CRÓNICAS DO BRASIL
A CACHORRADA
Era uma vez... Não. Já não era a primeira vez. Lá, naquele reino do faz de conta, ainda os animais falavam, um dia, estes, que passavam mal, juntaram-se e, entre gritaria e ganância, escolheram um homem que fosse caçar para eles. O eleito chamou uma enorme quantidade de cachorros seus conhecidos que, em princípio, o ajudariam a caçar e depois distribuir os alimentos entre todos. Três vezes por dia. Os animais aplaudiram aguardando a felicidade que aquele maná lhes poderia proporcionar.
Lá foram, caçador e sua imensa matilha. Não tardou o desengano. Os cachorros em vez de retornarem com a caça para a distribuir por todos, comiam tudo que aparecia, e como era muita, a caça, guardavam-na para reserva própria e de outros cachorros amigos. Vestido de pijama de seda na sua carruagem de abóbora, o caçador não via nada.
Os animais esperaram, esperaram, e como também não viam aparecer a comida prometida, decidiram que aqueles cachorros não podiam voltar a caçar.
O caçador, vestido de seda, informou que não tinha visto os seus cachorros comerem durante a caçada, porque, vestido de seda e dentro da sua abóbora, nenhuma informação lhe chegava. Os animais é que viam, nitidamente, aquela cachorrada com o sangue na boca e os dentes e os pelos do focinho ainda carregados de sangue e carne.
A pradaria está cheia de . . .
Resolveram dar outra oportunidade ao caçador. Que voltasse a caçar. Mas que abrisse os olhos e levasse outros cachorros! Os cachorros conhecidos, todos comprometidos não podiam voltar a participar. Havia que escolher outros. Aqui o problema encrencou. Enquanto os animais continuam à espera da prometida comida, três vezes ao dia, o caçador... está no mato sem cachorro!
Francisco Gomes de Amorim
