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A bem da Nação

CRÓNICAS DO BRASIL

OS MALEFÍCIOS DA MODERNIDADE

 

 

A recente noticia, veiculada com alarde em rede nacional,   que cerca de 10% das crianças brasileiras estão com problemas de hipertensão, não é um fato desconhecido pelas autoridades em saúde e pela mídia.  O stress, o estilo de vida e a alimentação são sem dúvida os grandes vilões da situação.  

 

Já à época da guerra do Vietname, a necropsia dos corpos dos soldados americanos, mortos no Vietcong,  na década de 60,  mostrou   que grande parte desses jovens apresentava alterações nas artérias, com depósito de placas de gorduras que diminuíam o calibre dos vasos.  

 

O estilo norte-americano de viver, que após a segunda guerra mundial se tornou ícone para o mundo,  mostrou cedo a sua face negativa. A Coca-Cola, xarope "aditivado" e gaseificado, pelos americanos idealizado  (John S. Pemberton) e por todos apreciado, o consumo exagerado de produtos industrializados, ricos em gorduras e pobre em vitaminas,  as facilidades de transportes populares motorizados,   que tiram o homem do seu mais importante e elementar exercício, o andar, a descoberta da TV, que mantém as pessoas dentro de casa enfurnadas, a tecnologia doméstica que dá conforto e poupa a (o) dona (o) da casa dos mínimos esforços físicos,  foram os primeiros passos para uma vida moderna, mais sedentária.

 

Há umas quatro décadas atrás era comum ver-se crianças brincarem de pique- esconde, amarelinha, chicotinho -queimado, bicicleta, bola-de-gude, à tarde, após as aulas, nos quintais e em frente às suas casas, esbanjando vitalidade, queimando energia. Guloseimas, refrigerantes e salgadinhos só esporadicamente eram consumidos nas festas de aniversário. Doces e pudins só depois do almoço ou jantar, como sobremesa, para não atrapalhar o apetite e a refeição, sempre baseada no arroz, feijão, salada e na carne (de vaca, frango e peixe), fontes de uma saudável alimentação. As frutas vinham como suco ou  sobremesa, ou mesmo para acompanhar o prato principal. Com as mudanças e conquistas sociais femininas, onde a mulher passou a trabalhar fora, as crianças passaram a ficar em casa com as empregadas domésticas ou com algum familiar, sem ter actividades físicas para se exercitar. Nas classes sociais mais carentes, as crianças passaram a ficar por conta dos irmãos mais velhos, em creches ou até em casa trancadas, quando não ficavam nas ruas, sozinhas, liberadas.

 

 O crescimento populacional, não sustentado, a paternidade irresponsável, o agravamento das desigualdades sociais levaram ao aumento desmesurado da violência urbana, que passou a aprisionar a infância das classes média e alta em casa e a da classe pobre a ficar nas calçadas, abandonada. A tecnologia domestica, a modificação alimentar, rica em fast-food,  e o novo estilo de vida sedentário levaram as nossas crianças a  problemas  precoces de saúde, como a hipertensão e a obesidade,  antigamente só vistos nas pessoas de mais idade.

 

"Leanor, pela verdura . . .

  . . . vai formosa e não segura"

 

Enquanto soluções político-sociais mais efectivas e gerais não surgirem, procura-se nas  dietas,   nas academias de ginástica, nas inovadoras técnicas cirúrgicas e nos modernos medicamentos reverter os malefícios que, em certos aspectos,  a civilização moderna nos trouxe.

 

Uberaba, 2 de Dezembro de 2006

 

M. Eduarda Fagundes

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