersburgo ouvi “Adiós Nonino”, o tango que Astor Piazzola compôs em memória do pai acabado de morrer e lembrei-me de que Carlos Gardel tinha convidado o então jovem músico para o acompanhar numa longa digressão, que o pai se opusera com o argumento de que o rapaz era muito novo para tais andanças, de que nessa viagem o avião caiu e Gardel e todos os acompanhantes morreram e de que o compositor passou a referir que a clarividência do pai o tinha posto a tocar acordeão e piano na Terra em vez de harpa no Céu . . . E eu que ia naquele momento a cerca de onze mil metros de altitude, perto dos céus em que Gagarine não terá visto Deus, não encontrei Gardel mas lembrei-me do extasiamento de John Glenn perante a grandeza da obra divina quando vista do espaço . . .

 

Assim me entretive voando sobre as Rússias vindo de Xangai numa rota que me trouxe a Pequim, Ulan Bator, Novosibirsk, São Petersburgo, Copenhaga até Amesterdão. Tudo de um só trago, o que é de mais para meu gosto.

 

A cidade de Xangai tem cerca de 18 milhões de residentes, uma população flutuante calculada em 4 milhões, recebe anualmente à volta de 95 milhões de turistas dos quais cerca de 6 milhões estrangeiros e tem qualquer coisa como 5.000 empresas com capital de Taiwan. Estes são os números da cidade porque os da Província são logicamente muito superiores.

 

Das questões que me assoberbavam, algumas ficaram resolvidas como, por exemplo, a da unidade monetária. As minhas dúvidas assentavam na existência de várias moedas em circulação – o Yuan convertível, o Yuan não convertível, o Dólar de Hong Kong e a Pataca de Macau – num único espaço político. Que consolidação financeira seria possível alcançar quando as despesas militares eram segredo de Estado? E que se passará com o orçamento do enorme Partido Comunista Chinês? Que congruência terão as políticas monetária e orçamental chinesas? Será, afinal, a China uma bolha que poderá rebentar a qualquer momento?

  Será a cidade de Xangai tão confusa como a realidade chinesa?

Essas e outras questões levava eu comigo quando me encaminhei para aquelas paragens. E que apurei entretanto?

 

Apurei que é necessário apresentar passaporte na saída de Hong Kong para Macau; que é necessário apresentar passaporte à entrada de Macau, vindo de Hong Kong; idem, no sentido inverso; que é necessário apresentar passaporte na saída de Hong Kong para Xangai e que à chegada a esta cidade, vindo de Hong Kong, os formalismos são idênticos aos aplicados a quem no Céu se apresente vindo do Inferno. Não há, pois, qualquer unidade política. Comecei a compreender melhor a existência das diferentes moedas mas o meu espanto assomou-me à cabeça quando fiquei a saber que o Yuan, o Dólar de Hong Kong e a Pataca têm o mesmo valor. Como é isso possível se cada moeda tem o seu próprio Banco emissor e corresponde a uma economia específica? Ainda me poderiam dizer que se tratava de uma igualdade circunstancial mas, na verdade, trata-se de algo que deve ser ditado por decreto pois a igualdade é perene. Ou seja, alguma daquelas moedas (ou todas) tem valor artificial. Qual? Qualquer uma menos o Yuan não convertível – por óbvia definição da sua própria inconvertibilidade – que entretanto desapareceu da circulação. E essa nova convertibilidade de tão grande massa de meros bilhetes de racionamento, que expressão terá tido na política monetária da China propriamente dita? Valerá hoje o Yuan o mesmo que valia antes dessa operação política? Estaremos hoje perante um câmbio aceitável? Temo que a definição por acto legislativo do valor cambial de uma moeda possa sofrer os efeitos de um tufão de categoria elevada quando sujeito às forças do mercado cambial. Neste mês de Dezembro de 2006, o câmbio era de um Euro para dez Yuans ou Patacas ou Dólares de Hong Kong. Algo me cheira a falso. E tanto assim é que o nosso Banco de Portugal me informa que num Euro cabem actualmente cerca de 43 Novos Dólares de Taiwan. Apesar de Pequim dizer que Taiwan é sua, os secionistas não se submetem e a realidade cambial fica à vista de todos.

 

Atentemos aos seguintes modelos de desenvolvimento:

 

  • A China propriamente dita – e Xangai em particular – é actualmente o estaleiro industrial do Mundo para onde converge toda a deslocalização produtiva de base industrial por ali se gozar de uma mão-de-obra barata e da inexistência de quaisquer reivindicações sindicais;
  • Hong Kong é uma grande praça financeira, tem uma fervilhante actividade comercial e o seu porto é ainda o mais movimentado de toda a região, com a particularidade de os trabalhadores preferirem receber o vencimento em triplo do que gozarem o mês de férias que Chris Patten impôs;
  • Macau é o novo casino do Mundo pois ultrapassou Las Vegas à escala mundial e está a construir mais casinos em terrenos conquistados ao mar (esse novo empreendimento chama-se mesmo “Las Vegas da Ásia” e criará cerca de 80.000 postos de trabalho).

 

Que semelhanças têm estes modelos? Nenhumas, claro. Então como é que têm moedas de igual valor? Mistério que só a autocracia desvendará . . .

  Poderá Xangai vir a ser a "Manhattan" do Oriente?

As condições de vida que apurei em Xangai têm a ver com o salário mensal mínimo de 750 Yuans, temporariamente atribuido pelo Governo a quem lá chegue vindo das zonas rurais chinesas a fim de se adaptar à vida da cidade e arranjar trabalho; uma caixeira das lojas da famosa Nanking Road – em tudo equivalente à londrina Oxford Street, à Via Veneto de Roma ou aos Champs Elysées de Paris – ganha mensalmente cerca de 2.000 Yuans (€ 200,00) por cada um dos 12 meses de trabalho anual; uma funcionária do check-in no aeroporto ganha cerca de 4.000 Yuans mas um professor de línguas estrangeiras ronda os 5.000 Yuans; as férias anuais somam um total de dez dias e são repartidas pelo dia 1 de Janeiro, três dias a pretexto do Ano Novo Lunar, três dias a propósito do 1º de Maio e outros três dias à volta do Dia Nacional da República Popular da China, algures em Outubro; o subsídio de desemprego, de 400 Yuans mensais, é pago num máximo de seis meses e é suficiente apenas para a alimentação do próprio desempregado (se houver família a alimentar . . . ); o ensino primário e o secundário são obrigatórios e gratuitos mas a Universidade pública tem propinas de cerca de 10.000 Yuans por ano lectivo; o parque habitacional está privatizado e em grande remodelação sendo o tipo de construção bastante mais sensato do que nas outras cidades que visitei. Para se ter uma ideia sobre o custo de vida, posso informar que jantei com a minha família (4 pessoas) num restaurante ocidentalizado muito razoável por uma quantia total equivalente a € 17,70  (sem vinho), já com serviço incluído.

 

Em Macau ninguém sobrevive com menos de 5.000 Patacas por mês mas a Saúde e a Educação (Universidade, inclusive) são gratuitos; quem não tenha rendimentos que lhe permitam arrendar casa, pode recorrer à habitação social que disponibiliza pequenos apartamentos a preços simbólicos em blocos que albergam qualquer coisa como . . . 900 famílias! Dá para imaginar que esses colossos provoquem mudanças climáticas locais ao impedirem a normal passagem dos ventos. Mais: o que será habitar num desses apartamentos mais altos em dia de tufão? De qualquer modo, estes meus temores não incomodam os chineses do lado de lá das Portas do Cerco que assediam Macau na busca de melhores condições de vida do que as que a Província de Cantão lhes faculta. Província essa para onde se deslocalizaram inúmeras fábricas macaenses em busca de mão-de-obra ainda mais barata. Bastou-lhes passarem de uma margem do Porto Interior para a outra assim como que a uma distância equivalente à que vai de Lisboa a Cacilhas, ou menos. E como o chinês comum é mortinho pelo jogo, aquilo que Macau perdeu em produção industrial, ganhou nos casinos que fervilham 24 horas por dia e têm shuttles directos e gratuitos à fronteira. Pululam obviamente as casas de penhores bem perto das portas dos casinos e o templo da Deusa “A-mah” tem uma notável frequência por quem lá vai previamente pedir sorte ao jogo – e não só a tradicional protecção aos pescadores – e posteriormente agradecer a sorte recebida. Nada me foi referido quanto ao procedimento habitual dos que perderam ao jogo e não conseguiram saldar a dívida na casa de penhores mas admito que todos insistam em posteriores visitas a Macau depois de terem amealhado alguns cobres do outro lado da fronteira mesmo que para tal tenham que comer pouco (é claro que num regime dito comunista ninguém passa fome) e usar a mesma roupa até ao fio . . .

 

E para não passar em falta sobre Hong Kong, refiro apenas uma frase que me disse o guia que nos acompanhou nalguns passeios: - A liberdade em Hong Kong e na China é a mesma; a diferença é que lá não se protesta.

 

Finalmente, informo quem não saiba que a CCTV9  é o canal internacional, em inglês, da Central China TV, a televisão do Governo central, em Pequim. É o autêntico porta-voz do Governo chinês e foi nele que assisti a uma inglória entrevista a Guennadi Ziuganov, o líder do Partido Comunista Russo de visita à China em que no final o entrevistado aproveitou a oportunidade para informar que em Outubro de 2007 se comemorarão em Moscovo os 90 anos da revolução bolchevique. O entrevistador não resistiu e comentou: - O meu pai teria muito gosto em assistir a essas comemorações.

 

Pois é. A conclusão é mesmo essa: o comunismo nada diz a muitos dos chineses que hoje dão vida ao país, nomeadamente a quem faz entrevistas na TV do Estado chinês.

 

Pena que em Xangai eu nada tenha visto relativamente a Portugal: nem lojas portuguesas na Nanking Road nem sequer o número de telefone do nosso Consulado na lista telefónica.

 Bem procurei algum traço português em Nanking Road mas . . .

 

Quem havia de me dizer há meia dúzia de anos que a República Popular da China se transformaria no paraíso do capitalismo e que eu havia de me lembrar de Astor Piazzola ao sobrevoar Novosibirsk . . .

 

Lisboa, 2 de Janeiro de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

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